Seminário 1Fundação e primeiras casas
Seminário
História do Seminário Diocesano do Funchal, fundado por alvará régio de D. Sebastião em 1566 na sequência do Concílio de Trento, desde as sucessivas mudanças de instalações até ao regresso ao edifício da Encarnação em 1933. Destacam-se o bispo fundador D. Jerónimo Barreto, o bispo reformador D. Manuel Agostinho Barreto e o professor Padre Ernesto Schmitz.
1Fundação e primeiras casas
O concílio de Trento, que se realizou na cidade de que tomou o nome determinou a criação, em todas as dioceses de um estabelecimento de instrução e educação religiosas, destinado à preparação eclesiástica dos indivíduos que pretendessem ser sacerdotes e em especial dos que se consagrassem á vida paroquial. D. Sebastião, em cumprimento daquela determinação, criou o Seminário do Funchal, por carta régia de 20 de Setembro de 1566, criação que só mais tarde se tornou efectiva, em ano que não podemos precisar, mas que foi no período decorrido de 1573 a 1586. Deve-se aos esforços do bispo D. Jeronimo Barreto o estabelecimento daquela casa de educação e é ele verdadeiramente considerado como o fundador do Seminário do Funchal.
A sua instalação fez-se primitivamente numa casa á rua Direita, junto da habitação do prelado, que então tinha ali a sua residência. Nos fins do século XVI, o bispo D. Luís Figueiredo de Lemos construiu o antigo paço episcopal, de que ainda resta uma parte considerável, com a capela que lhe fica anexa, hoje profanada; e para um prédio contíguo ao mesmo paço e para as dependências deste, se transferiu o Seminário nos fins daquele século ou nos princípios do seguinte.
A construção da nova residencia dos prelados, que é a que ainda hoje se vê na antiga rua do Bispo, determinou a mudança do Seminário para a casa da rua do Mosteiro Novo, que havia sido destinada para um convento de religiosas (volume III página 398), mas que não chegou a ter a aplicação para que fora construída. O terramoto de 1748 deixou este edifício de tal modo danificado, que teve de ser abandonado, e aquele estabelecimento de instrução instalou-se em outra ou outras casas, que não sabemos onde ficavam, e por ali permaneceu até o ano de 1788.
Foi o bispo D. José da Costa Torres que obteve do governo da metrópole a cedência do antigo Colégio dos Jesuítas para Seminario, o que se deu por carta regia de D. Maria I, de 10 de Agosto de 1787 realizando-se a abertura solene, no novo edifício, a 31 de Março de 1788. Não permaneceu ali por longo tempo, porque a ocupação da Madeira pelas tropas inglesas em 1801, obrigou o Seminário a nova mudança para a antiga casa da rua do Mosteiro Novo depois de convenientemente reparada.
Não tendo o governador e capitão-general D. José Manuel da Câmara feito evacuar o edifício do Colégio, levantou-se um grave conflito entre ele e o bispo diocesano, como já ficou dito a página 216 e 266 deste volume.
2Edifício da Incarnação e reforma
Já no artigo dedicado ao saudoso e ilustre bispo D. Manuel Agostinho Barreto (volume I, página 130), nos referimos á construção levantada na cerca do extinto convento da Incarnação e destinada ao Seminário Diocesano, em que o grande prelado, dispendendo ali toda a sua fortuna herdada e adquirida, dotou a diocese com um amplo e esplendido edifício, que é um dos mais belos títulos de glória da sua administração episcopal. Passou o Seminário a funcionar no seu novo edifício em Outubro de 1909, mas a lei de 20 de Abril de 1911 extinguiu o Seminário desta diocese, passando o grande edifício á posse imediata do Estado.
O estabelecimento de instrução e educação eclesiástica voltou á antiga casa da rua do Mosteiro Novo onde funciona presentemente, tendo estado primeiro algum tempo numa dependência do nosso Paço Episcopal, á rua da Carreira, e numa quinta ao sítio do Trapiche, da freguesia de Santo Antonio (1921).
A carta régia de D. Sebastião, de 20 de Setembro de 1566, já citada, estabeleceu o Seminário com doze colegiais e um reitor, dando-lhe a dotação de 300$000 réis para a sua sustentação e mais 45$000 réis para o ordenado do mestre de gramatica e de canto. Presume-se que os estudantes frequentariam as aulas de humanidades que os jesuítas mantiveram nesta cidade até 1759. Desde este ano até que o liceu desta cidade começou a funcionar em 1837 e onde os seminaristas começaram a cursar as respectivas aulas, não sabemos se os alunos do Seminário teriam cursos privativos dentro do edifício do mesmo Seminário.
Com a vinda para este bispado do eminente prelado D. Manuel Agostinho Barreto, passou o Seminário por uma profunda e radical transformação (volume I, página 130), criando-se ali em 1877 um curso completo de preparatórios, admitindo-se maior numero de alunos e reformando-se inteiramente a disciplina interna, colocando-se deste modo a par dos mais bem organizados estabelecimentos do seu género.
Debaixo de todos os pontos de vista, é o falecido D. Manuel Agostinho Barreto o verdadeiro reformador e restaurador do Seminário do Funchal, e a este estabelecimento deveria ser dado o nome do ilustre e benemérito prelado.
Seria flagrante injustiça não dizer que, para os bons créditos de que moral, religiosa e cientificamente gozava o Seminário nos últimos anos da sua existencia, mais do que ninguém contribuiu o padre Ernesto Schmitz, que dele foi professor e director durante trinta anos, devendo-se-lhe, entre outros melhoramentos importantes, a criação dum museu de historia natural de caracter regional (volume II, página 414), que só por si basta para, entre nós, tornar imorredouro o seu nome prestigioso, como já acentuámos no citado artigo dedicado ao bispo D. Manuel Agostinho Barreto. O decreto de 25 de Abril de 1927 considerou ilegal a cessão feita à Junta Geral do edifício da Incarnação, mas somente passados seis anos e após uma porfiosa luta é que o Seminário Diocesano voltou a ser ali instalado, começando o seu funcionamento no mês de Outubro de 1933.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 13-
D. Sebastião criou o Seminário do Funchal por alvará régio.
-
O Seminário do Funchal começou efetivamente a funcionar em algum momento deste período.
-
Na noite de 31 de março para 1 de abril de 1748, um violento sismo atingiu a Madeira, causando poucas mortes, mas grandes danos em edifícios, incluindo a Sé, o paço episcopal, a alfândega, a Igreja do Monte, a casa do Mosteiro Novo e numerosas capelas e igrejas paroquiais.
-
Por ordem de Pombal, o colégio dos Jesuítas no Funchal foi cercado e os religiosos ficaram confinados, pondo fim ao seu ensino; os dezoito jesuítas madeirenses foram enviados sob prisão para Lisboa em 16 de julho de 1760.
-
Por carta régia, D. Maria I cedeu os edifícios do antigo Colégio dos Jesuítas ao Bispo José da Costa Torres para a instalação de um Seminário diocesano.
-
O Seminário Diocesano mudou-se para o antigo Colégio dos Jesuítas, no Funchal, onde foi solenemente inaugurado.
-
Uma esquadra britânica chegou ao Funchal, dando início à primeira ocupação britânica da Madeira; as tropas sob o comando de Clinton foram aquarteladas no colégio dos Jesuítas, no forte da Penha de França e no teatro, obrigando o Seminário a regressar ao Mosteiro Novo.
-
O Liceu do Funchal foi criado e solenemente inaugurado em 10 de outubro de 1837, nas instalações do antigo colégio dos Jesuítas (Aulas do Pátio); os seminaristas frequentavam as suas aulas.
-
Durante o episcopado de D. Manuel Agostinho Barreto, foi introduzido um curso preparatório completo no Seminário do Funchal reformado.
-
O novo seminário diocesano abriu no edifício construído nos terrenos do Convento da Incarnação, sob o episcopado de D. Manuel Agostinho Barreto.
-
Um decreto extinguiu o Seminário Diocesano do Funchal e o seu edifício passou para o Estado, embora o Seminário continuasse a funcionar sem reconhecimento oficial na antiga casa.
-
Um decreto declarou ilegal a cedência do edifício da Encarnação à Junta Geral.
-
O Seminário do Funchal regressou ao edifício do antigo Convento da Incarnação e aí retomou a atividade.
Lugar
Lugares mencionados · 10No estrangeiro
- Colégio dos Jesuítas
Funchal. Antigo Colégio dos Jesuítas onde o Seminário esteve instalado de 1788 a 1801.
Antigo colégio dos Jesuítas no Funchal, cujas Aulas do Pátio acolheram o ensino secundário e, mais tarde, o liceu, e onde também funcionou a Escola de Geometria e Trigonometria. Acolheu o Seminário diocesano de 1788 a 1801, foi disputado pelo bispo e pelo governador para servir de seminário ou de quartel e foi ocupado por tropas britânicas em 1801. Mais tarde, serviu de quartel de infantaria, e parte do seu recinto foi cedida para alargar a Rua do Castanheiro.
- Convento da Encarnação
Funchal. Terrenos onde foi construído o novo edifício do Seminário.
Convento do Funchal fundado pelo Cónego Henrique Calaça de Viveiros depois de 1508. A sua capela acolheu temporariamente a sede da paróquia, e em 1909 foi construído um novo edifício para o Seminário nos seus terrenos. Foi proposto como local para o hospital, o asilo e a Cadeia.
- Funchal
Sede da diocese e do Seminário.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Rua da Carreira
Funchal. Rua onde se situava o anexo do paço episcopal utilizado por pouco tempo após 1911.
A Rua da Carreira, oficialmente Rua do Dr. Vieira, é uma das ruas mais antigas do Funchal e constitui um limite da freguesia da Sé. O seu nome provém das corridas de cavalos que ali se realizavam; em 1508, era a rua mais larga da vila. Nela se encontravam casas de famílias nobres, capelas e o cemitério britânico, e a partir de 1934 albergou o edifício da polícia.
- Rua Direita
Funchal. Rua da primeira casa do Seminário.
Rua antiga do Funchal, já existente em 1508, onde se situavam a igreja de São Bartolomeu, uma antiga alfândega e a primeira casa do Seminário. D. Jerónimo Barreto viveu ali e Zenobio Acciaioly tinha ali um engenho de açúcar. Foi atingida por um obus no bombardeamento de 1916.
- Rua do Bispo
Funchal. Local da residência episcopal mais recente.
Rua do Bispo é o antigo nome da Rua de Gomes Freire, no Funchal, devido à residência dos bispos e ao Paço Episcopal aí situados. O bispo D. Frei João do Nascimento morreu numa casa desta rua que mais tarde acolheu o liceu. A rua albergou também o Clube Recreio e Instrução e o estúdio fotográfico «Vicente», e foi atingida por um projétil em 1916.
- Rua do Mosteiro Novo
Funchal. Rua da casa destinada a convento que o Seminário utilizou por diversas vezes.
A Rua do Mosteiro Novo é uma rua do Funchal onde uma casa, inicialmente destinada a convento, foi utilizada várias vezes pelo Seminário, que para lá se mudou em 1801. O Asilo de Mendicidade do Funchal instalou-se inicialmente num armazém voltado para esta rua.
- Santo António
Funchal. Freguesia onde se situa o Trapiche.
Santo António é uma freguesia do concelho do Funchal, na Madeira, onde nasce a ribeira de São João e onde os Jesuítas tinham a sua residência do Pico do Cardo. A igreja possui uma inscrição latina de 1783, e na freguesia encontram-se as capelas da Madalena, de São João e Santana e do Pópulo; a freguesia dá também nome a uma elevação de cerca de 400 metros perto da igreja.
- Trapiche
Funchal. Quinta utilizada por pouco tempo pelo Seminário.
O Trapiche é um sítio da freguesia de Santo António, no Funchal, com uma quinta cuja capela foi construída em 1814 e pela qual é comummente conhecida a capela de São João e Santana. Em 1923, os Irmãos de São João de Deus fundaram ali um hospital psiquiátrico, a Casa de Saúde do Trapiche. A quinta foi utilizada durante pouco tempo pelo Seminário, e o sítio foi sede de uma das conferências de São Vicente de Paulo de Santo António.
- Trento
Italy. Cidade onde se realizou o concílio que determinou a criação de seminários em todas as dioceses.
Trento é a cidade onde se realizou o Concílio de Trento, que determinou a fundação de seminários em todas as dioceses. D. Frei Gaspar do Casal participou no concílio como teólogo régio.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 08- D. Jerónimo Barreto1543–1589
Bispo do Funchal considerado o verdadeiro fundador do Seminário.
- D. José da Costa Torresn. 1741
Bispo que obteve o antigo Colégio dos Jesuítas para o Seminário em 1787.
-
Bispo que construiu o antigo paço episcopal no final do século XVI, junto ao qual ficou instalado o Seminário.
- D. Manuel Agostinho Barreto1835–1911
Bispo que gastou a sua fortuna na construção do novo Seminário e o reformou em 1877.
-
Rainha cujo alvará régio de 10 de agosto de 1787 cedeu o Colégio dos Jesuítas ao Seminário.
-
Rei de Portugal que criou o Seminário do Funchal por alvará régio de 20 de setembro de 1566.
- Ernesto João Schmitz1845–1922
Professor e diretor do Seminário durante trinta anos, fundou o seu museu regional de história natural.
-
Governador e capitão-general que entrou em conflito com o bispo por não desocupar o Colégio dos Jesuítas.