Milicia 1Período feudal e monárquico
Milicia
História das milícias da Madeira, desde as levas feudais sob os capitães-donatários, passando pelas ordenanças régias, pela artilharia auxiliar e pelos regimentos de milícias, até à sua extinção definitiva após 1832–1834.
1Período feudal e monárquico
Quando a Madeira foi descoberta e povoada, durava ainda, diz o dr. Azevedo, mas na transição já, o período feudal da milícia dos povos «em que as armas eram privilégio de poucos, e sujeição de quási todos». «Cada donatario, continua o mesmo autor, era na sua capitania, o caudilho, o capitão estavam subordinados a este os fidalgos que delle haviam recebido as terras de sesmaria; e aos fidalgos, ou senhorios, os povoadores inferiores, que, na paz, lhes eram colonos, quasi adscripticios, das terras, e na hoste, obrigados homens de armas».
Ao período feudal, seguiu-se o período a que o dr. Azevedo chama monárquico, em que o rei, avocando a si o direito de exigir serviço militar dos seus vassalos válidos, «rompeu com as preeminencias guerreiras dos donatários e fidalgos deixando-lhes tão somente os encargos».
Tem a data de 25 de Março de 1500 o primeiro diploma em que o rei exige directamente esse serviço tanto dos fidalgos, como do povo da Madeira, afim de o acompanharem numa expedição a Africa, mas tendo o donatário João Gonçalves da Camara reclamado respeitosamente contra as ordens emanadas do poder central, baseado em antigos direitos que não podiam ser postergados, apareceu no mesmo ano uma outra carta revogando a anterior na parte em que se referia a esta ilha, e mandando que os moradores desta a não deixassem «desacompanhada», para a poderem guardar e defender em caso de necessidade.
Contemporizava o monarca com o donatário por se não julgar talvez suficientemente forte para consolidar o poder real nesta ilha, mas foi isso por pouco tempo, pois que a 12 de Maio de 1509 ordenava o rei, por carta expedida de Évora que os fidalgos, cavaleiros escudeiros, homens bons e povo da cidade do Funchal se fornecessem de armas e cavalos visto os seus serviços se poderem tornar necessários em qualquer ocasião.
Não se pode filiar neste diploma a criação da moderna milícia madeirense, pois que ele apenas mandava armar o povo, sem lhe dar organização militar, mas podemos fazer datar da publicação dele a subordinação ao poder real dos elementos com que esta ilha podia contribuir para a defesa do país.
As vigias, que eram feitas pelo povo em pequenas casas fortes, de propósito construídas para resistir ao mar e evitar surpresas, foram no entender do dr. Álvaro de Azevedo, mais do que o preludio da milícia ao diante conhecida pela denominação de ordenanças, pois que eram as ordenanças mesmas, com pequena diferença, demarcando por isso a sua instituição o limite entre o periodo feudal e o monarquico na historia da milícia madeirense.
As vigias tiveram regimento em 1567, dado por D. Sebastião, e muito antes, em 1515, existiam aqui bombardeiros, aos quais foram então concedidos privilégios. Em 1532, foi nomeado para esta ilha um anadel-mór de espingardeiros, que teve mais tarde autorização para poder nomear espingardeiros para as vilas e lugares, e do alvará de 2 de Março de 1497 se vê que já antes desta data havia na Madeira casa de armas, onde estas se fabricavam.
2Das ordenanças e milícias
Segundo o regimento de 10 de Dezembro de 1570, as ordenanças estavam divididas em companhias, agrupadas por capitanias-mores. Cada capitania mór, diz o dr. Azevedo, tinha um capitão mór, que era o commandante; um sargento mór, seu immediato; e mais tarde, um ajudante. Cada capitania tinha um capitão e um alferes, sem patente regia, um sargento, um meirinho, um escrivão e dez cabos de esquadra. Os donatarios, ou os alcaides-móres nas terras que os tinham, eram capitães-mores natos; nas outras terras eram eleitos em camara assim como a mais oficialidade o era, em todas as terras até que este privilegio da eleição ficou, para as que não tinham donatario, reduzido pelo alvará de 18 de Outubro de 1701, a mera informação, sendo o rei, ou os donatarios nas terras delles, quem dava as patentes, mas só aquelle podia tirá-las».
Ignoramos se na Madeira existiram todas as entidades, que, segundo o regimento, deviam possuir as companhias de ordenanças, mas há vários documentos donde se vê que houve aqui capitães e sargentos-mores, assim como ajudantes dos capitães-mores. Já em 1575 deviam existir ordenanças na ilha, pois que há um diploma dessa época concedendo melhoria de sôldo ao sargento-mor do Funchal. Pensa o dr. Azevedo que as vigias a que atrás nos referimos vieram a fundir-se nas ordenanças.
As ordenanças constituíam nos princípios do século XIX um corpo de terceira linha, com as seguintes capitanias-mores na Madeira: Funchal, Câmara de Lobos, Campanário, Ribeira Brava, Ponta do Sol, Madalena, Calheta, Porto do Moniz, S. Vicente, Ponta Delgada, Porto da Cruz, Machico, Santa Cruz e Caniço. «Posteriormente ao dominio castelhano, diz o dr. Alvaro de Azevedo, teve a milicia portuguesa, até 1809, quatro reformas ou renovações:
- 1ª. a de D. João IV, decretada em assento de cortes por 1641, com duas especies de tropa, a de soldo e a auxiliar, ficando toda a mais gente nas ordenanças, as quais eram um como viveiro de recrutas;–
- 2ª. a de D. João V, instituida pelo alvará de 15 de Novembro de 1707, a que se deu o nome de novas ordenanças
- 3ª. a de D. José I, desenvolvida nos regulamentos (1763-1766) chamados do Conde de Lippe, por ter sido essa reforma inspirada por este illustre general, então commandante das tropas portuguesas
- e 4ª., finalmente, a de 1806-1809».
Além das catorze capitanias-mores a que atrás nos referimos, tinha o arquipélago nos principios do século XIX um batalhão de artilharia de primeira linha, com seis companhias e 727 homens, um batalhão de artilharia auxiliar com quinze companhias e 2171 homens e três regimentos de milicias, que eram os da Calheta, Funchal e S. Vicente, cada um deles com dez companhias e cêrca de 800 homens. Todas estas forças, à excepção do batalhão de artilharia de primeira linha, eram milicianas, constituindo a artilharia auxiliar e os três regimentos de milícias a segunda linha, e as ordenanças a terceira linha das tropas da Madeira.
Das forças milicianas que existiam no arquipélago, só teve o Porto Santo um corpo de artilharia, com quatro companhias, criado em 1805.
3Extinção das ordenanças
As ordenanças foram extintas por Filipe II, a pedido das cortes de Tomar, e restabelecidas em 1623, mas, segundo parece, o diploma que as extinguiu não teve aplicação à Madeira, onde elas existiram até entrar em vigor o decreto e carta de lei de 22 de Agosto de 1821, que novamente as dissolveu, assim como as milicias. Restabelecidas umas e outras pela lei de 13 de Julho de 1823, só vieram a acabar definitivamente pelos decretos de 14 e 20 de Julho de 1832, os quais só tiveram execução nesta ilha depois da proclamação do govêrno liberal, em 1834.
Dum relatório apresentado ao Governo em 1754 pelo Capitão-General Manuel Saldanha de Albuquerque e do que existe publicado sobre o papel que desempenharam as milícias por ocasião da tomada da Madeira pelos miguelistas em 1828, se vê que estas tropas se não recomendavam naquelas epocas nem pela disciplina nem pelo valor militar, os quais tanto distinguiram as milícias que no tempo dos donatários foram em socorro das nossas praças de Africa ameaçadas pelos mouros e ainda aquelas que em antigos tempos algumas vezes defenderam a ilha dos assaltos dos seus inimigos externos.
Apesar do aparato de organização que revestia as milícias dos séculos XVIII e XIX, só chegaram dessa instituição, ás ilhas da Madeira e Porto Santo, diz o dr. Azevedo, «a caricatura e as prepotências, acabando no enxame de senhores capitães, tenentes e alferes, cujas patentes ainda são, nas povoações rurais, memorias vaidosas e pretextos respeitados de distinções e consideração».
No primeiro quartel do século XIX eram o capitão-mor e o sargento-mor, chefes principais das ordenanças, nomeados em Câmara, sendo escolhidos «entre as pessoas da governança e da nobreza, abastadas em bens e de sã cristandade». O morgado Luís Teixeira Doria foi o ultimo capitão-mor e o morgado Aires de Ornelas Cisneiros o ultimo sargento-mor que houve na capitania do Funchal, tendo ambos sido nomeados em 1828.
Os capitães e sargentos-mores estavam isentos de exercer os cargos da governança, isto é, de ser vereadores, almotacés, etc., etc.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 21-
Uma carta régia mostra que já existia uma armaria na Madeira.
-
D. Manuel emitiu o primeiro diploma régio a ordenar que os nobres e vassalos da Madeira o acompanhassem numa expedição a África; a exigência foi posteriormente revogada para a Madeira.
-
O rei ordenou aos habitantes do Funchal que se munissem de armas e cavalos.
-
Foram concedidos privilégios aos bombardeiros da Madeira.
-
Foi nomeado um anadel-mor dos espingardeiros para a Madeira.
-
D. Sebastião promulgou um regimento para as vigias costeiras do arquipélago.
-
Um regulamento organizou as ordenanças em companhias e capitanias-mores.
-
Um aumento de soldo concedido ao sargento-mor do Funchal mostra que as ordenanças já existiam.
-
As ordenanças foram restabelecidas após terem sido extintas por Filipe I.
-
D. João IV reformou as milícias.
-
Uma carta régia reduziu a eleição municipal dos oficiais das milícias a uma simples proposta.
-
D. João V instituiu as novas ordenanças.
-
O capitão-general Manuel Saldanha da Gama Albuquerque relatou o mau estado das milícias.
-
Os regulamentos militares do Conde de Lippe foram introduzidos no reinado de D. José I, com efeitos nas milícias madeirenses.
-
Foi instituído o corpo de Artilharia Auxiliar da Madeira, que incluía um corpo no Porto Santo.
-
Teve lugar a quarta reforma das milícias madeirenses.
-
Uma lei extinguiu as ordenanças e as milícias.
-
Uma lei restabeleceu as ordenanças e as milícias.
-
Uma expedição miguelista comandada pelo coronel José António de Azevedo Lemos desembarcou em Machico e ocupou a Madeira, proclamando o absolutismo; o governador Valdez e os dirigentes liberais refugiaram-se a bordo da fragata britânica Alligator.
-
Decretos extinguiram definitivamente as milícias e as ordenanças, pondo fim ao cargo de capitão-mor na Madeira.
-
O governo constitucional (liberal) foi estabelecido na Madeira, sujeitando a ilha à legislação do continente e pondo fim à antiga organização municipal, às milícias e à bandeira branca da cidade.
Lugar
Lugares mencionados · 18No estrangeiro
- África
Africa. Destino de expedições régias e local de praças-fortes apoiadas pelas milícias madeirenses.
África é referida como destino de expedições madeirenses, soldados e condenados ao exílio, e como mercado de exportação da manteiga madeirense. Os exploradores Capelo e Ivens atravessaram o continente, e o Norte de África é apontado como região de origem da tamareira.
- Calheta
Sede de uma capitania-mor e de um regimento de milícias.
A Calheta é uma vila, freguesia e concelho na costa sudoeste da Madeira e um dos povoamentos mais antigos da ilha. O Elucidário aborda o seu nome, os primeiros povoadores, como Pedro Berenguer, a igreja e numerosas capelas, incluindo uma de um antigo convento franciscano, e o motim de 1834.
- Câmara de Lôbos
Câmara de Lobos. Sede de uma capitania-mor de ordenanças.
Freguesia a oeste do Funchal. O Elucidário relaciona o seu nome com a viagem de descoberta de Zarco e descreve as suas igrejas, capelas e colegiada, os primeiros povoadores, a comunidade piscatória e as vinhas afamadas. Regista também os sítios, limites, levadas e população da freguesia.
- Campanário
Ribeira Brava. Sede de uma capitania-mor.
O Campanário é uma freguesia da Madeira que pertenceu ao concelho de Câmara de Lobos antes de integrar o da Ribeira Brava e é atravessada pela Ribeira do Campanário (ou Ribeira da Lapa). O Elucidário regista o seu porto, a sua banda, a sua capitania-mor, os dízimos pagos aos Jesuítas, uma antiga capela de São João fundada em 1728 e o vigário condenado pela Alçada de 1823. Foi também terra natal do bispo D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade e do jurista Francisco Justino Gonçalves de Andrade.
- Caniço
Santa Cruz. Sede de uma capitania-mor.
O Caniço é uma freguesia do concelho de Santa Cruz, situada na fronteira entre as capitanias do Funchal e de Machico. Entre os seus primeiros povoadores contavam-se Gaspar Rego, Vasco Fernandes Rego e Álvaro de Ornelas, cuja família aí instituiu morgados; o seu alcaide e juiz eram nomeados pelo Senado do Funchal. Na freguesia encontram-se a estátua do Garajau, a residência dos Jesuítas no Socorro e a Quinta do Barão da Conceição.
- Évora
Portugal. Local onde foi emitida a carta régia de 1509.
Évora é uma cidade em Portugal Continental com uma sé arquiepiscopal e uma universidade, ligada a vários membros do clero madeirense. Foi a terra natal do bispo D. Estevão Brioso e de D. Martinho de Portugal. O 4.º Conde de Vimioso morreu num convento da cidade.
- Funchal
Cidade cujos habitantes receberam ordem para se armarem em 1509 e sede de uma capitania-mor.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Machico
Sede de uma capitania-mor.
A freguesia de Machico foi o local do desembarque dos descobridores Zarco e Tristão Vaz e a sede da Capitania de Machico; foi criada cerca de 1450. O Elucidário aborda o seu clero e as respetivas côngruas, as capelas, os acontecimentos históricos, as fontes minerais, os sítios, a população e os naturais ilustres.
- Madalena do Mar
Ponta do Sol. Sede de uma capitania-mor.
A Madalena do Mar é uma freguesia da costa sudoeste da Madeira, no concelho da Ponta do Sol, fundada nas terras do lendário Henrique Alemão e elevada a freguesia independente em 1582. O Elucidário regista as suas capelas, a produção de açúcar e o cultivo da banana, a sua capitania-mor, os danos causados pelas cheias de 1876 e pela cheia da Ribeira da Madalena em 1939. Foi também a terra natal de António Policarpo dos Passos Sousa.
- Ponta Delgada
São Vicente. Sede de uma capitania-mor.
Ponta Delgada é uma freguesia da costa norte da Madeira, uma das três freguesias do concelho de São Vicente, com uma ponta costeira e um pequeno porto de pesca. A festa do Senhor Jesus é uma grande romaria de promessas, e a freguesia foi sede de uma capitania-mor. Em 1856, registou 409 mortes por cólera.
- Ponta do Sol
Sede de uma capitania-mor.
Freguesia e concelho da costa sul, povoados a partir de cerca de 1440 por Rodrigo Enes «o Coxo». A igreja paroquial de Nossa Senhora da Luz conserva um tríptico. O Elucidário regista também o cais de 1848, pago pela Câmara Municipal, e a visita régia de 1858.
- Porto da Cruz
Machico. Sede de uma capitania-mor.
Freguesia da Costa Norte criada em 1577 e conhecida pelos seus vinhos de boa qualidade. Passou do concelho de Santana para o de Machico em 1852 e foi sede de uma capitania-mor. Era também um porto de pesca onde eram desembarcados alguns cachalotes.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 11-
Último sargento-mor da capitania do Funchal, nomeado em 1828.
- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Historiador cuja descrição das fases das milícias madeirenses é citada ao longo do verbete.
-
General que comandava as tropas portuguesas e inspirou as reformas de 1763–1766.
-
Rei cuja reforma das milícias, em 1641, criou tropas pagas e auxiliares.
- D. João Vm. 1750
Rei que instituiu as «novas ordenanças» em 1707.
-
Rei em cujo reinado foram promulgados os regulamentos militares de Lippe de 1763–1766.
-
Rei que promulgou o regulamento de 1567 para os postos de vigia.
-
Rei que extinguiu as ordenanças a pedido das Cortes de Tomar.
- João Gonçalves da Câmara1414–1501
Capitão-donatário do Funchal que, em 1500, protestou contra o recrutamento direto de madeirenses pelo rei para África.
-
Último capitão-mor da capitania do Funchal, nomeado em 1828.
+ 1 mais
-
Capitão-general da Madeira cujo relatório de 1754 revelou a falta de disciplina das milícias.