Prostituição 1A mancebia e a sífilis
Prostituição
Panorama da história da prostituição na Madeira desde o século XV, incluindo as primeiras medidas de regulamentação municipal e régia, a propagação das doenças venéreas e as medidas sanitárias do século XIX, bem como as mudanças nos locais de residência das prostitutas no Funchal.
1A mancebia e a sífilis
A prostituição já no século XV existia na Madeira, como claramente se vê de varios diplomas antigos e duma representação dirigida à Câmara Municipal do Funchal em 8 de Outubro de 1495, em que se pedia que a mancebia «fosse tirada de junto do mar, porque os de fora saltavam com as mancebas, faziam arruido e se acolhiam aos bateis, e a justiça os não prendia». A mancebia era o local destinado á residência das prostitutas.
Estabelecia o foral da capitania do Funchal, outorgado pelo rei D. Manuel em 6 de Agosto de 1515, que tôda a pessoa que fôsse achada «na mancebia com armas, assim de dia como de noite, perdesse as armas e pegasse de pena 500 réis, e que todo o homem casado que se provasse ter mancebia «theuda e mantheuda» pagasse a quarentena de metade da fazenda que tivesse.
Desconhecemos a época em que a sífilis apareceu na Madeira, mas é licito supor que essa horrível moléstia fosse já conhecida entre nós nos fins do século XV ou princípios do século XVI. Se os marinheiros dos navios que frequentavam o nosso porto «saltavam com as mancebas» e se recolhiam aos batéis, sem que a policia os pudesse prender, nada mais natural do que admitir o contagio e a propagação dum mal que, já naqueles tempos, era conhecido e temido na Europa. O dr. Sloane, que visitou esta ilha em Outubro de 1687, encontrou manifestações sifiliticas nalgumas pessoas que o consultaram.
2Vigilância e tratamento das meretrizes
Nos princípios do segundo quartel do século XIX, segundo se vê dos livros da Câmara Municipal, havia meretrizes domiciliadas nos sitios mais centrais da cidade, e especialmente na rua do Monteiro, lendo-se num documento da época que provocavam aí frequentes escândalos, o que levou a Municipalidade, em sessão de 9 de Dezembro de 1835, a recomendar ao Administrador do Concelho a máxima vigilância sobre essas mulheres, mandando-as retirar dos referidos sítios, quando isso se tornasse necessário.
A inspecção das meretrizes foi estabelecida em Portugal por uma ordem do intendente Pina Manique, datada de 2 de Abril de 1781, mas na Madeira só desde 1854, cremos nós, é que essas mulheres estão sujeitas à vigilância da ciência, apesar de Mousinho de Albuquerque, em 1834, e do conselheiro José Silvestre Ribeiro, em 1846, terem lembrado a conveniência de as submeter regularmente a visitas sanitárias.
Em 5 de Novembro de 1834, recebeu a Câmara um oficio do Prefeito da Província, em que se aludia ao «mal venereo que existe em grande numero de mulheres publicas», sendo resolvido pagar á Comissão Administrativa do Hospital da Misericórdia «por esta só e única vez», as despesas feitas por ela com o tratamento dessas mulheres desde 21 de Outubro até 4 de Novembro do mesmo ano.
Em 8 de Março de 1836, mandou o Governo dar 1:000$000 réis á Comissão da Misericórdia do Funchal para auxiliar o curativo das meretrizes afectadas de moléstias venereas, recomendando á mesma Comissão que empregasse todos os esforços para tratar no hospital, e com os recursos deste, os pobres que sofressem daquelas moléstias. Na portaria que estabeleceu estas disposições, lembrava-se que a Comissão recorresse a subscrições para angariar os meios precisos para o tratamento dos referidos pobres.
Foi depois da aluvião de 1856 que as meretrizes principiaram a estabelecer-se nas ruas Ribeirinho de Baixo e dos Medinas; antes só, eram estas ruas habitadas por pessoas honestas, pertencendo algumas delas às principais famílias da cidade. Num prédio da parte sul da rua do Ribeirinho de Baixo, existia em 1840 numa escola de rapazes, e em 1819 estava a Escola Lancasteriana acomodada numa casa na mesma rua, onde todavia só permaneceu durante poucos tempos.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 10-
Uma petição dirigida à Câmara Municipal do Funchal pediu que o bairro das prostitutas fosse afastado da frente marítima.
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D. Manuel I concedeu um foral comum ao Funchal, à Ponta do Sol e à Calheta, que fixava os dízimos, o quinto dos açúcares, as receitas da alcaidaria, os preços do sabão e outros tributos.
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O Dr. Hans Sloane esteve na Madeira e registou a presença de comerciantes armados, o uso da corsa e casos de sífilis.
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Pina Manique ordenou a inspeção das prostitutas em Portugal.
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A Escola Lancasteriana foi fundada no Funchal e funcionou por pouco tempo na Rua do Ribeirinho de Baixo.
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A Câmara Municipal concordou em pagar à Misericórdia, uma única vez, o tratamento de prostitutas com doenças venéreas.
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A Câmara Municipal do Funchal pediu ao administrador do concelho que vigiasse as ruas centrais e delas retirasse as prostitutas.
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O governo concedeu 1 000 000 de réis à Misericórdia do Funchal para o tratamento de doenças venéreas.
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A inspeção médica das prostitutas começou provavelmente na Madeira.
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As aluviões causaram danos no Funchal e nas freguesias ocidentais. Depois disso, a Rua dos Medinas entrou em declínio social, e prostitutas instalaram-se ali e na Rua do Ribeirinho de Baixo.
Lugar
Lugares mencionados · 05- Funchal
Cidade cuja Câmara Municipal tratou da prostituição a partir de 1495.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Hospital da Misericórdia do Funchal
Funchal. Hospital que tratou prostitutas com doenças venéreas em 1834–1836.
O Hospital da Misericórdia, no Funchal, acolheu o serviço gratuito de vacinação criado em 1822. Em 1834–1836, tratou prostitutas com doenças venéreas.
- Rua do Monteiro
Funchal. Rua central onde prostitutas causaram escândalos na década de 1830.
Pequena rua do Funchal, perto da ribeira de Santa Luzia, assim chamada por ali terem vivido membros da família Monteiro. Dá acesso à Rua da Cadeia Velha. Acolheu o pequeno teatro da sociedade Concórdia e, na década de 1830, foi palco de escândalos causados por prostitutas.
- Rua do Ribeirinho de Baixo
Funchal. Rua onde se instalaram prostitutas após a cheia de 1856 e onde anteriormente funcionavam escolas.
A Rua do Ribeirinho de Baixo é uma rua do Funchal que delimita a Rua dos Medinas. Nela funcionaram escolas e, após a cheia de 1856, instalaram-se ali prostitutas.
- Rua dos Medinas
Funchal. Rua onde se instalaram prostitutas após a cheia de 1856.
Rua do Funchal que recebeu o nome da família Medina, que ali residia. Dava acesso à Rua da Cadeia Velha e tinha em frente a Rua do Monteiro. Foi inundada em 1842; após a cheia de 1856, instalaram-se ali prostitutas. Ficava também em frente às primeiras instalações do Asilo de Mendicidade.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 05-
Rei de Portugal que concedeu o foral de 1515 da capitania do Funchal, no qual se punia a presença de homens armados na zona dos bordéis.
- Hans Sloane1660–1753
Médico que visitou a Madeira em outubro de 1687 e encontrou casos de sífilis entre os doentes que o consultaram.
- José Silvestre Ribeiro1807–1891
Administrador madeirense que, em 1846, defendeu a inspeção médica regular das prostitutas.
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Responsável que, em 1834, recomendou a inspeção sanitária regular das prostitutas na Madeira.
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Intendente da Polícia cuja ordem de 2 de abril de 1781 instituiu a inspeção das prostitutas em Portugal.