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Camara (Padre Luiz Gonçalves da) 1O aio de D. Sebastião
Artigo Nº 0723 Clero e religiosos Vol. I · pp. 396–398 5 min de leitura

Camara (Padre Luiz Gonçalves da)

Biografia do jesuíta madeirense Luís Gonçalves da Câmara (1518–1575), filho do 4.º capitão-donatário do Funchal, professor universitário, companheiro de Inácio de Loyola e preceptor de D. Sebastião, cuja influência sobre o rei continua a ser debatida.

Camara (Padre Luiz Gonçalves da)

1O aio de D. Sebastião

É este madeirense o conhecido e célebre aio do rei D. Sebastião, cujas qualidades de caracter, e, de modo particular, o ascendente que exerceu sôbre o espírito do jovem monarca, tão diversamente têm sido apreciados pelos nossos críticos e historiadores. Os inimigos da Companhia de Jesus, de que ele foi um dos mais ilustres membros, apresentam-no como um ambicioso sem escrúpulos, que só pensava no engrandecimento da sua ordem, e acusam-no de ter procurado desenvolver as tendências exageradamente aventureiras do seu discípulo, que tiveram como triste epilogo a perda da nacionalidade portuguesa. Outros há, e entre eles o insuspeito Manuel Bento de Sousa, que têm opinião inteiramente contraria a essa, não atribuindo ás influencias do padre Luiz Gonçalves da Câmara a responsabilidade das arriscadas empresas a que D. Sebastião se aventurou. Diz o autor citado: “o padre Luis Gonçalves da Camara, foi um bom. Os seus olhares eram para o céu, os seus pensamentos para Deus, as suas inclinações para a virtude. Era um crente, um santo, um místico. Nos cargos superiores da Companhia, governava os padres pela paz e tudo dirigia pela brandura, comovendo pelo sincero desapego deste mundo. Reitor do collegio de Coimbra, só tinha para os seus subordinados a mansidão, e baixado, por disciplina ou por experiência, de reitor a cosinheiro da casa, sofreu a mudança com a mais angelical paciência. Nas terras da mourama sacrificou á consolação dos captivos o tempo, o descanso e a saúde. Viveu nas masmorras, e foi adorado pelos prisioneiros, que se prostravam na sua passagem, beijando-lhe o hábito, e pedindo com encarecimento o refrigerio da sua presença. No paço não provocou uma queixa, não requereu um beneficio, não empregou um parente, e embora se diga que foi elle o introdutor de seu irmão Martim, e talvez o fosse, é certo que não deixou uma só prova de ser solidário com este nas ambições e desmandos do governo. A sua isenção foi até ao ponto de não querer comer nem dormir no palácio, sendo necessário que a rainha a isso o obrigasse... ”

2Vida e cargos

Luiz Gonçalves da Câmara nasceu nesta ilha no ano de 1518 e era filho de João Gonçalves da Câmara, 4º.

capitão donatario do Funchal, e de D. Leonor de Vilhena, filha do conde de Tarouca. Em ano que não podemos agora determinar, foi matricular-se na universidade de Paris, que era então um centro muito importante do movimento intelectual da Europa e que de todos os países atraia um numero considerável de estudantes aos seus afamados cursos, que tinham nessa época uma reputação universal. Luiz da Camara revelou-se ali um estudante de extraordinário talento, não só no estudo das línguas latina, grega e hebraica, mas também nos cursos de filosofia e teologia, em que notavelmente se distinguiu. Quando D. João III fez a reforma da universidade de Coimbra e mandou vir de França vários professores para o nosso ensino universitário, foi o padre Luiz Gonçalves da Camara, um dos escolhidos para fazer parte do corpo docente do nosso primeiro estabelecimento cientifico e ali regeu varias cadeiras.

Resolveu abraçar o instituto da Companhia de Jesus, e nesta ordem exerceu elevados cargos. Tendo pessoalmente conhecido em Paris o fundador da Companhia, com quem depois estreitou relações da mais íntima amizade, foi em Coimbra, quando ali professava o magistério universitário, que entrou na congregação dos jesuítas e nela professou a 2 de Abril de 1546. No ano seguinte era nomeado reitor do Colégio de Coimbra, e três anos depois seguiu para Roma a tratar de negocio da sua ordem. Foi ali que, no convívio com Inacio de Loiola e outros personagens importantes, adquiriu grande prestigio e pôs em relêvo os seus raros dotes de inteligência. Na capital do orbe católico, escolheram-no para superior da casa professo dos jesuitas e visitador da ordem em Portugal e Espanha.

Regressando á patria foi nomeado confessor do príncipe D. João, pai de D. Sebastião, e depois preceptor deste monarca, em cujo cargo se conservou alguns anos. A propósito, diz o autor já citado: “As suas qualidades de sacerdote virtuoso foram em tempo de D. Sebastião as mesmas que todos lhe haviam reconhecido, quando antes o tinham já procurado para confessor de D. João III, violentando-lhe os desejos, que só eram os de viver no retiro de sua cela. O seu discípulo afeiçoou-se-lhe tanto, que o perdel-o foi a maior dor da sua vida. Esse rei sem affectos, que a ninguém estimou neste mundo com sinceridade de coração, só por duas pessoas chorou: pelo padre Câmara e por D. Alvaro de Castro... Grandes devem ter sido os dotes do mestre para esta sedução toda moral, que nem sequer tinha para a favorecer os dotes physicos, que tanto ajudam. O padre Camara era feissimo, tartamudo e cego dum olho”. Foi de certo por isso que Pinheiro Chagas afirma que ele só se impôs pelo poder da inteligência. A afeição, porém, que inspirou ao seu régio pupilo, aos seus subordinados em Coimbra e aos cativos de Marrocos, não podem caso algum impor-se apenas pela força da inteligência.

É corrente o afirmar-se em obras históricas, incluindo os trabalhos de Pinheiro Chagas, que Luiz Gonçalves da Camara exerceu uma acção nefasta sôbre o espírito de D. Sebastião, o que Manuel Bento de Sousa contradiz nos seguintes termos: “foi o grande Marquês de Pombal... que no seu libello contra os jesuitas, acumulou quantas culpas a imaginação podia inventar..., foi elle quem deu mais curso a tal inexactidão, fazendo do Padre Câmara um corruptor do moço rei, por interesses da ordem”. O padre Luiz Gonçalves da Câmara morreu em Lisboa a 15 de Março de 1575, tendo 57 anos de idade.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 04
  1. O Padre Luís Gonçalves da Câmara nasceu na Madeira.

  2. O Padre Luís Gonçalves da Câmara professou na Companhia de Jesus, em Coimbra.

  3. O Padre Luís Gonçalves da Câmara foi nomeado reitor do Colégio de Coimbra.

  4. O Padre Luís Gonçalves da Câmara morreu em Lisboa, aos 57 anos.

Lugar

Lugares mencionados · 06

No estrangeiro

Mapa: Madeira (6)
  1. Coimbra

    Portugal. Cidade onde ensinou e foi reitor do colégio jesuíta.

  2. Funchal

    Capitania detida pelo pai de Câmara.

  3. Lisboa

    Portugal. Local onde morreu.

  4. Marrocos

    Morocco. Local onde prestou assistência espiritual aos cativos.

  5. Paris

    France. Cidade onde Câmara estudou e conheceu Inácio de Loyola.

  6. Roma

    Italy. Cidade onde foi superior da casa professa dos Jesuítas.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 12
  1. Jesuíta madeirense, reitor do Colégio de Coimbra e preceptor de D. Sebastião; é o biografado nesta entrada.

  2. Uma das únicas duas pessoas cuja morte, segundo se diz, D. Sebastião lamentou.

  3. Rei que reformou a Universidade de Coimbra e escolheu Câmara para o seu corpo docente.

  4. Pai de D. Sebastião, de quem Câmara se tornou confessor.

  5. Rei de Portugal de quem Câmara foi preceptor.

  6. Fundador da Companhia de Jesus e amigo próximo de Câmara.

  7. 4.º capitão-donatário do Funchal e pai de Câmara.

  8. Mãe de Câmara e filha do Conde de Tarouca.

  9. Autor citado em defesa do caráter de Câmara.

  10. Historiador que atribuiu a Câmara uma influência prejudicial sobre o rei.

+ 2 mais
  1. Ministro responsabilizado pela difusão da imagem de Câmara como corruptor do rei.

  2. Irmão de Câmara, que, segundo se diz, o introduziu no governo de D. Sebastião.

Na folha C

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.