Misericórdia de Machico 1Fundação e hospital
Misericórdia de Machico
História da Santa Casa da Misericórdia de Machico, irmandade de beneficência provavelmente fundada no início do século XVI, cuja capela e arquivo foram arrastados pela aluvião de 1803. Aborda os seus hospitais, os provedores de destaque, a sua extinção em 1835 e a modéstia das suas finanças no início do século XX.
1Fundação e hospital
– É de fundação bastante antiga, mas ignora-se a época precisa da sua criação, conjecturando-se que date do primeiro quartel do século XVI. É tradição que uma senhora deixara aos pobres da vila de Machico um importante prédio e que este legado despertara a ideia da fundação da Misericórdia, tendo servido de núcleo aos bens que depois veio a possuir.
A aluvião arrastou para o mar em 1803 a capela da Misericórdia e casa anexa, e com elas o respectivo arquivo, escasseando-nos os elementos indispensáveis para traçar uma noticia histórica desta instituição. Podemos no entretanto, por alguns dados que nos fornecem os Anais do Município, dizer que o seu funcionamento era regulado pelo compromisso da Misericórdia de Lisboa. Parece que sempre deixou muito a desejar a sua administração e que não foram grandes os benefícios que dispensou aos pobres, sendo certo que chegou a ter, além do provedor e mesário, dois escrivães, dois arrecadadores, um gaveteiro, dois procuradores dos pobres e dois informadores. Este aparato burocrático, embora talvez de exercício gratuito, não obstou a que muitos foros e prédios se perdessem, sobretudo depois que os respectivos títulos foram destruídos pela enchente do principio do século passado.
Primitivamente não teve hospital, mas apenas capela que servia de sede à irmandade e da qual jà nos ocupamos com alguma largueza (vol. 1, pág. 332) e a ela nos referiremos novamente no artigo Capela de Cristo. O beneficiado da Colegiada de Machico, padre Inacio Barbosa da Silva, por escritura publica de 20 de Maio de 1748, legou à Confraria umas casas que possuía no sitio da Banda de Além, para nelas ser instalado um hospital e servir de edifício da Misericórdia, visto a mesma Confraria não ter uma construção destinada a esse fim. Nada podemos informar com respeito ao funcionamento do hospital, dizendo os citados Anais que aquelas casas passaram à posse da Confraria do Santíssimo Sacramento da freguesia do Caniço, por motivo que se desconhece. Em 1856, arrendou a Misericórdia um prédio para a instalação dum hospital, que desempenhou um importante papel na epidemia colerica e foi extinto por 1862.
2Provedores e rendimentos
Um dos mais zelosos provedores da Misericórdia de Machico foi o capitão Cristovão Esmeraldo, eleito para aquele cargo em 1810. Além dos bons serviços que prestou na administração da irmandade, muito concorreu para a reconstrução da capela, que a 9 de Outubro de 1803 fora destruída pela aluvião. Outro provedor que não menos assinalados serviços despensou a esta instituição, foi o vigário daquela vila, padre Manuel José da Paixão, que conseguiu extrair varias certidões de prédios e foros e fazer reverter à posse da Misericórdia alguns bens jà então considerados perdidos.
A irmandade foi extinta em 1835, e por alvará do governador civil de 13 de Junho do mesmo ano, se procedeu à nomeação duma comissão administrativa que ficou na gerência desta Misericórdia.
Possui ainda um prédio no sitio da Ribeira Seca, e tinha muitos foros impostos em diversos prédios nos serrados do Isidoro, do Travesso e ainda outros sítios.
No Boletim do Trabalho Industrial acima citado, lemos que a receita desta Misericórdia no ano de 1909-1910 foi de 151$40, que se juntou a um saldo de 79$51, tendo as despesas do mesmo ano importado nas quantias de 37$75 para medico e remédios e 71$21 para dietas. Em 1913 a receita foi de 842$76, sendo 81$19 de saldo, 181$20 de rendas e 508$37 de renda dum pinhal. As despesas foram de 271$26, restando um saldo para 1914 de 571$50. Os doentes são socorridos em suas próprias casas, porque a Misericórdia não tem instalação ao presente para hospital, e quando a tivesse, não dispunha de recursos para a sua manutenção.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 08-
Provável fundação da Misericórdia de Machico.
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O Padre Inácio Barbosa da Silva legou casas para um hospital da Misericórdia de Machico.
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A grande aluvião de 9 de outubro de 1803, considerada a maior calamidade da Madeira, devastou o Funchal e outras partes da ilha, matou cerca de 600 pessoas e destruiu a igreja do Calhau, muros de contenção das ribeiras, pontes e capelas em Machico, Santa Cruz e noutros locais. Motivou a missão de Oudinot e a expansão da cidade para o exterior.
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Cristóvão Esmeraldo foi eleito provedor da Misericórdia de Machico.
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Após a extinção da irmandade da Misericórdia de Machico, o governador civil nomeou uma comissão administrativa.
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Uma epidemia de cólera, trazida pelo Regimento de Infantaria n.º 1, assolou a Madeira de julho a outubro de 1856, causando, segundo a tradição, cerca de dez mil mortes e deixando muitos órfãos. Álvaro Rodrigues de Azevedo, Luiz Albino Gonçalves e outros prestaram serviço durante a epidemia.
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O hospital da Misericórdia de Machico foi encerrado.
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A Misericórdia de Machico registou uma receita de 842,76 escudos.
Lugar
Lugares mencionados · 08No estrangeiro
- Banda de Além
Machico. Local onde se situavam as casas legadas em 1748 para um hospital.
Banda de Além é um bairro populoso de pescadores da vila de Machico, situado na margem esquerda (leste) da ribeira, perto da foz, e um dos principais centros piscatórios do arquipélago. Nele se encontra a Capela do Senhor dos Milagres, palco da romaria mais popular da Madeira; em 1748, foram legadas casas do sítio para um hospital.
- Caniço
Santa Cruz. A sua confraria do Santíssimo Sacramento tomou posteriormente posse das casas legadas.
O Caniço é uma freguesia do concelho de Santa Cruz, situada na fronteira entre as capitanias do Funchal e de Machico. Entre os seus primeiros povoadores contavam-se Gaspar Rego, Vasco Fernandes Rego e Álvaro de Ornelas, cuja família aí instituiu morgados; o seu alcaide e juiz eram nomeados pelo Senado do Funchal. Na freguesia encontram-se a estátua do Garajau, a residência dos Jesuítas no Socorro e a Quinta do Barão da Conceição.
- Capela de Cristo
Machico. Capela da Misericórdia, sede da irmandade.
A Capela de Cristo, hoje conhecida como Capela do Senhor dos Milagres, situa-se em Machico e é uma das capelas mais antigas da Madeira. Segundo a tradição, foi erguida no local onde os descobridores celebraram a primeira missa. É sede da Misericórdia de Machico e alberga a imagem do Senhor dos Milagres, objeto de uma grande romaria a 9 de outubro.
- Lisboa
Portugal. Os estatutos da sua Misericórdia regiam a de Machico.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Machico
Vila cuja Misericórdia é o tema da entrada.
A freguesia de Machico foi o local do desembarque dos descobridores Zarco e Tristão Vaz e a sede da Capitania de Machico; foi criada cerca de 1450. O Elucidário aborda o seu clero e as respetivas côngruas, as capelas, os acontecimentos históricos, as fontes minerais, os sítios, a população e os naturais ilustres.
- Ribeira Seca
Machico. Local onde a Misericórdia ainda possui uma propriedade.
A Ribeira Seca é uma das principais localidades da freguesia de Machico e o curso de água que constitui o principal afluente da Ribeira de Machico. É aí que nasce a Levada da Serra do Faial; a ribeira assinalava um limite da sesmaria de Mealheiro, e a Misericórdia de Machico ainda possui ali uma propriedade.
- Serrado do Isidoro
Machico. Terras sujeitas ao pagamento de foros à Misericórdia.
Terras que pagavam foros à Misericórdia.
- Serrado do Travesso
Machico. Terras sujeitas ao pagamento de foros à Misericórdia.
Terras que pagavam foros à Misericórdia.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 03-
Provedor da Misericórdia de Machico a partir de 1810, contribuiu para a reconstrução da sua capela após a aluvião de 1803.
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Padre beneficiado da colegiada de Machico que, em 1748, legou casas na Banda de Além para acolher a Misericórdia e um hospital.
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Vigário de Machico e provedor que recuperou bens da Misericórdia considerados perdidos.