Camara (Padre Luiz Gonçalves da) 1O aio de D. Sebastião
Camara (Padre Luiz Gonçalves da)
Biografia do jesuíta madeirense Luís Gonçalves da Câmara (1518–1575), filho do 4.º capitão-donatário do Funchal, professor universitário, companheiro de Inácio de Loyola e preceptor de D. Sebastião, cuja influência sobre o rei continua a ser debatida.
1O aio de D. Sebastião
É este madeirense o conhecido e célebre aio do rei D. Sebastião, cujas qualidades de caracter, e, de modo particular, o ascendente que exerceu sôbre o espírito do jovem monarca, tão diversamente têm sido apreciados pelos nossos críticos e historiadores. Os inimigos da Companhia de Jesus, de que ele foi um dos mais ilustres membros, apresentam-no como um ambicioso sem escrúpulos, que só pensava no engrandecimento da sua ordem, e acusam-no de ter procurado desenvolver as tendências exageradamente aventureiras do seu discípulo, que tiveram como triste epilogo a perda da nacionalidade portuguesa. Outros há, e entre eles o insuspeito Manuel Bento de Sousa, que têm opinião inteiramente contraria a essa, não atribuindo ás influencias do padre Luiz Gonçalves da Câmara a responsabilidade das arriscadas empresas a que D. Sebastião se aventurou. Diz o autor citado: “o padre Luis Gonçalves da Camara, foi um bom. Os seus olhares eram para o céu, os seus pensamentos para Deus, as suas inclinações para a virtude. Era um crente, um santo, um místico. Nos cargos superiores da Companhia, governava os padres pela paz e tudo dirigia pela brandura, comovendo pelo sincero desapego deste mundo. Reitor do collegio de Coimbra, só tinha para os seus subordinados a mansidão, e baixado, por disciplina ou por experiência, de reitor a cosinheiro da casa, sofreu a mudança com a mais angelical paciência. Nas terras da mourama sacrificou á consolação dos captivos o tempo, o descanso e a saúde. Viveu nas masmorras, e foi adorado pelos prisioneiros, que se prostravam na sua passagem, beijando-lhe o hábito, e pedindo com encarecimento o refrigerio da sua presença. No paço não provocou uma queixa, não requereu um beneficio, não empregou um parente, e embora se diga que foi elle o introdutor de seu irmão Martim, e talvez o fosse, é certo que não deixou uma só prova de ser solidário com este nas ambições e desmandos do governo. A sua isenção foi até ao ponto de não querer comer nem dormir no palácio, sendo necessário que a rainha a isso o obrigasse... ”
2Vida e cargos
Luiz Gonçalves da Câmara nasceu nesta ilha no ano de 1518 e era filho de João Gonçalves da Câmara, 4º.
capitão donatario do Funchal, e de D. Leonor de Vilhena, filha do conde de Tarouca. Em ano que não podemos agora determinar, foi matricular-se na universidade de Paris, que era então um centro muito importante do movimento intelectual da Europa e que de todos os países atraia um numero considerável de estudantes aos seus afamados cursos, que tinham nessa época uma reputação universal. Luiz da Camara revelou-se ali um estudante de extraordinário talento, não só no estudo das línguas latina, grega e hebraica, mas também nos cursos de filosofia e teologia, em que notavelmente se distinguiu. Quando D. João III fez a reforma da universidade de Coimbra e mandou vir de França vários professores para o nosso ensino universitário, foi o padre Luiz Gonçalves da Camara, um dos escolhidos para fazer parte do corpo docente do nosso primeiro estabelecimento cientifico e ali regeu varias cadeiras.
Resolveu abraçar o instituto da Companhia de Jesus, e nesta ordem exerceu elevados cargos. Tendo pessoalmente conhecido em Paris o fundador da Companhia, com quem depois estreitou relações da mais íntima amizade, foi em Coimbra, quando ali professava o magistério universitário, que entrou na congregação dos jesuítas e nela professou a 2 de Abril de 1546. No ano seguinte era nomeado reitor do Colégio de Coimbra, e três anos depois seguiu para Roma a tratar de negocio da sua ordem. Foi ali que, no convívio com Inacio de Loiola e outros personagens importantes, adquiriu grande prestigio e pôs em relêvo os seus raros dotes de inteligência. Na capital do orbe católico, escolheram-no para superior da casa professo dos jesuitas e visitador da ordem em Portugal e Espanha.
Regressando á patria foi nomeado confessor do príncipe D. João, pai de D. Sebastião, e depois preceptor deste monarca, em cujo cargo se conservou alguns anos. A propósito, diz o autor já citado: “As suas qualidades de sacerdote virtuoso foram em tempo de D. Sebastião as mesmas que todos lhe haviam reconhecido, quando antes o tinham já procurado para confessor de D. João III, violentando-lhe os desejos, que só eram os de viver no retiro de sua cela. O seu discípulo afeiçoou-se-lhe tanto, que o perdel-o foi a maior dor da sua vida. Esse rei sem affectos, que a ninguém estimou neste mundo com sinceridade de coração, só por duas pessoas chorou: pelo padre Câmara e por D. Alvaro de Castro... Grandes devem ter sido os dotes do mestre para esta sedução toda moral, que nem sequer tinha para a favorecer os dotes physicos, que tanto ajudam. O padre Camara era feissimo, tartamudo e cego dum olho”. Foi de certo por isso que Pinheiro Chagas afirma que ele só se impôs pelo poder da inteligência. A afeição, porém, que inspirou ao seu régio pupilo, aos seus subordinados em Coimbra e aos cativos de Marrocos, não podem caso algum impor-se apenas pela força da inteligência.
É corrente o afirmar-se em obras históricas, incluindo os trabalhos de Pinheiro Chagas, que Luiz Gonçalves da Camara exerceu uma acção nefasta sôbre o espírito de D. Sebastião, o que Manuel Bento de Sousa contradiz nos seguintes termos: “foi o grande Marquês de Pombal... que no seu libello contra os jesuitas, acumulou quantas culpas a imaginação podia inventar..., foi elle quem deu mais curso a tal inexactidão, fazendo do Padre Câmara um corruptor do moço rei, por interesses da ordem”. O padre Luiz Gonçalves da Câmara morreu em Lisboa a 15 de Março de 1575, tendo 57 anos de idade.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 04Lugar
Lugares mencionados · 06No estrangeiro
- Coimbra
Portugal. Cidade onde ensinou e foi reitor do colégio jesuíta.
Cidade universitária de Portugal continental onde muitos madeirenses estudaram Direito ou Medicina e onde o Padre Luís Gonçalves da Câmara lecionou e foi reitor do colégio dos Jesuítas. Acolheu o campeonato académico de ténis de mesa de 1921, e os seus dados de dormência e pluviosidade são comparados com os do Funchal.
- Funchal
Capitania detida pelo pai de Câmara.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Lisboa
Portugal. Local onde morreu.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Marrocos
Morocco. Local onde prestou assistência espiritual aos cativos.
Marrocos é referido como o local das praças portuguesas onde madeirenses, entre eles Zarco, combateram os mouros e onde Zarco recebeu o título de cavaleiro. Cativos mouros trazidos da sua costa levaram os seus relatos à Madeira. Era também o país de origem das princesas marroquinas.
- Paris
France. Cidade onde Câmara estudou e conheceu Inácio de Loyola.
Capital francesa onde Franco de Sousa se estabeleceu e pintou «Ar livre», e onde Juvenal Honório de Ornelas se doutorou em Medicina em 1834. O Padre Luiz Gonçalves da Câmara estudou ali e conheceu Loyola; o Barão de Ornelas formou-se, exerceu a profissão e morreu na cidade.
- Roma
Italy. Cidade onde foi superior da casa professa dos Jesuítas.
Roma, sede da Santa Sé, surge no Elucidário sobretudo através de madeirenses e de outras pessoas a ela ligadas. O Padre Manuel Constantino ensinou, publicou obras e morreu na cidade, e o Dr. Patrício Moniz doutorou-se em teologia e foi aí ordenado. O Padre Luiz Gonçalves da Câmara foi superior da casa professa dos jesuítas em Roma, onde também foi entregue ao papa a oferta de Simão Gonçalves da Câmara; outras entradas referem um cargo numa embaixada, o Concílio do Vaticano e processos de beatificação.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 12- Luiz Gonçalves da Câmara1518–1575
Jesuíta madeirense, reitor do Colégio de Coimbra e preceptor de D. Sebastião; é o biografado nesta entrada.
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Uma das únicas duas pessoas cuja morte, segundo se diz, D. Sebastião lamentou.
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Rei que reformou a Universidade de Coimbra e escolheu Câmara para o seu corpo docente.
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Pai de D. Sebastião, de quem Câmara se tornou confessor.
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Rei de Portugal de quem Câmara foi preceptor.
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Fundador da Companhia de Jesus e amigo próximo de Câmara.
- João Gonçalves da Câmara1414–1501
4.º capitão-donatário do Funchal e pai de Câmara.
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Mãe de Câmara e filha do Conde de Tarouca.
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Autor citado em defesa do caráter de Câmara.
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Historiador que atribuiu a Câmara uma influência prejudicial sobre o rei.
+ 2 mais
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Ministro responsabilizado pela difusão da imagem de Câmara como corruptor do rei.
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Irmão de Câmara, que, segundo se diz, o introduziu no governo de D. Sebastião.