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Doenças 1Doenças dominantes
Artigo Nº 1224 Medicina e saúde pública Vol. I · pp. 712–714 4 min de leitura

Doenças

Panorama das doenças predominantes na Madeira, com estatísticas de mortalidade de 1917 e uma cronologia das epidemias de varíola, sarampo, cólera, gripe e outras doenças, do século XVIII ao século XX. Defende que não há doenças endémicas na Madeira e que a mortalidade é comparativamente baixa face à de outros países.

Doenças

1Doenças dominantes

As doenças dominantes na Madeira são a tuberculose, as diarreias, as lesões orgânicas do coração, as apoplexias e outras moléstias do cérebro, as pneumonias e as bronquites. De 3631 óbitos que houve em 1917 no Distrito do Funchal, 263 foram devidos a tuberculose dos pulmões, 11 a tuberculose das meninges, 17 a outras tuberculoses, 890 a diarreias e enterites (só 382 dos falecidos tinham mais de 2 anos), 246 a lesões orgânicas do coração, 239 a congestões, hemorragias e amolecimento cerebral, 167 a bronquites agudas, 40 a bronquites crónicas, 155 a pneumonias e 105 a outras doenças do aparelho respiratório.

O cancro aparece muitas vezes atacando diferentes orgãos, e a hepatite aguda e cronica, o reumatismo agudo e crónico, as escrofulas, certas moléstias cutâneas e as febres continuas de diferentes formas, principalmente a gástrica e a ataxo-dinamica, também não são raras na ilha. Em 1917 morreram de cancros e outros tumores malignos, 91 indivíduos em todo o arquipelago.

A elefantíasis aparece em várias localidades da Madeira, principalmente em indivíduos das classes pobres. As freguesias da Ponta do Sol e Ponta do Pargo são as que dão maior percentagem de indivíduos atacados desta molestia.

2Epidemias

O sarampo e a varíola têm aparecido algumas vezes na Madeira, com caracter epidémico, desenvolvendo-se sempre pelo contagio de indivíduos vindos de fora. Entre as epidemias de varíola, mencionaremos a de 1801, a de 1815, que produziu para cima de 2000 mortes em toda a ilha, a de 1858 e 1859, a de 1870, a de 1873 e a de 1907; e entre as de sarampo, a de 1751, que produziu uma mortalidade notável, a de 1816 e a de 1884. Em 1905 manifestou-se a peste bubonica (V. este nome) na Madeira, mas sem caracter epidémico, e em 1907 houve 14 mortes na freguesia de Santo Antonio, devidas, segundo se disse, a pneumonias infecciosas. A colera-morbus (V. este nome) visitou-nos em 1856 e em 1910, a raiva (V. este nome) em 1892, a escarlatina em 1814, 1825 e 1864, a gripe, com muitos casos de pulmonite, em 1884, a meningite cerebro-espinhal, com caracter epidémico, em 1904 e a espanhola (espécie de influenza) e a gripe pneumonica, em 1919. Sôbre estas duas ultimas moléstias escreveu o Sr. Dr. Nuno Silvestre Teixeira um notável relatório, que começou a ser publicado no Diário de Noticias do mês de Dezembro de 1919.

O nome de influenza dado agora á gripe que frequentes vezes aparece na Madeira, já era conhecido entre nós no segundo quartel do século XIX, segundo se vê de documentos registados no arquivo da Câmara Municipal do Funchal.

Em 1847 houve muitas afecções irritativas do aparelho digestivo, motivadas pela fome, sendo grande a mortalidade, e em 1888 deram-se muitos casos de uma anemia especial na freguesia do Porto da Cruz, devidos, segundo declarou o falecido medico Dr. Vicente Cândido Machado, ao Anchylostomum intestinale. Em 1893 desenvolveu-se uma epidemia de febres tifóides na freguesia do Pôrto do Moniz, que fez sucumbir um grande numero de pessoas. A “coqueluche” poucas vezes se desenvolve na ilha, com caracter epidémico, o mesmo se podendo dizer acerca do bócio ou papeira.

Na Madeira não há moléstias endémicas; o que há simplesmente são as enfermidades comuns a todos os países, as quais se apresentam geralmente com caracter benigno. A Madeira fever, de que falam os detractores do clima da ilha, é apenas um embaraço gástrico, que ataca uma ou outra vez os estrangeiros que comem em grande quantidade certas frutas que não existem no norte da Europa.

A insuficiência do vestuário, uma alimentação fraca, o abuso das bebidas alcoólicas e certas negligencias indesculpaveis no asseio, fazem com que os indivíduos das classes pobres estejam em geral mais sujeitos ás doenças dominantes na ilha, do que os indivíduos pertencentes ás classes mais favorecidas da fortuna. No entretanto, a proporção da mortalidade causada por essas moléstias comparadas com a de outros países, é bastante favorável á Madeira, para o que muito concorrem a amenidade do nosso clima e o natural vigor e resistência da nossa raça.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 12
  1. Uma epidemia de sarampo causou uma mortalidade considerável na Madeira; o Dr. Thomas Heberden prestou excelentes serviços durante a epidemia no Funchal.

  2. Uma epidemia de varíola, trazida por um navio de Cabo Verde, matou cerca de 2 000 pessoas na Madeira.

  3. A Madeira sofreu uma grave fome, que atingiu o auge em fevereiro de 1847 e causou elevada mortalidade por doenças digestivas; a fome chegou também ao Porto Santo. O governador José Silvestre Ribeiro tomou medidas de socorro, os comerciantes angariaram fundos para alimentos e realizaram-se espetáculos de beneficência no Funchal.

  4. Uma epidemia de cólera, trazida pelo Regimento de Infantaria n.º 1, assolou a Madeira de julho a outubro de 1856, causando, segundo a tradição, cerca de dez mil mortes e deixando muitos órfãos. Álvaro Rodrigues de Azevedo, Luiz Albino Gonçalves e outros prestaram serviço durante a epidemia.

  5. Registaram-se muitos casos de anemia causada por ancilóstomos no Porto da Cruz.

  6. A raiva surgiu na Madeira em 1892, provavelmente trazida pelo cão de um estrangeiro desembarcado no Funchal em maio, e causou a morte de muitos cães e de sete pessoas. O veterinário António Roque da Silveira chegou ao Funchal em 8 de outubro para estudar o surto.

  7. Uma epidemia de febre tifoide matou muitas pessoas em Porto Moniz.

  8. Ocorreu na Madeira uma epidemia de meningite cerebrospinal, tendo os doentes sido tratados no lazareto.

  9. A peste bubónica surgiu no Funchal no final de 1905, sem assumir proporções epidémicas; os doentes foram isolados no lazareto de Gonçalo Aires, cujo rigoroso isolamento alimentou o receio e a agitação populares.

  10. Uma epidemia de cólera atingiu a Madeira e causou cerca de 550 mortes; o Dr. Carlos França foi enviado para dirigir os serviços sanitários, e o lazareto e um hospital improvisado no forte de Machico trataram os doentes.

  11. O distrito do Funchal registou 3 631 mortes, 890 das quais por diarreia e enterite.

  12. A gripe espanhola e a gripe pneumónica atingiram a Madeira.

Lugar

Lugares mencionados · 06

No estrangeiro

Mapa: Madeira (6)
  1. Distrito do Funchal

    Portugal. Distrito cujas estatísticas de mortalidade de 1917 são apresentadas.

  2. Ponta do Pargo

    Calheta. Uma das freguesias com maior incidência de elefantíase.

  3. Ponta do Sol

    Uma das freguesias com maior incidência de elefantíase.

  4. Porto da Cruz

    Machico. Freguesia afetada por uma forma particular de anemia em 1888.

  5. Porto Moniz

    Freguesia atingida por uma epidemia mortal de febre tifoide em 1893.

  6. Santo António

    Funchal. Freguesia onde ocorreram 14 mortes por pneumonia infeciosa em 1907.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 02
  1. Médico que escreveu um relatório notável sobre a gripe espanhola e a gripe pneumónica de 1919, publicado no Diário de Notícias a partir de dezembro de 1919.

  2. Médico, já falecido, que atribuiu os casos de anemia de 1888 no Porto da Cruz ao ancilóstomo (Anchylostomum intestinale).

Na folha D

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.