Ribeiro (Conselheiro José Silvestre) 1Vida e chegada à Madeira
Ribeiro (Conselheiro José Silvestre)
Biografia de José Silvestre Ribeiro (1807–1891), governador civil do Funchal de 1846 a 1852, considerado pelo Elucidário o mais distinto e benemérito governador que a Madeira teve. Enumera as suas numerosas obras públicas e reformas, bem como as honras que recebeu.
1Vida e chegada à Madeira
Em um longo período do tempo superior a um século, foi o conselheiro José Silvestre Ribeiro o mais ilustre governador civil deste distrito e aquele a quem esta terra deve uma soma de mais assinalados serviços e de actos da mais alta e mais acendrada benemerencia. É uma verdade quase axiomática, que dispensa demonstrações.
Nasceu em Idanha-a-Nova a 31 de Dezembro de 1807. Concluída a sua formatura em direito alistou-se no exército libertador, e, acabada a guerra, foi sucessivamente secretario geral, governador civil, deputado, par do reino, ministro e conselheiro de estado, tendo desempenhado muitas e importantes comissões de serviço publico. Foi homem de rara cultura intelectual e um dos mais fecundos e eruditos escritores do seu tempo, deixando uma vasta bagagem literária.
Antonio José de Avila, depois duque de Avila e Bolama, chegou á Madeira a 12 de Setembro de 1846 na qualidade de comissário régio, acompanhado de José Silvestre Ribeiro, a fim de sindicar dos acontecimentos que tinham ocorrido nesta ilha por causa do proselitismo calvinista do Dr. Roberto Kalley. Silvestre Ribeiro vinha nomeado governador civil para o distrito, mas só se teve conhecimento dessa nomeação depois de Antonio José de Avila ter demitido o governador, o administrador do concelho do Funchal e tomado outras medidas de administração que foram julgadas indispensáveis.
2Serviços e homenagens
Nem resumidamente podemos enumerar os serviços com que José Silvestre Ribeiro deixou assinalada a sua passagem entre nós, mas impossível é deixar de referir-nos, embora fugitivamente, à fundação do Asilo, às medidas mais prontas e salutares para debelar a terrível crise da fome em 1847, a criação da Sociedade Agrícola, a construção da Ponte Monumental, ao estabelecimento da iluminação publica, à exposição das indústrias madeirenses, á organização dum museu de historia natural, á criação de muitas escolas de instrução primaria, ás importantíssimas providencias relativas á repovoação e conservação dos arvoredos, ás grandes reparações nas estradas e em quasi todos os edifícios do Estado, compreendendo a maioria dos templos, as profícuas e severas medidas que adoptou acerca da gerência dos estabelecimentos pios, contribuições municipais, cemitérios, expostos, rendas camarárias, etc., á maneira como no parlamento defendeu os interesses da Madeira, ao grande desenvolvimento das obras publicas, ao notável impulso dado á tiragem das levadas, especialmente á do Rabaçal, á construção de casas de abrigo nas serras e encumeadas, não havendo necessidade publica que não procurasse atender nem ponto algum de administração a que não chegasse a sua eficaz iniciativa e a sua incansável actividade. Longe, muito longe iríamos se quiséssemos descer a detalhes e pormenores, que não cabem nos apertados limites deste artigo, que não pode ser longo.
Silvestre Ribeiro representou a Madeira no parlamento nas sessões legislativas de 1848 a 1851, 1853 a 1856 e de 1857 a 1858.
Os madeirenses reconhecidos pelos relevantissimos e nunca assaz encarecidos serviços que José Silvestre Ribeiro prestou a este arquipélago, resolveram oferecer-lhe um objecto, que lhe não fizesse esquecer inteiramente a gratidão dos seus habitantes e ao mesmo tempo lhe recordasse a sua permanência entre nós. Esse objecto, adquirido por subscrição publica, foi um rico colar de ouro, formado principalmente por dezassete escudetes, cada um dos quais representava um dos mais assinalados actos da sua administração, tendo pendente uma medalha, que, além da dedicatória, continha a legenda latina extraída dos versos de Virgilio: Semper honos, nomenque tuum, laudesque manebunt. Os desenhos e moldes deste primoroso trabalho foram do distinto artista madeirense Vicente Gomes da Silva, há poucos anos falecido (1921). Por ocasião da entrega, feita solenemente, desta significativa lembrança, o corpo comercial da colónia britanica ofereceu a Silvestre Ribeiro uma salva de prata, expressamente trabalhada em Londres, tendo nela esculpida uma dedicatória na língua inglesa.
Como se sabe, foi José Silvestre Ribeiro governador civil do distrito de Angra do Heroísmo, e durante a sua administração um violento terramoto reduziu a vila da Praia da Vitoria a um montão de escombros. O que então fez Silvestre Ribeiro, levantando em pouco tempo das ruínas uma nova povoação, atesta-o eloquentemente o monumento que hoje se ergue no centro da vila, que é um padrão imorredoiro da sua glória.
A câmara municipal de Angra ofereceu a Silvestre Ribeiro um rico espadim com copos de ouro, que é uma verdadeira preciosidade artística. O benemérito governador legou este espadim á câmara municipal do Funchal, onde se encontra, e o colar, oferta dos madeirenses, á câmara municipal de Angra do Heroísmo, onde também se encontra cuidadosamente guardado.
3Memória e morte
A 31 de Dezembro de 1907, a ilha Terceira comemorou o centenário do nascimento de Silvestre Ribeiro com solenes e significativas demonstrações de apreço e reconhecimento à sua saudosa ilustre memória, entre as quais se destacaram algumas publicações literárias. Quem estas linhas escreve, em artigos no antigo Heraldo da Madeira, lançou a ideia de associar a Madeira àquelas comemorações, mas ninguém, a começar pelo governador civil e a acabar na mais sertaneja câmara municipal, acudiu ao chamamento...
O nome de José Silvestre Ribeiro é ainda bastante lembrado entre nós e considerado, sem possível contestação, o do mais ilustre e benemérito governador que tem tido o arquipélago da Madeira. A abençoada memória de José Silvestre Ribeiro apenas se perpetuou no Funchal dando-se o seu nome a uma artéria da cidade, mais conhecida pela simplificação de Rua do Conselheiro e que até o grande publico desconhece que represente uma homenagem prestada ao mesmo governador. Uma cousa se podia fazer ainda e que já foi lembrada pela imprensa – dar ao Asilo da Mendicidade o nome do seu fundador. Quem quiser ter conhecimento mais completo da sua administração neste distrito, leia Uma Época Administrativa na Madeira e Porto Santo, 3 grossos volumes, Colecção de Documentos relativos à crise da fome por que passaram as ilhas da Madeira e Porto Santo no ano de 1847, Colecção de Documentos relativos ao Asilo da Mendicidade do Funchal, Colecção de Documentos relativos á construção da Ponte do Ribeiro Seco e Brevíssima resenha de alguns serviços que no distrito do Funchal tem prestado o conselheiro José Silvestre Ribeiro.
Um pormenor dolorosíssimo, mas digno de registo: – José Silvestre Ribeiro passou nesta terra por um dos mais angustiosos transes da sua vida, perdendo o filho único, que encontrou morte desastrosa no tanque do jardim do Palácio de S. Lourenço.
Silvestre Ribeiro saiu da Madeira a 27 de Novembro de 1852 e morreu em Lisboa a 9 de Março de 1891.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 07-
José Silvestre Ribeiro, futuro governador civil, nasceu em Idanha-a-Nova.
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O comissário régio António José de Ávila partiu de Lisboa com José Silvestre Ribeiro, o novo governador civil, e chegou à Madeira em 12 de setembro.
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A Madeira sofreu uma grave fome, que atingiu o auge em fevereiro de 1847 e causou elevada mortalidade por doenças digestivas; a fome chegou também ao Porto Santo. O governador José Silvestre Ribeiro tomou medidas de socorro, os comerciantes angariaram fundos para alimentos e realizaram-se espetáculos de beneficência no Funchal.
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José Silvestre Ribeiro representou a Madeira no Parlamento, voltando a fazê-lo em 1853–1856 e 1857–1858.
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O governador civil José Silvestre Ribeiro deixou a Madeira no fim do seu mandato; depois da sua partida, as coleções do antigo gabinete de história natural perderam-se ou foram roubadas.
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O Conselheiro José Silvestre Ribeiro morreu em Lisboa.
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A Terceira comemorou o centenário do nascimento de José Silvestre Ribeiro.
Lugar
Lugares mencionados · 11No estrangeiro
- Angra do Heroísmo
Portugal. Distrito açoriano que Ribeiro também governou; a sua câmara municipal conserva o colar oferecido pelos madeirenses.
Angra do Heroísmo é uma cidade, porto e sede de distrito na ilha Terceira, nos Açores. Foi a terra natal de António Cordeiro, o local onde se publicou o Almanach para os Açores e Madeira em 1873 e onde Nicolau Anastácio de Bettencourt governou durante doze anos e morreu; deu também o nome ao título de marquês de Stuart.
- Funchal
Sede do distrito que governou; a sua câmara municipal conserva a espada de Ribeiro.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Levada do Rabaçal
Calheta. Levada cuja construção Ribeiro promoveu especialmente.
A Levada do Rabaçal é uma gigantesca levada do Estado que irriga as freguesias ocidentais do concelho da Calheta, incluindo Arco da Calheta, Estreito da Calheta, Prazeres, Fajã da Ovelha e Ponta do Pargo. Uma lei de 1849 autorizou o governo a concluí-la; o Conselheiro José Silvestre Ribeiro promoveu especialmente a sua construção, e António Maria Fontes Pereira de Melo visitou as obras.
- Lisboa
Portugal. Local onde morreu.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Palácio de São Lourenço
Funchal. Palácio onde o seu único filho morreu afogado no tanque do jardim.
O Palácio de São Lourenço, palácio-fortaleza dos governadores no Funchal, foi palco de cerimónias de beija-mão, receções, bailes e jantares, bem como da exposição de 1861. O Elucidário regista ali um grande incêndio em 1699, um museu de história natural em 1850 e uma tentativa de entrada de soldados em 1829. O Teatro Grande ficava em frente.
- Ponte Monumental
Funchal. Ponte sobre o Ribeiro Seco construída durante a governação de Ribeiro.
A Ponte Monumental é uma ponte do Funchal sobre o Ribeiro Seco. Foi construída durante o governo de José Silvestre Ribeiro, e o imperador Fernando José Maximiliano do México contribuiu generosamente para a sua construção em 1852. A Praça do Ribeiro Seco (Largo de António Nobre) fica junto à ponte, onde começa a estrada em que se encontra a Capela de Nossa Senhora da Ajuda.
- Porto Santo
Parte do distrito que administrou.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
- Praia da Vitória
Portugal. Cidade açoriana reconstruída por Ribeiro após um terramoto.
Localidade açoriana reconstruída por Ribeiro após um terramoto.
- Rua do Conselheiro José Silvestre Ribeiro
Funchal. Rua do Funchal batizada em sua homenagem.
Rua do Funchal batizada em sua homenagem.
- Terceira
Portugal. Ilha açoriana que celebrou o centenário do seu nascimento.
Ilha açoriana que serviu de base aos liberais, onde se reuniu a expedição de D. Pedro e de onde partiu a força que ocupou Porto Santo. Nicolau Pita foi ali desterrado, João Bettencourt de Vasconcellos foi ali executado e Acursio Garcia Ramos nasceu na ilha.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 05- José Silvestre Ribeiro1807–1891
Governador civil do Funchal (1846–1852), deputado, par, ministro e escritor, a quem esta entrada é dedicada.
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Comissário régio que veio à Madeira em 1846 com Ribeiro para investigar os distúrbios relacionados com Kalley.
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Proselitista calvinista cuja atividade provocou os distúrbios que trouxeram Ribeiro à Madeira.
- Vicente Gomes da Silva1827–1906
Artista madeirense que desenhou o colar de ouro oferecido a Ribeiro.
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Poeta romano de cujos versos foi retirado o lema latino inscrito na medalha do colar.