Alvares de Nobrega (Francisco) 1Nascimento e mocidade
Alvares de Nobrega (Francisco)
Biografia de Francisco Álvares de Nóbrega (1772–1806), poeta natural de Machico conhecido por «Camões Pequeno». Perseguido pelo bispo José da Costa Torres e pela Inquisição, suicidou-se em Lisboa. É sobretudo lembrado pelos seus sonetos, publicados nas Rimas em 1804.
1Nascimento e mocidade
Francisco Alvares de Nobrega é hoje um nome quasi inteiramente ignorado, mas que gozou no seu tempo de grande nomeada como poeta, e até era conhecido pela antonomásia de Camões Pequeno. O infortúnio perseguiu-o sempre desapiedadamente desde os mais verdes anos até o fim trágico da sua atribulada existência. Foi o que com inteira verdade se costuma chamar um homem infeliz, parecendo que nunca para ele brilhou o mais pequeno clarão de ventura. Francisco Alvares de Nobrega nasceu na freguesia de Machico “em pobre sim, mas paternal morada” segundo ele mesmo nos diz num dos seus sonetos. Afirma o distinto madeirense Jaime Moniz ter descoberto a data segura do nascimento do poeta, que foi a 30 de Novembro de 1772, e Januario de Nobrega assinala-lhe o ano de 1773, sem indicação do mês e ano. Por um termo de matrícula no Seminário do Funchal, que tivemos ocasião de examinar, vemos que nasceu a 30 de Novembro de 1772, o que corrobora a data indicada por Jaime Moniz, dizendo-se ali que era filho de Domingos de Nobrega. Deixando a freguesia natal, veio para esta cidade, onde se empregou no estabelecimento de fazendas de Marcos João de Ornelas, em casa de quem recebeu a primeira educação, segundo ele próprio refere numa das suas poesias, e foi aí que se lhe revelou o estro poético e começou a tornar-se conhecido como um apreciado cultor das musas.
Por protecção que Marcos de Ornelas lhe dispensou, foi admitido como aluno no Seminário Diocesano, que então se achava instalado no Colégio de S. João Evangelista. “Aí, segundo lemos algures, dando-se pouco aos estudos práticos religiosos, continuou a escrever poesias e algumas delas satíricas, sobretudo contra o bispo D. José da Costa Torres. Com esse género de vida, grangeou a inimizade do prelado e dos seus superiores, e envolvido na perseguição que o bispo fez á maçonaria, foi excluído do seminário, conduzido a uma masmorra e depois mandado para Lisboa, onde jazeu no cárcere ainda algum tempo”.
Sabe-se que o bispo Torres, levado por indicação do governo central e apoiado pelo governador da Madeira, moveu uma tenaz perseguição ás sociedades secretas que se tinham organizado na Madeira no ultimo quarto do século XVIII, do que resultou muitas prisões e o embarque clandestino de vários indivíduos e suas famílias na noite de 19 de Julho de 1792. O prelado excedeu-se e praticou violências e arbitrariedades, que o forçaram a sair desta ilha em circunstancias muito vexatorias para ele. Nas malhas dessa perseguição foi envolvido Francisco Alvares de Nobrega, que, mesmo em Lisboa, continuou a ver pesar sobre si a mão perseguidora do Bispo.
A transcrição que acima fazemos parece contradizer o que escreve Januario de Nobrega, quando afirma que o poeta concluiu os seus estudos no Funchal e se dirigiu depois para Lisboa a prosseguir na sua carreira, e que ali foi preso pela perseguição que D. José Torres continuava a mover-lhe.
2Prisões, morte e obras
Transferido este para Elvas, sucedeu-lhe nesta diocese o bispo D. Luiz Rodrigues de Vilares, que passou a ser para Alvares de Nobrega um protector desvelado e que o foi arrancar das enxovias do Limoeiro em que jazia. A este facto se refere o poeta com palavras eloquentes e sentidas a paginas onze das suas Rimas. Transcrevemos o que diz seu sobrinho, no lugar já citado:
Foi posto em liberdade, mas o resto da sua vida, salvo curtos intervalos em que ia como poeta, ganhando celebridade, foi uma longa cadeia de infortúnios. Antagonista do fanatismo que então reinava, foi perseguido pela inquisição, gemendo, como Bocage, nos seus cárceres, e pela segunda vez no Limoeiro, donde lhe conseguiram soltura os quinze famosos sonetos com que soube tocar o ânimo do monarcha. Já a este tempo o afligia a molestia fatal que veda a quem a soffre dar a mão de amigo, tratar os seus semelhantes, e aborrecido da vida, cansado de lutar com a adversidade, curtindo, longe dos seus, acerbas angústias, no meio de penosas privações, aos 34 annos de idade, achou que devia cortar o fio da existência, consumando o que já tinha revelado ao seu amigo e bem feitor Manuel José Moreira Pinto Baptista. Levantou a própria eça no silêncio da noite; rodeou-se dos livros a que consagrava as longas horas de insónia, poz á cabeceira os seus escriptos, e libando, como Socrates, a bebida fatal, adormeceu no seio do Creador”.
Falando de Francisco Alvares de Nobrega, diz Inocencio no seu Diccionario Bibliographico:- “Este poeta a quem se não podem negar felizes disposições e talento natural para a poesia, não seguiu eschola determinada, porque dos seus versos, uns recordam a maneira de Bocage, outros a de Francisco Manuel. Nos sonetos houve poucos entre nós que o igualassem, não sendo o proprio Bocage, que neste genero de composição jámais conheceu rival. A linguagem de Nobrega, posto que não abundante em demazia, é pura e correcta; e os versos são em geral fluentes e harmoniosos. Era digno, sem duvida, de melhor sorte”. Jaime Constantino de Freitas Moniz no volume IX da importante revista O Instituto fez uma extensa apreciação das obras poéticas de Francisco Alvares de Nobrega, que igualmente contém algumas notas biográficas.
O “Camões Pequeno” publicou as Rimas de Francisco Alvares da Nobrega, natural da ilha da Madeira, Lisboa, 1804 e as Rimas offerecidas em sinal de reconhecimento ao Sr. Manuel José Moreira Pinto Baptista, Lisboa, 1804, que em 1850 foram reimpressas no Funchal por seu sobrinho, o apreciado poeta e jornalista Januario Justiniano de Nobrega.
Quando em 1806 os familiares da Inquisição entraram no quarto em que se encontrava o cadáver de Alvares de Nobrega, ali descobriram muitos dos seus escritos, que foram totalmente inutilizados. Afirma-se que tinha pronta para a impressão uma nova colecção de trabalhos poéticos, quando procurou na morte descanso para as atribulações da vida terrena.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 05-
O poeta Francisco Álvares de Nóbrega nasceu em Machico.
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Vários membros perseguidos de sociedades secretas e as suas famílias embarcaram clandestinamente na Madeira.
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As Rimas de Francisco Álvares de Nóbrega foram publicadas em Lisboa.
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O poeta Francisco Álvares de Nóbrega suicidou-se e a Inquisição destruiu os seus escritos.
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As Rimas de Francisco Álvares de Nóbrega foram reimpressas no Funchal por Januário Justiniano de Nóbrega.
Lugar
Lugares mencionados · 07No estrangeiro
- Colégio de São João Evangelista
Funchal. Edifício onde funcionava então o Seminário diocesano.
O Colégio de São João Evangelista era o colégio e igreja dos Jesuítas no Funchal, para onde estes se mudaram de São Bartolomeu. Nele funcionaram as primeiras aulas públicas do ensino secundário e, mais tarde, o Seminário diocesano e o liceu. Os primeiros casos de cólera surgiram entre os soldados ali aquartelados, e o colégio assinalava o lugar onde se revezavam os portadores do pálio na procissão do Corpo de Deus.
- Elvas
Portugal. Diocese para a qual o bispo Torres foi transferido.
Elvas é uma cidade-fortaleza e sede de diocese em Portugal Continental. Vários bispos do Funchal foram transferidos para a sua sé, entre eles D. Lourenço de Távora em 1617 e D. José da Costa Torres em 1796; o Dr. Joaquim de Menezes e Ataíde foi nomeado bispo de Elvas em 1821. Foi a terra natal do músico Duarte Joaquim dos Santos, de José Gerardo Ferreira Passos e de António Rogério Gromicho Couceiro, e Francisco João Róscio serviu ali como engenheiro militar.
- Funchal
Cidade onde as Rimas foram reimpressas em 1850.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Limoeiro
Portugal. Cadeia de Lisboa onde o poeta esteve preso duas vezes.
O Limoeiro é uma cadeia de Lisboa. O poeta Francisco Álvares de Nóbrega esteve ali preso duas vezes, alguns sacerdotes detidos no Aljube foram para lá enviados e, segundo um relato, um profeta morreu ali.
- Lisboa
Portugal. Cidade onde o poeta esteve preso, publicou as Rimas e morreu.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Machico
Terra natal do poeta.
A freguesia de Machico foi o local do desembarque dos descobridores Zarco e Tristão Vaz e a sede da Capitania de Machico; foi criada cerca de 1450. O Elucidário aborda o seu clero e as respetivas côngruas, as capelas, os acontecimentos históricos, as fontes minerais, os sítios, a população e os naturais ilustres.
- Seminário do Funchal
Funchal. Seminário onde o poeta estudou e do qual foi expulso.
O Seminário do Funchal é o seminário diocesano do Funchal. Entre os que ali estudaram contam-se Manuel Pestana dos Reis, o Padre José Gonçalves de Aguiar e o poeta Francisco Álvares de Nóbrega, que foi expulso. O Padre Ernesto Schmitz ali lecionou, tornou-se vice-reitor e fundou um museu, mais tarde dirigido pelo Padre Jaime de Gouveia Barreto, antigo aluno e professor.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 11- Francisco Álvares de Nóbrega1772–1806
Poeta madeirense conhecido por «Camões Pequeno», a quem esta entrada é dedicada.
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Poeta português cuja vida e cujos versos são comparados aos de Nóbrega.
- D. José da Costa Torresn. 1741
Bispo do Funchal que perseguiu os maçons e o poeta, que o satirizara; foi mais tarde transferido para Elvas.
- D. Luís Rodrigues de Vilaresm. 1810
Sucessor do bispo Torres, que protegeu o poeta e conseguiu a sua libertação da Cadeia do Limoeiro.
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Pai do poeta, mencionado no seu registo de matrícula no Seminário.
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Poeta português cujo estilo é evocado por alguns versos de Nóbrega.
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Bibliógrafo que elogiou os sonetos de Nóbrega no Diccionario Bibliographico.
- Jaime Constantino de Freitas Moniz1837–1917
Madeirense distinto que apurou a data de nascimento do poeta e analisou a sua obra em O Instituto.
- Januário Justiniano de Nóbrega1824–1866
Sobrinho do poeta, também poeta e jornalista, que escreveu uma biografia do tio e reimprimiu as Rimas no Funchal em 1850.
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Amigo e benfeitor do poeta, a quem foram dedicadas as Rimas.
+ 1 mais
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Comerciante de tecidos do Funchal que empregou e educou o jovem poeta e conseguiu a sua admissão no Seminário.