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Elucidário Madeirense Início
Artigo Nº 0949 Clima e meteorologia Vol. I · pp. 537–542 9 min de leitura

Ventos

Subentrada de «Clima» que descreve os ventos dominantes na Madeira e em Porto Santo com base em observações do início do século XX. Seguem-se uma nota bibliográfica sobre estudos do clima e um longo artigo citado do Dr. Armindo Narciso, que defende o valor terapêutico do clima madeirense, sobretudo para os doentes com tuberculose.

Ventos

1Direcção dos ventos

Das observações sôbre a direcção dos ventos feitas na Ponta de S. Lourenço desde 1901 a 1909, vê-se que o vento que mais domina ali em todo o ano é o NE., seguindo-se-lhe o NNE., o N., o NW, o SW. e o E. O primeiro destes ventos dura do meado de Abril até o fim de Outubro, podendo aparecer porém noutras epocas, e em geral não é sentido directamente na cidade, embora se reconheça pela agitação que produz na superficie do mar, fora da baía.

O vento N. sopra ás vezes no inverno com grande fôrça, e é ele que produz a neve e o granizo que aparecem na montanha durante essa estação. Os ventos de W., NW. e SW. dão uma grande porporção de chuvas, sendo os dois ultimos muito violentos ás vezes nos primeiros meses do ano. Os ventos dos quadrantes desde o SW. até o SE. pelo S. trazem por vezes uma grande agitação nas aguas da baía, sendo maior então o grau de umidade da atmosfera no Funchal.

Diz o Dr. Barral que se examinarmos o que acontece nas diferentes estações, achamos os ventos de N. até E. predominando no verão e no outono, e menos no inverno; os ventos do SW. ao NW., mais na primavera e outono, e também no inverno, sem que sôbre isto se possa estabelecer regra bem fixa.

Sente-se algumas vezes na Madeira particularmente durante o verão, um vento quente e sêco a que os habitantes chamam leste, e que dura em geral 1 a 3 dias. Deste vento que parece ter origem na costa de África, falaremos no logar competente, assim como dos ventos da terra e do mar (terral e embate), que se sucedem todos os dias um ao outro a horas quasi regulares.

No Poiso, diz o sr. Teles de Meneses, dominaram os ventos NE., N. e NW. desde Julho a Novembro de 1894, e no Areeiro, os ventos N. NNE e NW., desde Junho a Outubro de 1895.

O NE. domina também no Pôrto Santo, seguindo-se-lhe o N., ENE., o NNE. e o E. O NE. foi em 1901 o vento mais frequente desde Maio até Outubro, e o ENE. soprou desde Março até Novembro, chegando a dominar neste mês e em Abril, Julho e Agôsto. O N. foi muito frequente desde Fevereiro até Julho, e em Novembro, ao passo que o E. dominou em Dezembro e Janeiro. O NW. soprou principalmente de Dezembro até Março, em Novembro, e de Janeiro até Maio.

2Bibliografia e acção terapeutica

Consultando os artigos que ficam citados, pode formar-se uma longa relação dos autores, que em diversas epocas se ocuparam do clima da Madeira. Essa já vasta bibliografia foi recentemente enriquecida com um estudo notavel da autoria do ilustre oficial da armada e academico Hugo de Lacerda escrito na lingua francesa, mandado publicar no ano de 1936 pela Junta Geral Autónoma do Funchal e subordinado ao titulo Le Climat de Madère, ébauche d’une étude comparative, que é o mais valioso trabalho que sôbre o assunto tem visto a luz da publicidade. A delegação da repartição de turismo nesta ilha mandou muito acertadamente proceder á tradução desse estudo em lingua inglêsa, de que foi encarregado o ilustrado professor dr. Alberto Figueira Jardim e que saiu a lume no ano de 1938 com o titulo de The Climate of Madeira With a comparative study.

Não desejamos encerrar estas linhas dedicadas ao clima da Madeira, sem deixar aqui arquivado um notavel artigo do dr. Armindo Narciso, em que este ilustre cultor das ciencias medicas foca alguns aspectos novos deste assunto sempre momentoso para o nosso arquipélago, esclarecendo duvidas e estabelecendo principios, que devem ser da maior utilidade para todos os que pretendam orientar-se com inteira segurança na discussão dessa materia ou na propaganda que haja de fazer-se acêrca da benignidade e qualidades terapeuticas do incomparavel clima desta ilha.

Os tratadistas, mesmo os mais sabedores e conceituados, não estão de acôrdo sôbre a acção terapeutica dos climas oceanicos, isto é, dos climas do mar alto, também chamados pelágicos. E êste desacôrdo é mais acentuado entre os autores continentais do que entre os inglêses. Estes, por serem insulares e viajados, conhecem melhor o mar.

A principal causa dêste desacôrdo provém dum grande numero de climatologistas considerar estes climas como todos iguais, quando a verdade é que sôbre estes climas influem factores locais, tal como acontece com os climas costeiros e do interior, que fazem variar a formula meteorológica do clima.

Do que ficou registado se conclue que o clima da Madeira é um clima oceânico especial, pois tem características mediterrânicas, a pesar daquela Ilha estar situada em pleno Atlântico. Mas este clima de caracteristicas mediterrânicas tem “nuance” local própria. O inverno ali é ainda mais tépido que no litoral europeu do Mediterrâneo, com atmosfera igualmente temperada e luminosa, mas de umidade ligeiramente superior.

Ali, os ventos frios, umidos e tempestuosos do norte quebram-se e deshidratam-se nas montanhas que abrigam a cidade do Funchal. Os ventos quentes e secos do norte da Africa chegam refrescados e umedecidos pela sua passagem numa extensão, embora curta, do mar e são um dos factores de amenidade do inverno insular.

Somente durante o verão estes ventos de Africa chegam ali secos e quentes, mas isto dum modo intermitente e basta subir ás montanhas, ou passar para o outro litoral da Ilha, para deixar de lhes sentir a agressão.

Assim, faltam neste clima os factores de maior excitação do clima mediterranico: correntes aéreas secas, por vezes violentas, de temperatura extrema, ora extremamente fria, ora extremamente quente, como são o Mistral e o Siroco, e todos os ventos da mesma origem e parentesco.

Na Madeira só existem os factores de estimulação branda: atmosfera pura, muito transparente, grande luminosidade. E, além disso, a estimulação branda destes factores é ainda atenuada pelos factores de efeito sedante, como sejam a grande calma, a termalidade uniforme e a umidade que, ainda que pequena, é no entanto um pouco superior á da maior parte das estancias climáticas do Mediterraneo.

Não é portanto este clima da Madeira um clima de estimulação acentuada, mas sim de pequena estimulação, mesmo mais tónico do que estimulante. A sua acção estimulante faz-se sentir sôbre as funções vegetativas, a sua acção tónica sôbre as funções nervosas. Assim, ali, a digestão e a nutrição são estimuladas, o sistema nervoso é tonificado.

O bem estar, o alívio que o doente sente ao chegar à Madeira, é como que uma euforia, mas euforia branda, sem excitação, sem insónia, sem febre. Por isso, em vez de excitado, o doente sente-se calmo, adquirindo a alegria de viver que tinha perdido. E engorda, adquire fôrças, entra em vida nova.

3O clima e os tuberculosos

Foram os inglêses os primeiros a aproveitar este clima, verificando que ele tem apreciáveis propriedades terapêuticas na cura dos surmenados, dos esgotados, dos débeis e debilitados, de nutrição insuficiente, a entrar em consumpção, dos convalescentes e dos tuberculosos, não excluindo os pulmonares. E deste modo, uma grande multidão de doentes, vindos de tôda a Europa, mas principalmente das Ilhas Britânicas, acorre, todos os invernos, à Madeira, desde há mais dum seculo.

A percentagem de tuberculosos do pulmão era muito grande, entre estes doentes e os resultados por eles obtidos eram tão benéficos que a Madeira foi, durante todo o seculo passado, a grande estância dos pulmonares.

A ofensiva que os tisiologistas continentais desencadearam contra o mar, no princípio do século actual, afastou os tuberculosos daquela Ilha. Hoje a Madeira deixou de ser uma estância sanatorial para se tornar uma estância de repouso, onde os inglêses doentes e sãos passam o inverno.

Mas haverá razão para assim acontecer? Será na verdade o clima da Madeira prejudicial aos pulmonares? Evidentemente que não. Esta prescrição resultou dum mal entendido, nascido no Continente Europeu e depois generalizado mesmo às Ilhas Britânicas, ainda que alguns tisiologistas ingleses continuem a aconselhar a ida para a Madeira aos seus doentes pulmonares, como se fazia correntemente no século passado.

Este mal entendido proveio da confusão que se tem feito entre o clima marítimo costeiro e o clima oceânico, dum modo geral, e de se julgarem, como já disse, todos os climas marítimos iguais. Ora no clima marítimo costeiro como no clima marítimo oceânico, os elementos prejudiciais aos tuberculosos pulmonares são a grande umidade e a violência do vento. É deles que deriva o clima marítimo vivo, violento. Quando a estes elementos se junta a alternancia dos ventos marítimos com os ventos terrestres, secos e de termalidade muito variável, o clima marítimo ainda se torna mais violento.

Ao clima da Madeira faltam, em absoluto, estes factores de agressão e por isso nada impede que êle seja aproveitado na terapêutica dos pulmonares. É certo, e não é de admirar, que nem todos os tuberculosos do pulmão estão em condições de beneficiar com uma estada naquela Ilha. Mas o mesmo acontece com a ida para a montanha. O clima da Madeira, assim como o clima alpino, está contra-indicado nos pulmonares em avançada consumpção, de aparelho circulatório e digestivo insuficientes: doentes muito febris, diarreicos, taquicárdicos.

Mas êle está indicado nos doentes ainda vigorosos, de bom coração e canal digestivo, podendo suportar a sua acção tónica, ligeiramente estimulante. E se sôbre os doentes em fusão e os cavitários o clima da montanha, de atmosfera fria, sêca e rarefeita, está de preferência indicado, por deshidratar as lesões e diminuir a expectoração; sôbre os doentes com muita tosse, congestivos, de capacidade respiratória diminuida, por extensas lesões fibrosas, muito sensiveis ao resfriamento e às variações térmicas, o clima madeirense, de atmosfera tépida, ligeiramente humida, é superior ao da montanha, acalmando a tosse e a dispneia, diminuindo a congestão e a frequência da hemoptise.

É evidente que os doentes a mandar para a Madeira devem ainda ter a reserva de energia necessária para aproveitar da acção daquele clima insular. Mas é preciso notar que esta reserva de energia não tem de ser maior que nos doentes que vão para as estancias de altitude, acontecendo mesmo que as crianças, e os adultos com mais de 40 anos, que possam aproveitar duma cura climática, suportam melhor o clima da Madeira que o clima de altitude.

Não há portanto razão para excluir todos os tuberculosos, e duma maneira absoluta, do clima da Madeira. O que é preciso é saber escolher os que aí podem tirar proveito e excluir os restantes. É êste, de resto, o segrêdo do sucesso de tôda a terapêutica, quer ela seja cirurgica, medicamentosa, hidrológica ou climática.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 05
  1. Guilherme Teles de Meneses fez observações meteorológicas, incluindo dos ventos, no Poiso e no Pico do Areeiro.

  2. Foram efetuadas observações dos ventos no Areeiro de junho a outubro.

  3. Foram efetuadas observações da direção do vento na Ponta de São Lourenço.

  4. A Junta Geral Autónoma do Funchal publicou Le Climat de Madère, de Hugo de Lacerda.

  5. Foi publicada uma tradução inglesa, The Climate of Madeira.

Lugar

Lugares mencionados · 05
Mapa: Arquipélago da Madeira (5)
  1. Funchal

    Cidade cuja baía e humidade são afetadas pelos ventos de sul.

  2. Pico do Areeiro

    Câmara de Lobos. Local de montanha onde os ventos foram observados em 1895.

  3. Poiso

    Santa Cruz. Local de altitude onde os ventos foram observados em 1894.

  4. Ponta de São Lourenço

    Machico. Local onde se realizaram observações dos ventos entre 1901 e 1909.

  5. Porto Santo

    Ilha cujo regime de ventos em 1901, dominado pelo vento de nordeste, é descrito.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 05
  1. Professor que traduziu para inglês o estudo de Lacerda sobre o clima, publicado em 1938.

  2. Médico cujo artigo sobre as qualidades terapêuticas do clima da Madeira é longamente citado.

  3. Médico que escreveu sobre o clima da Madeira; é aqui citado a propósito da variação sazonal dos ventos.

  4. Observador que registou os ventos no Poiso em 1894 e no Areeiro em 1895.

  5. Oficial da Marinha e académico cujo estudo Le Climat de Madère (1936) é considerado a obra mais valiosa sobre o assunto.

Na folha C

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.