Caminho de Ferro do Monte 1Concessão e construção
Caminho de Ferro do Monte
História do Caminho de Ferro do Monte, uma linha de cremalheira que ligava o Funchal (Pombal) ao Monte e, mais tarde, ao Terreiro da Luta, desde a concessão em 1887 até à explosão mortal de uma caldeira em 1919, passando pela construção e pelo prolongamento de 1912.
1Concessão e construção
Foi Antonio Joaquim Marques, de Lisboa, quem primeiro se lembrou de estabelecer um elevador ou caminho de ferro de cremalheira entre o Funchal e o Monte, tendo a proposta que neste sentido apresentou á camara, sido aceita em sessão de 17 de Fevereiro de 1887. Alguns estudos fêz o engenheiro Raul Mesnier desde 1886 com o fim de estabelecer o plano que melhor conviria seguir na execução da obra, mas como surgissem dificuldades que se não haviam previsto, resolveu-se o referido Marques a transferir para o capitão Manuel Alexandre de Sousa, natural da Madeira, a concessão que obtivera, o que foi permitido pela Camara em sessão de 24 de Julho de 1890.
Em 22 de Janeiro de 1891 foi aprovado pela Camara o projecto para a construção do elevador, achando-se constituída já nessa epoca a Companhia do Caminho de Ferro, em virtude de contrato celebrado com o referido concessionario, e poucos tempos depois começavam as obras no sitio da Confeiteira, onde havia grandes muralhas a levantar. Segundo o contrato celebrado entre a Camara e a emprêsa do Caminho de Ferro, a expropriação dos terrenos necessarios para o estabelecimento da linha ferrea deveria ser feita pela Municipalidade, correndo porém as despesas por conta da mesma Emprêsa, a quem a estrada ficaria pertencendo durante 99 anos, passando depois a ser publica.
O primeiro trôço do Caminho de Ferro, entre o Pombal e a Levada de Santa Luzia, foi inaugurado a 16 de Julho de 1893, e a 5 de Agôsto de 1894 iniciavam-se as viagens entre o Pombal e o Atalhinho, havendo por essa ocasião ruidosos festejos na freguesia do Monte. As obras foram dirigidas a principio pelo capitão Manuel Alexandre de Sousa, fiscal tecnico da Companhia, mas tendo os serviços deste oficial sido dispensados em 29 de Agôsto de 1893, ficou daí em diante a superintendencia das mesmas obras a cargo dos engenheiros civis srs. Anibal e Adriano Trigo, que tiveram de corrigir alguns erros cometidos pelo seu antecessor.
Do relatorio e contas da Direcção do Caminho de Ferro, referentes ao ano de 1894, vê-se que nas obras até ao sitio do Atalhinho, se dispendeu a importante quantia de 44:899$679 réis, sendo 2:229$210 réis no rebaixamento de uma parte da estrada, que tinha uma inclinação superior á que podia ser vencida pelas locomotivas.
2Prolongamento e descrição da linha
Em reunião da assembleia geral da Companhia do Caminho de Ferro do Monte, de 12 de Julho de 1910, foi resolvido prolongar a linha ferrea até o Terreiro da Luta, e em 4 de Agôsto do mesmo ano sancionou a Camara esta deliberação, vindo essa parte da linha e o grande restaurante construído naquele sitio a serem inaugurados no dia 24 de Junho de 1912.
Entre o Pombal e o Monte há 2500 metros de linha ferrea, e entre o Pombal e o Terreiro da Luta 3850.
Dificuldades pecuniarias com que lutou a Companhia do Caminho de Ferro por ocasião da abertura da estrada e do assentamento da linha ferrea até o Monte, obrigaram-na a recorrer ao credito por duas vezes e a não distribuir dividendo pelos accionistas durante largo tempo. Há muito, porém, que a Companhia tem a sua situação regularizada, a pesar dos prezuízos consideraveis que sofreu durante a guerra, com o afastamento da navegação do nosso porto e o prêço exorbitante que atingiu o carvão de pedra (1923).
Estende-se esta linha desde o Pombal, onde se encontra a principal estação e os escritorios da Companhia até o Terreiro da Luta, que é o seu “terminus”, ficando este ponto a cêrca de mil e quinhentos metros de distancia da Igreja Paroquial do Monte e numa altitude de 850 metros acima do nivel do mar. A extensão de tôda a linha é aproximadamente de quatro quilometros, tendo alguns apeadeiros no seu percurso e uma estação no sitio da Fonte. Mantém um serviço de carros para as diversas estações e apeadeiros, que em certos dias se torna mais frequente, quando se dá uma maior afluencia de turistas. No sitio do Terreiro da Luta, no têrmo da linha, donde se disfruta um dos mais maravilhosos panoramas, sustenta a Companhia do Caminho de Ferro um excelente restaurante, magnificamente instalado e que rivaliza com os melhores do seu genero no estrangeiro.
No dia 10 de Setembro de 1919, pouco depois das 6 horas da tarde, deu-se uma grande explosão na caldeira duma das locomotivas do Caminho de Ferro do Monte, na ocasião em que o comboio passava entre a Levada e o Livramento, em viagem ascendente. De cêrca de 56 pessoas que conduziam o carro e a locomotiva, 4 morreram na ocasião da explosão, ficando muito feridas, algumas delas gravemente. Por causa deste desastre estiveram suspensas as viagens para o Monte até 1 de Fevereiro de 1920, o que bastante prejudicou os interêsses da Companhia.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 09-
A Câmara do Funchal aceitou a proposta de António Joaquim Marques para construir um caminho de ferro de cremalheira entre o Funchal e o Monte.
-
A Câmara do Funchal autorizou a transferência da concessão do Caminho de Ferro do Monte para Manuel Alexandre de Sousa.
-
A Câmara aprovou o projeto de construção do Caminho de Ferro do Monte.
-
Foi inaugurado o primeiro troço do Caminho de Ferro do Monte, entre o Pombal e a Levada de Santa Luzia.
-
Foram dispensados os serviços de Manuel Alexandre de Sousa no Caminho de Ferro do Monte.
-
O Caminho de Ferro do Monte iniciou o serviço entre o Pombal e o Atalhinho, com festejos no Monte.
-
A companhia do Caminho de Ferro do Monte decidiu prolongar a linha até ao Terreiro da Luta.
-
Foram inaugurados o prolongamento do Caminho de Ferro do Monte até ao Terreiro da Luta e o respetivo restaurante.
-
A explosão da caldeira de uma locomotiva do Caminho de Ferro do Monte causou quatro mortos e muitos feridos.
-
O serviço do Caminho de Ferro do Monte foi retomado após a explosão.
Lugar
Lugares mencionados · 10- Atalhinho
Funchal. A linha chegou ao Atalhinho em 1894.
Atalhinho é um sítio da freguesia do Monte, no Funchal. O caminho de ferro do Monte chegou ali em 1894, e o sítio constituía uma das extremidades de um troço da linha.
- Confeiteira
Funchal. Local onde as obras começaram com a construção de grandes muros de suporte.
A Confeiteira é um sítio da freguesia do Monte, no Funchal. Assinalava o limite da iluminação pública no Monte, e as obras do caminho de ferro do Monte começaram ali com a construção de grandes muros de suporte.
- Fonte
Funchal. Local de uma estação intermédia.
A Fonte é um sítio da freguesia do Monte, no Funchal, onde se situa o Largo da Fonte. Ali existiu uma estação intermédia do caminho de ferro do Monte.
- Funchal
Extremo inferior da linha de caminho de ferro.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Igreja de Nossa Senhora do Monte
Funchal. Situada a cerca de 1500 m do término da linha.
Igreja de peregrinação e, desde 1565, igreja paroquial do Monte, situada a 595 m de altitude, acima do Funchal, no centro da estância do Monte. Foi reconstruída entre 1741 e 1747 e consagrada em 1818; o imperador Carlos está ali sepultado. A imagem de Nossa Senhora do Monte partia da igreja e a ela regressava nas procissões penitenciais.
- Levada de Santa Luzia
Funchal. Termínio do primeiro troço, inaugurado em 1893.
A Levada de Santa Luzia é a mais antiga e importante levada particular da Madeira. Nasce na bacia da ribeira de Santa Luzia e foi protegida por um alvará régio de 1515. No século XVI, regava canaviais; atravessa grande parte da freguesia de Santa Luzia, assinalando o seu limite norte, e é acompanhada por uma estrada com vistas panorâmicas e quintas. A sua comissão disputou com a Câmara as nascentes dos Tornos, onde foi construído um reservatório em 1934.
- Livramento
Funchal. Perto do local da explosão de 1919.
Sítio habitado da freguesia do Monte, no Funchal, cujo nome provém da sua Capela de Nossa Senhora do Livramento, vinculada a um morgadio (1684). Tem também uma Capela do Sagrado Coração de Jesus de construção recente.
- Monte
Funchal. Freguesia servida pelo caminho de ferro.
Freguesia de Nossa Senhora do Monte, acima do Funchal, a cerca de 600 m de altitude, onde o aparecimento das folhas ocorre mais tarde do que no Funchal. Inclui os sítios do Jardim Botânico, da Igreja e dos Marmeleiros e a Quinta de Sant'Ana. O Elucidário regista as suas numerosas plantas, entre elas acácias e Sonchus fruticosus.
- Pombal
Funchal. Local da estação principal e dos escritórios da companhia.
Pombal é um sítio do Funchal e o terminal inferior do caminho de ferro do Monte, onde se situavam a estação principal e os escritórios da companhia. Assinalava também o fim do troço ferroviário supervisionado por Manuel Alexandre de Sousa e era um dos terminais do Caminho de Ferro Americano.
- Terreiro da Luta
Funchal. Término da linha a partir de 1912, a 850 m de altitude, com o restaurante da companhia.
O Terreiro da Luta é um local panorâmico da freguesia do Monte, a 850 m de altitude, onde a tradição situa uma aparição da Virgem. A partir de 1912, foi a estação terminal do caminho de ferro do Monte e dispunha de um restaurante; ali se realizaram almoços oficiais em honra de visitantes ilustres. Tem uma estátua de bronze de Zarco e o monumento a Nossa Senhora da Paz, inaugurado em 1927.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 05- Adriano Augusto Trigon. 1862
Engenheiro civil que supervisionou as obras do caminho de ferro após 1893, juntamente com Aníbal Trigo.
- Aníbal Augusto Trigo1865–1944
Engenheiro civil que supervisionou as obras do caminho de ferro após 1893 e corrigiu erros anteriores.
-
Lisboeta que apresentou a primeira proposta para o caminho de ferro de cremalheira entre o Funchal e o Monte, aceite pela Câmara Municipal em 1887.
- Manuel Alexandre de Sousa1856–1903
Capitão madeirense que assumiu a concessão em 1890 e dirigiu as obras até ser afastado em 1893.
-
Engenheiro que realizou estudos preliminares para o caminho de ferro do Monte a partir de 1886.