Granizo 1O granizo na Madeira
Granizo
Descreve o granizo, localmente chamado «neve» na Madeira, que cobre as montanhas da ilha no inverno, referindo as suas formas, altitudes, épocas do ano e os raros prejuízos causados às culturas, bem como a neve propriamente dita (folhelho) e a geada (dente de cão).
1O granizo na Madeira
É este meteoro aquoso, conhecido na Madeira pelo nome de neve, que forma os extensos lençóis brancos que, durante o Inverno, cobrem ás vezes durante dias as serras da ilha. A queda do granizo nas serras é acompanhada ou precedida muitas vezes de trovoadas, e traz sempre como consequência um abaixamento sensível de temperatura em todo o litoral.
O granizo na região alta da ilha, apresenta-se sempre em pequenas massas irregulares e esquinadas; a forma arredondada, que parece ser devida a um começo de fusão sofrido pelas mesmas massas ao atravessarem uma camada mais espessa da atmosfera, só aparece na região media, e uma ou outra vez no litoral. Na altitude de 1500 metros chega o granizo algumas vezes a formar camadas com mais de um metro de espessura. Quando ele aparece, o que é raro, entre 600 e 800 metros, derrete geralmente ao cabo de poucas horas.
O granizo é quasi desconhecido no Porto Santo; todavia caiu em tanta abundância naquela ilha em 4 de Fevereiro de 1860, que os montes e os vales ficaram cobertos dele. "Na vila era em tal porção, dizem os Anais do Porto Santo que muitas pessoas encheram pratos e celhas, chegando a fazer sorvete; caso virgem entre este povo". O granizo sob o nosso clima só aparece desde os fins do Outono até o principio da primavera, e concorre notavelmente para aumentar o volume das águas das fontes e das ribeiras. Diz-se que há perto de 60 anos uma chuva de pedra causou grandes estragos nas culturas da freguesia do Caniçal, e cita-se também o facto de há anos o granizo ter destruído uma boa parte da folhagem das árvores frutíferas e de outros vegetais na freguesia dos Canhas. Estes casos são, porém, felizmente tão raros que o agricultor madeirense ao proceder ao cultivo das suas terras nem se lembra desse inimigo, tanto para recear em latitudes mais setentrionais.
2Neve, geada e granizo
Para deixar consignadas nestas paginas uma noção mais completa acerca da natureza dos fenómenos meteorológicos da neve, geada e granizo nas ilhas do nosso arquipélago, vamos transcrever alguns períodos dum artigo que sobre esse interessante assunto o co-autor deste Elucidário, e distinto naturalista C. Azevedo de Meneses publicou há bastantes anos no antigo Diário da Madeira.
São tão deficientes as informações que nos fornecem sobre estes meteoros as varias obras que tratam da climatologia e meteorologia da Madeira, que talvez ofereçam um certo interesse os poucos dados, fruto quasi todos da própria observação, que acerca dos mesmos passamos a apresentar.
A neve, em regra, só cai na Madeira desde Janeiro até princípios de Março, isto é, no período em que os frios são mais intensos, e nunca se observa, segundo cremos, abaixo de 1200 ou 1000 metros. Os madeirenses, que visitam ou atravessam as serras durante os meses de inverno, chamam aos flocos de neve folhelho, reservando o termo neve para designar o granizo, o qual é muito mais frequente na ilha, observando-se também em menores altitudes.
Durante a época dos maiores frios, o termómetro centígrado desce por vezes no Funchal a 8 e a 7 graus. Se se admitir pois, que o calor diminui um grau por cada 180 metros de elevação, temos que o termómetro deverá marcar nas mesmas ocasiões, em altitudes superiores a 1300 metros, temperaturas um pouco inferiores a zero, as quais são suficientes, como é sabido, para provocar o aparecimento das nevadas. A neve no nosso clima é pouco duradoura, derretendo geralmente ao cabo de poucas horas.
Guilherme Teles de Meneses, que fêz algumas observações meteorológicas no posto do Pico do Arieiro (1700 metros), viu o termómetro registar aí 2 graus abaixo de zero em Novembro, sendo lícito supor, portanto, que na mesma localidade se observam temperaturas ainda mais baixas nos meses de Janeiro e Fevereiro que, na Madeira, são os mais frios do ano. Na opinião do falecido naturalista inglês James J. Johnson, o limite das neves eternas na latitude da Madeira deve estar a 3450 metros, altitude esta da qual nem se aproxima o nosso Pico Ruivo. . .
Durante os meses de Inverno acontece também algumas vezes aparecerem as geadas nos pontos elevados da ilha. As camadas de neve com a forma cristalina, que se formam sobre certos corpos, são conhecidas do povo pelo nome de dente de cão. Informam-nos que as geadas costumam aparecer na costa do norte acima de 600 ou 700 metros, mas na costa sul cremos que elas são desconhecidas dentro dos limites da região cultivada, a qual só em raros pontos vai acima de 800 metros.
O granizo é muito mais frequente na ilha do que a neve em floco ou folhelho e as geadas ou dente de cão. Cai em maior abundância desde Novembro até Março, mas também aparece algumas vezes em Outubro e Abril. É o granizo que forma esses extensos lençóis brancos que na estação invernosa cobrem ás vezes durante dias (3 a 15, poucas vezes mais) uma boa parte das nossas montanhas.
Todos os anos cai granizo nas serras, mas nem sempre ele é visível do Funchal. A queda do granizo é muitas vezes acompanhada ou precedida de trovoadas, e traz sempre como consequência um abaixamento de temperatura na cidade. Quando esse meteoro aparece, o que é raro, entre 600 e 800 metros, derrete geralmente ao cabo de poucas horas.
O granizo nas serras da Madeira apresenta-se sempre em pequenas massas irregulares e esquinadas, semelhantes na forma ás areias basálticas das praias. A forma arredondada, que é muito menos frequente, só aparece nas altitudes medias das vertentes meridional e setentrional, e uma ou outra vez nas proximidades da costa. Na altitude de 1500 metros, chega o granizo nalguns anos a constituir camadas de mais de um metro de espessura.
As neves e as geadas, pelas altitudes em que aparecem, nenhuns prejuízos causam ás culturas da ilha; o granizo, porém, pode ser ás vezes nocivo, mas nunca tanto como nos países da Europa. Diz-se que há mais de 50 anos uma chuva de pedra provocou grandes estragos nas culturas da freguesia do Caniçal, e contou-nos Guilherme Teles de Meneses ter visto há uns nove ou dez anos o granizo destruir uma boa parte da folhagem das árvores frutíferas em outras regiões da freguesia dos Canhas. Estes casos, porém, são felizmente tão raros, que o agricultor madeirense ao proceder ao cultivo das suas terras, como acima ficou dito, nem se lembra desse inimigo, tanto para temer em latitudes mais setentrionais. Muito mais se arreceia ele das estiagens, cujos efeitos são na verdade bem mais funestos para a agricultura, principalmente nos pontos onde não chegam as águas de irrigação».
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 01Lugar
Lugares mencionados · 06- Canhas
Ponta do Sol. Freguesia onde o granizo destruiu grande parte da folhagem das árvores de fruto.
Os Canhas são uma freguesia do concelho da Ponta do Sol, na costa sul da Madeira, cujo nome provém da família Canha. Criada em 1577, teve a sua primeira sede na Capela de São Tiago. O Elucidário regista a sua igreja e as capelas, o vestuário e a fala locais, as atividades económicas e os sítios, como Outeiro e Carvalhal e Carreira, a irrigação por uma pequena levada particular e a sesmaria de Martim Afonso da Cunha.
- Caniçal
Machico. Freguesia onde uma granizada causou, certa vez, grandes prejuízos às culturas.
Freguesia piscatória isolada no extremo oriental da Madeira, na base da Ponta de São Lourenço. Teve origem num morgadio dos Moniz e na coutada de João Teixeira, tornando-se freguesia por volta de 1561. Celebra a festa de Nossa Senhora da Piedade com uma procissão marítima e possui um forte construído após um ataque de piratas.
- Funchal
Cidade onde as temperaturas de inverno podem descer a 7–8 °C e onde se sentem os efeitos do granizo caído nas montanhas.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Pico do Arieiro
Câmara de Lobos. Local de um posto meteorológico a 1 700 metros de altitude, onde foram registadas temperaturas abaixo de zero.
O Pico do Arieiro é um pico destacado da cordilheira central da Madeira, recomendado pelas suas vistas panorâmicas. Foi proposta a instalação de um posto meteorológico a 1 700 metros de altitude, onde se registaram temperaturas negativas; nas proximidades cresce a Sorbus maderensis.
- Pico Ruivo
Santana. O pico mais alto da ilha, muito abaixo da linha das neves perpétuas.
Pico mais alto da Madeira, situado no bordo da cratera principal, com 1 861 m de altitude numa lista e 1 950 m noutra. A sua altitude foi medida por várias expedições, incluindo as de Ross e Hochstetter. Nele nasce a Ribeira do Faial.
- Porto Santo
Ilha onde o granizo é quase desconhecido, à exceção de uma queda excecional em 1860.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 03- Carlos Azevedo de Meneses1863–1928
Naturalista e coautor do Elucidário, cujo artigo de jornal sobre a neve, a geada e o granizo é citado nesta entrada.
- Guilherme Teles de Menesesn. 1855
Fez observações meteorológicas no posto do Pico do Arieiro, onde registou −2 °C em novembro, e viu o granizo danificar culturas nos Canhas.
- James Yate Johnson1820–1900
Naturalista inglês que situou a linha das neves perpétuas à latitude da Madeira nos 3 450 metros.