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Surprise 1O torpedeamento e o cortejo
Artigo Nº 3549 Naufrágio ou história de navio Vol. III · pp. 592–595 6 min de leitura

Surprise

Canhoneira francesa torpedeada por um submarino alemão no porto do Funchal em 3 de dezembro de 1916, causando a morte de 33 tripulantes e 7 portugueses. A entrada descreve as cerimónias de novembro e dezembro de 1921, durante as quais os restos mortais dos marinheiros franceses foram repatriados e as vítimas madeirenses foram sepultadas num monumento no cemitério das Angústias.

Surprise

1O torpedeamento e o cortejo

Canhoneira francesa que foi torpedeada por um submarino alemão, no porto do Funchal, a 3 de Dezembro de 1916, tendo morrido 33 dos seus tripulantes e 7 portugueses, como foi narrado a pagina 159 do volume I desta obra. Quando nos referimos ao general Mangin, tivemos ocasião de dizer que os despojos mortais dos marinheiros franceses que se achavam no cemitério das Angústias, haviam sido trasladados para bordo do cruzador Jules Michelet, no dia 28 de Novembro de 1921, cumprindo-nos acrescentar agora que se formou por essa ocasião um importante cortejo que acompanhou os mesmos despojos até a Pontinha.

O cortejo que tinha a extensão de cerca de um quilómetro, abria com uma força da Guarda Republicana, a cavalo, seguindo-se as crianças das escolas e colégios, com as respectivas professoras, o professorado primário, a academia funchalense, com o respectivo pendão, a Banda Republicana Artístico Madeirense, os professores do liceu, os escuteiros, chauffeurs, associações desportivas, a Banda dos Artistas Funchalenses, os bombeiros, várias associações, a Cruz Vermelha, o pessoal do salva-vidas do Funchal a policia cívica e guarda fiscal, o pessoal da Capitania do Porto, o pessoal menor da Alfândega, os sargentos do exército, o «Grémio 5 de Outubro», os empregados inglêses do telégrafo, a Associação Comercial, a Imprensa, os empregados da Alfândega, a Junta Geral, o Clero, as Irmãs de Caridade, os Medicos, a Magistratura, a Câmara Municipal, um contingente de marinha de bordo do cruzador francês Cassiopée, vários oficiais inglêses que combateram na Grande Guerra, a oficialidade da guarnição, três armões com coroas, ladeados por marinheiros franceses, dois armões com as urnas, ladeados por oficiais inferiores franceses, a oficialidade francesa dos navios surtos no porto, o general Mangin, o governador civil, secretario geral e governador militar, o prelado diocesano, o almirante Pugliesi-Conti, o corpo consular, a charanga do cruzador Jules Michelet, uma força de marinha do mesmo navio, uma fôrça de infantaria 27, com a respectiva banda de musica, e um pelotão de infantaria da Guarda Republicana.

Antes do cortejo se pôr em marcha, falaram o Dr. José Joaquim Teixeira Jardim, presidente da Câmara, o cônsul da França, o comandante militar João Maria Ferraz, o major Artur Sarmento, o estudante José Duarte Soares, o almirante Conti e o capitão do porto Romano Vital Gomes. Ao finalizarem os discursos, tocou a charanga do Jules Michelet, primeiro a Portuguesa e depois a Marselhesa.

2Missa e embarque das urnas

A capela do cemitério das Angústias, onde se achavam as dez urnas de castanho, contendo os restos mortais dos marinheiros da Surprise, achava-se envolta em crepes e brilhantemente ornamentada com fetos e outras plantas vendo-se no alto do frontispício o pavilhão francês e abaixo deste as letras R. F. entrelaçadas a vermelho. Nas paredes, viam-se suspensas duas bóias com a seguinte inscrição: Surprise–3–12–916.

Na mesma capela, celebrou o prelado diocesano, D. Antonio Manuel Pereira Ribeiro, uma missa a que assistiram as autoridades superiores do distrito, o general Mangin, o almirante Conti, os oficiais da guarnição militar da Madeira e os oficiais e marinheiros dos cruzadores Jules Michelet e Cassiopée. Durante a cerimónia, executou a charanga do primeiro destes navios a marcha fúnebre de Chopin, tendo a guarda de honra á porta da capela sido feita por uma força de marinheiros franceses. A guarda de honra á porta do cemitério foi feita por uma força de infantaria, com a respectiva banda de música, e por outra da Guarda Republicana.

As 10 urnas com os despojos mortais dos marinheiros franceses foram transportadas para um escaler do Jules Michelet, executando por essa ocasião a Marselhesa, tanto a charanga de bordo como a banda de infantaria n.° 27. No mesmo escaler, embarcaram o general Mangin, o almirante Conti e outros oficiais da marinha francesa, salvando por essa ocasião a fortaleza de S. Tiago.

No momento da despedida, manifestaram mais uma vez, o general Mangin e o almirante Conti, a sua gratidão às autoridades civis, eclesiásticas e militares, pela parte que haviam tomado nas homenagens prestadas aos marinheiros da Surprise.

O Jules Michelet, que conduziu as urnas com os restos mortais dos marinheiros franceses, deixou o porto do Funchal com destino a Brest, ás 7 horas e meia da noite do referido dia 28 de Novembro.

3Homenagem aos madeirenses

A 3 de Dezembro de 1921, isto é cinco dias depois das homenagens prestadas aos marinheiros franceses, teve lugar no cemitério das Angústias a cerimónia da condução para o tumulo-monumento, mandado ali construir pelo opulento banqueiro Henrique Vieira de Castro, dos restos mortais dos madeirenses vitimas do torpedeamento da canhoneira Surprise. Esses restos, guardados em três urnas, achavam-se na capela do cemitério, onde as 9 horas e meia da manhã o prelado diocesano celebrou uma missa, realizando-se em seguida a absolvição do ritual e a bênção da sepultura. Na capela e na avenida do cemiterio, viam-se ainda as ornamentações que haviam servido nas homenagens aos marinheiros franceses.

O cortejo organizou-se pelas 3 horas da tarde, na ordem seguinte:

  • crianças do Colégio Alexandre Herculano, com a respectiva directora
  • internadas no orfanato do Hospício
  • uma força da Guarda Republicana
  • os sargentos da guarnição militar do Funchal
  • representantes do pessoal maritimo da casa Blandy
  • a academia funchalense
  • irmãs de S. Vicente de Paulo
  • colónia francesa
  • representantes do clero
  • representantes das casas de bordados
  • grémio dos empregados do comercio
  • médicos e advogados
  • funcionários públicos
  • damas da Cruz Vermelha
  • Câmara municipal
  • as urnas conduzidas por bombeiros voluntarios e ladeadas por vereadores
  • algumas mulheres, parentas das vitimas
  • o corpo consular
  • as autoridades civis e militares, e o prelado diocesano
  • oficiais da guarnição
  • e banda dos Artistas Funchalenses.

Falaram o presidente da Câmara Dr. Teixeira Jardim, o major Alberto Artur Sarmento e o capitão de fragata Vital Gomes, sendo as urnas conduzidas em seguida para o monumento, onde ficaram depositadas. A banda dos Artistas executou a portuguesa, após cada um dos discursos pronunciados no cemiterio, ouvindo-se novamente o hino nacional tocado pela mesma banda e pela do regimento de infantaria 27, ao baixarem as urnas ao túmulo. Neste momento solene, uma fôrça de infantaria e outra da Guarda republicana fizeram a continência militar.

Os edificios públicos e os consulados conservaram durante o dia as respectivas bandeiras a meia haste, e muitos estabelecimentos fecharam meias portas, encerrando-as mesmo por completo enquanto duraram as cerimónias. De igual modo se procedeu por ocasião das cerimónias do dia 28 de Novembro, podendo afirmar-se, sem receio de desmentido, que a Madeira soube prestar uma homenagem condigna tanto aos franceses como aos portugueses que foram traiçoeiramente mortos no porto do Funchal na manhã do dia 3 de Dezembro de 1916. V. Bombardeamento do Funchal, Angustias (Cemitério das) e Mangin (General).

T

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 02
  1. O submarino alemão U-38 torpedeou três navios no porto do Funchal, entre eles a canhoneira francesa Surprise (morreram 33 tripulantes e 7 portugueses), e bombardeou a cidade, causando pânico generalizado. As vítimas foram mais tarde homenageadas num monumento da autoria de Francisco Franco.

  2. O general Mangin visitou o Funchal a bordo do cruzador Jules Michelet, que partiu para França com os restos mortais dos marinheiros da Surprise, após um cortejo desde o cemitério das Angústias.

  3. As vítimas madeirenses do afundamento da Surprise foram sepultadas num túmulo-monumento no cemitério das Angústias.

Lugar

Lugares mencionados · 05

No estrangeiro

Mapa: Madeira (5)
  1. Brest

    France. Porto francês para onde o Jules Michelet transportou os restos mortais.

  2. Cemitério das Angústias

    Funchal. Cemitério onde foram sepultadas as vítimas e decorreram as cerimónias de 1921.

  3. Fortaleza de São Tiago

    Funchal. Fortaleza que disparou uma salva durante o embarque.

  4. Pontinha

    Machico. Cais até ao qual o cortejo acompanhou os restos mortais dos franceses.

  5. Porto do Funchal

    Funchal. Porto onde o Surprise foi torpedeado em 1916.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 09
  1. Major do Exército que discursou em ambas as cerimónias de 1921.

  2. General francês presente no Funchal em 1921 para a repatriação dos restos mortais dos marinheiros da Surprise.

  3. Bispo do Funchal que celebrou as missas pelas vítimas da Surprise em 1921.

  4. Banqueiro abastado que custeou o túmulo-monumento das vítimas madeirenses no cemitério das Angústias.

  5. Presidente da Câmara Municipal do Funchal que discursou em ambas as cerimónias de 1921.

  6. Comandante militar da Madeira que discursou na cerimónia de novembro de 1921.

  7. Estudante que discursou em nome da academia do Funchal em novembro de 1921.

  8. Almirante francês que discursou e participou nas cerimónias de 1921 em homenagem às vítimas da Surprise.

  9. Capitão de fragata e capitão do porto do Funchal que discursou em ambas as cerimónias de 1921.

Na folha S

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