Fome na Madeira em 1846 e 1847 1Causas da fome e primeiras providências
Fome na Madeira em 1846 e 1847
Relato da fome que atingiu a Madeira no final de 1846 e no início de 1847, provocada pela doença da batata e pela descida do preço do vinho, e das medidas de socorro organizadas pelo governador civil José Silvestre Ribeiro.
1Causas da fome e primeiras providências
Morreu uma boa parte da população madeirense aos horrores da fome durante os últimos três meses de 1846 e os primeiros meses de 1847, por haver faltado a semilha, então o principal alimento das classes pobres, destruida por uma moléstia, antes disso perfeitamente desconhecida na ilha. Se a população dos campos dispusesse dos meios precisos para adquirir outras subsistências e estas abundassem na ilha seria menos terrível a crise que a afligiu, mas desgraçadamente veio juntar-se á molestia das semilhas um decrescimento notavel no preço dos vinhos, o que trouxe como consequencia a miséria entre os agricultores e os pequenos proprietários rurais, cujos recursos pecuniários provinham quasi exclusivamente da venda dos mostos aos negociantes.
Felizmente era a Madeira governada desde os princípios de Outubro de 1846 pelo conselheiro José Silvestre Ribeiro, o homem que a tudo atendia com zelo e uma dedicação verdadeiramente notáveis, sendo devido ás providencias acertadas que ele imediatamente adoptou, que pôde ser atenuada a violência do mal e abreviada a sua duração.
No dia 15 de Outubro de 1846 houve na secretaria do Governo Civil uma reunião das principais autoridades e funcionários do distrito, convocada pelo governador, em que foi deliberado que os três clavicularios do cofre central adiantassem até á importancia de réis 1 500$000 para as obras do desentulho das ribeiras, e pouco depois conseguia o mesmo Governador que a Comissão Central de Auxílios, criada por ocasião da aluvião de 1842, aplicasse ás mesmas obras a importância de 282$000 réis, que ainda tinha em cofre, o que permitiu dar trabalho, e por consequência recursos pecuniários, a um grande numero de homens que lutavam com a miséria.
Como houvesse no mercado grande falta de géneros, fez o conselheiro José Silvestre Ribeiro com que a Câmara Municipal da cidade fosse autorizada a receber do referido cofre central a soma necessária para a compra e distribuição pelo povo, pelo preço do custo, de uma grande porção de milho que um negociante inglês tinha em deposito, ao mesmo tempo que conseguia que vários negociantes e alguns proprietários contribuíssem, segundo as suas posses, para um fundo especial, destinado á aquisição de mantimentos nos países que pudessem fornecê-los em condições vantajosas. Por essa ocasião constituiu no Funchal, ainda por inclinação do mesmo Governador, uma comissão de 7 membros, nacionais e estrangeiros presidida pelo Bispo, para solicitar donativos em beneficio dos indigentes, ficando resolvido que essa comissão estabelecesse comissões filiais em todas as paróquias para obterem socorros em dinheiro e em géneros, e distribui-los pelos pobres.
Até 25 de Maio de 1847 reuniram os negociantes da cidade e alguns proprietários um fundo de 32.500$000 réis para a compra de comestíveis, tendo a comissão encarregada da gerencia desse fundo apresentado até aquela data os seguintes géneros: em Março, 2 moios de feijão; em Abril, 100 moios de milho, 100 de trigo, 1250 barris de farinha e 194 sacas de arroz; e em Maio 557,5 quintais de milho. Outros mantimentos entraram ainda na cidade, não mandados vir, porém, pela referida comissão.
Esta comissão procedendo á liquidação dos géneros que adquirira, não só conseguiu embolsar os negociantes das importâncias com que haviam contribuído, mas até apurou um saldo de 1.755$55 réis, que a Câmara Municipal do Funchal veio a aplicar em 1848 á construção da ponte do Ribeiro Seco.
2O auge da crise
Em fins de Fevereiro de 1847, quando era maior a falta de subsistências, chegou a haver receios de tumultos graves, pois era grande a irritação do povo contra os negociantes, que eram alcunhados de monopolistas e de inimigos das classes pobres; mas felizmente não chegou a ser alterada a ordem, tendo concorrido bastante para isto a circunstancia de alguns desses negociantes, receosos do que podia vir a acontecer-lhes, haverem resolvido expor á venda o milho e o trigo que tinham em deposito em condições vantajosas para o publico.
Houve dias no mês de Fevereiro em que grande parte do povo se sustentou com a cana de açúcar, e alguns passos se deram para que os engenhos a não moessem para aguardente e melaço.
Os tesoureiros das comissões filiais das paróquias muitas vezes encontraram dificuldade em dar aplicação ao dinheiro que recebiam, por isso que não encontravam géneros á venda, ou apenas se lhe deparavam pequenas quantidades deles. Foi necessário distribuir rações de carne e de peixe fresco as pessoas a quem eram destinados os socorros, para estas não morrerem de fome.
As medidas extraordinárias tomadas pelo Governador com respeito ao levantamento de dinheiro do cofre central para acudir com pronto remédio aos males que afligiam o povo do arquipélago, mereceram a aprovação do Governo, mas tendo o mesmo Governador solicitado um credito de 30 contos para obras publicas do distrito, só lhe foi permitido despender a importância de 2.500$000 réis, além da que estava já autorizada para as mesmas obras pelo credito do ano económico.
A fim de beneficiar os povos do arquipélago, reduziu o Governo a 25 réis o direito de importação do trigo de produção estrangeira e isentou do pagamento do terço exigido pela lei de 2 de Agosto de 1839 para as imposições municipais, todos os demais cereais quer em grão, quer em farinha. Estas disposições só vigoraram, porém, até a época das colheitas no arquipélago.
Em 1 de Março fez o Governador com que saísse dos cofres públicos mais a importância de 3 contos de réis para a compra de comestíveis destinados ás pessoas verdadeiramente necessitadas das diferentes freguesias, que não pudessem trabalhar ou não tivessem trabalho, e na noite de 17 de Abril houve no pequeno teatro da cidade, a pedido do mesmo Governador, uma récita de caridade, representando-se o drama de Ducange e Dinaux Trinta anos ou a vida de um jogador, que tinha sido ensaiado pelo Dr. Luiz da Costa Pereira. Na noite de 26 de Abril foi o mesmo drama novamente á cena, tendo-se prestado gostosamente todos os actores, tanto desta como da primeira vez, a desempenhar gratuitamente, e até com despesas suas, os papéis que lhe haviam sido distribuídos.
3Donativos estrangeiros e fim da crise
«Durante a crise da fome, diz o Dr. Azevedo nas notas ás Saudades da Terra, uma commissão composta dos Srs. George Stoddart, John Howard March, George Hasch e Richard Davies, promoveu subscripções no estrangeiro, o producto das quais foi o seguinte: de Hamburgo, 556$520 reis, em dinheiro; da Russia, 873$600 reis, em dinheiro; dos Estados Unidos da América, 19.660$780, em mantimentos, e reis 3.215$190, em dinheiro; da Inglaterra e Irlanda, 48$000 reis, em mantimentos, e reis 10.073$080 em dinheiro. Na capela britannica desta ilha, depois de um sermão sobre a caridade pelo Rev.° T. K. Brown, foram então offertados 464$000 reis em dinheiro. Também aquella commissão sollicitou dos inglezes, americanos e allemães n'esta ilha uma subscrição, a qual, incluindo as offerendas individuaes dos referidos quatro membros, produziu 2.536$600 reis, em dinheiro. O total destes donativos, comprehendendo 54$554 reis de premio sobre os soberanos importados, subiu a 37.482$324 reis».
Devido aos relevantes serviços do conselheiro José Silvestre Ribeiro e á leal coadjuvação que a este ilustre funcionário prestaram as câmaras municipais, os administradores do concelho, as comissões de socorros, vários estrangeiros e até mesmo alguns negociantes, já em fins de Abril de 1847 tinha melhorado bastante a situação do povo madeirense. Todavia só mais tarde é que tudo se normalizou, quando pelo desenvolvimento que tomou a cultura da batata doce, pela extinção da moléstia das semilhas e pela entrada de grandes porções de cereais vindas do estrangeiro e de algumas colónias portuguesas, ficou inteiramente assegurada a subsistência da população.
Os três primeiros meses do ano de 1847 foram para os madeirenses uma quadra de miséria e de desolação; no entretanto não consta que ninguém conseguisse acumular grandes riquezas á custa das desgraças do povo, como sucedeu em épocas mais recentes, nem que qualquer autoridade ou funcionário deixasse de cumprir honestamente o seu dever. O direito de propriedade foi respeitado, e se alguns géneros subiram de preço, não foi isso por falta de previdentes medidas adoptadas pelas autoridades.
Em 1 de Março de 1847 dizia o Governador aos Administradores do Concelho que se os moradores das freguesias dos campos se arrojassem a vir á cidade com o criminoso intento de obrigarem os negociantes a expor á venda milho que supunham existir ainda nos armazéns, «estava disposto a escarmenta-los muito severamente e por maneira que a lição lhes lembrasse por longos annos», mas ao mesmo tempo que procurava fazer respeitar o direito de propriedade, publicava um edital em que convidava todos os negociantes de cereais que tivessem algum milho guardado, a manifesta-lo imediatamente perante a Câmara, a fim de ser reduzido a farinha e exposto á venda nas condições que anteriormente tinham sido estabelecidas.
O conselheiro José Silvestre Ribeiro não tinha contemplações com ninguém em se tratando de zelar os interesses do povo, sendo devido a esta circunstancia que o mais completo sossego reinou sempre e que todos sofreram sem um protesto digno de nota as desgraças que oprimiram a Madeira nos anos de 1846 e 1847.
Na Collecção de documentos relativos á crise da fome, publicada por Servulo Drumond de Meneses em 1848, encontram-se assinaladas todas as providencias adoptadas por José Silvestre Ribeiro para minorar os sofrimentos do povo enquanto durou a mesma crise, deverão os estudiosos recorrer a esse trabalho, se porventura quiserem conhecer com mais pormenores, os benefícios que os madeirenses ficaram devendo àquela autoridade na quadra calamitosa que a ilha atravessou.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 05-
Uma lei impôs um adicional de um terço sobre os impostos municipais, posteriormente dispensado para os cereais durante a fome.
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Uma terrível aluvião atingiu o Funchal e danificou os Paços do Concelho, no Largo do Pelourinho. Seguiu-se uma tempestade no porto que destruiu embarcações. Estes acontecimentos levaram à criação da Comissão Central de Socorros e à construção de parte da muralha de Machico.
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A Madeira sofreu o «ano da fome», uma carestia causada pela doença da batata num contexto de crise agrícola e comercial, que matou grande parte da população; João Howard March ajudou a organizar subscrições de auxílio.
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Uma reunião das autoridades aprovou o adiantamento de 1 500$000 réis para a limpeza das ribeiras, a fim de dar trabalho aos pobres durante a fome.
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A Madeira sofreu uma grave fome, que atingiu o auge em fevereiro de 1847 e causou elevada mortalidade por doenças digestivas; a fome chegou também ao Porto Santo. O governador José Silvestre Ribeiro tomou medidas de socorro, os comerciantes angariaram fundos para alimentos e realizaram-se espetáculos de beneficência no Funchal.
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Financiada pelo excedente do fundo de socorro às vítimas da fome e contratada em 27 de fevereiro por 5 799$000 réis, a construção da ponte do Ribeiro Seco começou sob a direção de José Silvestre Ribeiro em 6 de março de 1848 e estava quase concluída no final do ano.
Lugar
Lugares mencionados · 07No estrangeiro
- Estados Unidos da América
United States of America. Principal origem dos géneros alimentícios doados.
Os Estados Unidos da América foram um destino da emigração madeirense a partir de 1753 e uma importante fonte de remessas, o maior importador de bordados da Madeira em 1923 e a maior fonte de donativos de víveres durante a fome de 1846–1847. Vários madeirenses viveram aí no exílio, entre eles o Dr. João Francisco de Oliveira e o Dr. Lourenço José Moniz, e alguns maçons em fuga emigraram para o país em 1792. Foram também o país de nascimento de João Howard March, e o Marítimo recebeu um convite para os visitar.
- Funchal
Sede da comissão de socorro e centro de distribuição de alimentos.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Hamburgo
Germany. Origem de donativos.
Cidade hanseática onde José Anselmo Correia Henriques e o primeiro Visconde de Torre Bela exerceram funções diplomáticas. Vinhos madeirenses foram analisados nos seus laboratórios em 1914, e dali vieram donativos durante a fome de 1846–1847. Ali foram impressas várias obras, incluindo o livro de George Tams.
- Igreja Inglesa
Funchal. Local de um sermão de beneficência destinado a angariar donativos.
Local onde foi proferido um sermão de beneficência para recolher donativos.
- Inglaterra
United Kingdom. Origem de donativos.
A Inglaterra surge no Elucidário como o primeiro grande mercado dos bordados da Madeira e o principal importador dos artigos de vime madeirenses. Era também a origem da maior parte da manteiga consumida no Funchal no início do século XIX. Foi um dos principais refúgios dos emigrados liberais que fugiam à perseguição miguelista, e vários madeirenses estudaram ou exerceram funções diplomáticas no país.
- Ponte do Ribeiro Seco
Funchal. Ponte construída em 1848 com o excedente do fundo destinado à alimentação das vítimas da fome.
A Ponte do Ribeiro Seco atravessa o Ribeiro Seco no início da Estrada Monumental, perto do Funchal. Inicialmente projetada por Mouzinho de Albuquerque como monumento ao Duque de Bragança, foi construída em 1848–1849 durante o governo de José Silvestre Ribeiro, com donativos públicos e o excedente do fundo destinado a comprar alimentos durante a fome de 1846–1847. Serviu de vértice da delimitação da cidade em 1909 e foi local de suicídios, entre os quais se destacou um caso escandaloso ocorrido cerca de 1860.
- Rússia
Russia. Origem de donativos.
A Rússia surge no Elucidário como mercado do vinho da Madeira, objeto de uma representação municipal de 1906, e como origem de donativos durante a fome de 1846–1847. Agostinho de Ornelas de Vasconcelos foi ministro plenipotenciário naquele país a partir de 1894.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 11- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador das Saudades da Terra, citado a propósito dos donativos estrangeiros durante a fome.
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Coautor do drama representado no Funchal para angariar fundos de socorro às vítimas da fome.
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Membro da comissão que angariou donativos no estrangeiro para socorrer as vítimas da fome.
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Membro da comissão que angariou donativos no estrangeiro para socorrer as vítimas da fome.
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Membro da comissão que angariou donativos no estrangeiro para socorrer as vítimas da fome.
- José Silvestre Ribeiro1807–1891
Governador civil da Madeira desde outubro de 1846, cujas medidas de socorro atenuaram a fome de 1846–1847.
- Luís da Costa Pereira1818–1893
Ensaiou a peça de beneficência representada no Funchal em abril de 1847 para socorrer as vítimas da fome.
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Membro da comissão que angariou donativos no estrangeiro para socorrer as vítimas da fome.
- Sérvulo Drumond de Meneses1802–1867
Publicou em 1848 uma coletânea de documentos sobre a crise de fome.
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Proferiu na Igreja Inglesa um sermão de beneficência que angariou 464$000 réis para socorrer as vítimas da fome.
+ 1 mais
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Coautor do drama representado no Funchal para angariar fundos de socorro às vítimas da fome.