Saltar para o conteúdo
Elucidário Madeirense Início
Noronha (Adolfo César de) 1Vida e trabalhos científicos
Artigo Nº 2547 Cientista ou naturalista Vol. II · pp. 849–851 5 min de leitura

Noronha (Adolfo César de)

Biografia de Adolfo César de Noronha (nascido em 1873), naturalista e bibliotecário funchalense que recolheu fósseis e fauna marinha para cientistas estrangeiros, colaborou no Elucidário e foi o principal impulsionador do museu de história natural do Funchal e da transferência da Biblioteca Municipal para o Palácio de São Pedro.

Noronha (Adolfo César de)

1Vida e trabalhos científicos

Nasceu no Funchal a 9 de Setembro de 1873, é filho de Augusto de Nóbrega Noronha e de D. Adelaide da Silva de Noronha e frequentou o liceu do Funchal e algumas cadeiras das antigas Escola Politécnica de Lisboa e Academia Politécnica do Porto. A 11 de Dezembro de 1914, foi nomeado bibliotecário da Biblioteca Municipal do Funchal.

Fez observações meteorológicas na ilha do Porto Santo de 1900 a 1902, tendo também realizado ali por essa época e posteriormente diversos estudos de historia natural.

Em 1904, remeteu ao dr. Openheim, paleontólogo alemão, vários corais fosseis do arquipélago, e pouco depois mandava ao Dr. Bohm as conchas fosseis das Selvagens, tendo sido devidamente estudadas estas colecções, com grande proveito para a ciência. O paleontólo sérvio Joksimowitsch foi também contemplado com uma bela colecção de fósseis colhidos no Porto Santo, tendo num excelente estudo que publicou acerca dela, mencionado 106 formas distintas, entre espécies e variedades.

Adolfo de Noronha tem-se consagrado também ao estudo da ictiologia, da ornitologia, da malacologia e da carcinologia do arquipélago, devendo-se-lhe ainda varias observações sobre a geologia do Porto Santo e da Selvagem Grande, que foram aproveitadas pelo Dr. Gagel nos seus trabalhos sôbre aquelas ilhas. A interessante Merlia Normani, a que já nos referimos a pág. 413 do vol. I deste Elucidário, foi colhida por ele nos mares do Porto Santo, provindo também dali muitos dos briozoarios que enviou ao Dr. Norman e foram por este assinalados num trabalho publicado no Jornal da Sociedade Lineana.

Escreveu um folheto que tem por título Carta aberta ao Ex.m° Sr. Governador Civil do Funchal (Lisboa, 1911) e é autor dos interessantes artigos intitulados Braguinha, Canais de lava, Carcinologia, Charamba e Conchas, publicados no 1.° vol. deste Elucidário, bem como da grande maioria das noticias que se encontram até pág. 341 do mesmo volume, sobre os peixes e as aves do arquipélago.

Relembram o nome de Adolfo de Noronha as espécies e variedades seguintes: Schizoporella Noronhai; briozoário abissal, Pecten Noronhai e Spondylus Noronhai, conchas fósseis, e Echium candicans var. Noronhae, borraginacea do interior da Madeira. A Merlia Normani, quando se supunha ser um coral, teve o nome de Noronha scalariformis.

2O Museu e homenagem

Adolfo de Noronha foi nomeado director da Biblioteca Municipal do Funchal no ano de 1928 e sem demora começou a agitar a ideia da criação de um «Museu de Ciências Naturais», de que foi o mais extrénuo e perseverante paladino, tanto na imprensa como junto dos que para essa realização poderiam contribuir com o seu prestigio e com a sua influencia. A essa ideia teve sempre associada a da aquisição de um edifício apropriado para a instalação da Biblioteca Municipal e do Museu anexo de ciências, com secções de arte, arqueologia, etnologia, etc. Autorizado pela Câmara Municipal, permaneceu alguns meses em Lisboa a tratar da emissão de um selo postal destinado a custear a despesa com aquelas projectadas instalações, o que veio a conseguir-se inteiramente, estando aquela repartição pública instalada em um belo e amplo edifício conhecido pelo nome de Palácio de São Pedro, que era a antiga casa solarenga dos condes de Carvalhal. É incontestável que a Adolfo de Noronha se deve principalmente a execução desse importante melhoramento. Ao deixar o exercício das suas funções publicas, foi-lhe prestada pela Câmara uma justa homenagem, a que se associaram diversas entidades oficiais, com o descerramento de uma inscrição lapidar instalada em uma das salas do Museu.

É de inteira justiça reproduzir as palavras, que deixámos exaradas nas colunas da imprensa diária do Funchal, por ocasião de ser tributada essa tão merecida prova de consideração e alto apreço.

O Sr. Adolfo César de Noronha, apesar dos incontestáveis méritos que tão notavelmente o distinguem, é ainda um desconhecido para muitos madeirenses, em virtude da recatada modéstia em que tem procurado ocultar-se e que uma pertinaz doença tornou mais acentuada nos últimos anos. Se assim não fora, teria produzido uma importante e apreciada obra, especialmente acerca de vários ramos de zoologia madeirense, para o que lhe sobram o mais aprofundado conhecimento do assunto, um entranhado amor ao estudo e ás pesquisas de carácter cientifico e uma fácil e elegante dicção na exposição das matérias que tivesse de versar.

O Sr. Adolfo de Noronha publicou diversos opúsculos e algumas dezenas de artigos, que absolutamente primam pela clareza com que é apresentado o assunto e pela profundeza de conhecimentos que revelam, manifestando-se nestes ao mesmo tempo uma notável aptidão para a mais acessível divulgação cientifica.

Os que proximamente conhecem os estudos a que o Sr. Noronha se dedicou e têm apreciado os seus valiosos escritos são unânimes em afirmar a requintada probidade cientifica que caracteriza todos os seus trabalhos, em que sempre põe o mais apurado escrúpulo e a mais conscienciosa aplicação.

Não é para admirar que tivéssemos ouvido a um ilustre professor universitário e um dos nossos mais abalizados homens de ciência, com especial referência ao Sr. Adolfo C. de Noronha, estas bem merecidas palavras: «possui todos os requisitos para ocupar com distinção uma cátedra em qualquer universidade do país.

É bastante para sentir que imperiosas circunstancias da vida não tivessem permitido que o distinto homem de ciência pudesse estadear em fecundos e proveitosos trabalhos toda a vastidão do seu saber e os primorosos dotes da sua privilegiada inteligência.

E a sobredourar esses inapreciaveis dotes de espírito e de aprofundada cultura cientifica destacam-se superiormente as mais lídimas qualidades de carácter, tão sobejamente conhecidas no meio social madeirense.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 06
  1. Adolfo César de Noronha nasceu no Funchal.

  2. Adolfo César de Noronha fez observações meteorológicas no Porto Santo.

  3. Adolfo César de Noronha enviou corais fósseis do arquipélago ao paleontólogo Oppenheim.

  4. Adolfo César de Noronha publicou uma carta aberta ao Governador Civil do Funchal.

  5. Adolfo César de Noronha foi nomeado bibliotecário da Biblioteca Municipal do Funchal.

  6. Adolfo César de Noronha tornou-se diretor da Biblioteca Municipal do Funchal e iniciou uma campanha pela criação de um museu de ciências naturais.

Lugar

Lugares mencionados · 07

No estrangeiro

Mapa: Arquipélago da Madeira (7)
  1. Funchal

    Local de nascimento de Noronha e sede da biblioteca que dirigiu.

  2. Lisboa

    Portugal. Cidade onde estudou na Escola Politécnica e, mais tarde, tratou da emissão do selo para o museu.

  3. Palácio de São Pedro

    Funchal. Antigo solar dos condes de Carvalhal, onde se instalaram a biblioteca municipal e o museu.

  4. Porto

    Portugal. Cidade onde se situava a Academia Politécnica, na qual frequentou algumas disciplinas.

  5. Porto Santo

    Local onde realizou observações meteorológicas (1900–1902) e recolheu fósseis e fauna marinha.

  6. Selvagem Grande

    Funchal · Selvagens. Ilha cuja geologia observou.

  7. Selvagens

    Funchal. Ilhas de onde provinham as conchas fósseis que enviou ao Dr. Böhm.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 08
  1. Naturalista e bibliotecário do Funchal, a quem é dedicada esta entrada.

  2. Mãe de Adolfo César de Noronha.

  3. Pai de Adolfo César de Noronha.

  4. Cientista que estudou as conchas fósseis das Selvagens enviadas por Noronha.

  5. Geólogo que utilizou as observações de Noronha sobre o Porto Santo e a Selvagem Grande.

  6. Paleontólogo sérvio que descreveu 106 formas fósseis da coleção de Noronha proveniente do Porto Santo.

  7. Zoólogo que descreveu, no Journal of the Linnean Society, briozoários do Porto Santo enviados por Noronha.

  8. Paleontólogo alemão a quem Noronha enviou corais fósseis do arquipélago em 1904.

Na folha N

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.