Saltar para o conteúdo
Elucidário Madeirense Início
Asilo de Mendicidade do Funchal 1A fome e a fundação do asilo
Artigo Nº 0302 Instituição de beneficência Vol. I · pp. 178–181 8 min de leitura

Asilo de Mendicidade do Funchal

História do Asilo de Mendicidade do Funchal, fundado em março de 1847 pelo governador civil José Silvestre Ribeiro durante a fome de 1846–1847 e mais tarde unido a um asilo para órfãos. A entrada acompanha as suas sucessivas instalações, a história do edifício da Casa das Angústias e os seus principais benfeitores.

Asilo de Mendicidade do Funchal

1A fome e a fundação do asilo

Ficaram conhecidos pelo nome de ano da fome alguns meses dos anos de 1846 e 1847, em que esta ilha foi assolada por uma terrível crise comercial e agrícola, fazendo-se sentir intensivamente a fome em muitas freguesias da Madeira. Ainda na tradição local se conserva nítida a memória dessa época calamitosa. Um livro de 300 paginas, publicado em 1848, com o título de Collecção de documentos relativos á crise da fome por que passaram as Ilhas da Madeira e Porto Santo no anno de 1847, dá-nos noticia circunstanciada da calamidade que então flagelou o arquipelago. (V. Fome na Madeira em 1847).

Os pobres e mendigos enxameavam pelas ruas mais centrais e frequentadas da cidade, oferecendo um triste e desolador espectáculo aos olhos de nacionais e estrangeiros. O conselheiro José Silvestre Ribeiro, que assumira o governo do distrito em Outubro de 1846, viera defrontar-se com esta temerosa crise, que a pouco e pouco foi tomando as mais angustiosas e ameaçadoras proporções. O que então fez esse benemérito governador, afirmam-no eloquentemente as paginas do livro que acima deixamos citado.

Um dos meios de que se serviu Silvestre Ribeiro para atenuar a gravidade dessa crise foi o da criação dum asilo, que felizmente ainda existe e que, sendo uma das nossas mais prestimosas casas de caridade, é também um padrão de imorredoura glória a testemunhar a benemerencia do seu fundador. A 10 de Março de 1847, num armazém pertencente á Fazenda Nacional, que olha para a antiga rua do Mosteiro Novo e rua dos Medinas, fez o ilustre governador recolher um numero considerável de mendigos de ambos os sexos e de diversas idades, depois da Câmara Municipal ter mandado proceder ali aos indispensáveis reparos para uma instalação de caracter provisório. Estava fundado um asilo, que desta vez não teve a sorte dos estabelecimentos similares que entre nós anteriormente se fundaram e que conta já sessenta e dois anos de uma fecunda e proveitosa existência.

O conselheiro José Silvestre Ribeiro entregou a direcção e administração provisórias do novo asilo á Comissão da Santa Casa da Misericórdia, que ficou também encarregada de formular um projecto de estatutos para o funcionamento interno da mesma casa de caridade, tendo o benemérito governador assegurado previamente os meios de manter a sustentação dos asilados. Em breve se reconheceu que a casa da rua do Mosteiro Novo não satisfazia ao fim para que fora adaptada, e logo Silvestre Ribeiro, obtendo da Câmara Municipal a cedência do extinto convento de S. Francisco, transformou em poucos dias, com uma pasmosa actividade, a antiga habitação conventual numa casa própria para o albergamento de alguns centenares de indigentes e mendigos.

A 27 de Março, poucos dias depois da fundação do asilo, o governador civil, acompanhado por várias autoridades e outras entidades oficiais, formando um luzido cortejo, fez pessoalmente transportar cerca de 400 asilados para as novas instalações que tinham sido preparadas no convento de S. Francisco. Na antiga Praça da Constituição foi servido a todos os pobres um abundante jantar, em que José Silvestre pronunciou um sentido e eloquente discurso, que comoveu profundamente a numerosa assistência que o escutava. Foi então nomeada a comissão administrativa do novo asilo, que ficou composta do bispo diocesano D. José Xavier de Cerveira e Sousa, Fidelio de Freitas Branco, Severiano Alberto Ferraz, Vicente de Brito Correia, Antonio Machado Cota, D. Jorge da Câmara Leme e Carlos Blandy.

2A Casa das Angústias

Poucos meses permaneceu o asilo no Convento de S. Francisco. Tudo aconselhava que a sua instalação definitiva se fizesse na casa que em 1837 a Câmara Municipal mandara expressamente construir para aquele fim. Realizou-se essa mudança, com grande vantagem material para os asilados e também para o regular funcionamento de todos os serviços desta casa de caridade, em Dezembro de 1847. É ocasião de darmos uma ligeira noticia da historia deste edifício. Como atrás dissemos, foi construído em 1837, não lhe tendo sido dado a aplicação para que fora primitivamente erigido. Em sessão camarária de 2 de Julho de 1841, foi deliberado que a casa das Angústias se destinasse a cadeia publica, casa de correcção e tribunais judiciais, se o governo central assim o aprovasse, não tendo este tomado qualquer resolução sobre o assunto. Havendo a aluvião de 24 de Outubro de 1842 causado importantes danificações no prédio do Largo do Pelourinho, onde se encontravam instalados os Paços do Concelho, a biblioteca municipal e a administração do concelho, resolveu a Câmara transferir estas repartições para a Casa das Angústias, depois de feitas as obras de adaptação indispensáveis, mudança que se realizou por meados do ano de 1843. São passados apenas dois anos e a Câmara Municipal toma uma nova deliberação: transferir as suas repartições para a casa do Largo da Sé, onde então estava a cadeia, a mudar esta para a Casa das Angústias. Para a nova acomodação a fazer, realizaram-se neste edifício obras muito importantes, em que se dispenderam somas avultadas.

Em virtude dos acontecimentos políticos produzidos pela revolução de Maria da Fonte, foi a Câmara Municipal do Funchal dissolvida a 25 de Junho de 1846 e substituída por uma comissão administrativa, que não acatou as deliberações da Câmara transacta, e em Julho do mesmo ano resolveu que a Casa das Angústias se aplicasse não a cadeia, mas á instalação dos Paços do Concelho, que pela segunda vez para ali foram transferidos e ali permaneceram até o mês de Novembro de 1847.

A 3 de Dezembro deste ano, deliberou a Câmara ceder provisoriamente a Casa das Angústias á comissão administrativa do Asilo da Mendicidade, tendo este sido ali definitivamente instalado a 8 do mesmo mês e ano.

A cedência de 1848 foi declarada definitiva em sessão da Câmara Municipal de 29 de Maio de 1913, tendo esta deliberação sido confirmada pela Junta Geral em oficio de 21 de Junho do mesmo ano.

3Asilo de órfãos e bemfeitores

A epidemia colérica, que em 1856 vitimou entre nós cerca de dez mil pessoas, deixou na orfandade e ao desamparo muitas centenas de crianças, para as quais era indispensável procurar conveniente abrigo e agasalho. O governador Gromicho Couceiro, que tão assinalados serviços prestou á Madeira naquela calaminosa época, conseguiu, depois dos necessários reparos, adaptar algumas dependências do extinto convento de S. Francisco á instalação dum Asilo exclusivamente destinado ao albergamento de crianças, ficando a sua direcção a cargo da comissão administrativa do Asilo de Mendicidade. Juntaram-se mais tarde os dois Asilos e daí proveio o nome dado ao estabelecimento das Angústias de Asilo da Mendicidade e Orfãos do Funchal.

A reunião dos dois asilos realizou-se por meados do ano de 1862, devido principalmente á falta de recursos para se manterem separadamente os dois estabelecimentos de caridade.

O asilo ficou devendo ao governador civil Jacinto Antonio Perdigão serviços muito assinalados, que o tornam um dos seus mais ilustres bemfeitores, depois do conselheiro Silvestre Ribeiro. Este estabelecimento pio não tinha bens próprios e vivia exclusivamente da caridade publica, o que lhe acarretava uma administração embaraçosa e cheia de perigos para a sua existência futura. O governador Perdigão, reunindo varias receitas das confrarias extintas e forçando a Câmara do Funchal ao pagamento duma divida de que o asilo era credor, criou-lhe um fundo permanente, sendo primeiramente indispensável dar-lhe capacidade jurídica, com a elaboração e aprovação pelo governo central duns estatutos, que foram a sua primeira lei orgânica e que têm a data de 24 de Março de 1866. Esse primeiro núcleo dos fundos do asilo, criado em 1864 por Perdigão, foi de cinco contos de reis em títulos da divida publica, a que pouco depois fez acrescentar a propriedade de um avultado numero de horas de água de irrigação das levadas da Cruzinha, da Serra e de S. Jorge. Devido aos diligentes esforços do mesmo governador, tinha o asilo em 1866 a importância de 7.250$000 reis em inscrições, que produziam o rendimento anual de 239$250 reis. Este fundo, em títulos da divida publica, tinha-se elevado em 1870 a 9.450$000 reis.

As receitas do asilo relativas ao ano económico de 1869 a 1870 foram de 3.250$000 reis e no ano imediato de 4.142$000 reis, não tendo aumentado, mas havendo por vezes diminuído, nos dez anos seguintes.

Entre os grandes bemfeitores do Asilo, não deve também ser esquecida a condessa do Ribeiro Real, que legou a este estabelecimento de caridade a quinta Esmeraldo, situada á freguesia de S. Martinho, e uma parte do mobiliário do palácio de S. Pedro, o que perfaz um total de cerca de 300 contos. A condessa do Ribeiro Real, que era filha do segundo conde de Carvalhal (V. este nome), faleceu nesta cidade a 29 de Julho de 1921.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 10
  1. A Câmara Municipal do Funchal iniciou a construção da Casa das Angústias, destinada a asilo municipal de mendigos.

  2. Uma terrível aluvião atingiu o Funchal e danificou os Paços do Concelho, no Largo do Pelourinho. Seguiu-se uma tempestade no porto que destruiu embarcações. Estes acontecimentos levaram à criação da Comissão Central de Socorros e à construção de parte da muralha de Machico.

  3. A Câmara Municipal do Funchal foi dissolvida na sequência da revolução da Maria da Fonte.

  4. A Madeira sofreu o «ano da fome», uma carestia causada pela doença da batata num contexto de crise agrícola e comercial, que matou grande parte da população; João Howard March ajudou a organizar subscrições de auxílio.

  5. José Silvestre Ribeiro tomou posse como governador civil do distrito do Funchal em 7 de outubro de 1846. Exerceu o cargo até 1852 e retomou projetos como a ponte da Ribeira Seca.

  6. O Asilo da Mendicidade do Funchal foi fundado num armazém do Estado; cerca de 400 asilados seguiram em procissão para o antigo convento de São Francisco em 27 de março, e o asilo instalou-se definitivamente na Casa das Angústias em 8 de dezembro.

  7. Uma epidemia de cólera, trazida pelo Regimento de Infantaria n.º 1, assolou a Madeira de julho a outubro de 1856, causando, segundo a tradição, cerca de dez mil mortes e deixando muitos órfãos. Álvaro Rodrigues de Azevedo, Luiz Albino Gonçalves e outros prestaram serviço durante a epidemia.

  8. Os asilos de mendigos e de órfãos do Funchal foram fundidos.

  9. O governador Jacinto António Perdigão criou um fundo permanente de cinco contos de réis para o Asilo de Mendicidade do Funchal.

  10. Foram aprovados os primeiros estatutos do Asilo de Mendicidade do Funchal.

  11. A Câmara Municipal declarou definitiva a cedência da Casa das Angústias ao Asilo de Mendicidade do Funchal.

  12. A Condessa de Ribeiro Real, benfeitora do Asilo do Funchal, morreu no Funchal.

Lugar

Lugares mencionados · 14
Mapa: Arquipélago da Madeira (14)
  1. Casa das Angústias

    Funchal. Edifício de 1837 que se tornou a sede permanente do asilo em dezembro de 1847.

  2. Convento de São Francisco

    Funchal. Antigo convento que acolheu o asilo em 1847 e, mais tarde, o asilo para órfãos.

  3. Largo da Sé

    Funchal. Local do edifício da cadeia para o qual a Câmara Municipal planeava mudar-se.

  4. Largo do Pelourinho

    Funchal. Local dos Paços do Concelho danificados pela cheia de 1842.

  5. Levada da Cruzinha

    Santana. Levada sobre cujas águas o asilo adquiriu direitos.

  6. Levada da Serra

    Santa Cruz · Machico · Funchal · Santana. Levada sobre cujas águas o asilo adquiriu direitos.

  7. Levada de São Jorge

    Santana. Levada sobre cujas águas o asilo adquiriu direitos.

  8. Palácio de São Pedro

    Funchal. Palácio de cujo mobiliário uma parte foi legada ao asilo.

  9. Porto Santo

    Também atingido pela fome de 1847.

  10. Praça da Constituição

    Funchal. Praça onde foi servido um jantar aos pobres em 27 de março de 1847.

  11. Quinta Esmeraldo

    Funchal. Quinta legada ao asilo pela Condessa de Ribeiro Real.

  12. Rua do Mosteiro Novo

    Funchal. Rua para a qual dava o armazém onde o asilo foi inicialmente instalado.

+ 2 mais

Pessoas

Pessoas mencionadas · 12
  1. Pai da Condessa de Ribeiro Real, benfeitora do asilo.

  2. Membro da primeira comissão administrativa do asilo, em 1847.

  3. Governador durante a epidemia de cólera de 1856, criou um asilo para órfãos no antigo Convento de São Francisco.

  4. Membro da primeira comissão administrativa do asilo, em 1847.

  5. Membro da primeira comissão administrativa do asilo, em 1847.

  6. Membro da primeira comissão administrativa do asilo, em 1847.

  7. Governador civil que criou o fundo permanente do asilo em 1864 e obteve os seus primeiros estatutos em 1866.

  8. Filha do segundo Conde de Carvalhal, legou ao asilo a Quinta Esmeraldo e mobiliário avaliados em cerca de 300 contos; morreu no Funchal em 1921.

  9. Governador civil do distrito do Funchal a partir de outubro de 1846, fundou o Asilo de Mendicidade em 1847 para fazer face à fome.

  10. Bispo do Funchal que integrou a primeira comissão administrativa do asilo, em 1847.

+ 2 mais
  1. Membro da primeira comissão administrativa do asilo, em 1847.

  2. Membro da primeira comissão administrativa do asilo, em 1847.

Na folha A

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.