Santa Catarina (Capela de) 1Fundação da capela
Santa Catarina (Capela de)
Verbete sobre a Capela de Santa Catarina, no Funchal, fundada por Constança Rodrigues de Almeida, mulher de João Gonçalves Zarco, e considerada a primeira igreja construída na Madeira, bem como sobre o albergue anexo. Refere ainda outras capelas da mesma invocação no Porto Santo, em Santa Cruz, na Calheta e na Ribeira Brava.
1Fundação da capela
No seu antiquado e pitoresco dizer, informa-nos o padre Gaspar Frutuoso «que o capitam João Gonçalves... abrigando os navios aos ilhéus determinou de fazer em terra sua moradia de madeira, a qual logo fez pegada com o mar em hum alto, onde a capitoa Constança Rodrigues fundou huma igreja de Santa Catarina». Naquele humilde e ignorado recanto, que depois se chamou de Santa Catarina, estava lançada a primeira pedra do auspicioso povoamento deste arquipélago e portanto da nunca assás encarecida colonização portuguesa. Do alto e solitário arrife, dirigia o primeiro donatário os trabalhos incipientes dessa titânica tarefa, que o basto revestimento florestal, o inverosímil acidentado dos terrenos e a grande escassez de braços tornavam extremamente penosa e entrecortada de dificuldades insuperáveis.
João Gonçalves Zarco, o primeiro e principal iniciador da colonização madeirense, fez erguer ali a sua modesta e mais antiga moradia, que dominava todo o vasto anfiteatro do Funchal, tendo D. Constança de Almeida, a heróica e piedosa companheira, mandado construir nas próximas imediações uma pequena e devota capela dedicada a Santa Catarina, a sabia e gloriosa mártir da cidade de Alexandria.
A pesar do historiador das ilhas conferir-lhe enfaticamente o nome de «igreja», teria sido apenas uma pobre e modesta ermida de acanhadas dimensões e construída de madeira, como o eram as primeiras habitações dessa época, sendo talvez escolhida a matéria prima entre os odoríferos cedros (juniperus ou oxycerbus), que abundavam em toda a ilha, pois se sabe que outras capelas foram construídas com a preciosa madeira dessas árvores.
Ignora-se a época precisa em que se procedeu à sua reedificação, desaparecendo então todo o madeiramento da construção primitiva, mas conjectura-se que o houvesse sido no terceiro ou ultimo quartel do século XV. A capela existente, foi uma nova reconstrução, que segundo lemos algures, se realizou pelos fins do século XVII, tendo através do tempo recebido várias reparações. No limiar superior do pórtico, conserva-se a data de 1425, que atesta a sua antiguidade, ignorando-se, porém, se essa pedra assim epigrafada teria pertencido à primeira ou a segunda reconstrução.
2Monumento histórico
Essa antiga capela representa para os madeirenses um verdadeiro monumento histórico, constituindo objecto da mais alta e da mais respeitosa veneração. Na sua humildade, na sua pequenez e até na sua pobreza é um padrão imemorável a recordar eloquentemente o descobrimento do nosso arquipélago e o inicio da obra admirável da sua colonização. E como tal deve ser patriótica e religiosamente conservada, por parte de governantes e governados, mostrando-se aos contemporâneos e às gerações vindouras o devotado apreço com que sabemos conservar as gloriosas tradições do passado.
Ainda outro e ponderoso motivo o aconselha e persuade: a sua veneranda antiguidade. Ao contrário do que afirmou o autor das Saudades da Terra e o seu erudito comentador, dando a igreja de Nossa Senhora do Calhau e a ermida de São Sebastião do Largo do Chafariz, como as primeiras capelas erguidas na Madeira, sabe-se hoje, sem receio de séria contradita, que foi a pequena edícula de Santa Catarina o primeiro templo levantado nesta ilha, como há mais de vinte anos o deixámos já dito nas páginas do Elucidário Madeirense. Esta reconhecida prioridade deve ser considerada como mais um irrefragável direito á nossa rendida veneração e acendrada simpatia pela conservação e possível aformoseamento daquele tão vetusto e significativo monumento. Entendemos que em uma das paredes interiores do pequenino templo se deveria colocar uma inscrição lapidar, onde se lessem estas ou semelhantes palavras: Esta capela, fundada pela mulher de João Gonçalves Zargo, foi a primeira edificada na Madeira e recorda o descobrimento desta ilha e o começo do seu povoamento.
3A Mercearia e outras capelas
Tendo a mais próxima afinidade com o que acima fica exposto, não podemos subtrair-nos ao desejo de transcrever aqui as palavras que já deixámos escritas em outro lugar e que, porventura, oferecerão algum interesse aos leitores deste Elucidário:
«Por 1425, fundou Constança Rodrigues de Almeida, mulher de João Gonçalves Zarco, a capela de Santa Catarina e «a par dela, diz Frutuoso, fez muitas casas para gasalhado de mulheres de boa vida, pobres mercieiras a quem deixou esmolas para sempre terem cuidado de alimparem e servirem aquela casa (a capela) como ainda agora se costuma». Estas palavras são comentadas pelo Dr. Rodrigues de Azevedo da maneira seguinte: «A Mercearia de Santa Catharina... era como que um hospício, onde, por esmola, viviam mulheres pobres e de bons costumes, que tinham a seu cargo o aceio da capela da sancta. Uma e outra teem sido conservadas até ao presente. São propriedade do sr. conde de Castello-Melhor».
Nada podemos acrescentar ao que fica transcrito e ignoramos também se realmente até o ano de 1873 se manteve a fundação de Constança de Almeida, embora, sem duvida, com feição diferente da instituição primitiva. O que podemos agora asseverar é que essa instituição há muito que desapareceu e que as casas e a capela passaram a outros proprietários. Foi esta certamente a primeira instituição de beneficência que houve na Madeira, tendo tido uma existencia de cerca de quatro séculos e meio.
Na vila do Porto Santo e no lugar ainda hoje conhecido pelo nome de Santa Catarina, se levantava a capela desta invocação. Ignoramos quando foi edificada e quando se procedeu á sua demolição, mas sabemos que dentro do recinto do cemitério que fica no sítio onde existia a antiga ermida, se erigiu uma pequena capela dedicada á mesma santa e que se destina ao uso privativo do serviço religioso no referido cemitério. A imagem de Santa Catarina era de grande veneração entre os habitantes do Porto Santo, constando da tradição local que, tendo os piratas mouros roubado a mesma imagem, foi ela resgatada por uma avultada quantia e restituida ao culto na sua capela daquela ilha.
O sítio de Santa Catarina, na vila de Santa Cruz, tem este nome porque ali mandou Gonçalo de Freitas construir uma capela daquela invocação no século XV.
Rodrigo Enes fundou no ano de 1505 a capela de Santa Catarina na freguesia da Calheta, no sítio que ainda conserva esse nome.
Houve também uma ermida da mesma invocação na freguesia da Ribeira Brava.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 04-
Foi reconstruída a atual Capela de Santa Catarina, no Funchal.
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Constança Rodrigues de Almeida fundou no Funchal a Capela de Santa Catarina e a respetiva mercearia, consideradas a primeira igreja e a primeira instituição de beneficência da Madeira; a data de 1425 está gravada no portal da capela.
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Rodrigo Enes fundou a Capela de Santa Catarina na Calheta.
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Segundo os relatos, a mercearia de Santa Catarina ainda se mantinha em funcionamento e pertencia ao Conde de Castelo Melhor.
Lugar
Lugares mencionados · 11- Santa Catarina · Assunto
Funchal
Santa Catarina é uma elevação na freguesia de São Pedro, a oeste do Funchal, onde Zarco estabeleceu o seu primeiro povoado e construiu uma casa de madeira. Os seus campos, juntamente com os do Caniçal, foram apontados como os melhores terrenos de caça da Coroa, e ali se situava o Hospital de São Lázaro.
- Capela de Santa Catarina · Assunto
Funchal
A Capela de Santa Catarina, no Funchal, foi fundada por volta de 1425 por Constança Rodrigues de Almeida, mulher de João Gonçalves Zarco, junto à primeira casa de madeira deste. É considerada a primeira igreja da Madeira, tem a data de 1425 no portal e possuía um albergue anexo para mulheres pobres. O Convento de São Francisco foi construído em frente.
- Santa Catarina · Assunto
Porto Santo. Localidade cujo nome deriva da antiga capela.
Santa Catarina é uma localidade do Porto Santo cujo nome deriva da sua antiga Capela de Santa Catarina.
- Capela de Santa Catarina · Assunto
Porto Santo
Capela dedicada a Santa Catarina na freguesia do Porto Santo, incluída entre as capelas da freguesia. É uma das várias capelas desta invocação referidas a par da principal Capela de Santa Catarina, no Funchal.
- Calheta
Freguesia onde foi fundada uma capela de Santa Catarina em 1505.
A Calheta é uma vila, freguesia e concelho na costa sudoeste da Madeira e um dos povoamentos mais antigos da ilha. O Elucidário aborda o seu nome, os primeiros povoadores, como Pedro Berenguer, a igreja e numerosas capelas, incluindo uma de um antigo convento franciscano, e o motim de 1834.
- Capela de São Sebastião
Ponta do Sol. Outra capela erroneamente considerada uma das primeiras.
A Capela de São Sebastião é uma antiga capela do Funchal que, segundo alguns, terá sido a primeira sede da freguesia do Funchal, por volta de 1430. Foi servida desde cedo por franciscanos, e o primeiro alojamento e as primeiras aulas dos Jesuítas funcionaram junto dela. Há também registo de uma capela com o mesmo nome na Vila, pertencente à Câmara Municipal.
- Funchal
A capela domina o anfiteatro do Funchal.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Igreja de Nossa Senhora do Calhau
Funchal. Frutuoso considerou-a uma das primeiras igrejas, afirmação rejeitada no verbete.
A Igreja de Nossa Senhora do Calhau foi a primeira igreja paroquial do Funchal. A sua construção começou cerca de 1438 junto à praia, na margem esquerda da Ribeira de João Gomes. Foi repetidamente danificada por cheias e destruída pela grande cheia de 1803; a capela-mor foi preservada como memória da igreja até à demolição das ruínas em 1835 para dar lugar a um mercado.
- Porto Santo
Local de uma antiga capela de Santa Catarina, hoje capela de cemitério.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
- Ribeira Brava
Freguesia que também teve uma ermida de Santa Catarina.
A Ribeira Brava é uma das freguesias mais antigas da Madeira. Deve o nome à sua ribeira impetuosa e possui vila, porto e cais. O Elucidário aborda a sua igreja colegiada e as respetivas pinturas, o convento franciscano e as capelas, bem como a festa de São Pedro, com barco e dança das espadas. Regista também tumultos contra o sistema métrico e as mortes causadas por disparos das tropas sobre a população durante as eleições de 1884.
- Santa Cruz
O seu sítio de Santa Catarina deve o nome a uma capela do século XV.
Santa Cruz é uma freguesia e uma das povoações mais antigas da Madeira. Recebeu o nome de uma cruz que Zarco ali mandou erguer aquando da descoberta. O Elucidário aborda a sua história eclesiástica inicial, a colegiada, as capelas, os povoadores nobres e os sítios da freguesia.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 07- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Comentador de Saudades da Terra, citado a propósito do albergue.
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Proprietário da capela e do albergue em 1873, segundo Rodrigues de Azevedo.
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Mulher de Zarco, que fundou a Capela de Santa Catarina e o respetivo albergue por volta de 1425.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Autor de Saudades da Terra, citado a propósito da fundação da capela.
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Fundou uma capela de Santa Catarina em Santa Cruz no século XV.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor e primeiro capitão-donatário do Funchal, cuja primeira casa ficava junto à capela.
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Fundou a Capela de Santa Catarina na Calheta em 1505.