Girão (Cabo) 1Nome e altura da rocha
Girão (Cabo)
O Cabo Girão é uma escarpa costeira abrupta na Costa Sul da Madeira, com cerca de 600 metros de altura e uma das mais altas do mundo. Segundo Frutuoso, o nome assinala o fim do percurso do primeiro dia da viagem de descobrimento. A entrada aborda a origem do nome, o miradouro construído por volta de 1935 e o relato de um diretor de obras públicas sobre a altura da escarpa.
1Nome e altura da rocha
Notam alguns a pouca propriedade que há no emprego da palavra cabo aplicada a esta elevadissima rocha, talhada a prumo sobre o oceano. Observando o mapa geográfico desta ilha, não divisamos ali uma saliência ou língua de terra que justifique aquele nome, o que melhor se verifica quando se viaja ao longo da costa ou ainda mesmo quando no ponto mais alto e saliente da rocha se descortina esta na sua maior extensão. Frutuoso parece querer dar-lhe o nome de cabo para significar o termo da primeira parte da primitiva exploração marítima, e de Girão por findar ali o giro do primeiro dia dessa mesma exploração. Para justificar ainda a denominação de cabo, refere-se o cronista a uma ponta que abaixo fazia, ponta que quasi passa despercebida ao observador e que de modo algum pode merecer o nome de cabo. Dizem as Saudades: «...viram uma rocha muito alta logo ahi pegada, e arrebentar o mar em huma ponta, que ela abaixo fazia, a qual lhes ficou por meta e fim do seu descobrimento, e lhes deram o nome de Cabo de Gyrão, por ser daquella vez a derradeira parte, e cabo do gyro de seu caminho».
Como rocha sobranceira ao mar, afirmam vários autores que é das mais altas e aprumadas que se encontram no universo. Dalguns dos pontos mais elevados e salientes daquela gigantesca escarpa vê-se numa profundidade aproximada de 600 metros, a vaga do oceano quebrar-se no sopé da aprumada rocha. É por isso que em inúmeras obras nacionais e estrangeiras se encontram frequentes referências ás rochas do Cabo Girão, que ao estudioso e ao turista sobriamente oferecem motivo de atenta e demorada observação. Não é facil e cómodo o acesso aos pontos mais altos da rocha, por falta de uma boa estrada que lá conduza. Está projectada a construção de um ramal, na extensão de 800 metros, que deve comunicar esses pontos com a estrada nacional que atravessa as freguesias da Quinta Grande e Campanário. (1921)
Por 1935 ou pouco depois, fez-se a ligação da estrada com o alto da rocha do Cabo Girão e ali se construiu um belo miradouro, que tem sido largamente visitado por nacionais e estrangeiros. Deste lugar se descortina um vasto e surpreendente panorama, em que a vista se alonga extasiada desde o formoso anfiteatro do Funchal até ás freguesias do concelho da Ponta do Sol.
2Notícia dum director de obras públicas
No relatório de um antigo director de obras publicas distritais na Madeira, encontramos uma curiosa noticia acerca deste conhecido ponto da nossa costa marítima, que vamos parcialmente transcrever, em virtude do interesse que ela porventura possa oferecer a algum dos nossos leitores.
«No Cabo Girão há um desnível, a prumo sobre o mar de 633 metros, altura grandiosa, que não se encontra facilmente em outro ponto do globo. Quando, estudando a estrada real do Funchal a S. Vicente, passei na parte superior do Cabo Girão e verifiquei pelo nivelamento a verdade desta altitude, e quis experimentar a impressão que sentiria ao contemplar o espectáculo de uma tão grande altura, pois que ouvira afirmar, com admiração, que os touristas ingleses ali se assentavam numa saliência do terreno, dependurando as pernas sobre o abismo. Aproximei-me timidamente da borda da rocha e notei que nenhuma impressão me causou a vista de tamanha altura! A razão era simples: em baixo o mar. . . o mar a perder de vista, imensa planície sem um ponto de referência que me desse a consciência de uma tão grande altura em que estava colocado. Os meus companheiros de trabalho duvidaram do tamanho de semelhante altura, quando um facto de ocasião me facilitou poder provar-lhes que os não havia enganado. Na prumada dessa altura, em baixo, no mar, estava um barco em que se pescava junto á terra. Via-se o barco, muito pequeno, e completamente vazio. Tinha encontrado um ponto de referência. No barco estavam homens que não se podiam avistar, porque a 633 metros de distancia, na vertical, é difícil, se não impossível, ver-se a olho nu a projecção horizontal dum homem, que pouco mais é de que a superfície dum chapéu. . . ».
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 01Lugar
Lugares mencionados · 07- Girão · Assunto
Câmara de Lobos
O Cabo Girão é uma escarpa costeira abrupta na Costa Sul da Madeira, com cerca de 600 metros de altura e uma das mais altas do mundo. Segundo Frutuoso, o nome assinala o fim do percurso do primeiro dia da viagem de descobrimento. A entrada regista também o miradouro construído por volta de 1935 e o relato de um diretor de obras públicas sobre a altura da escarpa.
- Cabo Girão
Câmara de Lobos. Local a que a entrada se refere: uma escarpa abrupta com cerca de 600 metros de altura sobre o mar.
Falésia escarpada com cerca de 600 m de altura (indicada como tendo 589 m) e miradouro recomendado. As suas escarpas contêm filões e é um dos únicos dois locais onde cresce C. dissectum. Uma derrocada matou Henrique Alemão quando este se encontrava no seu barco.
- Campanário
Ribeira Brava. Freguesia atravessada pela estrada nacional perto da escarpa.
O Campanário é uma freguesia da Madeira que pertenceu ao concelho de Câmara de Lobos antes de integrar o da Ribeira Brava e é atravessada pela Ribeira do Campanário (ou Ribeira da Lapa). O Elucidário regista o seu porto, a sua banda, a sua capitania-mor, os dízimos pagos aos Jesuítas, uma antiga capela de São João fundada em 1728 e o vigário condenado pela Alçada de 1823. Foi também terra natal do bispo D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade e do jurista Francisco Justino Gonçalves de Andrade.
- Funchal
Visível do miradouro no extremo oriental do panorama.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Ponta do Sol
As suas freguesias ocupam o extremo ocidental da vista a partir do cimo da escarpa.
Freguesia e concelho da costa sul, povoados a partir de cerca de 1440 por Rodrigo Enes «o Coxo». A igreja paroquial de Nossa Senhora da Luz conserva um tríptico. O Elucidário regista também o cais de 1848, pago pela Câmara Municipal, e a visita régia de 1858.
- Quinta Grande
Câmara de Lobos. Freguesia atravessada pela estrada nacional, da qual se projetou um ramal para o cimo da escarpa.
Quinta Grande é uma freguesia do concelho de Câmara de Lobos, cujo nome provém da maior quinta dos jesuítas, vendida por 140 000 cruzados. Tornou-se curazia em 1820 e foi separada do Campanário como freguesia autónoma em 1848, com sede na capela de Nossa Senhora dos Remédios, cuja festa ali se celebra. Em 1927, tornou-se julgado da comarca do Funchal.
- São Vicente
Destino da estrada real a partir do Funchal que estava a ser estudada quando se mediu a altura da escarpa.
São Vicente é descrita como a maior e mais populosa freguesia do norte da Madeira e sede da única vila da costa norte. O Elucidário aborda o seu povoamento, a história da igreja, os sítios e a paisagem, bem como o deslizamento de terras de 1929, que causou vítimas mortais.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 01- Gaspar Frutuoso1522–1591
Cronista do século XVI, autor de Saudades da Terra, que explicou o nome Cabo Girão como referência ao fim do percurso do primeiro dia da viagem de descobrimento.