História Madeirense 1A história por fazer
História Madeirense
Ensaio sobre o estado da historiografia madeirense, que assinala a inexistência de uma história crítica completa do arquipélago, resume a divisão da sua história em quatro períodos proposta por Álvaro Rodrigues de Azevedo e enumera as principais fontes impressas para a história da Madeira.
1A história por fazer
Para a historia deste arquipélago existem muitos materiais dispersos, carreados por alguns pacientes investigadores, mas ainda não apareceu o arquitecto e o construtor do edifício. Um consciencioso estudo sôbre a Madeira, que se não restrinja apenas a uma enumeração fastidiosa de nomes e datas, está inteiramente por fazer. Queremos referir-nos a um moderno trabalho de critica histórica, em que as ideias do tempo os costumes os indivíduos o ambiente em que se desenrolaram os acontecimentos, etc, sejam apresentados numa brilhante e evocadora síntese, dando-nos num rápido conjunto a visão completa de toda a vida madeirense no período largo de cinco séculos. Nesse quadro panorâmico, destacar-se-iam em acentuado relevo, a primitiva colonização, que logo tomou o aspecto das velhas sesmarias e se transformou depois no contrato de colonia, as relações entre os senhorios, feitos morgados, e os servos da gleba que arroteavam o solo, a acção despótica e quasi discricionária dos donatários a influência exercida neste meio pelos colonizadores continentais e por inúmeros estrangeiros, as expedições à Africa, as antigas emigrações para o Brasil, os elementos de riqueza trazidos pelo fabrico do açúcar e do vinho, o seu correlativo comercio de exportação, as modificações que todos esses e ainda outros factores teriam produzido nos costumes locais, etc., etc.
Todo esse laborioso estudo aguarda ainda uma robusta inteligência e um investigador consciencioso que, com um notável poder de generalização realize essa desejada obra, aproveitando os elementos fragmentados e dispersos que em varias partes se encontram. As eruditas e valiosas anotações das Saudades da Terra são uma prova incontestável de que o seu talentoso e ilustradissimo autor tinha sobejo fôlego e uma segura orientação para tamanho empreendimento, mas o seu modesto intento de simples anotador do trabalho de Gaspar Frutuoso não lhe permitiu legar-nos a obra que, sem esforço e talvez até com grande aprazimento do seu espírito, poderia ter produzido. Pontos há da nossa historia que o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo trata com o indispensável desenvolvimento e com todo o rigor da critica histórica, havendo outros que deixou apenas esboçados e sem os comentários que o assunto exigia, por estarem fora do plano que traçou e o obrigarem a dar ás notas das Saudades da Terra uma desmarcada latitude. A pesar de tudo, é principalmente nesse valioso e abundante repositorio de noticias e informações, de apreciações e de criticas, de observações e reflexões filosóficas que o futuro autor da historia madeirense encontrará o seu mais copioso tesouro ao pretender elaborar e escrever a sua obra.
2O esbôço do Dr. Azevedo
Uma dúzia de anos depois de impressas anotações, publicou o Dr. Rodrigues de Azevedo no Diccionario Universal Portuguez Illustrado um desenvolvido artigo sobre a Madeira, que é uma interessantissima monografia acerca deste arquipélago e que se ocupa embora em resumido quadro, de todos os assuntos que possam porventura interessar ás diversas manifestações da sua actividade desde os tempos primitivos da descoberta. Nele traça magistralmente um notável esboço da historia madeirense, que divide em quatro períodos e que faz preceder das seguintes palavras:
«E isto é emprêsa não fácil, mórmente na parte que respeita à crise desde o descobrimento até á definitiva consolidação deste arquipelago com a metropole; crise solapada e ainda até agora não investigada, crise que, seguramente, se repercutiu depois no arquipélago dos Açores, mais ou menos em todo o nosso ultramar, e cujos efeitos talvez seriam fatalissimos ao poder colonial de Portugal, se o elemento monarchico não a conjurasse, como bizarramente soube e conseguiu conjurar, auxiliado pelos magistrados jurisconsultos e apoiado no burguez elemento municipal, na lucta em que, desde o continente até ali, se empenhou contra o elemento aristocrático fortemente localizado na ilha da Madeira e, talvez, de princípio, inconsciente instrumento de um intuito pessoal. Mas, além mesmo d'esta parte melindrosa, a historia madeirense é interessante já quanto à autonomia local, já quanto ás relações com a metrópole e com as demais colónias portuguesas, mormente as da Africa occidental e da América, porque a ilha da Madeira, e, n'esta, a villa, depois cidade, do Funchal foram, por tempos, o centro da outrora importantíssima governação eclesiástica, o ponto principal de todo o movimento náutico e mercantil dos portugueses no Atlântico, avultando primeiramente na exportação de madeiras de construcção, depois na cultura, fabrico e comercio do assucar, em seguida no dos seus optimos vinhos, por ultimo em ambos estes géneros, além de outros de menos monta, e, finalmente como estação de saúde, em razão do seu bello e afamado clima e pittoresca paizagem, pelo que namorada é de quantos forasteiros a visitam, maxime dos Inglezes, que duas vezes militarmente a ocuparam no primeiro quartel do presente século e a custo a largaram de sua posse, fazendo ainda muitos delles ahi a sua predilecta residência, especialmente na estação invernosa. Em consequência das particulares circunstancias acima indicadas, quem queira estudar as instituições e historia do Portugal ultramarino tem de força que ir em grande parte investigal-as nos archivos e historia da Madeira, terra onde Colombo esteve e onde talvez recebeu os primeiros raios de luz que lhe revelou a existencia do novo mundo. É, pois, sem duvida, útil e curiosa esta historia. Junctemos á succinctissima sinthese acima exarada alguns traços mais importantes ou mais característicos do quadro».
3Obras impressas
Os quatro períodos em que o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo divide o seu esboço da historia do arquipelago, decorrem: o 1.° desde o descobrimento até á morte de D. João I, em 1433, o 2.° desde este ano até á libertação do jugo espanhol, em 1640, o 3.° estende-se até a implantação do governo constitucional, em 1834, e o 4.° desde este ano até a actualidade. No artigo Bibliografia dissemos que no artigo Elementos para a Historia madeirense faríamos uma pequena resenha das obras que oferecessem um mais abundante pecúlio de noticias e informações respeitantes á historia deste arquipelago. Nesse artigo tratámos com algum desenvolvimento dos arquivos públicos e mais fontes manuscritas, mas por mero lapso não inserimos uma breve relação das obras impressas, o que faremos deste logar. Como por vezes temos dito e geralmente todos sabem, são as Saudades da Terra, e sobretudo as suas valiosas e abundantes notas, o mais rico, copioso e seguro repositorio de elementos que possuímos para a historia do nosso arquipelago. Desse trabalho monumental nos ocuparemos na altura competente deste Elucidario. Seguem-se em importância e valor as obras Historia Insulana e o Archivo da Marinha e Ultramar, ás quais já consagrámos neste Elucidario artigos especiais. De importância mais secundaria, mas oferecendo também apreciáveis informações e noticias, podemos fazer menção da Epocha Administrativa (3 vol., 1849, 1850, 1852) e dos outros opúsculos de Servulo de Meneses acerca da administração modelar do governador Silvestre Ribeiro, Breve Noticia sobre a Ilha da Madeira, por Paulo Perestrelo da Câmara (1841), Catalogo dos Bispos da Igreja do Funchal, por D. Antonio Caetano de Sousa (1721), na Colecção dos Documentos e Memórias da Academia Real de Historia Portugueza, tomo 1, As Dezertas e As Selvagens, por A. Artur Sarmento (1903 e 1906), Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes, por Adolfo Loureiro (1910, vol. V), vários opúsculos sobre o contrato de colónia (V. a bibliografia do artigo Contrato de Colonia), Documentos para a Historia das cortes geraes da nação portugueza, pelo barão de São Clemente (1888, vol. V), Constituições Sinodais do Bispado do Funchal (V. artigo Constituições do Bispado), diversas obras sôbre o descobrimento deste arquipelago, que vêm citadas a pag. 330, 349, 350 e 906 das Saudades e ás quais devemos acrescentar-Memória sobre a descoberta das ilhas do Porto Santo e Madeira, por E. A. Betencourt (1875), Quando foi descoberta a Madeira?, por Jordão de Freitas (1911) e O Reconhecimento do Arquipelago da Madeira, por Manuel Gregorio Pestana Júnior (1920), alguns opúsculos sôbre os morgadios da Madeira e a sua abolição (V. o artigo Instituiçoes Vinculares), vários folhetos acerca da proclamação da Constituição de 1821 neste arquipelago (V. o artigo Constituição de 1821), três opúsculos sobre a corografia madeirense (V. artigo Corografia), Statistica Historico-Geografica das ilhas da Madeira e Porto Santo, por Joaquim Pedro Cardoso Casado Giraldes (Paris, 1815), Ilha da Madeira, por Acursio Garcia Ramos (2 vol., 1879 e 1880), alguns folhetos acerca do proselitismo protestante do Dr. Roberto Kalley (V. o artigo Kalley) e a preciosa colecção de jornais madeirenses pertencente á empresa do Diário de Noticias do Funchal, de que se ocupa o opúsculo Resenha Chronologica do Jornalismo Madeirense (1908). No artigo Madeira do Diccionario Universal Portuguez Illustrado, que consagra algumas paginas á bibliografia madeirense, no artigo Bibliografia deste Elucidário e em todo o decurso desta obra se faz menção de muitas espécies bibliograficas que interessam à historia do nosso arquipélago.
Seja-nos permitida a satisfação, que não vaidade, de dizer aqui que no longo decurso desta obra também carreámos alguns materiais apreciáveis para a historia do nosso arquipélago. E, tanto maior é essa satisfação, quanto podemos sem contradita afirmar que o fizemos com o mais completo desinteresse, pondo ao dispor deste modesto empreendimento o trabalho de alguns anos de perseverantes e conscienciosas investigações e pesquisas nos arquivos públicos e particulares, e em muitas dezenas de obras impressas e manuscritas tanto nacionais como estrangeiras. Parece-nos ter deixado suficientemente esclarecidos vários pontos da historia madeirense e concorrido com muitos elementos indispensáveis para aqueles que depois de nós tentarem escrever essa historia, ou, ao menos, forem os continuadores deste nosso desvalioso, mas aturado trabalho.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 04-
Morte de D. João I, que encerrou o primeiro período da história da Madeira na divisão proposta por Azevedo.
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A revolução de 1 de dezembro de 1640, em Lisboa, pôs fim ao domínio castelhano e entregou o trono ao Duque de Bragança, como D. João IV; a Madeira e Porto Santo aderiram com entusiasmo, e António Veloso de Lira conduziu estudantes portugueses de regresso de Salamanca.
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A Madeira aderiu à revolução liberal e o regime constitucional foi solenemente proclamado no Funchal, passando a praça a chamar-se Praça da Constituição.
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O governo constitucional (liberal) foi estabelecido na Madeira, sujeitando a ilha à legislação do continente e pondo fim à antiga organização municipal, às milícias e à bandeira branca da cidade.
Lugar
Lugares mencionados · 08No estrangeiro
- Açores
Portugal. Arquipélago onde se diz que a crise madeirense inicial teve repercussões.
Os Açores são um arquipélago atlântico que partilha espécies vegetais com a Madeira. O Elucidário regista a fixação de famílias madeirenses, como os Bettencourt, no arquipélago, a proibição dos vinhos açorianos na Madeira em 1801 e a importação de tabaco açoriano. Refere ainda a vinda de agricultores açorianos à Madeira para ensinar métodos de cultivo do milho.
- África
Africa. Destino de expedições madeirenses e espaço de ligações coloniais.
África é referida como destino de expedições madeirenses, soldados e condenados ao exílio, e como mercado de exportação da manteiga madeirense. Os exploradores Capelo e Ivens atravessaram o continente, e o Norte de África é apontado como região de origem da tamareira.
- Brasil
Brazil. Destino da emigração madeirense nos seus primeiros tempos.
O Brasil é referido no Elucidário como um dos principais destinos dos emigrantes madeirenses, entre os quais vários clérigos e escritores. Foi também um mercado para o vinho e a aguardente da Madeira e produzia artigos de vime com vergas madeirenses. Ficou ligado à Madeira pelo cabo telegráfico de 1874 e é o país de origem do araçá.
- Desertas
Santa Cruz. Tema da obra de Sarmento publicada em 1903.
Grupo de ilhas próximo da Madeira, já separado dela aquando das últimas erupções, com a qual partilha espécies endémicas. Foi a principal zona de apanha de urzela, e Wollaston encontrou ali 89 espécies de escaravelhos. As ilhas foram estudadas por expedições científicas, incluindo os cientistas do Endurance em 1914.
- Funchal
Vila, mais tarde cidade, que foi um centro de governo eclesiástico e de comércio atlântico.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Porto Santo
Ilha cujo descobrimento é tratado em obras enumeradas.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
- Selvagens
Funchal. Tema da obra de Sarmento publicada em 1906.
Pequeno grupo de ilhas desabitadas, que pertence politicamente ao Arquipélago da Madeira. O Elucidário aborda a sua geografia, geologia, fauna e história da propriedade, bem como as lendas de tesouros escondidos, incluindo os planos de Shackleton para os procurar, e assinala a caça anual de cagarras e coelhos. É o único habitat remanescente da lapa Patella vulgata e foi estudado por naturalistas como Lowe e Garreta.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 17- Acúrsio Garcia Ramos1834–1892
Autor de Ilha da Madeira (2 vols., 1879–1880).
- Adolfo Loureirom. 1911
Autor de Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes (1910).
- Alberto Artur Sarmenton. 1878
Autor de As Dezertas (1903) e As Selvagens (1906).
- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador das Saudades da Terra e autor de uma monografia sobre a Madeira; apresenta-se aqui um resumo da sua divisão da história madeirense em quatro períodos.
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Autor do Catalogo dos Bispos da Igreja do Funchal (1721).
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Compilador de documentos sobre a história das Cortes portuguesas (1888).
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Navegador que esteve na Madeira, onde, segundo Azevedo, poderá ter concebido pela primeira vez a ideia do Novo Mundo.
- D. João Im. 1433
Rei de Portugal cuja morte, em 1433, encerra o primeiro período da história madeirense definido por Azevedo.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Autor das Saudades da Terra, a principal fonte cronística da história madeirense.
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Autor de uma estatística histórico-geográfica da Madeira e de Porto Santo (Paris, 1815).
+ 7 mais
- Jordão Apolinário de Freitasn. 1866
Autor de Quando foi descoberta a Madeira? (1911).
- José Silvestre Ribeiro1807–1891
Governador da Madeira cuja administração exemplar é descrita nas obras de Sérvulo de Meneses.
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Autor de uma memória sobre o descobrimento de Porto Santo e da Madeira (1875).
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Autor de O Reconhecimento do Arquipelago da Madeira (1920).
- Paulo Perestrelo da Câmara1810–1854
Autor de Breve Noticia sobre a Ilha da Madeira (1841).
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Médico escocês cujo proselitismo protestante na Madeira deu origem a vários opúsculos.
- Sérvulo Drumond de Meneses1802–1867
Autor de Epocha Administrativa, sobre a administração do governador Silvestre Ribeiro.