Ferreira (Gonçalo Aires) 1Companheiro de Zarco
Ferreira (Gonçalo Aires)
Nota biográfica sobre Gonçalo Aires Ferreira, o mais destacado companheiro de João Gonçalves Zarco na descoberta e no povoamento da Madeira, a quem se atribui a autoria de um relato antigo da descoberta e que foi pai das primeiras crianças nascidas na ilha.
1Companheiro de Zarco
No pequeno artigo consagrado a João Afonso, já fizemos rápida referência aos companheiros de João Gonçalves Zarco na arriscada empresa do descobrimento ou colonização deste arquipelago. Conquanto João Afonso se destacasse entre os marinheiros que tripulavam as caravelas comandadas por Zarco e Tristão Vaz, é, porém, certo que Gonçalo Aires Ferreira foi o mais distinto companheiro do primeiro descobridor, não só pela sua nobre ascendência, mas ainda pela ilustração que possuía, cotejada com a dos restantes indivíduos que compunham a equipagem da pequena frota que pela primeira vez demandou esta ilha. Alguns linhagistas têm posto em relevo a circunstancia de ser Gonçalo Aires o mais dedicado companheiro e o mais devotado amigo de João Gonçalves Zarco nos trabalhos da expedição e descoberta e também na primitiva colonização da capitania do Funchal.
Gaspar Frutuoso, referindo-se á primeira expedição feita através da costa pelos descobridores, diz o seguinte:
«Antes que chegassem a este deleitoso valle, foram correndo a costa, que de altas rochas era, sem acharem logar onde sahir, senão em huma ribeira que bota huma pedra ao mar, em que podem desembarcar como em caes: ali mandou o capitam o seu amigo Gonçallo Ayres, que sahisse em terra nesta ribeira com certos companheiros, e andassem pela terra algum espaço, ver se havia nella alguns animais ou bichos, serpentes ou cobras venenosas, e não se afastassem da corrente d'agoa, para se saberem tornar aos bateis, que no mar deixavam. Foi Gonçallo Ayres com os companheiros correndo a terra por espaço de tres horas, no fim das quaes se agastava já o capitam com a tardança delles, senão quando, exque assomavam pela ribeira abaixo com capelas na cabeça, e enramados vinham falando com muito prazer, que não achavam cousa viva, senão aves; e daqui ficou nome a Ribeira de Gonçalayres».
Diz noutro lugar, falando de alguns dos companheiros de Zarco, «que em sua companhia vieram. . . tiveram filhos, muitas terras e propriedades que grangearam e geração mui nobre, como foi a de Gonçallo Ayres de quem procede a casta que na ilha da Madeira se diz a grande».
2Terras, relação do descobrimento e descendência
Teve Gonçalo Aires vastas terras de sesmaria desde a ribeira que recebeu o seu nome até á de Santa Luzia, que se estendiam ás cumeadas da serra. Além de ter dado o seu nome àquela ribeira, ficou também com esta denominação a rua actualmente conhecida pelo nome de rua do Carmo e que então se estendia desde a igreja até á margem da Ribeira de João Gomes.
Já no artigo em que nos ocupámos do cónego Jeronimo Dias Leite nos referimos á relação do descobrimento deste arquipelago, atribuída a Gonçalo Aires. Sobre este assunto dizem as Saudades da Terra: «Trazia (o sexto capitão-donatario do Funchal) no seu escriptorio o Descobrimento da Ilha da Madeira, o mais verdadeiro que até agora se achou; o qual dizem que foi feito por Gonçallo Ayres Ferreira, que foi a descobrir a mesma ilha com o primeiro Capitam João Gonçalves Zargo; e como este Descobrimento competia aos Capitães da mesma ilha, elles o traziam nos seus escriptorios, como cousa hereditária de descendentes em descendentes. E, sendo pedida informação desta ilha da Madeira, da minha parte, ao Reverendo Cónego da See do Funchal Hyeronimo Dias Leite, tendo elle visto em poder do dito Capitam João Gonçalves da Câmara, lho mandou pedir a Lisboa, onde então estava, e ele o mandou trasladar pelo seu camareiro Lucas de Saa, e lho mandou escripto em três folhas de papel, da letra do dito camareiro; e por sua carta (porque o descobrimento não faz menção disso lhe mandou dizer que Gonçallo Ayres Ferreira, o qual fora hum dos criados que o Zargo, primeiro Capitam, lá levara, escrevera tudo aquillo que vio com os seus olhos, e, como não era curioso nem homem docto, o notara com ruda minerva, sem al composto».
Gonçalo Aires era filho de Gomes Ferreira e de Isabel Pereira de Lacerda. Veio casado para esta ilha no princípio da colonização e do seu consórcio houve dois filhos gémeos, que foram os primeiros indivíduos que nasceram na Madeira, os quais tiveram por isso os nomes de Adão e Eva. Por esta circunstancia anda o nome de Gonçalo Aires ligado ao primitivo povoamento do arquipelago, sendo também o tronco de distinta e numerosa descendência. Foi o primeiro que entre nós teve o apelido de Ferreira, usando e os seus descendentes as seguintes armas: «em campo vermelho quatro faxas de ouro, timbre uma ema de sua cor, com uma ferradura de ouro no bico».
No manuscrito Noticias das cousas da Ilha da Madeira desde o seu segundo descobrimento pelo Zarco (V. Elementos para a historia madeirense) lemos o seguinte, que temos por verdadeiro: «Gonçalo Ayres teve no Funchal muitas terras e os melhores valles que nelle havia, como era todo o Valle Formoso. Foi muito amado e querido do capitam Zargo, por ser pessoa de estimacão e cavalleiro da casa do Infante: e quando falleceu, o Zargo o mandou sepultar em Nossa Senhora de Cima, na Capella-Mór, que era o jazigo que para si e sua mulher e filhos havia feito».
Também usou deste apelido Braz Ferreira, a quem já nos referimos no artigo consagrado á freguesia do Arco da Calheta, e que não sabemos se seria descendente de Gonçalo Aires Ferreira.
Neste artigo
Lugar
Lugares mencionados · 08No estrangeiro
- Arco da Calheta
Calheta. Freguesia ligada a Brás Ferreira.
O Arco da Calheta é uma freguesia do concelho da Calheta, criada em 1572 em torno da Capela de São Brás, cuja igreja conserva pinturas do século XVI. O Elucidário aborda os seus primeiros povoadores, como os Andrade, as propriedades açucareiras, as capelas, os morgadios, os tumultos de 1834 e 1887 e a irrigação pelas levadas do Rabaçal e do Pico da Urze.
- Capela de Nossa Senhora do Calhau
Funchal. Capela de sepultura de Zarco onde Gonçalo Aires foi sepultado.
Capela sepulcral de Zarco, onde foi sepultado Gonçalo Aires.
- Lisboa
Portugal. Local onde o capitão guardava o relato quando este foi copiado.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Ribeira de Gonçalo Aires
Funchal. Ribeira que recebeu o nome do primeiro grupo de desembarque de Gonçalo Aires.
A Ribeira de Gonçalo Aires situa-se na freguesia de São Gonçalo e recebeu, segundo Gaspar Frutuoso, o nome do explorador Gonçalo Aires, que por ela desceu durante a primeira exploração da Madeira. Na sua foz fica o lazareto; esta foz era um dos vértices dos limites da cidade do Funchal em 1909.
- Ribeira de João Gomes
Funchal. Ponto onde terminava a antiga Rua de Gonçalo Aires.
A Ribeira de João Gomes, no Funchal, nasce na Serra do Poiso, recebe a Ribeira das Cales e foi outrora chamada Ribeira de Nossa Senhora do Calhau. Marcava o limite oriental das muralhas projetadas para a cidade e da freguesia de Santa Luzia; a igreja do Calhau situava-se junto dela. O matadouro municipal de 1941 situa-se na sua margem direita.
- Ribeira de Santa Luzia
Funchal. Limite das terras doadas a Gonçalo Aires.
A Ribeira de Santa Luzia é uma das três ribeiras que atravessam o Funchal e deve o nome a uma capela de Santa Luzia na sua margem esquerda. As suas margens terão sido as primeiras terras regadas por levadas e tinham quatro engenhos de açúcar no final do século XVII. Alimenta as levadas de Santa Luzia, dos Moinhos e de D. Isabel; na sua margem direita situava-se a residência dos Jesuítas na Fundoa.
- Rua do Carmo
Funchal. Rua que outrora tinha o nome de Gonçalo Aires.
A Rua do Carmo é uma rua do Funchal cujo nome vem da igreja de Nossa Senhora do Carmo; inclui a antiga Rua da Laranjeira e integra a delimitação da freguesia de Santa Luzia. Teve o nome de Gonçalo Aires e foi renomeada em 1922 em homenagem ao Dr. António Aurélio da Costa Ferreira. Nela se situavam o Hotel Miles e a sede da congregação de Miss Mary Jane Wilson, e ali ficou aquartelada a companhia de artilharia enviada em 1917.
- Vale Formoso
Funchal. Vale que pertencia na totalidade a Gonçalo Aires.
Vale Formoso é um vale e sítio da freguesia de Santa Luzia, no Funchal, e uma parte notável do vale do Funchal. Pertenceu outrora, na sua totalidade, a Gonçalo Aires Ferreira. Nele se encontram a capela de Nossa Senhora do Vale e o local da capela de Nossa Senhora da Esperança, construída em 1744 e entretanto demolida. A quinta do Dr. Kalley, ali situada, foi saqueada em 9 de agosto de 1846, e os seus móveis e a sua biblioteca foram queimados.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 13-
Companheiro de Zarco na descoberta da Madeira, primeiro povoador a usar o apelido Ferreira e a quem se atribui a autoria do mais antigo relato da descoberta.
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Filho gémeo de Gonçalo Aires, uma das primeiras pessoas nascidas na Madeira.
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Portador do apelido Ferreira ligado ao Arco da Calheta, cuja descendência de Gonçalo Aires é incerta.
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Filha gémea de Gonçalo Aires, uma das primeiras pessoas nascidas na Madeira.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Autor de Saudades da Terra, citado a propósito do desembarque de Gonçalo Aires.
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Mãe de Gonçalo Aires Ferreira.
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Cónego da Sé do Funchal que obteve para Frutuoso uma cópia do relato da descoberta.
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Marinheiro das tripulações de Zarco, a quem é dedicado um breve artigo próprio.
- João Gonçalves da Câmara1414–1501
Sexto capitão-donatário do Funchal, que guardava no seu gabinete o relato da descoberta.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor da Madeira e primeiro capitão do Funchal, amigo e patrono de Gonçalo Aires.
+ 3 mais
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Camareiro do capitão que copiou o relato da descoberta.
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Pai de Gonçalo Aires Ferreira.
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Comandante, juntamente com Zarco, das caravelas da descoberta.