Cana Sacarina 1Introdução e decadência do açúcar
Cana Sacarina
A cana-de-açúcar na Madeira: a sua introdução cerca de 1425, o auge da produção açucareira no século XVI e o seu declínio perante a concorrência brasileira, e o ressurgimento no século XIX após a destruição das vinhas, apesar da doença da cana de 1882–1886. Aborda também as variedades de cana, o teor de açúcar, os preços legais de 1862 a 1937, o cultivo e a rega por levadas, os engenhos e o predomínio da fábrica Hinton, bem como a legislação açucareira de 1934–1935.
1Introdução e decadência do açúcar
Data de 1425, segundo parece, a introdução da cana de açucar na Madeira, tendo as primeiras estacas desta planta, que se diz terem vindo da Sicilia por ordem do infante D. Henrique, sido plantadas no Campo do Duque, que era o terreno onde na cidade do Funchal estão hoje a Sé Catedral, seu adro e terreiro, o Largo da Sé, a Rua do Aljube e o Largo do Comercio, outrora de S. Sebastião. Do Campo do Duque passou a cana a Machico, e aí prosperou a sua cultura de tal modo, que produziu treze arrobas de açucar, o qual foi do primeiro vendido na ilha.
Da Madeira passou a cana de açucar ás Canarias, a Cabo Verde, a S. Tomé e Principe e a Angola e Benguela, sendo de supor que da nossa ilha se propagasse também esta util planta ás colonias portuguesas e espanholas da America onde ainda hoje existe uma casta de cana denominada crioula, perfeitamente identica á antiga cana da terra, cultivada entre nós.
A cultura da cana prosperou e desenvolveu-se na Madeira até o meado do seculo XVI, em que esta ilha chegou a produzir 300:000 arrobas de açucar, mas em 1590, quando Gaspar Frutuoso escreveu as Saudades da Terra, já a outrora florescente industria sacarina tendia a decair, mercê da afluencia aos mercados europeus do açucar do Brasil e das colonias espanholas, se bem que houvesse ainda aqui valiosas plantações daquela gramínea.
Para conjurar a crise que principiava a manifestar-se, solicitou e obteve a Camara do Funchal em 1598, um alvará para que nenhum navio pudesse carregar aqui açucar de outras paragens, mas esta medida nenhuns beneficios trouxe á ilha, como também os não trouxe um contrato celebrado em 1608 entre os moradores da cidade e a mesma Camara para que se não vendesse a estrangeiros açucar importado do Brasil, senão depois destes terem feito o terço dos seus carregamentos com açucar da terra.
Por um alvará de 1649, diz o Dr. Azevedo, foram prometidos premios e emprestimos aos que refizessem os antigos engenhos, já então em ruinas, ou que levantassem outros novos, porem, a industria sacharina na ilha da Madeira ficara ferida de morte, desde que, pelos fins do seculo XVI em diante, o assucar americano veiu sortir os mercados europeus por preços com que ella não podia rivalizar. De feito a concorrencia tornara-se-lhe impossivel, já porque a America se fecundava pelo quasi gratuito trabalho do escravo, emquanto a Madeira, na maxima parte, pelo do colono livre; já porque na America, a terra, a cultura, o fabrico, e talvez o capital tambem, constituiam um interesse, uma força, uma empreza identica, e aqui não: a heterogenea dualidade senhorio e colono, ou morgado e villão, por tempos adormecida em suas reciprocas invejas, á sombra da opulencia a que não dera impulso, acordou, destruidora de si propria, logo que, á segúre da adversidade, a arvore protectora lascou e cahiu”.
O ilustre anotador das Saudades da Terra aponta o ano de 1748 como demarcando o têrmo do periodo sacarino nesta ilha; deve-se notar, porém, que foi somente a industria da manipulação dos açucares que desapareceu por então quasi inteiramente, pois que a cultura da cana, essa continuou a manter-se, embora em muito menor escala que anteriormente.
A Madeira, diz o Dr. Azevedo, ficou do meado do seculo XVIII, em diante, reduzida a mera consumidora do açucar americano, com o qual mantinha a confeitaria, que, bem se podia dizer, aqui foi elevada, desde o seculo XVI, a verdadeira arte e valiosa industria de exportação, como se mostra de alguns diplomas... e de diversos trechos das Saudades da Serra, especialmente o que diz que o capitão Simão Gonçalves da Camara mandou a Roma visitar o papa com um grande serviço... muitos brincos e mimos da ilha de conservas, e o Sacro Palacio todo feito de açucar, e os cardeais todos feitos de alfenim... da estatura de um homem”.
Poucos engenhos existiam na ilha em 1730, e em 1736, 1739, 1741, 1748, 1758 e 1765, foram solicitados alvarás para a importação do açucar do Brasil.
2Renascimento da indústria sacarina
Bowdich, que esteve na Madeira em 1823, diz que se fabricava aqui uma quantidade insignificante de açucar, e o autor dos Rambles in Madeira, que nos visitou em 1826, refere quasi a mesma cousa acêrca deste produto, acrescentando que havia então em tôda a ilha um unico engenho de espremer cana doce. Em 1827, refere um jornal da epoca, havia na Madeira mais outro engenho destinado ao mesmo fim, mas em 1851 já o numero desses estabelecimentos subia a quatro, todos movidos pela fôrça de bois, segundo atesta Eduardo Harcourt na sua Sketch of Madeira.
O fabrico do assucar e da aguardente, refere o Dr. Azevedo, resuscitaram quasi immediatamente á destruição dos vinhedos de 1846 para 1852. Começou primeiro o da aguardente, em 1847, por uma fabrica montada em Camara de Lobos; seguiu-se em 1853, outra na Ribeira Brava; outra em 1854, em Camara de Lobos; outra, nos Canhas, em 1855; em 1857, duas, uma no Arco da Calheta, outra em Camara de Lobos; nove, no ano de 1858, a saber: duas em Machico, duas no Porto da Cruz, uma em S. Jorge, uma em Ponta Delgada, uma no Paul do Mar, uma na Magdalena e uma em Camara de Lobos; em 1859, duas, uma em S. Jorge, outra no Faial; em S. Vicente, uma no anno de 1860; por ultimo, em Ponta Delgada, no de 1861.
Vieram depois as fabricas de assucar; a de Ferraz Irmãos, começada annos antes, a de William Hinton & Son, ambas no Funchal, e a de Ferreira Nogueira, em S. Martinho, tôdas em 1856; em 1858, a de Ornellas Frazão, em Santa Cruz; em 1859 a de Joaquim da Silva, no Funchal; desde então até 1866, a de Diogo Frazão, no Arco da Calheta, e a de Wilbraham, na Ponta do Sol; por ultimo a grande fabrica de São João, fazendo algumas das sete ultimas tambem aguardente”.
A quantidade de garapa obtida em 1855 foi de 311:500 galões, segundo refere White no livro intitulado Madeira its climate and scenery, e do relatorio apresentado pelo agronomo Eduardo Dias Grande á Sociedade Agricola do Funchal em 1865, vê-se que a ilha produziu nesse ano 14:688:043 quilogramas de cana, devendo regular então a área de cultura desta planta por uns 357 hectares. Segundo o mesmo agronomo, esses 14.688:043 quilogramas deveriam produzir 84:218,98 hectolitros de garapa, representando um capital de 175:039$550 réis.
A cultura sacarina manteve-se florescente na Madeira até 1881, mas em 1882 uma molestia até então completamente desconhecida na ilha, começou a atacar os canaviais, acabando por destruí-los quasi completamente em 1884, 1885 e 1886.
Essa molestia provocada por um fungo, o Conyothyrium melasporum, segundo pensa o distinto engenheiro-agronomo o sr. Alfredo de Fraga Gomes, causou importantissimos prejuízos á ilha, tendo sido infrutiferos todos os meios de tratamento empregados para a debelar.
Foi a cana Bourbon, importada de Caïena nos principios do seculo XIX e de Cabo Verde no meado do mesmo seculo, a casta destruída pelo Conyothyrium, mas a introdução desde 1833, de castas novas e seleccionadas vindas da Mauricia e de outros países, permitiu a rapida reconstituição dos canaviais, os quais já em 1890 se achavam espalhados por quasi tôda a região baixa da ilha, havendo mesmo uma casta, a bambu, que se tinha reconhecido poder ser cultivada em altitudes onde antes nunca chegara a cana sacarina.
3Castas, rendimentos e preços
A cana da terra ou crioula, baixa e de côr verde, foi, como dissemos já, a primeira que existiu na Madeira, seguindo-se-lhe a cana Bourbon, de colmos mais altos e ás vezes um pouco avermelhados, introduzida no seculo XIX. Em 1861, ou um pouco antes, foi introduzida na ilha a cana das Antilhas, de fôlhas e colmos violaceos, mas esta casta, que se desenvolvia mal sob o nosso clima, nunca chegou a formar grandes plantações.
As castas de cana que em 1890 existiam na ilha, eram principalmente a Otaheite, a cristalina do Haiti, a elefante e a bambu, tôdas de colmos verdes, amarelados ou esverdinhado-amarelados; a violeta, a violeta clara e a violeta escura, de colmos violaceos e fôlhas verdes; a vermelha, de colmos da mesma cor; a Port Mackay, de colmos arruivados e fôlhas listadas, já um pouco atacada pela molestia; e a rajada e a cristalina rajada, de colmos grossos e listados. Estas duas ultimas castas, a violeta e a Otaheite ou cana branca eram as que dominavam nas plantações, sendo também as mais resistentes e as mais rendosas em garapas. A cana Yuba uma das mais largamente cultivada, tem uma vitalidade superior á de qualquer das outras castas, levando-lhes também vantagem na produção, o que é devido á abundancia dos seus colmos. O rendimento medio por hectare que noutros tempos era de 20, 25 e 30:000 quilogramas, atinge agora 30, 35 e 50:000 quilogramas, correspondendo sempre as maiores producções ás terras eminentemente proprias para a cultura da cana e convenientemente fertilizadas por meio de estrumes e adubos quimicos.
Embora a cana sacarina seja cultivada com resultado em Málaga e em Motril, na Espanha, mostra a experiencia que na Madeira ela não deve ultrapassar a altitude de 250 a 300 metros na costa do sul, e de 150 a 200 metros na do norte. Na altitude de 450 metros as garapas têm apenas 4 a 6 graus Beaumé, o que faz com que as canas aí produzidas não alcancem nunca os preços por que são vendidas as da região inferior. Segundo as analises a que procedeu em 1911 o Dr. Otto Klein, as garapas da cana Yuba cultivada na região inferior da ilha, chegam a apresentar 10,46 Beaumé, ao passo que as da antiga cana Bourbon marcavam algumas vezes 11,05.
Refere o sr. Luiz de Castilho num trabalho intitulado A Fabricação do Assucar de Canna (Rio de Janeiro, 1892), que em Guadalupe as analises de cana acusaram uma media de 12,29 por cento de sacarose, em Cuba 12,5 a 14 por cento, conforme a epoca, e no Brasil, nos terrenos de Bracuhy, 14.86 por cento. Em setenta e uma analises a que procedeu o Dr. Otto Klein em colmos da cana Yuba, a media obtida foi apenas 11,7, sendo de notar, porém, que muitas das canas enviadas a este quimico, provinham de terrenos situados a cêrca de 350 metros acima do nivel do mar.
Na Madeira, anteriormente á cana Yuba, com as castas então existentes, que eram diversas, as percentagens de sacarose acusadas pela cana eram de 11% e o seu rendimento oscilava entre 6 e 7 quilogramas por cento, em açucar cristalizado, enquanto que agora, devido á melhoria das castas e ao aperfeiçoamento dos processos de fabrico que a pouco e pouco se tem vindo operando, o rendimento da cana em açucar cristalizado é de 9 a 10 por cento. Conforme esclarecimentos de ordem tecnica vindos a lume, “cada 100 quilogramas de cana Yuba contêm 78 litros de garapa ou jus com uma pureza de 86”, o que é motivo para que consideremos essa casta tão preciosa ou quasi tão preciosa como as castas cultivadas nas Indias Ocidentais, cujos sucos teem 84 a 88 de pureza” segundo afirma o autor de um opusculo publicado em 1910, com o titulo de A Questão Sacarina da Madeira.
O prêço da cana tem variado bastante na Madeira. Em 1872 a Companhia Fabril de Assucar Madeirense pagava 55 centavos por cada 30 quilogramas de cana com 9 a 10 graus Beaumé, 60 pela que tinha 10 a 11 graus e 65 pela que tinha mais de 11 graus, mas estes preços foram pouco duradouros, e logo que os inimigos da fabrica de S. João conseguiram aniquilá-la, viu-se baixar de uma maneira bastante sensivel o prêço daquele produto. Em 1881, a fabrica do Torreão pagava a cana a 45 centavos, mas este prêço, que ainda era remunerador, também não se manteve, desaparecendo pouco depois os canaviais em virtude da molestia a que já nos referimos. Por 1862 as fabricas pagavam a cana a 30 centavos, depois pagaram-se algumas vezes a 32 e 35 centavos, aparecendo finalmente o decreto de 30 de Dezembro de 1895 que estabeleceu para aquele produto os preço de 40 a 45 centavos por 30 quilogramas, e o decreto de 24 de Setembro de 1903, pelo qual a Madeira obteve mais 5 centavos nos preços minimos de cana, acrescimo este que o decreto de 18 de Março de 1911 não alterou.
Actualmente e por fôrça do disposto no decreto n. 27.912, de 31 de Julho de 1937, o prêço estabelecido para a cana em condições legais é de 7$60 por 30 quilogramas.
Algumas fabricas de aguardente pagaram a cana em 1918 por preços superiores aos estabelecidos no decreto de 1911, mas o govêrno, a titulo de proteger o distrito contra o perigo do alcoolismo, determinou que essas fabricas cessassem a sua laboração, podendo daí em diante as fabricas matriculadas comprar o resto da produção pelos preços legais.
É de advertir que por efeito de varias causas que são do dominio da tecnica, a quantidade de açucar comercial obtida não corresponde exactamente á riqueza sacarina da cana, mas a diferença é muito menor hoje do que outrora, mercê dos processos de fabrico e de extracção maxima adoptados modernamente na ilha.
Antes do decreto de 1895 podiam os lavradores mandar fabricar açucar por sua conta, pagando com uma parte deste produto ou com uma certa importancia em dinheiro o prêço ajustado para o fabrico, mas esse direito não foi reconhecido pela fabrica do Torreão, depois que lhe foi permitido monopolizar os serviços da produção do açucar para consumo da ilha.
4Cultura, fábricas e legislação
A cultura da cana, que ocupava a superficie de 1:000 hectares em 1906, de 1:100 hectares em 1911, de 1:800 hectares em 1915 e de 1:500 hectares em 1918, é, diz o engenheiro-agronomo sr. João da Mota Prego, mais rendosa do que a da vinha, dadas as condições do comercio dos nossos vinhos, mas menos do que a da bananeira. No entender do mesmo agronomo, essa cultura “não pode abranger área muito superior á que tem ocupado nos ultimos anos; o que poderá aumentar é a intensidade de produção por unidade de superficie, sendo em todo o caso muito lento este aumento de produção, dependendo de uma cultura mais intensiva, isto é consumindo mais capitãis e portanto contrariada pelo actual regimen de exploração agricola, a parceria.
Na multiplicação da cana sacarina empregam-se de ordinario as extremidades dos colmos, que são muito mais baratos do que as outras partes da planta, sendo uso plantá-los obliquamente a fim de facilitar a formação das soqueiras.
A irrigação dos canaviais durante a estação quente realiza-se de 15 em 15 ou de 17 em 17 dias, o que não quer dizer que eles não possam resistir a periodos mais longos de secura. Em certas localidades pouco abundantes em aguas, deixam as canas de ser regadas ás vezes durante um mês. A cana Yuba é das castas que têm sido cultivadas na Madeira, a que melhor resiste á sêca, devido ao seu caracter rústico.
A construção de levadas principiou na Madeira durante o seculo XV, sendo graças a ela que a cultura da cana, iniciada no Campo do Duque, pode difundir-se por novas localidades primeiramente no sul e depois no norte da ilha. As 300:000 arrobas de açucar que se fabricavam na ilha no meado do seculo XVI, levam-nos a supor que haveria então cêrca de dois mil hectares cultivados de cana, sendo possivel que para a irrigação das terras fossem aproveitadas também as aguas de muitas fontes que agora não existem, em virtude da insensatez com que o povo destruíu as antigas matas madeirenses. As levadas de Santa Luzia, do Castelejo e da Ribeira dos Socorridos já estavam construídas no seculo XVI, tendo pelo alvará de 19 de Outubro de 1562 determinado a rainha regente D. Catarina, em nome de D. Sebastião, que esse e outros canais se limpassem “bisto se perderem muytas canas daçucar & deixarem de se prantar outras por se nom tirarem e limparem as levadas em tempo”.
O mais antigo diploma relativo á industria saccharina, que ha no Archivo da Camara do Funchal, é de 1562, segundo se vê das notas ás Saudades da Terra, e delle se evidenceia datarem de então os primordiaes progressos desta industria na Madeira: concede a construção do primeiro engenho de agoa que aqui houve para fazer assucar, vendo-se do theor que, antes desse, não existia aqui outro, com qualquer motor. Até esta epocha o fabrico do assucar, pois, não podia deixar de ser escasso, e de mera laboração domestica”.
Em 1900 existiam na Madeira 49 fabricas de moer cana, das quais 16 trabalhavam pela força de vapor e 33 pela da agua; hoje é de 51 o numero desses estabelecimentos, dos quais um apenas, o de H. Hinton, fabrica todo o açucar consumido no arquipelago ou exportado para Portugal. O poder de laboração desta ultima fabrica, uma das mais vastas e perfeitas que se conhecem, atinge hoje 500 toneladas de cana em vinte e quatro horas, ao passo que de 1895 a 1900 não ia esse poder além de 150 toneladas, no mesmo espaço de tempo.
Não é só como planta industrial que a cana sacarina presta bons serviços; presta-os também como planta forraginosa, pois que as suas fôlhas, enquanto verdes, são comidas com prazer pelos gados. A cana passa geralmente por duas desfolhas, uma de Julho a Outubro, e outra antes da colheita.
É varia e abundante a legislação publicada sôbre o regime sacarino da Madeira. O diploma fundamental a que se subordinam hoje a cultura e a industria sacarina é o decreto nº. 3.847, de 14 de Maio de 1934. Por este diploma, a cultura da cana é limitada á que, tendo o minimo de 9 Baumé, fôr indispensavel para o açucar consumido na Madeira e suplementarmente para o alcool e aguardente que tenham consumo no arquipelago. Esta produção de cana tem a garantia de compra obrigatoria, ao prêço legal, pela fabrica de açucar, e se em qualquer ano industrial o açucar resultante da sua laboração exceder o consumo local, a fabrica poderá introduzir o excesso no continente até o limite maximo de 200 toneladas, com isenção de direitos e impostos.
Para se chegar a este equilibrio, preceitua o referido decreto que a direcção da Alfandega do Funchal determinará, pelas investigações e analises previas adequadas, os sitios e terrenos distantes das fabricas de açucar e de alcool ou do mar, onde a cana tem menos de 9 Baumé, e se ainda assim a produção normal da cana exceder as necessidades previstas o Govêrno poderá ordenar as providencias precisas para extinguir a cultura onde esta seja menos conveniente.
As castas que vieram substituir a cana Bourbon estão extintas ou quasi extintas na ilha, sendo os canaviais madeirenses constituídos agora, predominantemente, pela cana Yuba, importada do Natal por 1897, e por algumas variedades da P. O. J., importadas principalmente da provincia de Angola de 1933 em diante. A cana Yuba, considerada de inferior qualidade no Brasil, na Mauricia, na Luisiana e noutros países onde é ou tem sido cultivada, adaptou-se por tal forma aos terrenos e clima da nossa ilha, que é tida com justa razão, como uma das mais resistentes e rendosas que aqui têm existido.
São proibidas desde 1934 plantações de cana de açucar em terrenos que a essa data não as tenham e ainda naqueles em que forem substituidas por outra cultura, vindo mais tarde o decreto nº. 25.437, de 31 de Maio de 1935, estabelecer que, quando se torne necessario substituir ou renovar as plantações de cana, para manter os canaviais em condições economicas de exploração, podem os respectivos proprietarios, mediante autorização previa da direcção da Alfandega do Funchal, proceder a essa substituição ou renovação até ao limite de 80 por cento dos pés substituídos e 80 por cento da área ocupada.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 14-
A cana-de-açúcar foi introduzida na Madeira, segundo se diz, a partir da Sicília.
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Um alvará da rainha regente D. Catarina estendeu a obrigação de limpeza a todas as levadas, colocando-as sob a jurisdição dos capitães-donatários e dando prioridade aos canaviais e engenhos.
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A Câmara do Funchal obteve uma carta régia que proibia os navios de carregar açúcar estrangeiro na Madeira.
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Com muitos engenhos de açúcar madeirenses já em ruínas, uma carta régia ofereceu prémios e empréstimos para a sua reconstrução.
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Fim convencional do período de produção de açúcar na Madeira; segundo o Dr. Azevedo, a indústria desapareceu devido à concorrência americana.
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Foi instalada em Câmara de Lobos a primeira destilaria de aguardente de cana.
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Abriram várias fábricas de açúcar no Funchal e em São Martinho, incluindo as da Ponte Nova e do Torreão.
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Uma doença fúngica destruiu os canaviais da Madeira.
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Um decreto deu início ao regime protecionista do açúcar, criando o registo facultativo das fábricas de açúcar e álcool e fixando preços mínimos para a cana entre 40 e 45 centavos por 30 kg para as fábricas registadas.
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A cana-de-açúcar Yuba foi importada do Natal para a Madeira.
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Começaram a ser importadas variedades de cana-de-açúcar P.O.J., sobretudo de Angola.
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O Decreto n.º 23.847 regulamentou o regime açucareiro da Madeira, proibindo novas plantações de cana e novas fábricas de açúcar até 1953 e restringindo a destilação direta do sumo da cana.
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O Decreto n.º 25 437 permitiu a renovação autorizada das plantações de cana-de-açúcar até 80 % das plantas e da área.
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O Decreto n.º 27.912 fixou o preço do álcool à saída da fábrica em 7$50 por litro e o preço da cana em 7$60 por 30 kg.
Lugar
Lugares mencionados · 23No estrangeiro
- Angola
Principal origem das variedades de cana P.O.J. importadas a partir de 1933.
Colónia portuguesa do ultramar que serviu de local de degredo para os condenados pelos distúrbios de 1668 e 1834 na Madeira e pela Alçada de 1823. Foi governada por Vasco Guedes, Sebastião Xavier Botelho e D. Lourenço de Almada. Foi também a principal origem das variedades de cana-de-açúcar P.O.J. importadas a partir de 1933.
- Arco da Calheta
Calheta. Local de uma destilaria e de uma fábrica de açúcar.
O Arco da Calheta é uma freguesia do concelho da Calheta, criada em 1572 em torno da Capela de São Brás, cuja igreja conserva pinturas do século XVI. O Elucidário aborda os seus primeiros povoadores, como os Andrade, as propriedades açucareiras, as capelas, os morgadios, os tumultos de 1834 e 1887 e a irrigação pelas levadas do Rabaçal e do Pico da Urze.
- Brasil
Brazil. País onde a cana Yuba é considerada de qualidade inferior.
O Brasil é referido no Elucidário como um dos principais destinos dos emigrantes madeirenses, entre os quais vários clérigos e escritores. Foi também um mercado para o vinho e a aguardente da Madeira e produzia artigos de vime com vergas madeirenses. Ficou ligado à Madeira pelo cabo telegráfico de 1874 e é o país de origem do araçá.
- Câmara de Lôbos
Câmara de Lobos. Local da primeira destilaria de aguardente, em 1847.
Freguesia a oeste do Funchal. O Elucidário relaciona o seu nome com a viagem de descoberta de Zarco e descreve as suas igrejas, capelas e colegiada, os primeiros povoadores, a comunidade piscatória e as vinhas afamadas. Regista também os sítios, limites, levadas e população da freguesia.
- Campo do Duque
Funchal. Local do Funchal onde foi plantada a primeira cana-de-açúcar.
O Campo do Duque era um amplo terreno aberto no centro do Funchal primitivo, pertencente aos grão-mestres da Ordem de Cristo. Foram cedidos terrenos para a construção da Sé Catedral (a partir de 1485), dos Paços do Concelho e do largo com o seu pelourinho; o Terreiro da Sé fazia parte do campo. Segundo os registos, foi ali que se plantou cana-de-açúcar pela primeira vez e se construiu a primeira casa de cedro de dois pisos do Funchal.
- Canárias
Spain. As Canárias receberam cana-de-açúcar da Madeira.
As Canárias são o arquipélago vizinho da Madeira, cuja descoberta é objeto de relatos divergentes. Segundo a tradição, o seu rei Béthencourt vendeu-as ao Infante D. Henrique em troca de terras na Madeira. O Elucidário refere numerosos contactos entre os dois arquipélagos, incluindo visitas científicas, a digressão do Orfeão Madeirense em maio de 1922 e o massacre de quarenta Jesuítas nas suas águas.
- Funchal
Sede da direção das alfândegas que autoriza a renovação dos canaviais.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Largo do Comércio
Funchal. Parte do antigo Campo do Duque.
O Largo do Comércio é uma praça do Funchal anteriormente chamada São Sebastião, integrada no antigo Campo do Duque, onde se situavam a capela, o mercado e o chafariz de São Sebastião. É o nome atual do local onde decorreram as primeiras aulas dos jesuítas e foi iluminado por ocasião do quinto centenário do descobrimento da Madeira.
- Levada de Santa Luzia
Funchal. Levada do século XVI que irrigava canaviais.
A Levada de Santa Luzia é a mais antiga e importante levada particular da Madeira. Nasce na bacia da ribeira de Santa Luzia e foi protegida por um alvará régio de 1515. No século XVI, regava canaviais; atravessa grande parte da freguesia de Santa Luzia, assinalando o seu limite norte, e é acompanhada por uma estrada com vistas panorâmicas e quintas. A sua comissão disputou com a Câmara as nascentes dos Tornos, onde foi construído um reservatório em 1934.
- Levada do Castelejo
Machico. Levada do século XVI.
A Levada do Castelejo é uma levada da Madeira do século XVI. Foi abrangida por uma ordem de limpeza de 1562.
- Luisiana
United States. Região onde a cana Yuba é considerada de qualidade inferior.
Região onde a cana Yuba é considerada de qualidade inferior.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 20- Alfredo de Fraga Gomesn. 1873
Agrónomo que atribuiu a doença da cana de 1882 ao fungo Coniothyrium melasporum.
- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador das Saudades da Terra, citado repetidamente a propósito da história do açúcar madeirense.
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Proprietário de uma fábrica de açúcar em São Martinho a partir de 1856.
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Proprietário de uma fábrica de açúcar no Funchal a partir de 1859.
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Visitante que, em 1823, assinalou a escassa produção de açúcar na Madeira.
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Rainha regente que, em 1562, mandou limpar as levadas para salvar os canaviais.
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Rei de Portugal em cujo nome foi emitido o alvará de 1562 relativo às levadas.
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Proprietário de uma fábrica de açúcar em Santa Cruz a partir de 1858.
- Eduardo Dias Grandem. c. 1881
Agrónomo cujo relatório de 1865 à Sociedade Agrícola do Funchal apresentou dados sobre a produção de cana-de-açúcar.
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Autor de Sketch of Madeira, que registou a existência de quatro engenhos de cana movidos a bois em 1851.
+ 10 mais
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Autor das Saudades da Terra (1590), que registou o início do declínio da indústria açucareira.
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Proprietário da única fábrica que produzia todo o açúcar consumido na Madeira ou exportado para Portugal.
- Infante D. Henrique1394–1460
O Infante D. Henrique, a quem se atribui a ordem de trazer da Sicília para a Madeira as primeiras estacas de cana-de-açúcar.
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Agrónomo que considerava a cana-de-açúcar mais rentável do que a vinha, mas menos do que a bananeira.
-
Autor de A Fabricação do Assucar de Canna (1892), citado pelos valores de sacarose obtidos noutros países.
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Químico que analisou o teor de açúcar dos sumos de cana madeirenses em 1911.
- Simão Gonçalves da Camara1579–1580
Capitão do Funchal que enviou ao Papa doces de açúcar, entre os quais uma reprodução do Palácio Sagrado feita de açúcar.
-
Autor de Madeira its climate and scenery, que indicou a produção de garapa em 1855.
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Proprietário de uma fábrica de açúcar na Ponta do Sol construída antes de 1866.
- William Hinton1817–1904
Proprietário de uma fábrica de açúcar fundada no Funchal em 1856.