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Ruivo (Pico) 1Situação e acesso
Artigo Nº 3266 Pico, serra ou planalto Santana Vol. III · pp. 394–397 6 min de leitura

Ruivo (Pico)

O Pico Ruivo é o ponto mais alto da Madeira e situa-se no extremo sul da freguesia de Santana. A entrada descreve os percursos até ao cume, as medições históricas da sua altitude (1861 m segundo o levantamento geodésico de 1914), a paisagem que dali se avista, a vegetação e a geologia, bem como o abrigo construído em 1939.

Ruivo (Pico)
Mapa: Arquipélago da Madeira (23)

1Situação e acesso

É muito conhecido este pico e vem citado em inúmeras obras nacionais e estrangeiras, por ser o de maior elevação na Madeira e descortinar-se dali o mais vasto panorama de toda a ilha. O seu cume ou ponto mais alto fica no extremo-sul da freguesia de Santana, abrangendo algumas das suas ramificações tractos de terreno dentro dos limites das freguesias do Faial e de São Jorge.

Para atingir-se esta eminência, é preciso tomar as estradas que, das freguesias de Santana ou do Curral das Freiras, conduzem àquele lugar, sendo preferível o caminho da última destas duas freguesias. Pela primeira, alcança-se o cume do pico, tomando a Cumeada Alta, oferecendo todo o percurso os mais belos pontos de vista e passa-se próximo da curiosa coluna de lava conhecida pelo nome de Homem em Pé (Vid. este nome). Pela segunda, sobe-se a estrada do Lombo Grande, encontrando-se a certa altura uma vereda, que conduz ao cimo do elevado monte. Também ali se chega, partindo do Curral das Freiras e galgando o atalho chamado Lombo do Furão, mas, além de tornar-se uma ascensão extremamente penosa, é também cheia de perigos pelos barrancos e precipícios que ladeiam o mesmo atalho.

Do alto desta eminência, pode-se apreciar com relativa precisão o sistema ortográfico da Madeira, distinguindo-se nitidamente uma parte considerável dos montes mais elevados e os grandes desfiladeiros que os cercam, quase sempre ladeados por escarpadas ravinas e pelas mais altas e abruptas vertentes. Daquela altura se destaca a cordilheira de intermináveis montes, que corta longitudinalmente a Madeira do extremo oeste ao extremo leste, formando as duas bem definidas vertentes, que constituem a costa-norte e a costa-sul da ilha.

Apesar da dificuldade da ascensão, muitas personagens ilustres têm visitado esta encantadora estancia, levadas umas pelo deslumbramento dos inenarraveis horizontes que dela se descobrem e atraídas outras pelo particular interesse que oferece aos cultores das ciências fisico-naturais.

2Medições da altitude

Na seguinte relação vão indicados os resultados obtidos pelos diferentes observadores que têm procurado medir a altura do Pico Ruivo.

Metros

AnoObservadorAltitude
1811.Gourlay2 515
Smith, Irish Trans, 8.°1 573
1821.Clavering e Sabine, Journ. of Science, n.° 291 657
1823.Bowdich (barometro)1 855
1823.» (trigonometria)1 921
1823.Amigos de Bowdich1 864
1826.Dr. Heineken, Phil. Mag., 18371 850
1838.Oficiais da Expedição Exploradora Americana, dirigida pelo capitão Wilkes1.901
1839.Oficiais dos navios britanicos Erebus e Terror1 858
1839.Oficiais dos navios britanicos Erebus e Terror1 860
1844.Capitão Vidal1 845
1844.Engenheiro Antonio P. de Azevedo1 843
1859.Dr. Hochtetter1 876
1861.J. Gray Smith1 849
1903.Coronel Eduardo Agostinho Pereira1 950
1914.Comissão Geodesica presidida pelo coronel Alfredo Durão1 861

Os oficiais dos Navios Erebus e Terror serviram-se das formulas de Gay Lussac e de Rudberg para a medição do pico, tendo obtido pelo primeiro processo a altura de 1858 metros, e pelo segundo a de 1.860 metros. Um dos cálculos de Bowdich baseia-se numa operação trigonométrica; quanto aos demais resultados, foram obtidos todos por meio do barómetro, tendo-se servido o falecido coronel Eduardo Agostinho Pereira de um barometro-altimetro para a medição que fez do pico. É considerado como um dos mais exactos o cálculo do coronel Alfredo Durão, por se haver realizado em condições especiais de alcançar-se um resultado satisfatório, o qual atribui a essa elevação montanhosa a altitude de 1861 metros. Verificou-se este cálculo no ano de 1914.

3Panorama, flora e abrigo

São grandiosos os panoramas que se desfrutam do alto do pico, qualquer que seja o lado para que dirijamos a vista.

O pico do Areeiro com as suas escarpas avermelhadas, o largo pico das Torres, rodeado de vários cumes secundários, o mais alto dos quais é o pico do Gato e os picos do Canário, do Cidrão, Grande e de Santo Antonio, erguem-se a curta distancia, mas separados de nós por barrancos mais ou menos profundos, enquanto mais ao longe se descortinam para o lado de oeste o planalto do Paul da Serra, inteiramente despido de vegetação, e para o de leste a longa e sinuosa ponta de S. Lourenço. A freguesia de Santana, as verdejantes serras de S. Jorge e da Boaventura, uma parte do caminho do Poiso, o Porto Santo e as três Desertas, avistam-se do alto do pico, sendo também visível daí o mar em torno da ilha, excepto na direcção do pico das Torres, que pouco menos elevado é que o Ruivo.

O espectáculo que ao nascer do sol se contempla do alto do pico é digno de ser admirado pelo que apresenta de fantástico e imensamente formoso. Olhado desse cume, o astro do dia ao assomar no horizonte parece sofrer uma trepidação no seu disco engrandecido e de uma linda cor de oiro, mas este espectáculo embora curioso e digno de atenção, é imensamente excedido em beleza pelos magníficos efeitos de luz que o mesmo astro vai produzindo sobre as brumas matutinas e os cumes escalvados das montanhas, á medida que se eleva.

No alto do pico têm sido achadas sete espécies vegetais, figurando entre elas uma pequena urze de flores rosadas ou violaceas (Erica cinerea). A urze molar vai quase até o cume do pico, ao passo que a urze durasia não passa além de meia encosta. Encontram-se restos de uma coluna de lava revestidos de muitos cristais de olivina na parte superior do pico, e os terrenos adjacentes são constituídos por escórias vermelhas, lápili e bombas vulcanicas.

Segundo lemos numa correspondência publicada no n.° 355 do Correio de Madeira, de 21 de Junho de 1923, quando se procedeu á divisão dos montados, ficou uma parte do pico Ruivo, a do oriente, pertencente ao Faial, a parte do norte a Santana e a parte de oeste a S. Jorge. O ponto mais alto do monte, lê-se na mesma correspondência, pertence a Santana.

Numa das vertentes do Pico Ruivo e não muito distanciado do seu cume, encontra-se uma furna ou lapa conhecida pelo nome de Lapa da Cadela, que serve de abrigo aos visitantes, que ascendem a essa eminência quando o mau tempo os surpreende naquelas, por vezes inóspitas, paragens.

Impunha-se a necessidade da construção de uma pequena casa de abrigo nessas imediações, o que somente veio a realizar-se no ano de 1939, com o maior aprazimento dos que visitam essa pitoresca estancia e com o merecido louvor para os que empreenderam esse apreciável melhoramento.

São inúmeras as composições em prosa e verso, que enaltecem as maravilhosas belezas daquelas eminentes paragens e inúmeras também as narrativas, em vernáculo e em línguas estrangeiras, de varias excursões que ali se têm realizado, merecendo muitas delas ser lidas e devidamente apreciadas. Entre estas, podemos mencionar a do ilustre naturalista e viajante inglês T. E. Bowdich, no seu interessante livro Excursions in Madeira and Porto Santo, de que há uma tradução francesa, e a que foi publicada nos números do antigo Heraldo da Madeira de 2, 6 e 7 de Fevereiro de 1912.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 14
  1. O Dr. William Gourlay publicou Observations on Madeira em Londres, atribuindo ao Pico Ruivo uma altitude de 2 515 m.

  2. Clavering e Sabine mediram a altitude do Pico Ruivo em 1 657 m.

  3. O naturalista Bowdich estudou a Madeira, identificou os jazigos fossilíferos do Porto Santo como pertencentes ao Terciário, mediu o Pico Ruivo e assinalou o potencial produtivo do Paul da Serra.

  4. Renton e Heineken fizeram observações meteorológicas no Funchal; em 1826, Heineken mediu o Pico Ruivo, atribuindo-lhe 1 850 m de altitude.

  5. A expedição exploratória americana de Wilkes visitou a Madeira, e os seus oficiais mediram o Pico Ruivo, atribuindo-lhe 1 901 m de altitude.

  6. A expedição de Sir James Clark Ross, a bordo dos navios HMS Erebus e Terror, visitou a Madeira, e os seus oficiais mediram a altitude do Pico Ruivo em 1 858 e 1 860 m.

  7. O capitão Vidal e o engenheiro António Pedro de Azevedo mediram a altitude do Pico Ruivo.

  8. O Dr. Hochstetter mediu a altitude do Pico Ruivo em 1 876 m.

  9. J. Gray Smith mediu a altitude do Pico Ruivo em 1 849 m.

  10. O coronel Eduardo Agostinho Pereira mediu a altitude do Pico Ruivo em 1950 m.

  11. O Heraldo da Madeira publicou o relato de uma excursão ao Pico Ruivo.

  12. A Direção dos Trabalhos Geodésicos e Topográficos, sob a direção do coronel Alfredo Durão, estabeleceu uma triangulação da Madeira e fixou a altitude do Pico Ruivo em 1 861 m.

  13. O Correio da Madeira publicou uma carta sobre a divisão do Pico Ruivo entre o Faial, Santana e São Jorge.

  14. Foi construída uma casa de abrigo perto do cume do Pico Ruivo.

Lugar

Lugares mencionados · 23
  1. Ruivo · Assunto

    Santana

  2. Boaventura

    São Vicente. As suas serras verdejantes são visíveis do pico.

  3. Caminho do Poiso

    Santa Cruz. Parte deste caminho é visível do cume.

  4. Cumeada Alta

    Santana. Cumeada percorrida durante a subida.

  5. Curral das Freiras

    Câmara de Lobos. Freguesia de onde parte o percurso preferido para chegar ao cume.

  6. Desertas

    Santa Cruz. As três ilhas são visíveis do cume.

  7. Faial

    Santana. Freguesia a que pertence a parte oriental do pico.

  8. Homem em Pé

    Santana. Coluna de lava por onde passa o percurso até ao cume.

  9. Lapa da Cadela

    Santana. Gruta perto do cume usada como abrigo em caso de mau tempo.

  10. Lombo do Furão

    Câmara de Lobos. Atalho íngreme e perigoso para o cume.

  11. Lombo Grande

    Santana. Caminho percorrido na subida por um dos acessos ao pico.

  12. Paul da Serra

    Ponta do Sol. Planalto despido de vegetação, visível a oeste.

+ 11 mais

Pessoas

Pessoas mencionadas · 15
  1. Coronel que presidiu à comissão geodésica que, em 1914, mediu a altitude do pico em 1861 m, valor considerado o mais exato.

  2. Engenheiro que, em 1844, mediu a altitude do pico em 1843 m.

  3. Naturalista e viajante inglês que mediu a altitude do pico em 1823 e descreveu uma subida na sua obra Excursions in Madeira and Porto Santo.

  4. Mediu a altitude do pico em 1821 com Sabine, obtendo 1657 m.

  5. Coronel, já falecido à época, que mediu a altitude do pico em 1903 com um barómetro-altímetro, obtendo 1950 m.

  6. Cientista francês cuja fórmula barométrica foi usada pelos oficiais do Erebus e do Terror para obter uma altitude de 1858 m.

  7. Segundo a tabela do Elucidário, mediu a altitude do Pico Ruivo em 1811, obtendo 2515 m.

  8. Mediu a altitude do pico em 1826, obtendo 1850 m.

  9. Mediu a altitude do pico em 1859, obtendo 1876 m.

  10. Mediu a altitude do pico em 1861, obtendo 1849 m.

+ 5 mais
  1. Cientista cuja fórmula permitiu aos oficiais do Erebus e do Terror obter uma altitude de 1860 m.

  2. Mediu a altitude do pico em 1821 com Clavering, obtendo 1657 m.

  3. Observador cuja medição de 1573 m foi publicada nas Irish Transactions.

  4. Mediu a altitude do pico em 1844, obtendo 1845 m.

  5. Comandante da Expedição Exploradora Americana, cujos oficiais mediram a altitude do pico em 1838, obtendo 1901 m.

Na folha R

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