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Estradas 1Estado da viação e legislação
Artigo Nº 1335 Transportes, comunicações e obras públicas Vol. I · pp. 799–805 10 min de leitura

Estradas

Panorama das estradas da Madeira: o seu mau estado histórico, o programa de construção rodoviária iniciado após a autonomia administrativa de 1901, os decretos que financiaram a rede e os itinerários e distâncias das estradas nacionais e das novas estradas.

Estradas

1Estado da viação e legislação

Relativamente ao ano em que se publicou a primeira edição desta obra, deixámos dito, com inteira verdade, que a viação na Madeira estava ainda muito atrasada. A maior parte das estradas da ilha não se prestava a certos meios de transporte cómodos e rápidos, por causa da sua inclinação e péssimo empedramento, e outras, embora mais planas, não passavam de simples veredas, por onde só se pode transitar a pé ou em rede. A Junta Geral do distrito tem procurado nestes últimos anos remediar este mal, melhorando certas vias de comunicação e estabelecendo outras entre diversas localidades há, porém, muito ainda a fazer para dotar esta ilha com uma boa rede de estradas, não sendo exagero dizer-se que em muitos pontos da costa do norte, e mesmo da do sul, a viação se encontra no mesmo estado em que estava no tempo dos donatarios (1922).

As vias de comunicação na Madeira eram, sem contestação possível, as piores de todo o nosso país, devido a variadas causas e especialmente ao inverosímil acidentado dos terrenos e ainda a outras inevitaveis condições do meio. A maior parte delas não merecia o nome de estradas, pois que na sua generalidade eram estreitas veredas praticadas num solo de penoso e dificilimo piso, sobranceiras a insondaveis abismos e costeando os flancos de elevadas montanhas, oferecendo quasi sempre aos viandantes os mais graves incómodos e perigos. Até o ano de 1901, em que foi concedida a autonomia administrativa a este distrito, somente havia nove quilómetros duma boa estrada, que punha a cidade do Funchal em comunicação com a vila de Câmara de Lobos. Começou então e prossegue ainda a construção duma larga rede de estradas, que dentro de poucos anos tornará fácil o percorrer-se toda a ilha em viação acelerada e serem rápida e comodamente visitadas as suas principais localidades.

Além das receitas próprias, a Junta Geral do Distrito foi autorizada pelo decreto de 12 de Julho de 1912 a contrair um empréstimo destinado exclusivamente á construção das estradas. O decreto de 25 de Junho de 1935 determinou a vinda a este arquipélago duma missão técnica encarregar de estudar e propor as necessárias providencias para a execução da rede das estradas e o decreto de 14 de Abril de 1938 aprovou o plano apresentado por essa comissão de estudos, procedendo-se diligentemente á realização dos respectivos trabalhos de construção.

Pela sua nimia importância e indispensável esclarecimento ao grandioso projecto da conclusão da rede das nossas estradas, vamos transcrever alguns artigos do decreto que deixámos citado:

  1. Artigo 1.º. O plano de trabalho para a execução da rede complementar das estradas da ilha da Madeira, na importância total de 44.000.000$, é o que consta do mapa anexo a este decreto.
  2. Art. 2.º . Os trabalhos relativos a este plano deverão ser executados em três fases, a saber:
    1. a) A primeira, na importância de 15.000.000$, deverá ser executada num período de três anos, a que corresponde uma dotação anual de 5.000.000$
    2. b) As outras duas fases, na importância total de 29.000.000$, deverão realizar-se em períodos de cinco anos cada uma, o que corresponde á dotação anual de 3.000.000$ nos nove primeiros anos e de 2.000.000$ no último ano.

Art. 3.º. As obras constantes deste plano serão comparticipadas pelo Governo na proporção de 75 por cento do seu custo, ficando os 25 por cento restantes a cargo da Junta Geral Autónoma do distrito do Funchal. § único. Pode o Governo autorizar esta Junta Geral a contrair um empréstimo para fazer face aos encargos que lhe competirão”.

As antigas estradas reais denominam-se nacionais depois da implantação da Republica no país, sendo as mais importantes as que têm os números 23, 24, 25, 26, 27 e 28 no respectivo mapa de viação distrital, já pela sua extensão, já porque estabelecem comunicações entre as principais localidades da ilha. Os mapas seguintes indicam a direcção que seguem as mesmas estradas, bem como as distancias que separam os principais sítios ou povoações que elas atravessam:

2Estradas nacionais

Estrada Nacional n.º 23

Pontos extremos e intermediosQuilometros
Do Funchal (Sé) a Câmara de Lobos (Igreja)9.958
De Câmara de Lobos á Quinta Grande (Igreja)4.998
Da Quinta Grande ao Campanário (entroncamento do caminho para a Igreja)3.069
Do Campanário á Ribeira Brava (entroncamento do ramal do Cais-Igreja)4.684
Da Ribeira Brava á Tabua (Corujeira)1.291
Da Tabua á Ponta do Sol (cais)3.000
Da Ponta do Sol á Madalena (igreja)4.560
Da Madalena ao Arco da Calheta (Fajã do Mar)1.440
Do Arco da Calheta á Calheta (Igreja)4.840
Da Calheta ao Estreito (entroncamento do caminho para a Igreja)3.680
Do Estreito aos Prazeres (entroncamento do ramal do Paúl)3880
Dos Prazeres á Fajã da Ovelha (entroncamento do ramal do Paul)6.624
Da Fajã da Ovelha á Ponta do Pargo (entroncamento do ramal do Pesqueiro)5.701
Da Ponta do Pargo as Achadas (Igreja)9.325
Das Achadas ao Porto Moniz (Igreja)7.720
Do Porto Moniz á Ribeira da Janela (Igreja)3.880
Da Ribeira da Janela ao Seixal (Igreja)7.695
Do Seixal a S. Vicente (Igreja)8.033
De S. Vicente á Ponta Delgada (entroncamento do ramal do porto)7.038
Da Ponta Delgada á Boa Ventura (entroncamento da estrada n.º 27)2.569
Da Boa Ventura ao Arco de S. Jorge (Igreja)2.975
Do Arco de S.Jorge a S.Jorge (Igreja)6.760
De S. Jorge a Sant,Ana (igreja)6.380
De Sant,Ana ao Faial (igreja)4.720
Do Faial a S. Roque do Faial (Igreja)2.260
De S. Roque ao Porto da Cruz (Igreja)2.700
Do Porto da Cruz a Machico (entroncamento do ramal do cais)11.000
De Machico a Santa Cruz (vila)8.220
De Santa Cruz ao Porto Novo4.740
Do Porto Novo ao Caniço (entroncamento do ramal da Ponta da Oliveira)3.440
Do Caniço a S. Gonçalo (entroncamento do caminho da igreja)5.520
De S. Gonçalo ao Funchal (Sé)3.480
Pontos extremos e intermediosQuilometros
Extensão desta estrada166,180

Estrada Nacional n.º 24

Pontos extremos e intermédiosQuilometros
Do Funchal (Carmo) ao Monte (igreja)3.217
Do Monte ao Poiso6.783
Do Poiso ao Ribeiro Frio4.240
Do R. Frio á Cruzinha4.760
Da Cruzinha a Sant'Ana9.160
Extensão desta estrada28,160

Estrada Nacional n.º 25

Pontos extremos e intermédiosQuilometros
Do Funchal (Ponte de S. João) a S.Martinho (Igreja).3.000
De S. Martinho ao Estreito de Câmara de Lobos(Igreja)6.000
Do Estreito de Câmara de Lobos ao entroncamento do caminho do Jardim da Serra3.520
Do dito Entroncamento á Cumeada de S. Vicente14.080
Da Cumeada ao Rosário4.150
Do Rosário a S. Vicente (Igreja)4.200
Extensão desta estrada34.950

Estrada Nacional n.º 26

Pontos extremos e intermédios Quilómetros

Pontos extremos e intermédiosQuilómetros
Da Ribeira Brava (ponte) á Serra de Água (entroncamento do caminho para a Igreja)7.520
Da Serra de Água á Cumeada de S.Vicente5,540
Extensão desta estrada13,060

Estrada Nacional n.º 27

Pontos extremos e intermedios Quilómetros

Pontos extremos e intermediosQuilómetros
Do Funchal (Maravilhas) a Santo Antonio (Igreja)2.495
De Santo Antonio ao entroncamento do Caminho da Igreja do Curral11.350
Do Curral á Boaventura (Igreja)19.085
Da Boaventura ao entroncamento da Estrada n.º 230.537
Extensão desta estrada33.467

Estrada Nacional n.º 28

Pontos extremos e Intermedios Quilómetros

Pontos extremos e IntermediosQuilómetros
Da Ponta do Sol ás Cruzinhas5.000
Das Cruzinhas á Cumeada (beira do Paul)2.350
Da Cumeada ás Casas do Paúl2.650
Das Casas do Paúl aos Estanquinhos3.000
Dos Estanquinhos ao Caramujo1.450
Do Caramujo ás Feiteiras (S. Vicente)4.825
Extensão desta estrada19,275

Estas estradas, que são em geral de mau piso e por vezes oferecem perigo aos viandantes, como já ficou referido, perderam a sua antiga importância e deixaram de ser tão frequentemente transitadas nos pontos em que as novas e recentes estradas as vieram substituir com a maior vantagem. No entretanto continuam prestando excelentes serviços como meios de comunicação entre diversas localidades e são os verdadeiros caminhos vicinhais para os habitantes que têm as suas moradias nas imediações dessas mesmas estradas. Não devem por isso ser deixadas ao abandono, merecendo continuadas reparações para a sua conservação e melhoramento.

3Estradas novas

Como acima ficou dito, foi depois da concessão da autonomia administrativa, no ano de 1901, que se iniciou e prossegue ainda a construção da importante rede de estradas, que se vai estendendo por toda a ilha, permitindo já a visita rápida e cómoda a mais de vinte freguesias rurais e sendo de esperar que decorridos poucos anos se poderão estabelecer fáceis comunicações entre todas as paróquias da Madeira. Não existe uma medição oficial das novas estradas construidas, mas conseguimos obter alguns dados, que nos fornecem uma estimativa muito aproximada da sua extensão e que em seguida apresentamos.

Estrada pelo lado de leste Quilometros

Estrada pelo lado de lesteQuilometros
Do Funchal ao Caniço9.500
Do Caniço a Gaula6.000
De Gaula a Santa Cruz3.500
De Santa Cruz a Machico7.000
De Machico á Portela7.000

Estrada pelo lado de oeste Quilometros

TroçoQuilometros
Do Funchal a Câmara de Lobos9,000
Câmara de Lobos ao Estreito de Camara de Lobos4.500
Do Estreito á Quinta Grande7.000
Da Quinta Grande ao Campanário4.000
Do Campanário á Ribeira Brava6.000
Da Ribeira Brava á Tabua3.500
Da Tabua à Ponta do Sol5.500
Da Ponta do Sol aos Canhas2.500
Dos Canhas ao Arco da Calheta (Loreto)9.000
Do Loreto á Calheta (Estrela)7.000
Da Estrela ao Estreito da Calheta3.400
Do Estreito da Calheta aos Prazeres7.000
Dos Prazeres á Fajã da Ovelha (Raposeira)4.000

Da Ribeira Brava á Ponta Delgada Quilometros

TroçoQuilometros
Da Ribeira Brava á Serra de Água8.000
Da Serra de Água á Encumeada15.000
Da Encumeada a S. Vicente14.000
De S. Vicente á Ponta Delgada8.000

Do Funchal ao Ribeiro Frio Quilómetros

TroçoQuilómetros
Do Funchal ao Monte6.000
Do Monte ao Poiso15.500
Do Poiso ao Ribeiro Frio20.000

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 05
  1. Na sequência da lei de 22 de maio de 1901, um decreto de 8 de agosto de 1901 estendeu o regime autonómico açoriano ao Distrito do Funchal, criando uma Junta Geral eleita por sufrágio direto que assumiu as obras públicas distritais; seguiu-se a construção de estradas.

  2. Um decreto autorizou a Junta Geral a contrair um empréstimo para a construção de estradas.

  3. A primeira edição do Elucidário observou que as estradas continuavam como no tempo dos donatários.

  4. Um decreto enviou uma missão técnica para estudar a rede rodoviária da Madeira.

  5. Um decreto aprovou um plano de 44 000 contos para a rede rodoviária complementar da Madeira, financiado em 75 % pelo Estado.

Lugar

Lugares mencionados · 14
Mapa: Madeira (14)
  1. Câmara de Lôbos

    Câmara de Lobos. Ligada ao Funchal pela única estrada em boas condições antes de 1901.

  2. Curral das Freiras

    Câmara de Lobos. Situado na estrada 27.

  3. Encumeada

    São Vicente. Passagem de montanha atravessada pelas estradas 25 e 26 e pela nova estrada do norte.

  4. Funchal

    Ponto de partida da maioria das estradas descritas.

  5. Machico

    Situado na estrada 23 e na nova estrada do leste.

  6. Monte

    Funchal. Situado na estrada 24.

  7. Paul da Serra

    Ponta do Sol. Planalto atravessado pela estrada 28.

  8. Poiso

    Santa Cruz. Ponto de passagem da estrada 24.

  9. Portela

    Machico. Terminus da nova estrada do leste.

  10. Porto Moniz

    Situado na estrada 23.

  11. Ribeira Brava

    Ponto de partida da estrada nacional 26.

  12. Ribeiro Frio

    Santana. Ponto de passagem da estrada 24 e terminus de uma nova estrada.

+ 2 mais

Pessoas

Pessoas mencionadas · 01
  1. Autor de um artigo sobre os transportes rodoviários na Madeira, citado como fonte.

Na folha E

Vistos recentemente

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