Jesuítas 1Vinda dos Jesuítas e fundação do Colégio
Jesuítas
História da Companhia de Jesus na Madeira, desde a chegada dos primeiros jesuítas após o saque francês do Funchal em 1566 e a fundação do seu colégio em 1569–1570 até à sua prisão e expulsão por ordem do Marquês de Pombal em 1759–1760. Descreve também os seus rendimentos, residências de campo e a venda dos seus bens.
1Vinda dos Jesuítas e fundação do Colégio
O sexto capitão-donatario do Funchal João Gonçalves da Câmara achava-se em Lisboa quando nos primeiros dias do mês de Outubro de 1566 os corsários franceses assaltaram esta cidade e deram aqui o terrível saque de que falam com tanto horror as antigas crónicas madeirenses. Acudiu prontamente o donatario, mas chegaram tarde os socorros da sua armada, pois que os franceses haviam já saído da ilha, depois de alguns dias de destruição e de matança. Nesta frota trouxe o capitão-donatario o jesuíta português Francisco Varca, que tinha como companheiro um religioso castelhano de apelido Naxera, pertencente á mesma ordem. Agradaram em extremo as pregações e os serviços religiosos dos dois membros da Companhia de Jesus chegando o autor das Saudades a dizer, numa exageradissima hipérbole, «que não sabia qual destas cousas fora maior para esta ilha, se o que perdeu com a chegada dos corsários, se o que ganhou com a vinda destes religiosos».
Três anos depois, a instantes pedidos dos moradores do Funchal, criou D. Sebastião nesta cidade um colégio da Companhia pelo alvará régio de 20 de Agosto de 1569, que vem integralmente transcrito a pág. 738 das Saudades da Terra. Por este diploma é fixada a dotação anual de 600$00 réis, «pagos em fructos dos de melhor qualidade e de que o Reytor e padres do dito Colégio sejão mais contentes». Esta dotação, referida ao ano de 1569, isto é, há três séculos e meio, não era pequena, mas aumentou consideravelmente com muitas doações particulares e vários privilégios concedidos pelos monarcas.
Para a formação da nova comunidade, partiram de Lisboa no dia 9 de Março de 1570, chegando á Madeira no dia 18 do mesmo mês, os padres Manuel de Sequeira, reitor do Colégio, Pedro Quaresma, professor de teologia moral, Belchior de Oliveira, para o desempenho das funções religiosas, o diácono Vasco Baptista, professor de latim e retórica e mais dois religiosos, que em virtude de estar grassando a peste na capital, não deram entrada nesta cidade, tendo-se instalado provisoriamente numas casas contíguas á capela da Ajuda, pertencentes a Fernão Favila, onde permaneceram pouco mais dum mês.
Transferiram em seguida os Jesuítas a sua residência para a albergaria de São Bartolomeu, fundada por Gonçalo Anes Velosa (V. vol. 1, pag. 30 e 70) e ali estiveram alguns anos. Decorridos menos de dois meses depois da sua chegada, abriram as suas aulas de teologia, filosofia, latim e retórica numas casas contíguas á antiga capela de S. Sebastião, no local que hoje tem o nome de largo do Comercio. A abertura solene realizou-se a 6 de Maio, tendo por essa ocasião o professor Vasco Baptista proferido na língua latina um discurso alusivo ao acto.
De 13 a 30 de Junho de 1570, isto é poucos meses depois dos religiosos da Companhia se estabelecerem no Funchal, demoraram-se nesta cidade os quarenta jesuítas que nas alturas das Canárias foram martirizados por huguenotes franceses, sendo mais tarde canonizados, como fica referido no artigo dedicado ao beato Inacio de Azevedo. (V. vol. I, pág. 110).
Do Colégio e Igreja dos jesuítas nos ocuparemos em artigo especial.
2Aulas, residências e rendas
No alvará régio de instituição se lê que os religiosos residiriam neste Colégio «estudando e lendo latim e casos de consciência», mas sabe-se que ensinavam também lógica e retórica, o que constituía um curso abreviado das antigas humanidades. Quando os religiosos da Companhia se instalaram no novo Colégio, abriram ali os seus cursos, que tiveram o nome de Aulas do Pátio, por funcionarem num pátio interior, que era uma das dependências do mesmo Colégio, como já tudo fica referido no artigo Instrução.
Além da igreja do Colégio de S. João Evangelista, possuíram os jesuítas as residências do Pico dos Frias, nas proximidades da fortaleza do Pico, a do Pico do Cardo, em Santo António, a de Nossa Senhora do Socorro, no Caniço, e a da Fundoa, em S. Roque, na margem direita da ribeira de Santa Luzia. Eram casas de campo com suas capelas anexas, onde alternativamente desempenhavam os diversos serviços religiosos.
A manutenção da comunidade, as solenidades religiosas e outras funções do culto, os encargos pios impostos pelos benfeitores e doadores do colégio e igreja, e ainda as outras obrigações inerentes ás ordens religiosas, demandavam grandes despesas, que eram custeadas pelas avultadas rendas que nesta ilha possuiam os Jesuítas. A darmos inteiro credito aos documentos publicados a pag. 747 e seguintes das Saudades, vemos que a Companhia de Jesus contava na Madeira com a receita de 10.808$049 réis, provindo 5:670$000 réis de impostos públicos, 4:028$783 réis dos rendimentos das fazendas do Colégio, Igreja e Capela-Mor e 1:109$266 réis dos rendimentos das fazendas das capelas de N. S. do Socorro, Santo Antonio, S. Miguel, S. Francisco Xavier e Cem Mil Virgens. Além destes rendimentos, tinha a comunidade do colégio de S. João Evangelista outros, provenientes de capitais mutuados a juros, etc.
Os impostos públicos que arrecadavam os Jesuítas eram, segundo os mesmos documentos, a renda do pão e vinho das freguesias do Campanário, Ribeira Brava, Tábua e Serra de Água, a do pescado e miunças da freguesia do Campanário, a do pescado, verdura e miunças da freguesia da Ribeira Brava, a das miunças e verduras das freguesias da Tábua e Serra de Água e a do pescado da freguesia da Tabua.
3Expulsão dos Jesuítas
Com a expulsão dos jesuítas ordenada pelo marquês de Pombal em todo o país, tiveram os membros da Companhia residentes nesta ilha de abandonar o seu Colégio, havendo antes ali permanecido mais de um ano presos e incomunicaveis. A 29 de Maio de 1759 foram inesperadamente cercados o Colégio e a Igreja, mantendo-se a prisão e a incomunicabilidade até o dia 16 de Julho de 1760, em que os religiosos embarcaram para Lisboa. Veio ao Funchal a nau Nossa Senhora da Natividade, comandada pelo conde de S. Vicente, que foi o encarregado de conduzir á capital os dezoito jesuítas que estavam na Madeira.
Durante a prisão procedeu-se ao sequestro de todos os bens moveis e imóveis, fazendo-se o arrolamento das propriedades rústicas e urbanas, do mobiliário, dos objectos do culto, das pratas e do dinheiro, etc., sendo cuidadosamente arrecadados todos os documentos e papéis que se encontravam nas diversas residências. A Igreja e o Colégio foram entregues á guarda do Prelado Diocesano. Deram-se os prédios de arrendamento, sendo mais tarde vendidos em hasta publica. A Quinta Grande, que é hoje uma freguesia e constituía a mais vasta propriedade dos jesuítas, foi vendida por 140:000 cruzados, a quinta do Pico do Cardo por 7 contos e a residência do Pico dos Frias por 9 contos.
Entre os jesuítas madeirenses devemos aqui mencionar Luiz Gonçalves da Câmara, Manuel Alvares e Sebastião de Morais, dos quais nos ocupamos em outros logares deste Elucidario.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 04-
Corsários huguenotes franceses comandados por Montluc, guiados por Gaspar Caldeira, desembarcaram na Praia Formosa e saquearam o Funchal. Tomaram de assalto a fortaleza de São Lourenço e profanaram a Sé e o convento de Santa Clara, cujas freiras fugiram para o Curral; Gaspar de Braga morreu a resistir-lhes. O ataque, ocorrido durante a capitania de Francisco Gonçalves da Câmara, levou à construção de novas fortificações costeiras.
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D. Sebastião fundou o Colégio dos Jesuítas do Funchal por alvará régio.
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A primeira comunidade jesuíta partiu de Lisboa para a Madeira.
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A comunidade fundadora dos Jesuítas chegou à Madeira e instalou-se na igreja e no hospício de São Bartolomeu.
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As aulas dos Jesuítas no Funchal foram inauguradas solenemente.
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A armada que transportava Inácio de Azevedo e quarenta jesuítas fundeou no Funchal, aí permaneceu e partiu para o Brasil em 30 de junho.
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Por ordem de Pombal, o colégio dos Jesuítas no Funchal foi cercado e os religiosos ficaram confinados, pondo fim ao seu ensino; os dezoito jesuítas madeirenses foram enviados sob prisão para Lisboa em 16 de julho de 1760.
Lugar
Lugares mencionados · 22No estrangeiro
- Albergaria de São Bartolomeu
Funchal. Albergaria onde os jesuítas viveram durante alguns anos.
Albergaria onde os Jesuítas viveram durante alguns anos.
- Campanário
Ribeira Brava. Freguesia cujos dízimos eram atribuídos aos jesuítas.
O Campanário é uma freguesia da Madeira que pertenceu ao concelho de Câmara de Lobos antes de integrar o da Ribeira Brava e é atravessada pela Ribeira do Campanário (ou Ribeira da Lapa). O Elucidário regista o seu porto, a sua banda, a sua capitania-mor, os dízimos pagos aos Jesuítas, uma antiga capela de São João fundada em 1728 e o vigário condenado pela Alçada de 1823. Foi também terra natal do bispo D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade e do jurista Francisco Justino Gonçalves de Andrade.
- Canárias
Spain. Águas onde foram mortos os quarenta mártires jesuítas.
As Canárias são o arquipélago vizinho da Madeira, cuja descoberta é objeto de relatos divergentes. Segundo a tradição, o seu rei Béthencourt vendeu-as ao Infante D. Henrique em troca de terras na Madeira. O Elucidário refere numerosos contactos entre os dois arquipélagos, incluindo visitas científicas, a digressão do Orfeão Madeirense em maio de 1922 e o massacre de quarenta Jesuítas nas suas águas.
- Caniço
Santa Cruz. Freguesia onde se situava a residência do Socorro.
O Caniço é uma freguesia do concelho de Santa Cruz, situada na fronteira entre as capitanias do Funchal e de Machico. Entre os seus primeiros povoadores contavam-se Gaspar Rego, Vasco Fernandes Rego e Álvaro de Ornelas, cuja família aí instituiu morgados; o seu alcaide e juiz eram nomeados pelo Senado do Funchal. Na freguesia encontram-se a estátua do Garajau, a residência dos Jesuítas no Socorro e a Quinta do Barão da Conceição.
- Capela da Ajuda
Funchal. Capela junto à qual os primeiros jesuítas ficaram provisoriamente alojados em 1570.
Capela junto à qual se instalaram provisoriamente os primeiros Jesuítas, em 1570.
- Capela de São Sebastião
Ponta do Sol. Antiga capela junto à qual os jesuítas abriram as suas primeiras aulas.
A Capela de São Sebastião é uma antiga capela do Funchal que, segundo alguns, terá sido a primeira sede da freguesia do Funchal, por volta de 1430. Foi servida desde cedo por franciscanos, e o primeiro alojamento e as primeiras aulas dos Jesuítas funcionaram junto dela. Há também registo de uma capela com o mesmo nome na Vila, pertencente à Câmara Municipal.
- Colégio de São João Evangelista
Funchal. Colégio e igreja dos jesuítas no Funchal.
O Colégio de São João Evangelista era o colégio e igreja dos Jesuítas no Funchal, para onde estes se mudaram de São Bartolomeu. Nele funcionaram as primeiras aulas públicas do ensino secundário e, mais tarde, o Seminário diocesano e o liceu. Os primeiros casos de cólera surgiram entre os soldados ali aquartelados, e o colégio assinalava o lugar onde se revezavam os portadores do pálio na procissão do Corpo de Deus.
- Fortaleza do Pico
Funchal. Fortaleza próxima da residência do Pico dos Frias.
Fortaleza acima do Funchal, na freguesia de São Pedro, começada durante o domínio filipino (espanhol) e concluída após a Restauração, que contém a capela profanada de São João. Foi estabelecida como marco dos limites da cidade em 1809 e serviu durante muito tempo como local de reclusão: ali estiveram detidos o governador deposto em 1668, 16 presos da Alçada de 1828 e os presos trazidos do cúter Andorinha em 1844. Foi cedida em 1888 e novamente proposta em 1909 para servir de cadeia, mas o custo dessa utilização levou à transferência do projeto para São Lázaro.
- Funchal
Cidade saqueada em 1566 e sede do colégio dos jesuítas.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Fundoa
Funchal. Local onde se situava uma residência dos jesuítas.
A Fundoa é um dos principais sítios da freguesia de São Roque, no Funchal. Tem uma capela de Nossa Senhora do Rosário construída em 1668 e uma antiga residência dos jesuítas. Ali têm origem um reservatório de água e um aqueduto que abastecem o Funchal, construídos em 1817 por Dr. Joaquim de Meneses e Ataíde.
- Largo do Comércio
Funchal. Nome atual do local onde decorreram as primeiras aulas dos jesuítas.
O Largo do Comércio é uma praça do Funchal anteriormente chamada São Sebastião, integrada no antigo Campo do Duque, onde se situavam a capela, o mercado e o chafariz de São Sebastião. É o nome atual do local onde decorreram as primeiras aulas dos jesuítas e foi iluminado por ocasião do quinto centenário do descobrimento da Madeira.
- Lisboa
Portugal. Capital de onde vieram os jesuítas e para onde foram deportados.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 16-
Jesuíta da comunidade fundadora de 1570, encarregado dos serviços religiosos.
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Rei de Portugal que fundou o colégio dos jesuítas no Funchal por alvará de 20 de agosto de 1569.
- D. Sebastião de Morais1534–1588
Jesuíta madeirense com entrada própria no Elucidário.
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Proprietário das casas junto à Capela da Ajuda onde os primeiros jesuítas ficaram alojados em 1570.
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Jesuíta português que chegou em 1566 e cuja pregação foi muito admirada no Funchal.
- Gonçalo Anes de Velosam. 1497
Fundador da Albergaria de São Bartolomeu, onde os jesuítas residiram durante alguns anos.
- Inácio de Azevedom. 1570
Chefe dos quarenta jesuítas que estiveram no Funchal em junho de 1570 antes de serem martirizados por huguenotes perto das Canárias.
- João Gonçalves da Câmara1414–1501
Sexto capitão-donatário do Funchal, que trouxe os primeiros jesuítas à Madeira na frota de socorro enviada após o saque de 1566.
- Luiz Gonçalves da Câmara1518–1575
Jesuíta madeirense com entrada própria no Elucidário.
- Manuel Álvares1526–1583
Jesuíta madeirense com entrada própria no Elucidário.
+ 6 mais
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Primeiro reitor do colégio dos jesuítas do Funchal, chegado em 1570.
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Ministro português que ordenou a expulsão dos jesuítas, incluindo os da Madeira.
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Jesuíta castelhano que acompanhou Francisco Varca à Madeira em 1566.
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Jesuíta da comunidade fundadora de 1570 e professor de teologia moral.
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Comandante do navio Nossa Senhora da Natividade, que transportou os dezoito jesuítas madeirenses para Lisboa em 1760.
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Diácono jesuíta e professor de latim e retórica que proferiu o discurso inaugural em latim em 6 de maio de 1570.