Judeus
Relato sobre os judeus e os cristãos-novos da Madeira desde o século XV, a perseguição que sofreram após o decreto de expulsão de D. Manuel, de 1496, e a hostilidade já registada em 1461.
Judeus e cristãos-novos na Madeira
Havia judeus na Madeira no século XV, tendo muitos deles, com vontade ou sem ela, abraçado o cristianismo, depois do bárbaro decreto da expulsão dos filhos de Israel, publicado por D. Manuel em Dezembro de 1496.
Essa conversão não colocou porém as antigas famílias hebreias ao abrigo de rigores e perseguições, e muito antes de 1547, ano em que o Tribunal do Santo Oficio foi definitivamente estabelecido em Portugal, sofreram os cristãos-novos desta ilha muitos agravos e violências, devidos ao espírito de intolerância que reinava então no nosso país.
Nas ilhas dos Açores e da Madeira, diz Alexandre Herculano na Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, nesses pequenos tractos de terra, como que perdidos nas solidões do Atlântico, se repetiram os insultos e as accusações de judaismo, em cujo abono appareciam facilmente testemunhas, que depois se provava serem falsas». «fazem disto fé, acrescenta uma nota o mesmo autor, os instrumentos judiciais apresentados pelos christãos novos em Roma em 1544, que se acham na Symicta, vol. 31, fol. 137 e seguintes».
Convém observar que D. Diogo Pinheiro, bispo do Funchal, sustentou sempre nos conselhos do rei D. Manuel os verdadeiros princípios da tolerância evangélica em tudo quanto se relacionava com os infelizes hebreus. «Os processos por crimes de Judaismo, diz Herculano, que cahiam apparentemente debaixo da sua jurisdição, ou que lhe mandavam julgar, terminavam por via de regra, pela soltura dos réus. Conhecendo a fundo a historia da conversão dos judeus, que tinha presenciado, estava profundamente convencido de que tal conversão não passara de uma brutal violência. Para elle o facto do baptismo imposto não tinha validade alguma, e os conversos haviam ficado tão judeus como eram d'antes».
Nos «Apontamentos e Capítulos» que o infante D. Fernando remeteu em 1461 a João Gonçalves da Câmara e aos cavaleiros, escudeiros, juízes, procuradores e homens bons da capitania do Funchal, lê-se o seguinte: «No que me pedis que judeus nem genoeses nom trautem em essa ylha asy como compradores y arremdadores por a destroyçam Que se faz em terra ondes elles husam, digo que me praz em ello teer a maneyra que o dito senior infante meu padre tinha».
Revela a petição dirigida ao infante que já em 1461 havia na Madeira uma certa má vontade contra os israelitas, má vontade que só bem claramente se manifestou mais tarde, quando a intolerância e o fanatismo de D. Manuel vieram abrir caminho ás perseguições de que foram vitimas os membros dessa raça proscrita, ainda mesmo quando aceitavam o baptismo, para evitar a expulsão do país.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 04-
O Infante D. Fernando respondeu a uma petição do Funchal que pedia a proibição do comércio de judeus e genoveses na Madeira.
-
D. Manuel publicou o decreto de expulsão dos judeus de Portugal.
-
Os cristãos-novos apresentaram em Roma provas judiciais de falsas acusações.
-
A Inquisição foi definitivamente estabelecida em Portugal.
Lugar
Lugares mencionados · 04No estrangeiro
- Açores
Portugal. Arquipélago referido por Herculano, a par da Madeira, a propósito de falsas acusações de judaísmo.
Os Açores são um arquipélago atlântico que partilha espécies vegetais com a Madeira. O Elucidário regista a fixação de famílias madeirenses, como os Bettencourt, no arquipélago, a proibição dos vinhos açorianos na Madeira em 1801 e a importação de tabaco açoriano. Refere ainda a vinda de agricultores açorianos à Madeira para ensinar métodos de cultivo do milho.
- Funchal
Capitania cujos habitantes apresentaram, em 1461, uma petição contra os comerciantes judeus.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Roma
Italy. Cidade onde os cristãos-novos apresentaram documentos judiciais em 1544.
Roma, sede da Santa Sé, surge no Elucidário sobretudo através de madeirenses e de outras pessoas a ela ligadas. O Padre Manuel Constantino ensinou, publicou obras e morreu na cidade, e o Dr. Patrício Moniz doutorou-se em teologia e foi aí ordenado. O Padre Luiz Gonçalves da Câmara foi superior da casa professa dos jesuítas em Roma, onde também foi entregue ao papa a oferta de Simão Gonçalves da Câmara; outras entradas referem um cargo numa embaixada, o Concílio do Vaticano e processos de beatificação.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 05-
Historiador português cuja história da Inquisição em Portugal é citada a propósito da perseguição dos cristãos-novos nas ilhas.
- D. Diogo Pinheirom. 1526
Bispo do Funchal que defendeu nos conselhos de D. Manuel a tolerância para com os judeus convertidos e que geralmente absolvia os acusados de judaísmo.
-
Rei de Portugal que decretou a expulsão dos judeus em dezembro de 1496, levando a conversões forçadas.
-
Infante português que, em 1461, respondeu a uma petição do Funchal para proibir judeus e genoveses de comerciar na ilha.
- João Gonçalves da Câmara1414–1501
Capitão do Funchal a quem o Infante D. Fernando enviou os seus «Apontamentos e Capítulos» de 1461.