Museu de Ciências Naturais 1Origens do Museu
Museu de Ciências Naturais
História do Museu de Ciências Naturais do Funchal, desde a tentativa efémera de José Silvestre Ribeiro no Palácio de São Lourenço até à abertura do museu municipal no Palácio de São Pedro, em 5 de outubro de 1933. Defende também a opção da Câmara Municipal por um museu regional de história natural com uma pequena secção de arte anexa.
1Origens do Museu
É bastante antiga a ideia do estabelecimento de um Museu de Ciências Naturais, tendo o benemérito governador civil José Silvestre Ribeiro lançado, há perto de um século, as bases dessa criação, para o que facultou algumas salas do Palácio de São Lourenço e auxiliou desveladamente com o seu prestigio e com os meios de que podia dispor para a sua definitiva instalação. Com a saída do conselheiro Silvestre Ribeiro desta ilha, o Museu, que embora fosse insuficiente e de acanhadas proporções, constituía já uma esperança, não tardou a desaparecer inteiramente.
A este assunto, presta um apreciável esclarecimento o que deixámos ligeiramente esboçado em um jornal desta cidade, no ano de 1934, que parcialmente vamos transcrever. «A Câmara Municipal do Funchal, na satisfação duma antiga e reconhecida necessidade, houve por bem criar, nesta capital do distrito, um museu de produtos das ciências naturais de caracter estritamente regional, seguindo a esteira da primitiva iniciativa do Governador Civil José Silvestre Ribeiro, que infelizmente não logrou uma grande duração, e completando o belo empreendimento do padre Ernesto Schmitz, com a instalação do Museu do Seminário, o qual tem sido objecto da maior admiração e apreço, por parte de distintos naturalistas, que a eles muitas vezes se referiram em trabalhos da mais alta cotação cientifica.
A superabundante riqueza da fauna madeirense tem atraído, desde longa data, as atenções de muitos homens de ciência e despertado o aprofundado estudo dos principais ramos de zoologia, determinado o aparecimento de algumas centenas de espécies bibliográficas, publicadas em vernáculo e em várias línguas estrangeiras.
Esses factos e outros ponderosos motivos, que com facilidade podem ser aduzidos, plenamente justificavam a criação dum museu de historia natural, cuja semente lançada à terra, por um benemérito governador e ilustre homem de letras, germinou e frutificou passados oitenta anos, pujante de vida e com grande aprazimento de espírito dos estudiosos e do publico em geral, devido à feliz e arrojada iniciativa da câmara desta cidade, que para isso fez a aquisição dum belo e vasto edifício e custeou as despesas das primeiras instalações. Esta utilíssima criação prossegue no seu notável desenvolvimento e vai sendo a pouco e pouco enriquecida com raros e numerosos exemplares especialmente da fauna marítima e ornitologica, o que já hoje constitui uma colecção preciosa, que deve ser atentamente visitada e apreciada, tendo merecido as mais elogiosas referências de pessoas profundamente versadas nos estudos das ciencias-naturais.
É bom recordar que a Câmara do Funchal criou um Museu, que deveria ser principalmente constituído por produtos da historia natural do arquipélago. Tudo o comprova. A larga campanha que então se fez na imprensa local, as interessantes entrevistas dum distinto oficial do exército com as varias entidades oficiais e as individualidades mais qualificadas do Funchal, a acção persistente e eficaz que varias pessoas desenvolveram por ocasião dessa criação, demonstram eloquentemente a nossa afirmativa.
2Secção de arte e instalação
É natural esta pregunta: não deveria ter sido criado um museu de arte? Responde-se: o estabelecimento fundado pela Câmara compreenderia varias secções destinadas à arte, à arqueologia, à etnografia etc., segundo o permitissem as acanhadas condições do meio. O que, portanto, se impunha, para começar, era a organização duma modesta secção de arte, adjunta ao Museu Regional de Ciências Naturais, que iria sendo aumentada e enriquecida conforme as circunstancias ocorrentes o aconselhassem. Ainda seria consentido anexar a esse museu, outras secções julgadas necessárias e condicionadas, pelas exigências locais e pelos recursos de que o município pudesse dispor.
Veio o decreto de 7 de Março de 1932, que se ocupa apenas de museus de arte, arqueologia, etc. e que nem remotamente se refere a estabelecimentos da natureza do Funchal. Mas estaria a Câmara desta cidade obrigada a adaptar as condições do seu museu as disposições do novo decreto? Sem duvida que poderia voluntariamente fazê-lo, mas nada se encontra nesse diploma que a isso a compelisse. E como então não existia nem existe ainda lei alguma que se oponha a que uma câmara municipal estabeleça um museu nas condições em que funciona o do Funchal, entendemos que ela procede legalmente, mantendo o seu Museu Regional no estado em que foi criado e em que actualmente se encontra. E haverá algum preceito legal, que proíba a manutenção duma pequena secção de arte adjunta a um Museu de Ciências Naturais?
Seria bom, seria útil, seria necessário estabelecer-se entre nós um Museu exclusivamente destinado a cousas de arte? Pessoa alguma medianamente culta do nosso meio social a isso se oporia, e quem pudesse realizar essa louvável ideia teria o apoio e o aplauso incondicionais de toda a gente».
A 5 de Outubro de 1933 e adjunto à Biblioteca Municipal do Funchal, instalou-se no Palácio de São Pedro, antiga casa solarenga dos condes de Carvalhal, o Museu de Ciências Naturais, com as secções suplementares de arte, arqueologia, etnografia etc. considerado como a satisfação de uma necessidade cultural do nosso meio e que as palavras acima transcritas inteiramente justificam.
A sua criação e instalação no belo edifício em que se encontra devem-se principalmente a Adolfo César de Noronha, como se verá no artigo que ao diante dedicaremos a este distinto homem de ciência.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 03Lugar
Lugares mencionados · 03- Funchal
Cidade cuja Câmara Municipal criou o museu.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Palácio de São Lourenço
Funchal. Algumas salas deste palácio albergaram o primeiro museu de Silvestre Ribeiro.
O Palácio de São Lourenço, palácio-fortaleza dos governadores no Funchal, foi palco de cerimónias de beija-mão, receções, bailes e jantares, bem como da exposição de 1861. O Elucidário regista ali um grande incêndio em 1699, um museu de história natural em 1850 e uma tentativa de entrada de soldados em 1829. O Teatro Grande ficava em frente.
- Palácio de São Pedro
Funchal. Antigo solar dos Condes de Carvalhal onde o museu foi instalado em 1933.
O Palácio de São Pedro é o antigo solar dos Condes de Carvalhal, onde o infante D. Luís foi recebido com um jantar e um baile. A partir de 1933, albergou a biblioteca municipal, o museu de história natural e o Arquivo Histórico da Madeira. Miss Mary Jane Wilson também ali instalou o Colégio de São Jorge.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 03-
Homem de ciência que teve a principal responsabilidade na criação e instalação do museu do Funchal.
- Ernesto João Schmitz1845–1922
Sacerdote e naturalista que fundou o Museu do Seminário, elogiado por muitos naturalistas.
- José Silvestre Ribeiro1807–1891
Governador civil do Funchal que lançou as bases de um primeiro museu de história natural no Palácio de São Lourenço, desaparecido após a sua partida.