Paço Episcopal 1Primitivas residências e o antigo paço
Paço Episcopal
História das residências dos bispos no Funchal, desde as casas onde se alojaram os primeiros prelados até ao paço construído por D. João do Nascimento após o terramoto de 1748, mais tarde utilizado como liceu, e às residências episcopais posteriores.
1Primitivas residências e o antigo paço
Quando o Papa Leão X, pela bula Pro excellenti preeminentia, de 14 de Junho de 1514, criou a diocese do Funchal, já o magnifico templo que hoje serve de Catedral estava quase concluído, tendo a sua construção começado no fim do século XV ou nos primeiros anos do seculo XVI. O mesmo não sucedera com o paço episcopal.
O primeiro prelado do Funchal que residiu entre nós foi D. Jorge de Lemos, que não sabemos que casas de moradia teria ocupado nesta cidade. D. Jerónimo Barreto foi o segundo bispo que veio a esta ilha e, segundo Frutuoso, teve sua habitação na rua Direita, «nuns aposentos muito ricos, com seus frescos jardins»(vol. I, pag. 365).
Chegando em 1586 á Madeira D. Luís Figueiredo de Lemos, sétimo prelado Funchalense e terceiro que viera pessoalmente administrar o seu bispado, foi estabelecer a sua moradia á rua das Pretas, numas casas particulares, que depois pertenceram ao alferes-mor desta ilha Tristão Gomes de Castro, onde se afirma que já os seus antecessores tinham tido a sua residência habitual. Foi este prelado, um dos mais ilustres desta diocese e que a governou de 1586 a 1608, que construiu o antigo paço dos bispos e também o primitivo edifício do seminário, que lhe ficava anexo. Deles restam alguns aposentos, a capela episcopal e uma espécie de claustro, construção característica das velhas residências conventuais, que hoje constituem dependências do actual palácio da rua do Bispo. A capela, que deixou de ser aplicada ao serviço do culto depois da construção do novo paço episcopal, era dedicada a S. Luís de Tolosa e ali foi sepultado o seu fundador, que faleceu nesta cidade a 26 de Novembro de 1608. O prelado desta diocese, D. Manuel Agostinho Barreto, em vista do estado de completo abandono em que se encontrava esta velha capela, fêz dali trasladar, em 1903, para a Sé Catedral, os restos mortais de D. Luís Figueiredo de Lemos, que jazem logo á entrada do templo, cobertos com a mesma lousa tumular de mármore branco que se via na primitiva sepultura.
O bispo D. Frei António Teles da Silva (1675-1682) ampliou o primitivo paço, e o prelado D. José de Sousa de Castelo Branco (1698-1721) incorporou nele o seminário, que lhe ficava anexo, pela mudança deste para a rua do Mosteiro Novo. O terramoto que se sentiu na Madeira na noite de 31 de Março para 1 de Abril de 1748 causou consideráveis estragos por toda a ilha, em muitos edifícios públicos e particulares, ficando também bastante arruinado o antigo palácio dos bispos e o seminário adjunto. Era então bispo do Funchal D. João do Nascimento, que dirigiu o Governo desta diocese de 1741 a 1753, revelando-se um prelado eminente que deixou assinalada a sua passagem nesta ilha por varias obras notáveis, tanto no desempenho das suas funções episcopais como no exercício interino durante alguns anos do lugar de governador e capitão-general deste arquipélago.
2O novo paço episcopal
A ele se deve a construção do paço episcopal, onde hoje (1921) se encontra instalado o liceu. Tendo que abandonar a antiga residência dos bispos, pelo estado de ruína em que a deixara o terramoto, empreendeu sem demora a construção dum novo palácio, que projectou levantar nas imediações da Sé Catedral. As insuperáveis dificuldades que surgiram na aquisição dum novo local, obrigaram-no a aproveitar o do arruinado paço, que foi inteiramente demolido, com excepção da parte que ainda hoje se conserva de pé. Ali fêz erguer, desde os fundamentos, o novo paço episcopal, que apesar de ser uma construção pesada e despida de quaisquer primores arquitecturais, é, no entanto, para esta pequena cidade e para a época da sua construção, um edifício de relativa importancia, que em nada desonrava a hierarquia dos seus moradores.
O novo paço foi construído no período decorrido de 1748 a 1751. O seu fundador gastou nele cerca de dez contos de réis, contribuindo também o erário publico com quantia aproximadamente igual, tendo sido o custo total da obra de vinte contos de réis, importância esta que dispendida há 170 anos representa hoje uma soma avultada. (1921)
D. João do Nascimento para levar esta obra a seu termo, teve que lutar com gravíssimas dificuldades, que a sua inquebrantável tenacidade soube dominar e vencer.
Pouco tempo gozou da sua obra, pois veio a morrer a 26 de Novembro de 1753 e jaz sepultado na Sé Catedral desta cidade.
Tendo falecido o prelado D. Manuel Agostinho Barreto em 1911, passou o Paço Episcopal á posse da Fazenda Nacional e ali se instalou o liceu desta cidade, no mês de Janeiro de 1914.
Quando em 1915 o actual prelado desta diocese veio assumir a direcção do bispado, encontrou preparada uma casa destinada a residência episcopal, que os católicos alugaram e mobilaram, e dela fizeram entrega ao chefe da igreja funchalense. Essa casa fica situada na rua dos Netos, fazendo esquina com a rua dos Ferreiros, ao lado direito de quem sobe esta rua. Pouco tempo permaneceu ali a residência do prelado diocesano, pois que, pela aquisição, por doação e herança, duma excelente casa de habitação no largo do Ribeiro Real, ficou esta definitivamente transformada em Paço Episcopal e ali reside actualmente o prelado e nas dependências do prédio se acham instaladas as repartições eclesiásticas.
O destino a dar ao antigo Paço Episcopal ficou regulado pelos decretos de 5 de Julho e 6 de Agosto de 1913, de 9 de Março e 24 de Agosto de 1922.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 10-
A bula Pro excellenti praeeminentia, do Papa Leão X, criou a diocese do Funchal, pondo fim à supremacia espiritual da Ordem de Cristo; a igreja tornou-se catedral, D. Diogo Pinheiro foi nomeado primeiro bispo e Frei Nuno Cão primeiro deão.
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D. Luís Figueiredo de Lemos governou a diocese e construiu o primeiro paço episcopal no Funchal.
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O bispo D. Luís Figueiredo de Lemos morreu no Funchal e foi sepultado na Capela de São Luís, que mandara construir junto ao Paço Episcopal.
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O Paço Episcopal do Funchal foi construído ao custo de vinte contos de réis.
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Na noite de 31 de março para 1 de abril de 1748, um violento sismo atingiu a Madeira, causando poucas mortes, mas grandes danos em edifícios, incluindo a Sé, o paço episcopal, a alfândega, a Igreja do Monte, a casa do Mosteiro Novo e numerosas capelas e igrejas paroquiais.
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O bispo D. Frei João do Nascimento morreu no Funchal (uma entrada indica 26 de novembro).
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Os restos mortais do bispo D. Luís de Figueiredo de Lemos foram trasladados da Capela de São Luís para a Sé Catedral do Funchal.
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Os decretos de 5 de julho e 6 de agosto regulamentaram a utilização do antigo paço episcopal.
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Ao abrigo da Lei da Separação, o Liceu do Funchal foi instalado no antigo Paço Episcopal.
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O novo bispo do Funchal chegou e instalou-se numa casa disponibilizada pelos católicos.
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Os decretos de 9 de março e 24 de agosto regulamentaram a utilização do antigo paço episcopal.
Lugar
Lugares mencionados · 11- Paço Episcopal · Assunto
Funchal
Antigo paço dos bispos no Funchal, construído em 1751 após o terramoto de 1748 e ampliado pelo bispo Teles da Silva, com a Capela de São Luís ao lado. Acolheu o Seminário e hospedou o núncio. A partir de 1914, foi ocupado pelo liceu, obrigando a Câmara Eclesiástica a mudar de instalações; pinturas e paramentos provenientes do paço foram para o Museu Arqueológico.
- Capela de São Luís de Tolosa
Funchal. Capela de São Luís de Tolosa, que subsiste no paço e onde Figueiredo de Lemos foi inicialmente sepultado.
Capela palaciana ainda existente, onde Figueiredo de Lemos foi inicialmente sepultado.
- Funchal
Sede da diocese e local dos paços episcopais.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Largo do Ribeiro Real
Funchal. Localização do paço episcopal que viria a ser a residência definitiva.
O Largo do Ribeiro Real é uma praça do Funchal onde se situa o Paço Episcopal posterior e definitivo. A Câmara Eclesiástica instalou-se neste novo Paço Episcopal em 1918, e na praça ficam a residência do bispo e os serviços eclesiásticos.
- Rua das Pretas
Funchal. Rua onde residiram os primeiros bispos.
A Rua das Pretas é uma antiga rua do Funchal, já existente em 1508, cujo nome evoca a população negra da cidade. Os primeiros bispos tinham ali a sua residência. Delimita o Largo da Igrejinha e encontra a Rua da Carreira junto à Igrejinha.
- Rua Direita
Funchal. Rua onde viveu D. Jerónimo Barreto.
Rua antiga do Funchal, já existente em 1508, onde se situavam a igreja de São Bartolomeu, uma antiga alfândega e a primeira casa do Seminário. D. Jerónimo Barreto viveu ali e Zenobio Acciaioly tinha ali um engenho de açúcar. Foi atingida por um obus no bombardeamento de 1916.
- Rua do Bispo
Funchal. Rua onde se situava o Paço Episcopal.
Rua do Bispo é o antigo nome da Rua de Gomes Freire, no Funchal, devido à residência dos bispos e ao Paço Episcopal aí situados. O bispo D. Frei João do Nascimento morreu numa casa desta rua que mais tarde acolheu o liceu. A rua albergou também o Clube Recreio e Instrução e o estúdio fotográfico «Vicente», e foi atingida por um projétil em 1916.
- Rua do Mosteiro Novo
Funchal. Rua para onde foi transferido o Seminário.
A Rua do Mosteiro Novo é uma rua do Funchal onde uma casa, inicialmente destinada a convento, foi utilizada várias vezes pelo Seminário, que para lá se mudou em 1801. O Asilo de Mendicidade do Funchal instalou-se inicialmente num armazém voltado para esta rua.
- Rua dos Ferreiros
Funchal. Esquina da casa arrendada ao bispo.
A Rua dos Ferreiros é uma antiga rua do Funchal, já existente em 1508, cuja metade ocidental integra o limite entre as freguesias da Sé e de São Pedro. Dava acesso às Aulas do Pátio, onde funcionou o liceu até 1914, e o jornal Patriota Funchalense tinha a tipografia e a redação no n.º 7. Ali ocorreu o primeiro caso suspeito de peste em 1905.
- Rua dos Netos
Funchal. Local da casa arrendada ao bispo em 1915.
A Rua dos Netos é uma rua do Funchal que vai da Rua de São Pedro à Ponte Nova, sobre a ribeira de Santa Luzia. Recebeu o nome do povoador João Rodrigues Neto Calassa e da família Neto. Em 1915, o bispo arrendou ali uma casa; a delegação da Cruz Vermelha instalou ali a sua sede e um posto de primeiros socorros; e as casas do Montepio situavam-se no troço oriental.
- Sé do Funchal
Funchal. Sé Catedral, quase concluída em 1514, onde estão sepultados bispos.
A Sé do Funchal é a catedral do Funchal, na freguesia da Sé. A sua construção começou em 1493; tornou-se sede paroquial em 1508 e catedral em 1514. Foi ponto de partida de procissões e local do voto a São Tiago, e nela estão sepultados bispos.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 10-
Bispo do Funchal (1675–1682) que ampliou o primeiro paço.
- D. Fr. Jorge de Lemosm. 1569
Primeiro bispo do Funchal a residir na ilha; desconhece-se onde morou.
- D. Frei João do Nascimento1897–1753
Bispo do Funchal (1741–1753) e governador interino que construiu o novo paço episcopal entre 1748 e 1751.
- D. Jerónimo Barreto1543–1589
Segundo bispo residente, que, segundo Frutuoso, viveu numa residência sumptuosa na Rua Direita.
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Bispo do Funchal (1698–1721) que incorporou o Seminário no paço quando aquele mudou de instalações.
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Bispo do Funchal (1586–1608) que construiu o primeiro paço episcopal e o Seminário; os seus restos mortais foram trasladados para a Sé Catedral em 1903.
- D. Manuel Agostinho Barreto1835–1911
Bispo do Funchal que trasladou os restos mortais de Figueiredo de Lemos em 1903; após a sua morte, em 1911, o paço passou para o Estado.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Cronista citado a propósito da residência de D. Jerónimo Barreto.
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Papa que criou a diocese do Funchal por bula em 1514.
- Tristão Gomes de Castro1543–1611
Alferes-mor da Madeira que mais tarde foi proprietário das casas da Rua das Pretas utilizadas pelos primeiros bispos.