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Jesuítas 1Vinda dos Jesuítas e fundação do Colégio
Artigo Nº 1921 Instituição religiosa Vol. II · pp. 357–360 6 min de leitura

Jesuítas

História da Companhia de Jesus na Madeira, desde a chegada dos primeiros jesuítas após o saque francês do Funchal em 1566 e a fundação do seu colégio em 1569–1570 até à sua prisão e expulsão por ordem do Marquês de Pombal em 1759–1760. Descreve também os seus rendimentos, residências de campo e a venda dos seus bens.

Jesuítas

1Vinda dos Jesuítas e fundação do Colégio

O sexto capitão-donatario do Funchal João Gonçalves da Câmara achava-se em Lisboa quando nos primeiros dias do mês de Outubro de 1566 os corsários franceses assaltaram esta cidade e deram aqui o terrível saque de que falam com tanto horror as antigas crónicas madeirenses. Acudiu prontamente o donatario, mas chegaram tarde os socorros da sua armada, pois que os franceses haviam já saído da ilha, depois de alguns dias de destruição e de matança. Nesta frota trouxe o capitão-donatario o jesuíta português Francisco Varca, que tinha como companheiro um religioso castelhano de apelido Naxera, pertencente á mesma ordem. Agradaram em extremo as pregações e os serviços religiosos dos dois membros da Companhia de Jesus chegando o autor das Saudades a dizer, numa exageradissima hipérbole, «que não sabia qual destas cousas fora maior para esta ilha, se o que perdeu com a chegada dos corsários, se o que ganhou com a vinda destes religiosos».

Três anos depois, a instantes pedidos dos moradores do Funchal, criou D. Sebastião nesta cidade um colégio da Companhia pelo alvará régio de 20 de Agosto de 1569, que vem integralmente transcrito a pág. 738 das Saudades da Terra. Por este diploma é fixada a dotação anual de 600$00 réis, «pagos em fructos dos de melhor qualidade e de que o Reytor e padres do dito Colégio sejão mais contentes». Esta dotação, referida ao ano de 1569, isto é, há três séculos e meio, não era pequena, mas aumentou consideravelmente com muitas doações particulares e vários privilégios concedidos pelos monarcas.

Para a formação da nova comunidade, partiram de Lisboa no dia 9 de Março de 1570, chegando á Madeira no dia 18 do mesmo mês, os padres Manuel de Sequeira, reitor do Colégio, Pedro Quaresma, professor de teologia moral, Belchior de Oliveira, para o desempenho das funções religiosas, o diácono Vasco Baptista, professor de latim e retórica e mais dois religiosos, que em virtude de estar grassando a peste na capital, não deram entrada nesta cidade, tendo-se instalado provisoriamente numas casas contíguas á capela da Ajuda, pertencentes a Fernão Favila, onde permaneceram pouco mais dum mês.

Transferiram em seguida os Jesuítas a sua residência para a albergaria de São Bartolomeu, fundada por Gonçalo Anes Velosa (V. vol. 1, pag. 30 e 70) e ali estiveram alguns anos. Decorridos menos de dois meses depois da sua chegada, abriram as suas aulas de teologia, filosofia, latim e retórica numas casas contíguas á antiga capela de S. Sebastião, no local que hoje tem o nome de largo do Comercio. A abertura solene realizou-se a 6 de Maio, tendo por essa ocasião o professor Vasco Baptista proferido na língua latina um discurso alusivo ao acto.

De 13 a 30 de Junho de 1570, isto é poucos meses depois dos religiosos da Companhia se estabelecerem no Funchal, demoraram-se nesta cidade os quarenta jesuítas que nas alturas das Canárias foram martirizados por huguenotes franceses, sendo mais tarde canonizados, como fica referido no artigo dedicado ao beato Inacio de Azevedo. (V. vol. I, pág. 110).

Do Colégio e Igreja dos jesuítas nos ocuparemos em artigo especial.

2Aulas, residências e rendas

No alvará régio de instituição se lê que os religiosos residiriam neste Colégio «estudando e lendo latim e casos de consciência», mas sabe-se que ensinavam também lógica e retórica, o que constituía um curso abreviado das antigas humanidades. Quando os religiosos da Companhia se instalaram no novo Colégio, abriram ali os seus cursos, que tiveram o nome de Aulas do Pátio, por funcionarem num pátio interior, que era uma das dependências do mesmo Colégio, como já tudo fica referido no artigo Instrução.

Além da igreja do Colégio de S. João Evangelista, possuíram os jesuítas as residências do Pico dos Frias, nas proximidades da fortaleza do Pico, a do Pico do Cardo, em Santo António, a de Nossa Senhora do Socorro, no Caniço, e a da Fundoa, em S. Roque, na margem direita da ribeira de Santa Luzia. Eram casas de campo com suas capelas anexas, onde alternativamente desempenhavam os diversos serviços religiosos.

A manutenção da comunidade, as solenidades religiosas e outras funções do culto, os encargos pios impostos pelos benfeitores e doadores do colégio e igreja, e ainda as outras obrigações inerentes ás ordens religiosas, demandavam grandes despesas, que eram custeadas pelas avultadas rendas que nesta ilha possuiam os Jesuítas. A darmos inteiro credito aos documentos publicados a pag. 747 e seguintes das Saudades, vemos que a Companhia de Jesus contava na Madeira com a receita de 10.808$049 réis, provindo 5:670$000 réis de impostos públicos, 4:028$783 réis dos rendimentos das fazendas do Colégio, Igreja e Capela-Mor e 1:109$266 réis dos rendimentos das fazendas das capelas de N. S. do Socorro, Santo Antonio, S. Miguel, S. Francisco Xavier e Cem Mil Virgens. Além destes rendimentos, tinha a comunidade do colégio de S. João Evangelista outros, provenientes de capitais mutuados a juros, etc.

Os impostos públicos que arrecadavam os Jesuítas eram, segundo os mesmos documentos, a renda do pão e vinho das freguesias do Campanário, Ribeira Brava, Tábua e Serra de Água, a do pescado e miunças da freguesia do Campanário, a do pescado, verdura e miunças da freguesia da Ribeira Brava, a das miunças e verduras das freguesias da Tábua e Serra de Água e a do pescado da freguesia da Tabua.

3Expulsão dos Jesuítas

Com a expulsão dos jesuítas ordenada pelo marquês de Pombal em todo o país, tiveram os membros da Companhia residentes nesta ilha de abandonar o seu Colégio, havendo antes ali permanecido mais de um ano presos e incomunicaveis. A 29 de Maio de 1759 foram inesperadamente cercados o Colégio e a Igreja, mantendo-se a prisão e a incomunicabilidade até o dia 16 de Julho de 1760, em que os religiosos embarcaram para Lisboa. Veio ao Funchal a nau Nossa Senhora da Natividade, comandada pelo conde de S. Vicente, que foi o encarregado de conduzir á capital os dezoito jesuítas que estavam na Madeira.

Durante a prisão procedeu-se ao sequestro de todos os bens moveis e imóveis, fazendo-se o arrolamento das propriedades rústicas e urbanas, do mobiliário, dos objectos do culto, das pratas e do dinheiro, etc., sendo cuidadosamente arrecadados todos os documentos e papéis que se encontravam nas diversas residências. A Igreja e o Colégio foram entregues á guarda do Prelado Diocesano. Deram-se os prédios de arrendamento, sendo mais tarde vendidos em hasta publica. A Quinta Grande, que é hoje uma freguesia e constituía a mais vasta propriedade dos jesuítas, foi vendida por 140:000 cruzados, a quinta do Pico do Cardo por 7 contos e a residência do Pico dos Frias por 9 contos.

Entre os jesuítas madeirenses devemos aqui mencionar Luiz Gonçalves da Câmara, Manuel Alvares e Sebastião de Morais, dos quais nos ocupamos em outros logares deste Elucidario.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 04
  1. Corsários huguenotes franceses comandados por Montluc, guiados por Gaspar Caldeira, desembarcaram na Praia Formosa e saquearam o Funchal. Tomaram de assalto a fortaleza de São Lourenço e profanaram a Sé e o convento de Santa Clara, cujas freiras fugiram para o Curral; Gaspar de Braga morreu a resistir-lhes. O ataque, ocorrido durante a capitania de Francisco Gonçalves da Câmara, levou à construção de novas fortificações costeiras.

  2. D. Sebastião fundou o Colégio dos Jesuítas do Funchal por alvará régio.

  3. A primeira comunidade jesuíta partiu de Lisboa para a Madeira.

  4. A comunidade fundadora dos Jesuítas chegou à Madeira e instalou-se na igreja e no hospício de São Bartolomeu.

  5. As aulas dos Jesuítas no Funchal foram inauguradas solenemente.

  6. A armada que transportava Inácio de Azevedo e quarenta jesuítas fundeou no Funchal, aí permaneceu e partiu para o Brasil em 30 de junho.

  7. Por ordem de Pombal, o colégio dos Jesuítas no Funchal foi cercado e os religiosos ficaram confinados, pondo fim ao seu ensino; os dezoito jesuítas madeirenses foram enviados sob prisão para Lisboa em 16 de julho de 1760.

Lugar

Lugares mencionados · 22

No estrangeiro

Mapa: Madeira (22)
  1. Albergaria de São Bartolomeu

    Funchal. Albergaria onde os jesuítas viveram durante alguns anos.

  2. Campanário

    Ribeira Brava. Freguesia cujos dízimos eram atribuídos aos jesuítas.

  3. Canárias

    Spain. Águas onde foram mortos os quarenta mártires jesuítas.

  4. Caniço

    Santa Cruz. Freguesia onde se situava a residência do Socorro.

  5. Capela da Ajuda

    Funchal. Capela junto à qual os primeiros jesuítas ficaram provisoriamente alojados em 1570.

  6. Capela de São Sebastião

    Ponta do Sol. Antiga capela junto à qual os jesuítas abriram as suas primeiras aulas.

  7. Colégio de São João Evangelista

    Funchal. Colégio e igreja dos jesuítas no Funchal.

  8. Fortaleza do Pico

    Funchal. Fortaleza próxima da residência do Pico dos Frias.

  9. Funchal

    Cidade saqueada em 1566 e sede do colégio dos jesuítas.

  10. Fundoa

    Funchal. Local onde se situava uma residência dos jesuítas.

  11. Largo do Comércio

    Funchal. Nome atual do local onde decorreram as primeiras aulas dos jesuítas.

  12. Lisboa

    Portugal. Capital de onde vieram os jesuítas e para onde foram deportados.

+ 10 mais

Pessoas

Pessoas mencionadas · 16
  1. Jesuíta da comunidade fundadora de 1570, encarregado dos serviços religiosos.

  2. Rei de Portugal que fundou o colégio dos jesuítas no Funchal por alvará de 20 de agosto de 1569.

  3. Jesuíta madeirense com entrada própria no Elucidário.

  4. Proprietário das casas junto à Capela da Ajuda onde os primeiros jesuítas ficaram alojados em 1570.

  5. Jesuíta português que chegou em 1566 e cuja pregação foi muito admirada no Funchal.

  6. Fundador da Albergaria de São Bartolomeu, onde os jesuítas residiram durante alguns anos.

  7. Chefe dos quarenta jesuítas que estiveram no Funchal em junho de 1570 antes de serem martirizados por huguenotes perto das Canárias.

  8. Sexto capitão-donatário do Funchal, que trouxe os primeiros jesuítas à Madeira na frota de socorro enviada após o saque de 1566.

  9. Jesuíta madeirense com entrada própria no Elucidário.

  10. Manuel Álvares1526–1583

    Jesuíta madeirense com entrada própria no Elucidário.

+ 6 mais
  1. Primeiro reitor do colégio dos jesuítas do Funchal, chegado em 1570.

  2. Ministro português que ordenou a expulsão dos jesuítas, incluindo os da Madeira.

  3. Jesuíta castelhano que acompanhou Francisco Varca à Madeira em 1566.

  4. Jesuíta da comunidade fundadora de 1570 e professor de teologia moral.

  5. Comandante do navio Nossa Senhora da Natividade, que transportou os dezoito jesuítas madeirenses para Lisboa em 1760.

  6. Diácono jesuíta e professor de latim e retórica que proferiu o discurso inaugural em latim em 6 de maio de 1570.

Na folha J

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.