Oceanografia 1Estado dos estudos oceanográficos
Oceanografia
Panorama do estado dos estudos oceanográficos na Madeira por volta de 1921. Assinala que a vida marinha, o plâncton e os fatores ecológicos continuavam pouco estudados, defende a criação de um museu oceanográfico adequado e a recolha de plâncton por amadores, e cita Adolfo Loureiro sobre as correntes, profundidades e marés em torno da ilha.
1Estado dos estudos oceanográficos
O mar é um vasto meio biológico, onde se encontram as mais variadas formas, tanto vegetais como animais. Se as plantas superiores são quase todas terrestres, nas plantas inferiores inúmeras há que nascem, vivem e morrem no seio das aguas oceânicas. O reino animal tem também numerosos representantes nas aguas-marinas, fornecendo uma boa parte da alimentação do homem, assim como um variado número de organismos que, embora sem importância na economia humana, desafiam a curiosidade dos observadores científicos.
O estudo da oceanografia está ainda muito atrasado na Madeira; no entretanto, temos já alguns valiosos trabalhos descritivos ou de classificação sobre vários grupos de organismos que habitam o mar, os quais, embora não satisfaçam sempre às exigências da hidrobiologia moderna, são todavia muito uteis para o conhecimento da composição faunística e floristica das nossas aguas.
Nos artigos Algas, Carcinologia, Conchas, Peixes, Estrelas, Ouriços do Mar, Vermes, etc., etc., alguns dados se encontram sobre as produções animais e vegetais de nossos mares, mas os resultados obtidos até agora, principalmente por meio das pescas e dragagens realizadas, se bem que representem um grande passo no caminho da investigação dos organismos que vivem no nosso meio marinho, pouca luz vêm lançar sobre certos pontos de oceanografia que muito preocupam as atenções dos sábios modernos. O plancton, ou o conjunto dos vegetais e animais que flutuam passivamente no seio das aguas, sendo portanto o joguete das correntes e das condições físicas e químicas do meio em que vivem, está muito imperfeitamente estudado, e o mesmo se pode dizer acerca de certos grupos benthonicos, ou que exercem a sua actividade junto do fundo dos mares. O estudo dos factores ecológicos, tais como a temperatura, a salinidade, os gases dissolvidos, a pressão, o movimento das aguas nos nossos mares, etc., esta quasi por fazer, e sobre os organismos do plancton ou planctontes, que desempenham papel preponderante pela sua abundância, só existem publicadas algumas ligeiras noticias sobre os Copépodos e as Diatomáceas madeirenses. Nada se sabe, que nos conste, sobre os Dinoflagelados, e, sobre os Cistoflagelados, apenas se conhece a Noctiluca miliaris, elemento muito frequente nas nossas aguas e que provoca de noite fenómenos de fosforescência.
2Museu oceanográfico e explorações
Tem-se falado muito, ultimamente (1921), no estabelecimento dum museu oceanográfico no Funchal, mas para que tal instituição, a ser levada a efeito, se torne verdadeiramente útil, preciso se torna que ao estudo dos organismos das nossas aguas se dê uma latitude maior do que a que tem tido até hoje. Não basta que nos armários desse museu figurem os peixes, os crustáceos, as conchas, os antozoarios, os equinodermes e ainda outros grupos capazes pelas suas dimensões de chamar a atenção dos leigos em ciências naturais; é preciso que aí tenham cabimento também as bacteriaceas, os flagelados, as clorofíceas, os foraminíferos, os ciliados, os radiolários, os tunicados e outros grupos de plantas e de animais que caracterizam as aguas oceânicas e entram em muitos casos no dominio do plancton. A instalação de aquários destinados a reproduzir as condições do meio marinho seria muito vantajosa, pois permitiria a realização de observações difíceis de levar a efeito por outra forma.
O equipamento das expedições destinadas ao estudo da fauna e dos factores ecológicos das grandes profundidades é, sem duvida, muito dispendioso por causa do navio, dos aparelhos e dos homens que é preciso utilizar, mas se as nossas aspirações forem mais modestas e quisermos estudar apenas a composição faunística e floristica das aguas da baía do Funchal ou das proximidades da nossa costa, basta-nos neste caso recorrer aos aparelhos de pesca dos pescadores, ás redes de Muller, aperfeiçoadas para a colheita dos planctontes a varias profundidades, ás redes de malha larga e aos frascos de boca larga para os macroplanctontes, e às dragas para a colheita dos organismos em contacto com o fundo.
Um barco, que não precisa ser muito grande, e alguns frascos com os líquidos fixador e conservador, completam os materiais exigidos para as pequenas explorações oceanográficas. Se aqueles que possuem embarcações e se dedicam aos desportos náuticos empregassem uma parte do tempo que passam embarcados na colheita dos organismos marinhos, muito se adiantariam os nossos conhecimentos oceanográficos locais que, como dissemos, são ainda muito limitados. É o plancton que mais particularmente requerer as atenções dos amigos das ciências naturais, e, se o estudo dos microrganismos que o constituem oferece ás vezes dificuldades, é preciso não esquecer que muitas delas podem ser vencidas com algum esforço e trabalho, e outras recorrendo ao esclarecido conselho dos especialistas, os quais não recusam em geral o seu auxilio aos principiantes que revelam zelo e amor pelas pesquisas a que eles também se consagram.
3Correntes, profundidades e marés
Pela próxima afinidade que têm com o assunto deste artigo, transcrevemos da valiosa obra do engenheiro Adolfo Loureiro «Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes» (V-21) os seguintes períodos:
«Sabe-se que a Madeira está situada na região das grandes correntes oceânicas, que se manifestam na parte liquida do nosso planeta. Logo de principio, e desde a descoberta da Madeira, principiou a notar-se que os navios que desta ilha seguiam na direcção das Canarias eram insensivelmente levados do N. para W. A corrente que se estabelecia para SSW era de 12 a 16 milhas por dia, e atribuía-se á acção do vento. A costa N. da Madeira, e especialmente ao Porto da Cruz, trazia as vezes o mar frutos desconhecidos, que se supunha virem de W. A temperatura que se encontrava nas aguas parecia seguir leis e fenómenos persistentes. Fazendo parte dos habitantes da Madeira nautas e conhecedores do mar, estes factos não lhes passaram desapercebidos, e crê-se mesmo que Cristovam Colombo foi por eles levado a conjecturar que para os lados do ocidente haveria terras donde provinham aquelas amostras de frutos.
A temperatura das águas e a sua distribuição á superfície, os seus movimentos periódicos e condições seguindo uma lei que parecia constante, deveriam passar a ser objecto de estudos oceanográficos muito interessantes, que infelizmente não se fizeram nunca.
Reconheceu-se, também, que as condições de profundidade deste mar eram excepcionais, e, começando a ser muito grande junto da costa, aumentava rapidamente na direcção dos Açores sendo de 1.650 braças a 2.675.
Para o N. da Madeira, era a 120 milhas da costa de 1.650 braças. Entre a Madeira e as Canárias chegava a 2.298 braças. E entre a Madeira e a costa de África, bem como entre a Madeira e as Canárias, a 2.400 braças, sendo já a curta distancia da ilha de 2.225.
Sobre os movimentos diários marítimos das aguas, ou sobre as marés, não estão estes fenómenos devidamente estudados e registados. Nas cartas, por exemplo, do engenheiro Azevedo, confirmadas por diversos oficiais de marinha ingleses, menciona-se que o estabelecimento do porto no Funchal é às 12h.48m., e a elevação da maré de 2m,28.»
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 01Lugar
Lugares mencionados · 06No estrangeiro
- Açores
Portugal. Direção em que a profundidade do mar aumenta rapidamente a partir da Madeira.
Os Açores são um arquipélago atlântico que partilha espécies vegetais com a Madeira. O Elucidário regista a fixação de famílias madeirenses, como os Bettencourt, no arquipélago, a proibição dos vinhos açorianos na Madeira em 1801 e a importação de tabaco açoriano. Refere ainda a vinda de agricultores açorianos à Madeira para ensinar métodos de cultivo do milho.
- África
Africa. Ponto de referência para as sondagens de profundidade entre a Madeira e África.
África é referida como destino de expedições madeirenses, soldados e condenados ao exílio, e como mercado de exportação da manteiga madeirense. Os exploradores Capelo e Ivens atravessaram o continente, e o Norte de África é apontado como região de origem da tamareira.
- Baía do Funchal
Funchal. Área sugerida para o estudo em pequena escala da fauna e flora marinhas locais.
A Baía do Funchal, entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz, é a mais ampla do arquipélago e o principal ancoradouro da ilha; a sua exposição aos temporais de sul causou numerosos naufrágios. O Elucidário refere que Vidal a levantou em 1843, que o Surprise foi ali torpedeado e que nunca tinha sido estudada do ponto de vista oceanográfico.
- Canárias
Spain. Destino de navios arrastados pelas correntes e ponto de referência para as profundidades oceânicas.
As Canárias são o arquipélago vizinho da Madeira, cuja descoberta é objeto de relatos divergentes. Segundo a tradição, o seu rei Béthencourt vendeu-as ao Infante D. Henrique em troca de terras na Madeira. O Elucidário refere numerosos contactos entre os dois arquipélagos, incluindo visitas científicas, a digressão do Orfeão Madeirense em maio de 1922 e o massacre de quarenta Jesuítas nas suas águas.
- Funchal
Local proposto para um museu oceanográfico e onde foram feitas as medições das marés.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Porto da Cruz
Machico. Localidade da costa norte onde o mar por vezes trazia frutos desconhecidos vindos de ocidente.
Freguesia da Costa Norte criada em 1577 e conhecida pelos seus vinhos de boa qualidade. Passou do concelho de Santana para o de Machico em 1852 e foi sede de uma capitania-mor. Era também um porto de pesca onde eram desembarcados alguns cachalotes.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 03- Adolfo Loureirom. 1911
Engenheiro português, autor de Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes, aqui citado a propósito das correntes, profundidades e marés da Madeira.
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Engenheiro cujas cartas indicavam o estabelecimento do porto e a amplitude das marés no Funchal.
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Navegador que, segundo o texto citado, poderá ter sido levado pelos frutos trazidos pelo mar até à costa da Madeira a supor a existência de terras a ocidente.