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Mouros 1Os mouros na colonização
Artigo Nº 2479 População e grupos sociais Vol. II · pp. 780–781 3 min de leitura

Mouros

Entrada sobre os mouros cativos trazidos para a Madeira nos primeiros séculos do povoamento para desbravar e cultivar a terra, e sobre a influência duradoura que exerceram na toponímia, no vestuário, nas canções, nas histórias e na alimentação madeirenses.

Mouros

1Os mouros na colonização

Já no artigo Escravos nos referimos aos mouros cativos empregados no arroteamento das terras da Madeira. Como a designação geral de escravos compreendia os negros, mulatos, canários e mouros, é hoje difícil determinar com precisão os factos ou circunstancias que digam respeito a qualquer daquelas castas em especial. No entretanto, sabemos que foi grande o numero de mouros existentes neste arquipélago nos primitivos tempos da colonização, tendo-se formado núcleos importantes dessa população, nomeadamente no Funchal, Ponta do Sol, Curral das Freiras e Machico. Na primeira destas localidades houve uma mouraria ou bairro de mouros, dando o publico ainda hoje a uma das ruas do Funchal o nome de Mouraria.

O tenente-coronel Alberto Artur Sarmento publicou no n.° 1983 do antigo Heraldo da Madeira um interessante artigo acerca dos mouros na Madeira, do qual transcrevemos os seguintes períodos:

2Influência dos mouros

«O mouro era mais trabalhador do que o escravo da Guiné e da Mina, por isso a preferência dos senhores das terras em importal-o para as suas fazendas de cultivo. Este comercio escandaloso em que se entendiam de cà os donatarios, e das praças d'Africa os governadores, que ordenavam razias, originou o clamor do chefe dos mouros que lamenta em carta a D. Manoel, o que fazia Azambuja, apanhando a torto e a direito e de todas as classes, para enviar de contracto aos capitães da Madeira. É o que se depara nos «Documentos arabicos copiados dos originaes da Torre do Tombo, 1790.» «Os mouros formaram núcleos importantes, reunindo-se em grupo ou bairro à parte, como o attesta a Mouraria, uma das ruas mais antigas do Funchal, e tiveram grande commercio nas villas, especialmente em Ponta do Sol e Santa Cruz. N'esta ultima mostrava-se ainda ha annos um retábulo existente na igreja parochial, onde figuravam escravos mouros usando um pequeno turbante afunilado, com uma ponta cahida, de que derivaram a carapuça do villão e a toalhinha pendente da cabeça, antigos trajes característicos da camponeza da Madeira. «Dos mouros, a dolência dos cantares, mas a dança repisada é movimento de preto. Dos mouros as lengas-lengas serranas, os populares: lengi lengi o nevoeiro corriqueiro, a formiga que o seu pé prende. Entre as brumas, princezas encantadas, as historias de palàcios e riquezas enthesouradas, ladrões e varas de condão, são influencias e assumptos do povo, migrados nesta corrente de longe subordinada. «Dos mouros ainda o cuscuz, essa massa granulada de farinha de trigo, tão apreciada pelas classes pobres e que só a comem nas ocasiões solemnes, com um naco de carne de porco, pelos baptisados e casamentos, não faltando o ramo de segurelha e coentro que encima o prato e o aromatisa. «Vae-te p'ra Argel é uma praga popular que relembra o saque e captiveiro em terras da moirama. Um episódio do século XV é tratado por mão de artista, num dos capítulos da novella histórica. «A Filha de Tristam das Damas», com um colorido flagrante dos tempos àureos do casquilho donatario de Machico. «Essa raça inteligente e aventureira deu-nos um typo na historia, personalisado no mouro Barque, do Porto Santo, que deitou por terra a falsa doutrina do propheta Fernão Bravo, e como na lenda «o rei vai nú», todos começaram a ver d'ahi em diante o embuste, e as justiças tomaram conta do embaidor que com artifícios illudia um povo crédulo.»

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 01
  1. Foram copiados documentos árabes da Torre do Tombo, incluindo a queixa de um chefe mouro sobre incursões destinadas à captura de escravos.

Lugar

Lugares mencionados · 08

No estrangeiro

Mapa: Arquipélago da Madeira (8)
  1. Argel

    Algeria. Argel, evocada numa praga popular sobre o cativeiro.

  2. Curral das Freiras

    Câmara de Lobos. Local onde existiu um núcleo de população moura.

  3. Funchal

    Local onde existiram uma numerosa comunidade moura e uma mouraria.

  4. Machico

    Local onde existiu um núcleo de população moura.

  5. Ponta do Sol

    Local onde existiram uma importante população moura e atividade comercial.

  6. Porto Santo

    Local onde o mouro Barque desmascarou Fernão Bravo.

  7. Rua da Mouraria

    Funchal. Antiga rua do Funchal cujo nome remete para a antiga mouraria.

  8. Santa Cruz

    A sua igreja paroquial tinha um retábulo que representava escravos mouros de turbante.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 06
  1. Tenente-coronel e escritor cujo artigo de jornal sobre os mouros na Madeira é aqui extensamente citado.

  2. Comandante português no Norte de África acusado de capturar mouros indiscriminadamente para os enviar aos capitães da Madeira.

  3. Mouro de Porto Santo que desmascarou o falso profeta Fernão Bravo.

  4. Rei de Portugal a quem um chefe mouro escreveu para se queixar das capturas de escravos destinados à Madeira.

  5. Falso profeta em Porto Santo, desmascarado pelo mouro Barque e depois preso.

  6. Capitão-donatário de Machico, evocado no título de um romance histórico passado no século XV.

Na folha M

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.