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São Jorge (Freguesia de) 1Origem e criação da paróquia
Artigo Nº 3363 Freguesia Vol. III · pp. 472–474 6 min de leitura

São Jorge (Freguesia de)

Entrada sobre a freguesia de São Jorge, na costa norte da Madeira, que aborda o povoamento inicial e as concessões de terras, a criação da freguesia em meados do século XVI e a sua igreja setecentista, com notáveis obras de talha dourada e escultura. Enumera ainda os principais sítios da freguesia e a sua população em 1921.

São Jorge (Freguesia de)

1Origem e criação da paróquia

Esta paróquia foi primitivamente formada pelos terrenos que actualmente a constituem e ainda pelos que ao presente fazem parte das freguesias de Santana e do Arco de São Jorge. A de Santana logo se desmembrou, estando poucos anos na dependência da freguesia-mãe, e a do Arco de São Jorge passou a ser paróquia autónoma no ano de 1676.

Não é hoje possível determinar com inteira precisão quando começaria a colonização e povoamento desta freguesia. Um dos seus mais antigos sesmeiros foi Lopo Fernandes Pinto, «o qual, diz o Dr. Alvaro de Azevedo, veiu habitar nesta ilha por meado do século XV, e falleceu no ano de 1500: teve de sesmaria boa parte da freguesia de Sant'Anna, e as terras chamadas da Ilha, donde se formaram dois morgados, o instituído por seu filho Jorge Pinto e o morgado de Carvalhal». Estas terras da Ilha ficam situadas no interior desta paróquia. O ultimo administrador do vinculo instituído por Jorge Pinto foi o morgado Falcão, açoreano, que há anos vendeu aquelas terras aos colonos que as cultivavam.

Outro antigo sesmeiro, que teve terras nesta freguesia, foi Pedro Gomes Galdo, que encontramos citado em vários nobiliários e que conjecturamos ter vindo para esta ilha nos fins do século XV. Doutros povoadores que tivessem feito assentamento nesta paróquia nos fins do século XV ou na primeira metade do século XVI, não temos conhecimento.

Parece-nos inexacta a data que o anotador das Saudades fixa para a criação desta paróquia. O ano de 1517, que como tal é indicado, somente pode referir-se à nomeação dum capelão privativo, a que fosse dada a jurisdição de desempenhar algumas funções paroquiais. A criação de São Jorge, como freguesia autónoma, deve ser coeva da do Faial, e talvez até um pouco posterior a ela, sendo certo que esta ultima paróquia foi criada em 1550, tendo um capelão próprio desde o ano de 1519. O diploma mais antigo que encontramos citado acerca da freguesia de São Jorge é o de 4 de Junho de 1552, acrescentando a côngrua paroquial e fixando-a em um moio de trigo, uma pipa de vinho e 8$000 réis em dinheiro, acumulando então o pároco o serviço da mesma freguesia com a capelania-curada de Santana. Temos motivos para acreditar que a data da criação da freguesia de São Jorge é pouca anterior á daquele diploma. O alvará régio de 27 de Novembro de 1572 arbitrou ao pároco o vencimento anual de 25.000 réis, tendo então a freguesia 106 fogos, e o de 20 de Abril de 1589 acrescentou a esse ordenado mais trinta alqueires de trigo e um quarto de vinho.

2A igreja paroquial

Uma capela consagrada a São Jorge, que depois se converteu em igreja paroquial, deu o nome á nova freguesia. A construção desta capela parece datar do último quartel do século XV ou princípios do século XVI. No sítio do Calhau, numa das margens da ribeira, se edificou a igreja paroquial, que não podemos neste momento afirmar se teria sido erguida no mesmo local em que se encontrava a antiga ermida. Pelos anos de 1660, foi a igreja quasi inteiramente destruída por uma aluvião, sendo então resolvido que o novo templo a construir se levantasse em sítio mais seguro e abrigado e que ao mesmo tempo oferecesse maior comodidade aos povos, visto que os casais se iam alargando pelo interior da margem esquerda da ribeira.

A igreja que perto dum século depois se edificou, é o templo que actualmente serve de igreja paroquial. A sua construção deve ter começado nos fins do segundo quartel do século XVIII, sendo as obras dadas por terminadas por meados do terceiro quartel do mesmo século. Alguns mandados do Conselho da Fazenda de 1747, 1751 e 1754 autorizaram o pagamento de certas importâncias destinadas ás respectivas obras. Muito concorreu para a conclusão dos trabalhos de construção e aformoseamento do templo o vigário Marques de Mendonça, não só com o seu zelo e dedicação, mas ainda com os haveres da sua fortuna particular.

Fere logo a atenção do visitante o trabalho de talha dourada do altar-mor e o móvel da sacristia destinado á guarda dos paramentos e alfaias. Em varias obras estrangeiras, especialmente num escrito do marquês Degli Albizzi, encontramos algumas referências a esses trabalhos artísticos. Convém transcrever aqui as palavras do Dr. Alfredo Leal, há pouco (1921) insertas numa revista desta cidade: –«É com certeza um dos mais belos templos da Madeira, sobretudo na riqueza da obra de talha dourada do altar-mór, que é ao mesmo tempo capella do Santissimo. Foi na sacristia, porém, que encontrei interessante pasto para os meus olhos. O mesão e os armários em til ou vinhatico, com columnas torneadas no estylo a que os francezes chamam rocócó portugais e que se encontra em todas as obras de talha dos séculos XVII e XVIII em Portugal, são muito artisticamente executadas, sem os dourados de que tanto se abusou e abusa nas igrejas portuguezas, e é para pasmar como naquella e em algumas outras sacristias da Madeira, essas lindas obras de talha tem escapado ao bárbaro pincel dos fazedores de mármore fingido que mais imita o sabão em massa do que o mármore, como succede, tão desgraçadamente, ás esbeltas columnas da Sé do Funchal. Ao meio dos armários que encimam o mesão da sacristia, olhando para o logar onde o padre se aparamenta para os sagrados mysterios do altar, está um Crucifixo em que o corpo de Cristo tem talvez um metro de altura. É uma das mais belas esculturas em madeira que eu tenho visto. É uma maravilha onde a anatomia e a expressão da phisiomia e dos gestos se unem, produzindo um sentimento enternecedoramente grandioso».

Outro primor artístico se encontra nesta igreja: uma pequena imagem do mártir São Sebastião; medindo quatro a cinco decímetros de altura, que é uma verdadeira maravilha de escultura. Pertenceu a uma capela que existia nesta freguesia e da qual não restam hoje vestígios.

O aumento da população deu um cura a esta freguesia, que foi criado pelo alvará régio de 11 de Fevereiro de 1746.

3Capelas, sítios e população

Além da capela citada, houve a de Nossa Senhora do Rosário, no sítio da Ilha, e existe ainda a de São Pedro, das quais daremos breve noticia em outro lugar deste volume. Esta freguesia, comparada com outras da Madeira, não tem grandes acidentações de terreno e é em extremo pitoresca, oferecendo ao visitante belos e surpreendentes panoramas e tendo, como Santana, grandes traços de semelhança com as encantadoras paisagens do Minho.

Principais sítios: São Pedro, Achada Grande, Tanque, Farrobo, Ribeira Funda, Pico, Pé do Pico, Poço e Vale, Lombo do Cunha, Açougue Velho, Covas, Furna de Pedro Jorge, Lombo do Pico, Jogo da Bola, Pomar, Achada do Pico, Lanço, Fajã Alta, São Sebastião, Calhau, Pedra Mole, Loural, Tranquada, Banda do Sol e Ilha. No sítio do ribeiro do Meio se encontra o conhecido deposito de lignite, de que já nos ocupámos (volume II, pagina 271).

Com respeito á quinta de São Jorge, propriedade do Prelado Diocesano, fica já dito o suficiente a página 13 deste volume. Tem esta freguesia 2142 habitantes (1921).

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 10
  1. Morreu Lopo Fernandes Pinto, um dos primeiros sesmeiros da região de Santana e São Jorge.

  2. Foi criada a freguesia de São Jorge, que incluía o Arco, provavelmente com a nomeação de um capelão.

  3. Uma carta régia aumentou a côngrua do pároco de São Jorge e criou uma curazia em Santana, servida em conjunto com São Jorge.

  4. Um decreto régio fixou em 25 000 réis a côngrua do pároco de São Jorge, quando a freguesia tinha 106 fogos.

  5. Uma carta régia aumentou as côngruas dos párocos de São Jorge e São Vicente com trigo e vinho.

  6. Uma cheia destruiu quase por completo a igreja paroquial de São Jorge, no Calhau.

  7. Na sequência da resolução do príncipe regente de outubro de 1676, cartas régias de D. Pedro II, datadas de 28 de dezembro de 1676, criaram várias freguesias e curadorias, incluindo as do Paul do Mar, Prazeres, Santa Luzia, Camacha, Serra de Água, Arco de São Jorge, Achadas da Cruz, Estreito e Arco da Calheta; foram extintos benefícios da colegiada de Câmara de Lobos para financiar algumas delas.

  8. Uma carta régia criou uma cura no Faial, cujo cura devia servir a Capela de São Roque.

  9. O Conselho da Fazenda autorizou pagamentos em 1747, 1751 e 1754 para a construção da nova igreja de São Jorge.

  10. O censo de 1921 registou a população das freguesias da Madeira, incluindo 4 083 habitantes na Sé, 3 107 em Santana e 7 061 em São Pedro.

Lugar

Lugares mencionados · 10
Mapa: Madeira (10)
  1. Arco de São Jorge

    Santana. Freguesia desanexada de São Jorge em 1676.

  2. Calhau

    Santana. Local da primeira igreja paroquial, destruída por uma cheia por volta de 1660.

  3. Faial

    Santana. Freguesia criada em 1550, cuja data de criação serve de termo de comparação para a de São Jorge.

  4. Ilha

    Santana. Terras no interior concedidas a Lopo Fernandes Pinto, das quais se formaram dois morgadios.

  5. Quinta de São Jorge

    Santana. Quinta pertencente ao bispo da diocese.

  6. Ribeiro do Meio

    Santana. Sítio com uma conhecida jazida de lignite.

  7. Santana

    Freguesia originalmente integrada em São Jorge, da qual se separou cedo.

  8. São Jorge

    Santana. Freguesia a que se dedica esta entrada.

  9. São Pedro

    Santana. Sítio da freguesia onde existe uma capela de São Pedro.

  10. Sé do Funchal

    Funchal. Sé Catedral do Funchal, citada porque as suas colunas foram desfiguradas com pintura a imitar mármore.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 08
  1. Autor cujo elogio da talha e do crucifixo da igreja, publicado numa revista do Funchal em 1921, é aqui citado.

  2. Anotador das Saudades da Terra, aqui citado a propósito de Lopo Fernandes Pinto.

  3. Autor estrangeiro que se refere nas suas obras às peças artísticas da igreja.

  4. Açoriano que foi o último administrador do morgadio de Jorge Pinto; vendeu as terras aos rendeiros que as cultivavam.

  5. Filho de Lopo Fernandes Pinto, que instituiu um morgadio nas terras da Ilha.

  6. Um dos primeiros titulares de uma concessão de terras, chegou à Madeira em meados do século XV e possuía terras em Santana e na Ilha; morreu em 1500.

  7. Vigário de São Jorge que ajudou a concluir e embelezar a igreja, em parte com dinheiro seu.

  8. Um dos primeiros titulares de uma concessão de terras na freguesia, que se julga ter chegado no final do século XV.

Na folha S

Vistos recentemente

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