Campanario (Freguesia do) 1Origem do nome
Campanario (Freguesia do)
Entrada sobre a freguesia do Campanário, na Costa Sul da Madeira, a oeste do Cabo Girão, que explica a origem do seu nome, derivado de um ilhéu em forma de campanário, e aborda a história da igreja, os primeiros povoadores, as propriedades dos Jesuítas e os naturais ilustres. Regista a passagem da freguesia do concelho de Câmara de Lobos para o recém-criado concelho da Ribeira Brava em 1914.
1Origem do nome
Tôrre de sinos ou sineira é o significado da palavra campanario, que parece nome estranho para designar uma paroquia. Procurando investigar a origem desta denominação aplicada á freguesia de que agora nos ocupamos, apenas conseguimos descobrir nuns apontamentos do dr. João Pedro de Freitas Drumond, que se encontram na biblioteca municipal desta cidade, uma explicação que nada tem de inverosimil, mas que também não podemos afirmar que seja inteiramente baseada na verdade. Vamos no entretanto aceitá-la como genuína e oriunda de boa fonte, porquanto o autor dos apontamentos citados não nos oferece suspeita de falta de probidade nas suas noticias e afirmações historicas.
Quando na primeira exploração através do litoral, os descobridores passaram o Cabo Girão, defrontaram-se com um pequeno ilhéu proximo da costa, que a distancia lhes pareceu ter a forma duma sineira ou campanario, nome com que designaram aquela passagem e que depois se estendeu aos terrenos circunvizinhos. “Figurava uma sineira, diz Freitas Drumond, por ter duas altas pernadas, uma das quaes o mar derrubou no primeiro de novembro de 1798”. Destruído o campanario pelo embate e violencia das ondas, não é para estranhar que a pouco e pouco fôsse caindo no esquecimento a origem desta denominação.
Referindo-se Frutuoso á exploração que fizeram João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz para o efeito da delimitação das duas capitanias em que se dividiu a Madeira, diz o seguinte:-“Chegando a Camara de Lobos. . passando mais abaixo a humas terras muito altas ali traçou outra igreja da Vera Cruz e todos estes altos tomou para seus herdeiros...”. Esta capela e os terrenos tomados por Zarco ficavam dentro dos limites da freguesia do Campanario, e hoje pertencem á paroquia da Quinta Grande, que se desmembrou daquela no ano de 1848. Noutro logar diz ainda o citado Frutuoso: “para o ocidente meya legua está hum logar de cem fogos (reporta-se ao fim do seculo XVI) espalhados, a que chamão o Campanario... são terras de criações e de lavoura de trigo e centeyo, por ser a gente monteana, dada mais a criar gado que a cultivar vinhas nem outras fructeiras; mas com tudo isto se ha de entender que nestes e em todos os logares da ilha houve sempre, e ha hoje em dia, gente honrada e fidalga, e de altos pensamentos”.
2Paroquia, igreja e capelas
Não podemos determinar com precisão a criação desta paroquia, mas é anterior a 1556, porque um alvará regio de 28 de Agôsto do mesmo ano, acrescenta aos 10:000 réis da Congrua do respectivo vigario, mais um moio de trigo e uma pipa de vinho. Este vencimento foi aumentado pelos alvarás regios de 9 de Junho de 1581, 18 de Janeiro de 1589 e 19 de Janeiro de 1674, ficando tendo então 19:000 reis em dinheiro, um moio e meio de trigo e uma pipa e meia de vinho.
Consta que em 1698 foi ali criado um curato, mas parece que houve demora em ser provido este logar. Somente pelo alvará regio de 9 de Maio de 1727 é que se assinalou a côngrua do cura, que foi de 20:000 réis anuais, fazendo-se então o provimento deste cargo.
Ignoramos quando foi edificada a actual igreja paroquial. No frontispicio tem a data de 1683, que deve ser a da reconstrução, a não admitir-se a existencia doutra igreja em logar e anterior ao templo actual. Temos noticia de que o Conselho da Fazenda mandou em 1677 arrematar os trabalhos da construção da capela-mor.
Tem esta freguesia as capelas de Nossa Senhora do Bom Despacho e de Nossa Senhora da Gloria. Já não existem a ermida de Nossa Senhora do Carmo, a de Nossa Senhora do Rosario, a de S. João Baptista e a de Nossa Senhora dos Remedios. De umas e outras nos ocuparemos no logar respectivo.
3Povoadores e sucessos
Entre os seus antigos sesmeiros e povoadores contam-se Manuel de Noronha, filho do segundo capitão-donatario do Funchal, que teve vastos terrenos pertencentes hoje á Quinta Grande, Vasco Delgado, que se estabeleceu nas margens da Ribeira dos Melões, onde constituíu um morgado, Pedro Enes e outros. As maiores propriedades que os jesuítas possuíam nesta ilha ficavam dentro dos limites do Campanario e constituiam principalmente a chamada Quinta Grande, que depois deu o nome a esta freguesia. Este predio rustico rendia há 160 anos mais de dois contos de réis o que hoje corresponderia a um avultadissimo rendimento.
É nesta paroquia que fica o sitio da Fajã dos Padres, assim chamado por ter pertencido aos padres da Companhia de Jesus. É uma fajã, junto ao mar e no sopé de rochas alterorosas, esmeradamente cultivada e onde se produz a mais preciosa e afamada malvasia da Madeira. Este sitio foi por mais duma vez saqueado por piratas, que em Janeiro de 1625 destruíram a capela que ali tinham os jesuitas.
Em 1825 deram-se no Campanario graves perturbações da ordem, por motivos politicos, tendo que intervir a fôrça armada. Estes acontecimentos causaram no tempo grande sensação pelas circunstancias especiais que os revestiram.
Com a criação do concelho da Ribeira Brava em 1914, deixou a freguesia do Campanario de pertencer ao concelho de Camara de Lôbos, ficando incluída na area do novo concelho. Nasceram aqui o bispo de São Paulo D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade (1767-1847), o ilustre jurisconsulto Francisco Justino Gonçalves de Andrade (1821-1902) e o conego João Jacinto Gonçalves de Andrade (1825-1894), ambos distintos professores da faculdade de direito daquela cidade brasileira (V. estes nomes).
Em outras epocas houve muitos soutos nesta freguesia, tornando-se muito conhecido de nacionais e estrangeiros um castanheiro de agigantadas proporcões, cuja gravura se acha reproduzida em muitas obras que se ocupam da Madeira. Ficava no sitio da Achada e media 10 metros de circunferencia. Carcomido em parte pela acção do tempo, tinha na base uma abertura em forma de porta, que dava acesso a uma cavidade, que podia conter algumas pessoas.
4Sitios e porto
Os sitios mais notaveis desta paroquia são a Fajã dos Padres, Tranqual, Quebrada, São João, Pinheiro,
Logar da Ribeira, Voltas, Pedregal, Achada, Terreiros, Logar da Serra, Cova da Velha, Adega, Corujeira, Longueira, Rodes, Carmo, Serrado, Chapim, Calçada, Lombo do Romão, Igreja, Lapa e Maçapez, Furnas e Amoreiras, Fajã Velha, Vigia, Porta Nova, Chamorra, Jardim, Palmeira, Roda e Maçapez, Pôrto da Ribeira, Pedra de Nossa Senhora e Nossa Senhora da Gloria. No sitio do Carmo fica a escola oficial do sexo masculino, e nas Furnas e Amoreira a escola oficial do sexo feminino.
Tem um pequeno pôrto e uma praia pedregosa e de dificil desembarque. Há poucos anos que ali se construíu um pequeno desembarcadouro, que presta bom serviço quando o mar está bonançoso. Sobranceiras ao pôrto e a diferentes alturas, escavaram no tufo de uma aprumada escarpa varias cavidades com suas portas de madeira, que servem de armazéns para a guarda de diversas mercadorias, generos agricolas, lenhas, aparelhos de pesca, etc.
Dista aproximadamente 18 quilometros do Funchal, 8 de Camara de Lôbos (Igreja) e 4 e meio da Ribeira Brava.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 13-
Um alvará régio aumentou a côngrua do vigário do Campanário, mostrando que a freguesia já existia.
-
Um alvará régio elevou para 25 000 réis anuais as côngruas dos vigários de várias freguesias, incluindo Monte, Ponta do Pargo, Campanário e Seixal.
-
Um alvará régio aumentou a côngrua do vigário do Campanário.
-
Piratas, descritos como corsários argelinos, atacaram a Fajã dos Padres, no Campanário, e destruíram a capela dos Jesuítas ali existente.
-
Um alvará régio fixou a côngrua do vigário do Campanário em 19 000 réis, além de cereal e vinho.
-
O Conselho da Fazenda mandou pôr a concurso a construção da capela-mor da igreja do Campanário.
-
A igreja paroquial do Campanário foi provavelmente reconstruída, como sugere a data inscrita na fachada.
-
Terá sido criada uma coadjutoria no Campanário.
-
Um alvará régio fixou a côngrua do coadjutor do Campanário em 20 000 réis, e o lugar foi provido.
-
O mar derrubou um dos dois pilares do ilhéu em forma de campanário que deu nome à freguesia.
-
Graves perturbações políticas no Campanário exigiram a intervenção das forças armadas.
-
Por carta régia de 24 de julho de 1848, a Quinta Grande foi separada do Campanário e tornou-se freguesia autónoma do concelho de Câmara de Lobos, ficando com a capela da Vera Cruz.
-
Um decreto criou o concelho da Ribeira Brava. O Campanário foi-lhe transferido do concelho de Câmara de Lobos, e a Tábua do concelho da Ponta do Sol.
Lugar
Lugares mencionados · 12No estrangeiro
- Achada
Ribeira Brava. Sítio do célebre castanheiro gigante.
A Achada é um sítio da freguesia do Campanário, conhecido por ali se encontrar o famoso castanheiro gigante da freguesia.
- Cabo Girão
Câmara de Lobos. Os descobridores passaram por este cabo antes de avistarem o ilhéu em forma de sino.
Falésia escarpada com cerca de 600 m de altura (indicada como tendo 589 m) e miradouro recomendado. As suas escarpas contêm filões e é um dos únicos dois locais onde cresce C. dissectum. Uma derrocada matou Henrique Alemão quando este se encontrava no seu barco.
- Camara de Lôbos
Câmara de Lobos. Concelho a que o Campanário pertenceu até 1914.
Câmara de Lobos é um concelho da Madeira cuja sede era historicamente um «lugar», e não uma vila. O Elucidário Madeirense cita a descrição de Gaspar Frutuoso e apresenta a criação do concelho em 1835 e as alterações posteriores às suas freguesias.
- Campanário
Ribeira Brava. Freguesia a que se refere esta entrada.
O Campanário é uma freguesia da Madeira que pertenceu ao concelho de Câmara de Lobos antes de integrar o da Ribeira Brava e é atravessada pela Ribeira do Campanário (ou Ribeira da Lapa). O Elucidário regista o seu porto, a sua banda, a sua capitania-mor, os dízimos pagos aos Jesuítas, uma antiga capela de São João fundada em 1728 e o vigário condenado pela Alçada de 1823. Foi também terra natal do bispo D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade e do jurista Francisco Justino Gonçalves de Andrade.
- Carmo
Ribeira Brava. Sítio onde se situava a escola oficial masculina.
O Carmo é um sítio da freguesia do Campanário, cujo nome vem de uma capela de Nossa Senhora do Carmo fundada em 1658 como sede de um morgadio. Aí funcionava a escola oficial masculina da freguesia, e o Elucidário também o regista como primeira sede do Clube Funchalense.
- Fajã dos Padres
Ribeira Brava. Antiga propriedade costeira dos Jesuítas, célebre pelo seu vinho Malvasia; foi atacada por piratas em 1625.
A Fajã dos Padres é uma pequena fajã costeira para além do Cabo Girão, na freguesia de Campanário, e uma das mais conhecidas da Madeira. Foi uma propriedade dos Jesuítas, célebre pelo melhor vinho Malvasia da ilha e também pelo Sercial; a sua capela jesuíta foi destruída por corsários argelinos em 1626. O Elucidário data o ataque dos piratas de 1625 numa nota e de 1626 noutra.
- Funchal
O Campanário fica a cerca de 18 km do Funchal.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Furnas e Amoreiras
Ribeira Brava. Sítio onde se situava a escola oficial feminina.
Sítio onde se situava a escola oficial para raparigas.
- Quinta Grande
Câmara de Lobos. Freguesia desmembrada do Campanário em 1848; recebeu o nome de uma quinta dos Jesuítas.
Quinta Grande é uma freguesia do concelho de Câmara de Lobos, cujo nome provém da maior quinta dos jesuítas, vendida por 140 000 cruzados. Tornou-se curazia em 1820 e foi separada do Campanário como freguesia autónoma em 1848, com sede na capela de Nossa Senhora dos Remédios, cuja festa ali se celebra. Em 1927, tornou-se julgado da comarca do Funchal.
- Ribeira Brava
Novo concelho, criado em 1914, que passou a incluir o Campanário.
Concelho da Madeira criado em 1914 a partir de freguesias dos concelhos da Ponta do Sol e de Câmara de Lobos. A sua sede, o sítio do Lugar, foi elevada à categoria de vila em 1928.
- Ribeira dos Melões
Ribeira Brava. Ribeira junto à qual Vasco Delgado instituiu o seu morgadio.
A Ribeira dos Melões é uma ribeira da freguesia do Campanário, provavelmente assim chamada pelos meloeiros que ali cresciam. Vasco Delgado de Barros possuía ali a maior parte das terras da sua sesmaria e instituiu nelas um morgadio.
- São Paulo
Brazil. Cidade brasileira onde os irmãos Andrade lecionaram e D. Manuel foi bispo.
Cidade e diocese brasileiras onde os irmãos madeirenses Andrade estudaram e ensinaram Direito e onde D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade foi bispo. D. Mateus de Abreu Pereira também foi bispo dessa diocese e morreu na cidade.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 10- António Manuel de Noronham. 1569
Filho do segundo capitão-donatário do Funchal e um dos primeiros povoadores, possuía vastas terras na área hoje pertencente à Quinta Grande.
-
Jurista e professor na Faculdade de Direito de São Paulo, nascido no Campanário.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Cronista do século XVI, aqui citado a propósito da capela de Zarco e da população e agricultura do Campanário.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor da Madeira e capitão do Funchal; fundou uma capela da Vera Cruz e tomou terras na região para os seus herdeiros.
- João Jacinto Gonçalves de Andrade1825–1898
Cónego e professor na Faculdade de Direito de São Paulo, nascido no Campanário.
-
Autor de apontamentos manuscritos, conservados na biblioteca municipal do Funchal, que explicam a origem do nome Campanário.
- Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade1767–1847
Bispo de São Paulo e natural do Campanário.
-
Um dos primeiros povoadores do Campanário.
- Tristão Teixeiram. 1470
Codescobridor e capitão de Machico; participou na demarcação do limite entre as duas capitanias.
-
Primeiro povoador que instituiu um morgadio nas margens da Ribeira dos Melões.