Transporte. (Meios de) 1Carros de bois e corsas
Transporte. (Meios de)
Entrada sobre os meios de transporte tradicionais na Madeira por volta de 1905, que cita o opúsculo de Joaquim Maria Fragoso sobre as estradas da ilha: carros de bois sem rodas, corsas, redes, cavalos, os primeiros veículos de rodas, o caminho de ferro do Monte e os carros de cesto do Monte.
1Carros de bois e corsas
Nos artigos Carros do Monte, Corsa, Palanquim e Rede, deixámos algumas informações acerca dos meios de condução e de transporte usados nesta ilha, a que queremos acrescentar mais alguns elementos, extraídos do opúsculo Duas Palavras sobre a viação na Ilha da Madeira, da autoria de Joaquim Maria Fragoso, antigo director das Obras Públicas da Junta Geral, que, embora referidos ao ano de 1905, oferecem ainda particular interesse ao nosso assunto:
«Nas ruas da cidade do Funchal, e nos caminhos que, como estas, são calcetados, o modo de condução mais usual é o carro puchado a bois. Estes carros compõem-se de uma caixa de vimes ou madeira, com uma armação de ferro que sustenta um toldo ou tecto d'onde pendem cortinas, e é assente em mollas fixas numa espécie de trenó de madeira. Não tem rodas, nem jogo deanteiro, e é puchado por bois, que ali são de qualidade pequenos, mas de uma velocidade notável.
Adeante d'estes bois vae um rapaz, a que chamam candeeiro, pegando no jogo; e ao lado do carro um homem que pica os bois, e guia o carro, lançando-lhe a mão, e puchando-o para um ou outro lado. Para o transporte de cargas usam as corsas ou corsões (corsas grandes), que se compõem de dois madeiros parallelos e unidos entre si, com o comprimento de 1,6 m. a 3,0 m., e largura de 0,50 m.
Para facilitar o attrito e escorregamento dos carros e corsas um pano cheio de sebo, que lançam no chão, adeante do carro, e sobre o qual este passa, deixando ensebada a superfície de arrasto do trenó e as calçadas das ruas, apezar de uma postura municipal prohibir o uso do sebo. Assim, quando uma chuva miúda humedece as calçadas, é dificílimo o caminhar por ellas sem escorregar. Talvez por este ensebamento das calçadas, e pela natureza da pedra, e declive das ruas, na cidade do Funchal não ha poeira, o que é mais uma condição hygienica a juntar a tantas que aquelle ameníssimo clima offerece aos "doentes" que ali vão restabelecer a saúde.
2Rêde, cavalos e carros de rodas
No resto da Ilha, usa-se geralmente a rede, suspensa de uma vara, que assenta nos hombros de dois homens. Esta maneira de viajar é muito despendiosa, já pelo jornal dos homens (três ou quatro que se revezam para transportar uma pessoa), já porque é necessário dar-lhe frequentemente de beber. Não se passam 3 kilometros que elles não parem nas tabernas, sempre em abundância por toda a Ilha, para beberem a poncha (mistura de aguardente, agua, assucar e casca de limão); e não se pode regatear gorgetas a quem dispõe da nossa vida. Se um dia viajardes em rede na Ilha da Madeira, recommendo-vos o maior cuidado na escolha d'estes homens, que muitas vezes têem o vicio da embriaguez, e que são, por isso, um verdadeiro perigo a accrescentar a tantos outros, que offerecem estas estradas reaes.
-Também se viaja a cavallo, em garranos ou ponneys acostumados a estes caminhos; e até, no Funchal, ha cavallos magnificos para alugar, o que admira, pois que, em geral cá pelo continente os cavallos de aluguer são as alimárias mais ronceiras.
No Funchal ha já alguns carros de rodas (char-à-banes) mas poucas são as ruas por onde estes vehiculos podem transitar; e apenas fazer carreiras para Câmara de Lobos, pela estrada monumental em que já vos fallei.
3Monte, caminho de ferro e carros do Monte
Superior á cidade do Funchal, e a uma altitude de 595 metros, está situada a Egreja de Nossa Senhora do Monte. Ha em volta d'ella parques formosíssimos, já pela sua vegetação, abundância de aguas e amena temperatura no verão, já pelo lindíssimo panorama que dalli se desfructa. É a Cintra da
Madeira, com lindos chalets e magníficos hotéis, que oferecem aos visitantes todas as comodidades do luxo moderno. Ir à Madeira, e não ir ao Monte, é, como diz o adagio, ir a Roma e não ver o Papa.
Entre o Funchal e o Monte ha um caminho de ferro, por onde uma locomotiva a vapor (com cremalheira) faz aquella ascensão em dez minutos, n'uma rampa que chega a 25 por cento de inclinação. E já que vos estou fallando nos modos de condução da Madeira, não deixarei de mencionar os chamados — carros do Monte ou cestos — que a maior parte dos visitantes aproveitam na descida. Consistem estes n'um taboleiro de vimes, assentes em dois paus ou réguas, untadas com sebo, tendo um assento ou canapé com costas, também de vimes, onde cabem duas ou três pessoas. Na frente e de cada lado, estão presas duas cordas, em que pegam dois homens, que caminham atraz, e aos lados do carro e com estas cordas o sustêem e guiam. Estes carros são impellidos pela ladeira abaixo por estes dois homens, que, para isso, põem um dos pés sobre o carro, fazendo com o outro pressão na calçada do caminho. Estão tão práticos neste serviço, em que a gravidade é aproveitada como força motora, que guiam o carro com perícia, e o param todas as vezes que é necessário. E assim descemos do Monte pela estrada real n.° 24, em cinco minutos, n'um percurso de 4 kilometros, realizando uma velocidade de 48 kilometros por hora!
Como vedes, alguns d'estes meios de conducção são tão originaes, que constituem um verdadeiro attractivo, que, conjunctamente com o clima admirável d'esta ilha, esplendidos panoramas que ella possue, e curiosidades que interessam às sciencias naturaes, muito e muito concorrem para chamar ali a frequência de estrangeiros de importância social e de fortuna. Façam-lhe, se possível, uma viação completa, e nas condições normaes, atravessem-na com caminhos de ferro, passejem-na em coupés e victorias, e desapparecendo de todo os originaes, meios de conducção que ella hoje possue, a Ilha da Madera perderá muito da sua originalidade». (1921). Relaciona-se estreitamente com o objecto deste artigo o que deixamos dito a páginas 417 do volume I, sob o título de Estradas.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 01Lugar
Lugares mencionados · 05- Câmara de Lôbos
Câmara de Lobos. Destino do serviço de carruagens que partia do Funchal.
Freguesia a oeste do Funchal. O Elucidário relaciona o seu nome com a viagem de descoberta de Zarco e descreve as suas igrejas, capelas e colegiada, os primeiros povoadores, a comunidade piscatória e as vinhas afamadas. Regista também os sítios, limites, levadas e população da freguesia.
- Estrada Real n.º 24
Funchal. Estrada de descida do Monte utilizada pelos carros de cesto.
Estrada de descida do Monte utilizada pelos carros de cesto.
- Funchal
Cidade cujas ruas calcetadas eram percorridas por carros de bois sem rodas.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Igreja de Nossa Senhora do Monte
Funchal. Igreja situada 595 m acima do Funchal, no centro da estância do Monte.
Igreja de peregrinação e, desde 1565, igreja paroquial do Monte, situada a 595 m de altitude, acima do Funchal, no centro da estância do Monte. Foi reconstruída entre 1741 e 1747 e consagrada em 1818; o imperador Carlos está ali sepultado. A imagem de Nossa Senhora do Monte partia da igreja e a ela regressava nas procissões penitenciais.
- Monte
Funchal. Estância de montanha, a «Sintra da Madeira», acessível por caminho de ferro.
Freguesia de Nossa Senhora do Monte, acima do Funchal, a cerca de 600 m de altitude, onde o aparecimento das folhas ocorre mais tarde do que no Funchal. Inclui os sítios do Jardim Botânico, da Igreja e dos Marmeleiros e a Quinta de Sant'Ana. O Elucidário regista as suas numerosas plantas, entre elas acácias e Sonchus fruticosus.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 01- Joaquim Maria Fragosom. 1923
Antigo diretor das Obras Públicas da Junta Geral e autor do opúsculo sobre as estradas madeirenses citado nesta entrada.