Edifícios Antigos 1Prédios antigos do Funchal
Edifícios Antigos
Levantamento dos mais antigos edifícios civis e religiosos da Madeira ainda existentes, com destaque para as casas do Funchal com janelas geminadas góticas, entretanto demolidas na sua maioria, e para as igrejas que o Dr. Neale classificou como tardo-góticas em 1844.
1Prédios antigos do Funchal
Além do edifício da Alfândega, que nas suas arcadas e portadas interiores tem, como diz o Dr. Azevedo, indelével o cunho arquitectónico manuelino, existiam no Funchal, há cerca de meio século, quatro prédios que, pelas suas janelas góticas e bipartidas, inculcavam também uma notável antiguidade. Desses prédios que chamavam a atenção de todas as pessoas entendidas em assuntos de arquitectura, três desapareceram há muitos anos sob o camartelo destruidor, que nada respeita em geral na nossa terra, estando agora de pé apenas um só, que deve ser considerado como verdadeira relíquia dos tempos em que o tipo arquitectónico gótico era usado ainda nas construções do Funchal.
O prédio a que nos referimos, que pertenceu ao morgado Pedro Cipriano de Ornelas, está situado na rua dos Aranhas ou do Dr. Chaves, e fica ao fundo de um recinto, em cuja porta se podem ver as armas dos Ornelas e a data de 1606. Neste prédio foi morta em 1693, com um tiro de espingarda partido da cerca do extinto convento de S. Francisco, “uma mulher nobilissima, por nome D. Mecia”, quando se achava a uma janela que olhava para a mesma cerca, tendo este caso, que foi romantizado por Camilo Castelo Branco no seu livro O Santo da Montanha, sido narrado por Antonio Vanguerve Cabral numa obra que tem por título Epilogo juridico de varios casos civeis e crimes.
Segundo conta Vanguerve Cabral, que era em 1693 juiz comissário do bispado do Funchal e assessor do bispo, o homicídio foi casual, tendo sido “autor dele um religioso que pegou em uma espingarda que estava carregada com quartos, dizendo que queria atirar a um francelho, e com effeito atirou e errou o tiro”.
Quando falámos de Colombo, a pag. 286 deste Elucidario, referimo-nos a um dos três prédios antigos já demolidos; quanto aos outros dois, estavam situados um na antiga rua do Peru hoje do Comercio, e outro na rua da Boa Viagem, vendo-se em ambos eles também janelas bipartidas e estabelecendo a transição do gótico para a renascença.
A casa da rua da Boa Viagem, pertencente á capela instituída por Bento da Veiga, tinha duas janelas, cujas pedras foram vendidas a um súbdito inglês, que as fez transportar para o seu país: a casa da rua do Peru, do Conde do Carvalhal, tinha apenas uma janela, ignorando nós o destino que tiveram as respectivas pedras. As pedras da janela da casa de Colombo estavam em poder dos herdeiros do falecido conselheiro Agostinho de Ornelas, tendo a mesma janela sido fotografada pelo fotografo João Camacho, na ocasião da demolição.
2Templos góticos
Além dos prédios mencionados, nenhuma outra construção civil conhecemos, notável pela sua vetustez e tipo arquitectónico. Entre os edifícios religiosos, porém, alguns há que foram assinalados pelo Dr. Neale numa memória lida perante a Cambridge Camdem Society em 1844, como apresentando mais ou menos distintamente o tipo gótico terciario ou flamboyant, o qual apareceu na Europa nos séculos XIV e XV.
Os templos mencionados pelo Dr. Neale foram a Sé Catedral, a igreja de Machico, a capela do Senhor dos Milagres, a igreja de Santa Cruz, a capela de Nossa Senhora das Neves, as igrejas da Incarnação e de Santa Clara, a igreja de S. Bernardino, em Câmara de Lobos, a igreja do Estreito da Calheta, a igreja do Porto Santo, a capela de S. Sebastião na mesma ilha, etc., mas é de advertir que muitos destes edifícios sofreram depois de 1844 modificações mais ou menos notáveis, que lhes imprimiram uma feição um pouco diversa da que antes apresentavam.
O Dr. Neale fez uma descrição bastante extensa da catedral do Funchal, cujas belezas interiores aprecia, acrescentando porém que na parte externa, só na capela do Santissimo Sacramento há trabalhos e ornatos dignos de nota.
A Sé do Funchal, como é sabido, é considerada monumento nacional, e a sua arquitectura é manuelina, tendo começado a ser edificada pouco depois de 1493.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 04-
O imposto sobre o vinho foi destinado à construção da Sé Catedral do Funchal, iniciada pouco depois.
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A data de 1606 foi gravada, juntamente com as armas dos Ornelas, no portal de uma casa gótica do Funchal que ainda subsiste.
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D. Mécia foi morta acidentalmente por um tiro disparado por um frade a partir dos terrenos do convento de São Francisco.
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Foi lida perante a Cambridge Camden Society a comunicação do reverendo J. M. Neale sobre a eclesiologia e as igrejas góticas da Madeira.
Lugar
Lugares mencionados · 17- Edifícios Antigos · Assunto
Machico
Levantamento dos mais antigos edifícios civis e religiosos da Madeira ainda existentes. Aborda sobretudo as casas do Funchal com janelas geminadas góticas, entretanto demolidas na sua maioria, e as igrejas que o Dr. Neale descreveu como tardo-góticas em 1844.
- Alfândega do Funchal
Funchal. Alfândega com arcadas manuelinas.
Alfândega manuelina do Funchal, cuja construção foi ordenada em 1508, com arcadas e uma capela de Santo António no pátio, construída em 1714 e hoje dessacralizada. Esteve sob a direção do provedor até 1775 e foi reparada após o terramoto de 1748. Foi cercada por tropas amotinadas em 1626 e invadida em 1641; o motim de 1868 ocorreu na praia próxima. Mais tarde, acolheu os serviços e o arquivo do Governo Civil.
- Capela de Nossa Senhora das Neves
Funchal. Capela referida por Neale.
A Capela de Nossa Senhora das Neves é uma capela do século XVI perto da Ponta do Garajau, a leste do Funchal, fundada pelo primeiro povoador João Afonso Mealheiro e pela sua mulher, Catarina de Sá. Deu nome ao sítio, foi sede de um curato e acolheu inicialmente a freguesia de São Gonçalo. Segundo a crença popular, um clérigo lutou contra o diabo nas suas proximidades.
- Capela do Senhor dos Milagres
Machico. Capela referida por Neale.
A Capela do Senhor dos Milagres é uma capela histórica no Largo dos Milagres, em Machico, anteriormente chamada de Cristo ou da Misericórdia. Diz-se que foi fundada em cumprimento de um voto dos descobridores no local do desembarque, e há quem afirme que foi a primeira igreja da Madeira, afirmação contestada pelo Elucidário. Foi destruída pela aluvião de 1803; a sua imagem foi então encontrada no mar por um navio americano. Mais tarde, Roberto Page reparou-a. É o centro de uma romaria a 9 de outubro.
- Convento da Encarnação
Funchal. Igreja referida por Neale.
Convento do Funchal fundado pelo Cónego Henrique Calaça de Viveiros depois de 1508. A sua capela acolheu temporariamente a sede da paróquia, e em 1909 foi construído um novo edifício para o Seminário nos seus terrenos. Foi proposto como local para o hospital, o asilo e a Cadeia.
- Convento de Santa Clara
Funchal. Igreja referida por Neale.
Convento no Funchal fundado entre 1492 e 1497 pelo segundo capitão-donatário, João Gonçalves da Câmara, junto à igreja da Conceição de Cima. É local de sepultura da família Câmara e conserva um documento de 1447 em que o nome aparece grafado «Zargo». Em 1912, foi cedido para a instalação de um novo hospital e, mais tarde, escolhido para acolher o museu arqueológico.
- Convento de São Francisco
Funchal. Dos terrenos do convento partiu o disparo fatal de 1693.
O Convento de São Francisco foi um convento franciscano fundado no Funchal em 1473 e assinalava o limite ocidental da cidade em 1508. A sua igreja foi demolida em 1865, e os seus objetos, livros, lápides e ossadas foram para o cemitério das Angústias, o museu e a Biblioteca Municipal. Os edifícios albergaram presos durante um breve período, até 1836, e a polícia em 1857.
- Estreito da Calheta
Calheta. A sua igreja foi referida por Neale.
O Estreito da Calheta é uma freguesia do concelho da Calheta, no oeste da Madeira, delimitada pela Ribeira de São Bartolomeu e pela Ribeira Funda. A sua igreja paroquial de Nossa Senhora da Graça foi fundada pela família França, e o verbete aborda os primeiros proprietários, as capelas, os sítios, as escolas e a irrigação pela Levada Nova do Rabaçal; os Prazeres foram separados da freguesia em 1733.
- Funchal
Cidade onde se situavam as casas antigas.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Machico
A sua igreja foi citada por Neale.
A freguesia de Machico foi o local do desembarque dos descobridores Zarco e Tristão Vaz e a sede da Capitania de Machico; foi criada cerca de 1450. O Elucidário aborda o seu clero e as respetivas côngruas, as capelas, os acontecimentos históricos, as fontes minerais, os sítios, a população e os naturais ilustres.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 12-
Conselheiro falecido cujos herdeiros tinham as pedras da janela da casa de Colombo.
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Juiz comissário da diocese do Funchal em 1693, que registou a morte de D. Mécia.
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Autor citado a propósito do caráter manuelino do edifício da Alfândega.
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Fundador da capelania a que pertencia a casa da Rua da Boa Viagem.
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Romancista português que deu um tratamento romanesco à morte de D. Mécia em O Santo da Montanha.
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Proprietário da antiga casa da Rua do Peru.
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Navegador cuja alegada casa no Funchal era um dos edifícios góticos demolidos.
- D. Méciam. 1693
Nobre morta acidentalmente a tiro junto a uma janela da casa dos Ornelas em 1693.
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Autor de Casas Madeirenses, obra indicada para leitura complementar.
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Fotógrafo que fotografou a janela da casa de Colombo aquando da sua demolição.
+ 2 mais
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Autor de uma comunicação apresentada em 1844 à Cambridge Camden Society sobre as igrejas góticas da Madeira.
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Morgado proprietário da casa gótica da Rua dos Aranhas que ainda subsiste.