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Proselitismo Protestante 1A colónia inglesa e a propaganda de Kalley
Artigo Nº 3047 Vida religiosa e devoção Vol. III · pp. 278–280 5 min de leitura

Proselitismo Protestante

Relato da atividade missionária protestante na Madeira, sobretudo da campanha do médico escocês Robert Kalley (1838–1846) e dos esforços mais modestos de pastores calvinistas posteriores, que o Elucidário considera terem tido poucos resultados.

Proselitismo Protestante

1A colónia inglesa e a propaganda de Kalley

Como já dissemos em outro lugar desta obra, a colónia inglesa começou a ter importância entre nós nos fins do século XVI. Dessa época até a implantação do governo representativo não nos consta que os membros dessa colónia ou de qualquer outra nacionalidade protestante tentassem promover entre nós a propaganda da sua religião, fazendo prosélitos no seio das populações madeirenses. Tinham igrejas privativas do seu culto, que eram apenas frequentadas pelos seus adeptos, com absoluta exclusão dos naturais. E em abono da verdade se deve dizer que em geral os súbditos estrangeiros residentes na Madeira como comerciantes ou doentes, e ainda os visitantes que procuram a benignidade do nosso clima ou as belezas da nossa privilegiada natureza, não se entregam á propaganda dos seus ideais religiosos nem tentam demover os católicos da pratica da religião que estes professam. Até vários estrangeiros protestantes têm protegido algumas obras católicas e ainda auxiliado a construção e a reparação de igrejas e capelas, como fez John Howard March reedificando a igreja paroquial do Santo da Serra.

O que dito fica não exclui o facto incontestável de haverem alguns propagandistas protestantes de nacionalidade inglesa tentado fazer nesta ilha por varias vezes e com maior ou menor actividade o proselitismo da sua religião, como emissários das chamadas sociedades bíblicas, tendo em algumas ocasiões levado a perturbação e a desordem a algumas freguesias desta ilha. Foi principalmente em 1838 que se iniciou essa propaganda. Já antes se tinham feito varias tentativas, que resultaram inteiramente infrutuosas. Foi o dr. Roberto Kalley quem verdadeiramente conseguiu fazer entre nós uma propaganda eficaz. Para isso contribuíram poderosamente as qualidades pessoais de que era dotado, a sua arrebatadora eloquência, a sua caridade para com os pobres e, mais que tudo, a sua abalizada proficiência na arte de curar, pois que era um medico distintíssimo e a todos atendia gratuitamente. Era principalmente nisso que estava o segredo da eficácia da sua propaganda. Já dela nos ocupámos e das suas funestas consequências a pág. 207 e seguintes, do II volume.

A saída precipitada do dr. Kalley desta ilha em 1846, onde não mais voltou, não acabou com os adeptos do protestantismo entre os habitantes dalgumas freguesias da Madeira, sobretudo no Santo da Serra, em Machico, em S. Roque e em Santo António. A propaganda tinha lançado raízes e o proselitismo nunca mais deixou de exercer-se nesses e outros centros, embora em condições mais moderadas e sem o entusiástico fervor que lhe imprimira o dr. Kalley. A verdade, porém, é que os resultados dessa propaganda não são grandes. Há mais de 90 anos que o célebre médico escocês abandonou esta ilha, e o numero de prosélitos, longe de aumentar, tem consideravelmente diminuído. Apesar dos propagandistas disporem de poderosos meios de atracção, como sejam a imprensa, com a publicação dum jornal e a difusão de inúmeros folhetos, a sustentação de escolas, a distribuição de dinheiro e vestuário até, é todavia certo que o numero de adeptos das ideias protestantes não irá além duma centena de indivíduos no meio duma população de 169000 habitantes (1921). Esse numero seria muito maior, se porventura se desse credito aos relatórios enviados ás sociedades bíblicas e outras associações estrangeiras que fomentam essa propaganda, mas a verdade é que tais relatórios são redigidos em conformidade com os interesses e conveniências dos que neste arquipélago mantêm essa mesma propaganda.

O proselitismo exercido pelo dr. Kalley durou aproximadamente o período de oito anos, que decorre de 1838 a 1846, com excepção dumas curtas viagens que o celebre propagandista fez a Inglaterra. Com a sua brusca saída da Madeira, a propaganda protestante quase desapareceu entre nós, não somente por lhe faltar o seu principal esteio, mas ainda pelo fundado receio de que as iras populares se pudessem novamente manifestar com as lamentáveis violências do dia 9 de Agosto de 1846.

2Propaganda posterior

A propaganda tornou-se menos intensa e mais cautelosa, mas não deixou de fazer-se ininterruptamente e de modo especial nas freguesias de Machico e Santo da Serra, e também nalguns pontos do Funchal. Pouco depois da fuga precipitada do dr. Kalley, apareceu o ministro protestante Hewitson, que iniciou uma propaganda moderada, ou, antes, veio alimentar e conservar os frutos do proselitismo do medico escocês. Em 1850, teve o governador civil José Silvestre Ribeiro que intervir nas tentativas que um tal Wilkinson fazia em Machico para arrebanhar vários indivíduos para a seita calvinista.

O ardor da propaganda esfriou então, tomando um certo desenvolvimento alguns anos depois, quando, por 1860, foi estabelecida uma igreja calvinista no Funchal. Uma nova e mais activa propaganda se deu por 1875, que atingiu ainda maior incremento depois do ano de 1894. Os ministros Angus e Buchanan foram os principais agentes dessa propaganda. É certo, porém, como já fizemos notar, que tem sido sempre de apoucados resultados entre nós o proselitismo calvinista, a não ser a propaganda feita pelo dr. Roberto Kalley, devido especialmente ás eminentes qualidades que o caracterizavam e á maneira como sabia dirigir-se ao povo desta ilha.

É um tributo prestado á verdade dizer aqui que a colónia inglesa desta ilha nos últimos anos não tem associado a essa propaganda a sua acção e a sua influencia, que não são pequenas, e que até por vezes tem ostensivamente reprovado a conduta de certos ministros calvinistas, pretendendo aliciar os habitantes desta ilha para a pratica dos seus ideais religiosos.

O artigo Kalley (Roberto) inserto a pág. 207 do vol. II oferece a este assunto outras interessantes informações, que importa consultar.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 08
  1. A colónia inglesa começou a ganhar importância na Madeira.

  2. Roberto Reid Kalley chegou ao Funchal em 2 de outubro de 1838 e iniciou uma campanha de proselitismo protestante na Madeira que durou até 1846.

  3. Os tumultos populares contra a propaganda protestante de Roberto Reid Kalley culminaram no saque da sua casa no Funchal por uma multidão, obrigando-o a fugir precipitadamente da Madeira.

  4. O governador civil José Silvestre Ribeiro interveio contra o proselitismo protestante de Wilkinson em Machico.

  5. Foi fundada uma igreja calvinista no Funchal.

  6. Começou na Madeira uma nova campanha de proselitismo protestante, mais ativa.

  7. A propaganda protestante na Madeira intensificou-se sob a direção dos pastores Angus e Buchanan.

  8. A Madeira tinha cerca de 169 000 habitantes, dos quais apenas cerca de uma centena eram protestantes.

Lugar

Lugares mencionados · 06

No estrangeiro

Mapa: Madeira (6)
  1. Funchal

    Cidade onde a propaganda prosseguiu e onde foi fundada uma igreja calvinista por volta de 1860.

  2. Inglaterra

    United Kingdom. País que Kalley visitou brevemente durante a sua missão.

  3. Machico

    Um dos principais centros do proselitismo protestante duradouro.

  4. Santo António

    Funchal. Freguesia onde permaneceram adeptos do protestantismo depois de Kalley.

  5. Santo da Serra

    Machico. Freguesia cuja igreja March reconstruiu e onde se concentravam convertidos ao protestantismo.

  6. São Roque

    Funchal. Freguesia onde permaneceram adeptos do protestantismo depois de Kalley.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 07
  1. Pastor calvinista, um dos principais agentes da propaganda protestante após 1875 e 1894.

  2. Pastor calvinista, um dos principais agentes da propaganda protestante após 1875 e 1894.

  3. Pastor protestante que chegou pouco depois da partida de Kalley e apoiou os seus convertidos através de uma propaganda moderada.

  4. Protestante estrangeiro que reconstruiu a Igreja do Santo da Serra, citado como exemplo de apoio protestante a obras católicas.

  5. Governador civil da Madeira que interveio em 1850 contra o proselitismo de Wilkinson em Machico.

  6. Médico escocês e missionário protestante cujo proselitismo na Madeira (1838–1846) terminou com a sua fuga após os tumultos de 9 de agosto de 1846.

  7. Protestante que tentou converter pessoas ao calvinismo em Machico, em 1850.

Na folha P

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.