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Prostituição 1A mancebia e a sífilis
Artigo Nº 3048 População e grupos sociais Vol. III · pp. 280–281 3 min de leitura

Prostituição

Panorama da história da prostituição na Madeira desde o século XV, incluindo as primeiras medidas de regulamentação municipal e régia, a propagação das doenças venéreas e as medidas sanitárias do século XIX, bem como as mudanças nos locais de residência das prostitutas no Funchal.

Prostituição

1A mancebia e a sífilis

A prostituição já no século XV existia na Madeira, como claramente se vê de varios diplomas antigos e duma representação dirigida à Câmara Municipal do Funchal em 8 de Outubro de 1495, em que se pedia que a mancebia «fosse tirada de junto do mar, porque os de fora saltavam com as mancebas, faziam arruido e se acolhiam aos bateis, e a justiça os não prendia». A mancebia era o local destinado á residência das prostitutas.

Estabelecia o foral da capitania do Funchal, outorgado pelo rei D. Manuel em 6 de Agosto de 1515, que tôda a pessoa que fôsse achada «na mancebia com armas, assim de dia como de noite, perdesse as armas e pegasse de pena 500 réis, e que todo o homem casado que se provasse ter mancebia «theuda e mantheuda» pagasse a quarentena de metade da fazenda que tivesse.

Desconhecemos a época em que a sífilis apareceu na Madeira, mas é licito supor que essa horrível moléstia fosse já conhecida entre nós nos fins do século XV ou princípios do século XVI. Se os marinheiros dos navios que frequentavam o nosso porto «saltavam com as mancebas» e se recolhiam aos batéis, sem que a policia os pudesse prender, nada mais natural do que admitir o contagio e a propagação dum mal que, já naqueles tempos, era conhecido e temido na Europa. O dr. Sloane, que visitou esta ilha em Outubro de 1687, encontrou manifestações sifiliticas nalgumas pessoas que o consultaram.

2Vigilância e tratamento das meretrizes

Nos princípios do segundo quartel do século XIX, segundo se vê dos livros da Câmara Municipal, havia meretrizes domiciliadas nos sitios mais centrais da cidade, e especialmente na rua do Monteiro, lendo-se num documento da época que provocavam aí frequentes escândalos, o que levou a Municipalidade, em sessão de 9 de Dezembro de 1835, a recomendar ao Administrador do Concelho a máxima vigilância sobre essas mulheres, mandando-as retirar dos referidos sítios, quando isso se tornasse necessário.

A inspecção das meretrizes foi estabelecida em Portugal por uma ordem do intendente Pina Manique, datada de 2 de Abril de 1781, mas na Madeira só desde 1854, cremos nós, é que essas mulheres estão sujeitas à vigilância da ciência, apesar de Mousinho de Albuquerque, em 1834, e do conselheiro José Silvestre Ribeiro, em 1846, terem lembrado a conveniência de as submeter regularmente a visitas sanitárias.

Em 5 de Novembro de 1834, recebeu a Câmara um oficio do Prefeito da Província, em que se aludia ao «mal venereo que existe em grande numero de mulheres publicas», sendo resolvido pagar á Comissão Administrativa do Hospital da Misericórdia «por esta só e única vez», as despesas feitas por ela com o tratamento dessas mulheres desde 21 de Outubro até 4 de Novembro do mesmo ano.

Em 8 de Março de 1836, mandou o Governo dar 1:000$000 réis á Comissão da Misericórdia do Funchal para auxiliar o curativo das meretrizes afectadas de moléstias venereas, recomendando á mesma Comissão que empregasse todos os esforços para tratar no hospital, e com os recursos deste, os pobres que sofressem daquelas moléstias. Na portaria que estabeleceu estas disposições, lembrava-se que a Comissão recorresse a subscrições para angariar os meios precisos para o tratamento dos referidos pobres.

Foi depois da aluvião de 1856 que as meretrizes principiaram a estabelecer-se nas ruas Ribeirinho de Baixo e dos Medinas; antes só, eram estas ruas habitadas por pessoas honestas, pertencendo algumas delas às principais famílias da cidade. Num prédio da parte sul da rua do Ribeirinho de Baixo, existia em 1840 numa escola de rapazes, e em 1819 estava a Escola Lancasteriana acomodada numa casa na mesma rua, onde todavia só permaneceu durante poucos tempos.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 10
  1. Uma petição dirigida à Câmara Municipal do Funchal pediu que o bairro das prostitutas fosse afastado da frente marítima.

  2. D. Manuel I concedeu um foral comum ao Funchal, à Ponta do Sol e à Calheta, que fixava os dízimos, o quinto dos açúcares, as receitas da alcaidaria, os preços do sabão e outros tributos.

  3. O Dr. Hans Sloane esteve na Madeira e registou a presença de comerciantes armados, o uso da corsa e casos de sífilis.

  4. Pina Manique ordenou a inspeção das prostitutas em Portugal.

  5. A Escola Lancasteriana foi fundada no Funchal e funcionou por pouco tempo na Rua do Ribeirinho de Baixo.

  6. A Câmara Municipal concordou em pagar à Misericórdia, uma única vez, o tratamento de prostitutas com doenças venéreas.

  7. A Câmara Municipal do Funchal pediu ao administrador do concelho que vigiasse as ruas centrais e delas retirasse as prostitutas.

  8. O governo concedeu 1 000 000 de réis à Misericórdia do Funchal para o tratamento de doenças venéreas.

  9. A inspeção médica das prostitutas começou provavelmente na Madeira.

  10. As aluviões causaram danos no Funchal e nas freguesias ocidentais. Depois disso, a Rua dos Medinas entrou em declínio social, e prostitutas instalaram-se ali e na Rua do Ribeirinho de Baixo.

Lugar

Lugares mencionados · 05
Mapa: Madeira (5)
  1. Funchal

    Cidade cuja Câmara Municipal tratou da prostituição a partir de 1495.

  2. Hospital da Misericórdia do Funchal

    Funchal. Hospital que tratou prostitutas com doenças venéreas em 1834–1836.

  3. Rua do Monteiro

    Funchal. Rua central onde prostitutas causaram escândalos na década de 1830.

  4. Rua do Ribeirinho de Baixo

    Funchal. Rua onde se instalaram prostitutas após a cheia de 1856 e onde anteriormente funcionavam escolas.

  5. Rua dos Medinas

    Funchal. Rua onde se instalaram prostitutas após a cheia de 1856.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 05
  1. Rei de Portugal que concedeu o foral de 1515 da capitania do Funchal, no qual se punia a presença de homens armados na zona dos bordéis.

  2. Hans Sloane1660–1753

    Médico que visitou a Madeira em outubro de 1687 e encontrou casos de sífilis entre os doentes que o consultaram.

  3. Administrador madeirense que, em 1846, defendeu a inspeção médica regular das prostitutas.

  4. Responsável que, em 1834, recomendou a inspeção sanitária regular das prostitutas na Madeira.

  5. Intendente da Polícia cuja ordem de 2 de abril de 1781 instituiu a inspeção das prostitutas em Portugal.

Na folha P

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.