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Manifestações de Regozijo 1Festejos antigos e jogos
Artigo Nº 2256 Festa ou procissão Vol. II · pp. 639–642 5 min de leitura

Manifestações de Regozijo

Panorama das formas como os madeirenses celebravam outrora nascimentos reais, aniversários e acontecimentos nacionais, desde touradas, cavalgadas e jogos de argolinhas até iluminações de três dias e à cerimónia do beija-mão no Palácio de São Lourenço. Refere também a obrigação de comparência dos funcionários e a origem tardia dos fogos de artifício da passagem de ano.

Manifestações de Regozijo

1Festejos antigos e jogos

Além da musica e das iluminações, que são provavelmente de todos os tempos, por outras formas costumavam manifestar outrora os madeirenses o seu regozijo em dias de festas ou de feriado nacional. Refere Frutuoso que entre as festas que se realizaram no Funchal para comemorar o nascimento do príncipe D. João, filho de D. João III, se correram «muitos touros grandes e bravos», sendo o lugar das touradas um campo junto do adro da Sé, onde também se jogavam as canas e havia outros divertimentos.

Em 9 de Dezembro de 1761, resolveu a Câmara Municipal do Funchal realizar alguns festejos pela noticia do nascimento do príncipe, D. José, de harmonia com o que fora já deliberado em sessão de 29 de Outubro do mesmo ano, em vista de um oficio do Governador e Capitão General, tendo consistido os mesmos festejos no seguinte, segundo se lê no livro das actas das sessões da dita Camara: «Tres dias de luminarias publicas, com todas as invenções de fogos conducentes e percizos ao mesmo festejo, e nas tardes dos três dias que se andem assignar, na primeira haverá umas cavalladas, preparando-se o curro com asseio percizo e competente para a mesma função, e na segunda correr-se-há um pato, em cuja tarde haverão alguns carros de musica e outros festejos que encham a mesma tarde; e na terceira tarde haverá uma representação de figuras a cavallo, em que representarão as quatro partes do mundo, e com ellas a ilha da Madeira e todas as mais villas della, e alem d'este festejo haverá tambem argolinha».

O jogo ou divertimento da argolinha, em que o cavaleiro devia no rápido galope do seu cavalo enfiar com uma lança uma ou mais argolas colocadas no campo, era muito do agrado dos madeirenses, tendo tido lugar pela ultima vez no Funchal, há pouco mais de trinta anos.

2Beija-mão e iluminações oficiais

Nos dias considerados de regozijo nacional, como eram os dos aniversários régios, havia nos tempos do absolutismo beija-mão no palácio de S. Lourenço, sendo para êste fim exposto sob um docel, numa das salas do mesmo palácio, o retrato do monarca reinante. A titulo de curiosidade, damos a seguir o texto dum aviso dirigido em 1815 aos vereadores da Câmara Municipal do Funchal, em vésperas do aniversario da rainha D. Maria I, para comparecerem na referida cerimonia:

«O Ill.mo Dr. Juiz de Fora, Presidente, determina e avisa a V. Sª. que no domingo, 17 do corrente, logo depois do Te-Deum, se ache V. Sª. na sala das vereações, para d'alli sahir com os mais senhores vereadores em corpo formado da Camara ao palacio de S. Lourenço, onde o Ex.mo Governador e Capitão General deste Estado dá um respeitavel beija-mão para celebrar o feliz anniversario da Serenissima Rainha Nossa Senhora».

Era costume noutras epocas as festas de caracter oficial durarem três dias, tendo havido, por exemplo, grandes iluminações no Funchal nos dias 4, 5 e 6 de Janeiro de 1803, por causa do nascimento dum infante; nos dias 10, 11 e 12 de Fevereiro de 1807, por idêntico motivo; nos dias 7, 8 e 9 de Julho de 1815, por causa duma solenidade religiosa em honra de S. Tiago Menor; nos dias 11, 12 e 13 de Outubro de 1823, por ter o «rei de Espanha sido restituído à plenitude dos seus régios poderes»; em principios de 1826, por ter D. João VI tomado o titulo de imperador do Brasil e rei de Portugal; nos dias 6, 7 e 8 de Agôsto do mesmo ano, pela proclamação da nova constituíção; nos dias 12, 13 e 14 de Março de 1828, pela chegada de D. Miguel a Lisboa; nos dias 7, 8 e 9 de Fevereiro de 1829, pelas melhoras do mesmo principe; e nos dias 11, 12 e 13 de Dezembro de 1834 por causa do casamento da rainha D. Maria II com o principe Augusto, duque de Leuchtenberg. Quando casou D. Maria II, suspendeu-se por tres dias o luto nacional que fôra decretado pelo falecimento de D. Pedro, duque de Bragança:

O decreto de 19 de Novembro de 1825 determinou que nos tribunais e noutras repartições publicas se não fizesse uso de cera nas iluminações, mas sim de azeite, encerrando-se as luzes em lanternas colocadas na parte exterior das janelas, tendo sido nos festejos que se realizaram no Funchal por haver D. João VI tomado o titulo de imperador e rei, que a Câmara Municipal se serviu pela primeira vez nos Paços do Concelho do sistema de iluminação recomendado naquele diploma.

3Obrigações e costumes posteriores

Os festejos que tiveram lugar no Funchal no dia 28 de Janeiro de 1822 para comemorar o primeiro aniversário da proclamação da Constituição revestiram uma desusada imponência, segundo se vê da descrição que deles fez o n.° 62 do Patriota Funchalense, e muitos outros houve que seriam dignos também de menção, se nos propusessemos dar uma noticia de todas as manifestações de regozijo a que encontramos referencias nos jornais e documentos antigos que compulsámos.

A falta de comparência das chamadas pessoas da governança nas cerimonias religiosas ou profanas destinadas a solenizar os aniversários regios, era, nos tempos do absolutismo, punida com prisão na cadeia publica ou numa fortaleza, sendo esta também a pena em que incorriam aquelas que sem motivo justificado, deixavam de acompanhar a procissão de Corpus Christi. Os fidalgos e demais pessoas de categoria da cidade deviam, em dias de gala, iluminar os seus predios e associar-se a outras demonstrações de regozijo de caracter oficial que era uso fazerem-se.

Nos artigos Festas do Espírito Santo, Jogo de Canas, Natal, Procissões, Rambles in Madeira, Romarias, etc, encontrarão os leitores outros esclarecimentos com respeito a festas, distracções e manifestações de regozijo dos madeirenses, quasi todas sem carácter oficial. Para concluir esta noticia, acrescentaremos apenas que o costume de festejar com tiros, foguetes e outros fogos de artificio a transição do ano velho para o novo, na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro, não é muito antigo, e que somente principiou a generalizar-se há 45 para 50 anos (1921), tendo sido o falecido negociante João José Rodrigues Leitão quem, segundo se afirma, o estabeleceu na Madeira pelos anos de 1860 a 1865.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 12
  1. A Câmara do Funchal decidiu realizar festejos pelo nascimento do príncipe D. José.

  2. Realizaram-se iluminações no Funchal pelo nascimento de um infante.

  3. O Funchal foi iluminado durante três noites para celebrar um nascimento na família real.

  4. Os vereadores foram convocados para um beija-mão no Palácio de São Lourenço pelo aniversário da rainha D. Maria I.

  5. Realizaram-se iluminações por ocasião de uma solenidade religiosa em honra de Santiago.

  6. O Funchal celebrou o primeiro aniversário da proclamação da Constituição com festejos, um sermão de ação de graças proferido por Freitas Branco na Sé e o lançamento, pelo governador D. Rodrigo António de Melo, da primeira pedra de um monumento constitucional no Terreiro da Sé.

  7. Realizaram-se iluminações para celebrar a restituição dos plenos poderes ao rei de Espanha.

  8. Um decreto determinou o uso de lanternas de azeite, em vez de cera, nas iluminações públicas.

  9. Festejos no Funchal assinalaram a adoção do título de imperador do Brasil por D. João VI; pela primeira vez, usaram-se lanternas de azeite nos Paços do Concelho.

  10. A Carta Constitucional foi solenemente proclamada e jurada no Funchal, durante o governo de D. Manuel de Portugal e Castro, com festejos e iluminações.

  11. Realizaram-se iluminações para celebrar a chegada de D. Miguel a Lisboa.

  12. Realizaram-se iluminações para celebrar o restabelecimento de D. Miguel.

  13. Realizaram-se iluminações na Madeira pelo casamento de D. Maria II, com suspensão do luto nacional.

  14. Os fogos de artifício da passagem de ano foram introduzidos na Madeira, alegadamente por João José Rodrigues Leitão.

Lugar

Lugares mencionados · 04

No estrangeiro

Mapa: Madeira (4)
  1. Funchal

    Cidade onde decorreram as festividades descritas.

  2. Lisboa

    Portugal. A chegada de D. Miguel a Lisboa em 1828 foi celebrada no Funchal.

  3. Palácio de São Lourenço

    Funchal. Palácio do governador onde se realizaram as cerimónias de beija-mão.

  4. Sé do Funchal

    Funchal. As touradas realizaram-se num campo junto ao adro da Sé do Funchal.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 11
  1. Marido de D. Maria II; o casamento de ambos, em 1834, foi celebrado no Funchal.

  2. Rei de Portugal e pai do príncipe cujo nascimento foi celebrado.

  3. Filho de D. João III, cujo nascimento foi celebrado no Funchal com touradas e jogos de canas.

  4. Rainha cujo casamento, em 1834, foi celebrado com três dias de iluminações no Funchal.

  5. Rainha cujo aniversário foi assinalado em 1815 com um beija-mão no Palácio de São Lourenço.

  6. Gaspar Frutuoso1522–1591

    Cronista citado a propósito das touradas realizadas no Funchal para celebrar o nascimento do príncipe D. João.

  7. Comerciante do Funchal a quem se atribui a introdução do fogo de artifício da passagem de ano na Madeira, por volta de 1860–1865.

  8. João VIm. 1826

    Rei cuja adoção do título de imperador do Brasil, em 1826, foi celebrada no Funchal.

  9. Príncipe cujo nascimento foi celebrado pela Câmara Municipal do Funchal em 1761.

  10. Príncipe cuja chegada a Lisboa, em 1828, e recuperação, em 1829, foram celebradas no Funchal.

+ 1 mais
  1. Antigo rei cuja morte levou à decretação de luto nacional, suspenso para o casamento de D. Maria.

Na folha M

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.