Alvares (Padre Manuel) 1Ascendência e vocação
Alvares (Padre Manuel)
Biografia do jesuíta Padre Manuel Álvares (1526–1583), nascido na Ribeira Brava e um dos latinistas mais célebres do seu tempo, cuja gramática latina De Institutione Grammatica teve centenas de edições e traduções.
1Ascendência e vocação
Dizem antigos nobiliarios madeirenses que Afonso Alvares Columbreiro, natural duma povoação dos subúrbios de Sevilha, foi um dos primeiros e nobres povoadores do lugar da Ribeira Brava e que ali fundara as capelas de Santa Catarina e S. Bento no morgadio por ele instituído e que tinha a sua sede naquela freguesia. Uma sua neta, por nome Brigida Gonçalves e o marido desta João Mealheiro ou Malheiro, que tinham foro de fidalgos, foram os ascendentes do padre Manuel Alvares, que procede portanto de nobre linhagem, o que aliás pouco acrescenta aos seus incontestaveis méritos e virtudes. Seus pais eram Sebastião Gonçalves e Beatriz Alvares, que conservaram as regalias de nobreza herdadas de seus maiores.
Todos os seus biógrafos, incluindo o autor da Synopsis Annalium Societatis Jesu in Lusitania, afirmam que entrou para o instituto da Companhia de Jesus a 4 de Julho de 1546, tendo 20 anos, e que morreu em Évora a 30 de Dezembro de 1583 com 57 anos de idade. Deve, pois, ter nascido em 1526, época em que nesta diocese não era ainda regular o registo dos nascimentos, não se encontrando por isso o respectivo assento no arquivo paroquial da Ribeira Brava, como mais duma vez tivemos ocasião de verificar.
Amanhecera nele a vocação eclesiástica, pois já em 1538 recebera as ordens sacras, chamadas menores, das mãos de D. Ambrosio Brandão, bispo titular de Rocina, que viera a esta ilha exercer temporariamente as funções episcopais. Conta o padre Antonio Franco que aportando ao Funchal uma nau, que navegava para a Índia, lançara em terra por motivo de doença, um religioso da Companhia de Jesus, que se recolhera no hospital a tratar da enfermidade que o acometera. Fora visita-lo Manuel Alvares a fim de obter noticias e informações acerca dum seu antigo e condiscípulo, e do trato que teve com o religioso nasceu o desejo de abraçar a ordem de Santo Inacio, que desde a sua fundação, em 1540, gozava de extraordinária fama e atraía muitas vocações eclesiásticas. Em breve deixou a casa paterna e entrou na congregação dos Jesuítas em 1546, como já fica referido.
Durante os seus trabalhos escolares, em que se revelou um estudante de extraordinário talento, mostrou uma especial predilecção pelo cultivo das línguas mortas latina, grega e hebraica, e em breve se tornou, na primeira delas, uma verdadeira autoridade, sendo tido como um dos mais notáveis latinistas do seu tempo. Tinha também grande conhecimento das línguas siro-caldaica e árabe e conhecia ainda outras línguas orientais.
2A gramática latina e últimos anos
Das obras que escreveu, foi a sua gramática da língua latina De Institutione Grammatica que lhe deu renome universal. Para bem se aquilatar do seu valor, bastará dizer que, além das inúmeras edições que dela se fizeram em língua latina, foi traduzida em francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, boémio, croata, flamengo, hungaro, polaco, chinês e japonês.
Depois dos Lusiadas, nenhuma obra de autor português logrou ser traduzida e reeditada tantas vezes. Edgard Prestage, no seu estudo sobre D. Francisco Manuel de Melo, publicado ha poucos anos, diz: “este trabalho... tem passado por mais de 400 edições, estando traduzido em todas as línguas, e uma versão chinesa foi publicada em Xangai em 1869. Pouquíssimos livros scientificos têm tido assim três séculos de vida”. José Silvestre Ribeiro, no seu Curso de Litteratura Portuguesa, afirma “que este ilustre madeirense é uma das glórias pedagógicas de Portugal e que o seu livro é a obra mais extensa e intensamente disseminada que tem tido a literatura portuguesa”. Acrescenta ainda, para terminar as citações, o célebre e sábio bispo de Viseu, D. Francisco Alexandre Lobo: «ou no estado ecclesiastico ou na republica das letras não vejo outro portuguez que possa ser preferido a Jeronimo Osorio. Na união de uma e outra cousa não vejo portuguez que lhe possa ser igualado».
Durante duzentos anos foram os livros de Manuel Alvares os tratados clássicos do ensino da língua latina em quasi toda a Europa. O aparecimento, porém, dos trabalhos de Antonio Pereira de Figueiredo e de Luiz Antonio Verney, por meados do século XVIII, deram lugar entre nós a muitas criticas e discussões acerca do valor da obra do célebre jesuíta, e os seus livros, com os progressos da ciência da linguagem no longo período de dois séculos, começaram a perder a autoridade de que gozavam, para o que também bastante concorreu a proibição feita pelo Marquês de Pombal de serem adoptados esses livros no ensino publico ou particular. No entretanto, ainda no segundo quartel do século XIX se fizeram cerca de vinte edições da sua gramática em diversos países da Europa.
Manuel Alvares, além do seu método de ensino da língua latina, escreveu outras obras, algumas das quais ficaram inéditas. A fama que aureolou o seu nome como escritor e erudito e ainda o grande prestigio de que gozava entre os seus confrades, tinham-no indicado para os cargos elevados da sua ordem, e assim foi reitor dos afamados colégios de Lisboa, Évora e Coimbra, revelando sempre a superioridade do seu talento e as eminentes qualidades do seu tacto governativo.
Terminaremos esta nota biográfica com as próprias palavras do autor da Bibliotheca Lusitana:- “De todas as virtudes religiosas era exemplar modelo, merecendo por ellas elogios do seu santo patriarca. Provada a sua tolerancia com uma larga enfermidade, faleceu com grande piedade no Colégio de Évora a 30 de Dezembro de 1583, com 57 anos de idade e 37 de religioso. Passados alguns anos, sendo aberta a sua sepultura em que jaz o seu cadáver se achou incorrupto”.
Em Agosto de 1917, veio ao Funchal o Sr. Dr. Urbano Canuto Soares proceder, por ordem do Ministério da Instrução Publica, a alguns trabalhos acerca da vida e obras do padre Manuel Alvares.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 07-
Provável ano de nascimento do Padre Manuel Álvares.
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O Bispo Ambrósio Brandão veio à Madeira e exerceu funções episcopais em nome do Arcebispo D. Martinho de Portugal, conferindo ordens menores, entre outros, a Manuel Álvares.
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Foi fundada a Companhia de Jesus.
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O Padre Manuel Álvares entrou na Companhia de Jesus.
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O Padre Manuel Álvares morreu no Colégio de Évora.
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Foi publicada em Xangai uma versão chinesa da gramática do Padre Manuel Álvares.
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Urbano Canuto Soares veio ao Funchal investigar a vida e a obra do Padre Manuel Álvares para o Ministério da Instrução Pública.
Lugar
Lugares mencionados · 09No estrangeiro
- Capela de Santa Catarina
Funchal. Capela fundada por Columbreiro.
A Capela de Santa Catarina, no Funchal, foi fundada por volta de 1425 por Constança Rodrigues de Almeida, mulher de João Gonçalves Zarco, junto à primeira casa de madeira deste. É considerada a primeira igreja da Madeira, tem a data de 1425 no portal e possuía um albergue anexo para mulheres pobres. O Convento de São Francisco foi construído em frente.
- Coimbra
Portugal. Cidade onde Álvares foi reitor do colégio jesuíta.
Cidade universitária de Portugal continental onde muitos madeirenses estudaram Direito ou Medicina e onde o Padre Luís Gonçalves da Câmara lecionou e foi reitor do colégio dos Jesuítas. Acolheu o campeonato académico de ténis de mesa de 1921, e os seus dados de dormência e pluviosidade são comparados com os do Funchal.
- Évora
Portugal. Cidade onde Álvares morreu e foi reitor do colégio.
Évora é uma cidade em Portugal Continental com uma sé arquiepiscopal e uma universidade, ligada a vários membros do clero madeirense. Foi a terra natal do bispo D. Estevão Brioso e de D. Martinho de Portugal. O 4.º Conde de Vimioso morreu num convento da cidade.
- Funchal
Cidade onde Álvares conheceu um jesuíta doente no hospital.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Lisboa
Portugal. Álvares foi reitor do colégio jesuíta de Lisboa.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Ribeira Brava
Terra natal de Álvares e sede do morgadio dos seus antepassados.
A Ribeira Brava é uma das freguesias mais antigas da Madeira. Deve o nome à sua ribeira impetuosa e possui vila, porto e cais. O Elucidário aborda a sua igreja colegiada e as respetivas pinturas, o convento franciscano e as capelas, bem como a festa de São Pedro, com barco e dança das espadas. Regista também tumultos contra o sistema métrico e as mortes causadas por disparos das tropas sobre a população durante as eleições de 1884.
- Sevilha
Spain. Local de origem de Columbreiro.
Sevilha é uma cidade estrangeira. O Elucidário regista-a como local de residência de D. Garcia Henriques, antepassado dos Henriques de Noronha, como lugar de origem de Columbreiro e como terra natal do professor Manuel de la Cuadra.
- Xangai
China. Local onde foi publicada uma versão chinesa da gramática em 1869.
Local onde foi publicada uma versão chinesa da gramática em 1869.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 17- Manuel Álvares1526–1583
Latinista jesuíta madeirense, autor de De Institutione Grammatica e figura central deste artigo.
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Povoador oriundo dos arredores de Sevilha que se estabeleceu na Ribeira Brava, fundou capelas e um morgadio e foi antepassado de Manuel Álvares.
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Bispo titular de Rocina que conferiu ordens menores a Álvares na Madeira em 1538.
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Cronista jesuíta que relatou como Álvares conheceu um jesuíta doente no Funchal.
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Autor do século XVIII cujas obras sobre o latim puseram em causa a gramática de Álvares.
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Mãe de Manuel Álvares.
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Neta de Columbreiro e antepassada de Manuel Álvares.
- D. Francisco Manuel de Melom. 1666
Escritor português estudado por Prestage.
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Estudioso citado a propósito das mais de 400 edições da gramática de Álvares.
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Bispo de Viseu citado no artigo.
+ 7 mais
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Humanista português mencionado no elogio de Lobo citado no artigo.
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Marido de Brígida Gonçalves e antepassado de Manuel Álvares.
- José Silvestre Ribeiro1807–1891
Autor citado por considerar Álvares uma das glórias pedagógicas de Portugal.
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Pedagogo do século XVIII cujas obras puseram em causa a gramática de Álvares.
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Ministro que proibiu o uso dos livros de Álvares no ensino.
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Pai de Manuel Álvares.
- Urbano Canuto Soaresn. 1894
Estudioso enviado ao Funchal em 1917 para investigar a vida e a obra de Álvares.