Deserta Grande ou somente Deserta (Ilha da) 1Descrição e povoamento
Deserta Grande ou somente Deserta (Ilha da)
A maior das três ilhas Desertas, escarpada e com o topo quase plano, dispõe de pouca água salobra. Nunca teve população permanente, mas foi usada para a caça, a apanha de urzela, o pastoreio e alguma cultura de cereais. O verbete aborda a sua geografia, história e fauna, além de episódios marcantes como um ataque de corsários em 1503 e uma derrocada em 1894.
1Descrição e povoamento
Das três ilhotas que formam o grupo das Desertas, é a mais importante e de maior superfície a chamada Deserta Grande ou simplesmente Deserta. Aproximadamente na direcção norte-sul, ficam o Ilhéu Chão, a Deserta Grande e o Bugio, separados entre si por estreitos boqueirões, apenas navegaveis para barcos de pequena lotação. “A Deserta Grande (Dic. Univ. Port. II. assim denominada por ser a maior delas; mede sete milhas e um terço ou treze quilómetros e meio de comprimento por uma milha e um terço ou quasi dois quilómetros e meio de largura: é separada quer de um quer de outro daqueles dois ilhéus por estreitos boqueirões ou canais onde só barcos navegam: tem... em circuito rochas escarpadas sôbre o mar, sendo acessível só em um pequeno porto a oeste, de onde por estreito córrego e ás voltas se sobe ao alto, que é quasi plano das três Desertas, esta é a única que tem água potável, mas salobra, e de uma só e escassa nascente”. Nesse alto, forma-se uma pequena planície, atravessada em parte por um vale que tem o nome de Pedregal, e ali se levanta uma eminência de cerca de 480m de altitude.
A Deserta Grande nunca teve uma população de caracter permanente mas apenas temporária e somente na época da caça e da colheita da urzela.
A Deserta Grande teve outrora uma casa de telha e duas palhoças, mas presentemente cremos que só existe a primeira. Também houve ali uma capela, mandada construir pelo Infante D. Henrique, onde era obrigado a estar um clérigo durante a semana Santa e nos meses de Novembro e Dezembro, pago pelos dizimos da ilha.
Quando Frutuoso escreveu as Saudades Terra havia na Deserta 8 homens com 1 feitor, encarregados de colher a urzela e cuidar dos gados e de algumas culturas de trigo e cevada que ali se faziam, mas mais tarde chegou a haver 20 a 30 homens empregados nestes trabalhos. Também chegou a estacionar ali durante largo tempo uma pequena força militar, encarregada da defesa e guarda da ilha.
As pessoas que visitam a Deserta Grande desembarcam em geral no porto da Castanheira ou a oeste da Ponta do Norte, não sendo difícil de qualquer destes pontos alcançar o interior da ilha, que no alto é mais ou menos plano, mas onde por causa do gado e da falta de águas se não cultivam agora cereais ou outras plantas úteis. Em 1823 ensaiou-se ali, mas sem resultado, a cultura da semilha, do tabaco e da vinha.
2Fauna, lendas e história
Há na Deserta gado caprino, coelhos e alguns gatos bravos, tendo estes últimos sido levados para ali no século XIX, para destruírem os roedores que devastavam as cearas. A urzela, que era colhida outrora para exportação, abunda nas rochas da ilha, e a barrilha aparece em muitas localidades, assim como várias plantas próprias para a alimentação dos gados.
A população que M. d'Avezac cuida haver na Deserta, diz o Dr. Azevedo, os conventos cercados de laranjais que Bouillet ahi imaginou e os estimados vinhos que este atribue ao Ilheu Chão, assim como Dezobry e Bachelet ao grupo todo, são meros sonhos de levianos turistas, em cujos escriptos estes escriptores incautamente confiaram, com o que deram causa a que outros, portugueses mesmos, cahissem em taes aberrações”.
Em 1503, alguns pastores se defenderam na Deserta Grande de um ataque de cerca de 80 inglêses dirigidos pelo corsário português Penteado, “deitando pedras pelo regato abaixo, diz Frutuoso, com as quaes as rochas, quebrando, os ajudavam com terra e outras pedras que de si sacudiam, de tal maneira que os inimigos se tornaram a embarcar com mais pressa da que com que subiram; e vindo os pastores abaixo depois deles embarcados, acharam um cão de fila e muitas flexas, que com a pressa deixaram, e no calhau muito sangue de inimigos feridos”. Perto da casa da Deserta Grande há dois reservatórios de água turva e uma fonte que dá pouco mais de um barril de água no espaço de algumas horas. No sítio da Eirinha também se encontra alguma água.
Em 1894 deu-se um grande desabamento de terrenos no litoral da Deserta Grande, de que resultou o mar avançar e recuar depois em vários pontos da costa sul da Madeira. Houve quem atribuísse este desabamento a um abalo de terra, que, a ter-se dado, não foi sentido no Funchal.
A Deserta Grande pertenceu á capitania do Funchal até o 3.º capitão donatario Simão Gonçalves da Câmara, mas por morte deste passou para Luiz Gonçalves de Ataide, filho do mesmo capitão e de sua segunda mulher D. Isabel da Silva, como dote e arras de sua mãi. Por essa época rendia a ilha cerca de 200$00 réis anuais. Os lobos do mar (Monachus albiventer) aparecem nas furnas da Deserta Grande, mas são agora pouco abundantes.
No mês de Setembro de 1930, numa eminência sobranceira á Praia da Lapa da Deserta Grande se inaugurou um pequeno monumento religioso, que consta dum modesto plinto sobre o qual assenta uma imagem de Nossa Senhora das Graças e que se deve á iniciativa do madeirense Rui da Silva.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 04-
Na Deserta Grande, pastores repeliram cerca de 80 ingleses chefiados pelo corsário Penteado, fazendo rolar pedras sobre eles.
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Tentou-se, sem sucesso, cultivar batatas, tabaco e videiras na Deserta Grande.
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Uma grande derrocada na costa da Deserta Grande provocou fortes ondulações ao longo da costa sul da Madeira.
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Foi inaugurado um pequeno monumento com uma imagem de Nossa Senhora das Graças acima da Praia da Lapa, na Deserta Grande.
Lugar
Lugares mencionados · 11- Ilha da Deserta Grande ou somente Deserta · Assunto
Santa Cruz · Desertas
A maior das três ilhas Desertas é escarpada, tem o topo quase plano e dispõe de pouca água salobra. Nunca teve população permanente, mas foi usada para a caça, a apanha de urzela, o pastoreio e alguma cultura de cereais. O verbete aborda a sua geografia, história e fauna, incluindo um ataque de corsários em 1503 e uma derrocada em 1894.
- Bugio
Santa Cruz · Desertas. A mais meridional das Desertas.
O Bugio é a mais meridional das três ilhas Desertas: elevada (411 m), sem água nem habitantes, com boas pastagens e a planta rara Chrysanthemum haematomma. O Elucidário refere o Porto da Alagoa, a Ponta da Agulha, depósitos de caracóis subfósseis no seu cume e a história da sua propriedade privada no século XIX.
- Desertas
Santa Cruz. Grupo de ilhas do qual a Deserta Grande é a maior.
Grupo de ilhas próximo da Madeira, já separado dela aquando das últimas erupções, com a qual partilha espécies endémicas. Foi a principal zona de apanha de urzela, e Wollaston encontrou ali 89 espécies de escaravelhos. As ilhas foram estudadas por expedições científicas, incluindo os cientistas do Endurance em 1914.
- Eirinha
Desertas. Local onde existe alguma água.
Sítio na Deserta Grande com uma pequena nascente de água potável.
- Funchal
Local onde não se sentiu qualquer sismo em 1894; a sua capitania deteve também a ilha em tempos.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Ilhéu Chão
Santa Cruz · Desertas. O mais setentrional dos ilhéus das Desertas, separado da Deserta Grande por um canal.
O Ilhéu Chão é a mais pequena, a mais plana e a mais setentrional das três ilhas desabitadas das Desertas. Tem 93 m de altura e o seu desembarcadouro, no porto de Santa Maria, fica a 19 milhas do Funchal. É o único local conhecido onde ocorre a gramínea endémica Lolium lowei e pertenceu aos capitães do Funchal.
- Pedregal
Santa Cruz · Desertas. Vale que atravessa o planalto da Deserta Grande.
Vale que atravessa o planalto da Deserta Grande.
- Ponta do Norte
Desertas. Ponta a oeste da qual os visitantes também desembarcam.
A Ponta do Norte é um promontório da Deserta Grande. Os visitantes também desembarcam num ponto a oeste da ponta.
- Porto da Castanheira
Santa Cruz · Desertas. Local habitual de desembarque dos visitantes.
O Porto da Castanheira é um pequeno porto na costa ocidental da Deserta Grande. Era o local habitual de desembarque dos visitantes da ilha.
- Praia da Lapa
Desertas. Praia sobranceira à qual se ergue o monumento religioso de 1930.
Praia sobranceira à qual se ergue o monumento religioso de 1930.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 12- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Erudito madeirense citado por refutar as fantasias de autores estrangeiros sobre as Desertas.
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Coautor de Dezobry, igualmente equivocado quanto aos vinhos das Desertas.
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Autor francês que imaginou conventos e laranjais na Deserta.
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Lexicógrafo que atribuiu às Desertas vinhos de qualidade.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Autor de Saudades da Terra, citado a propósito dos trabalhadores da ilha e do ataque de 1503.
- Infante D. Henrique1394–1460
O Infante D. Henrique, que mandou construir uma capela na Deserta Grande.
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Segunda mulher do terceiro capitão-donatário; a ilha passou para o filho como parte do dote dela.
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Filho de Simão Gonçalves da Câmara que recebeu a ilha como parte do dote da mãe.
- Pascoal Avezac Macaya1799–1875
Autor estrangeiro a quem se atribuiu erradamente a afirmação de que a Deserta tinha população.
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Corsário português que chefiou cerca de 80 ingleses numa incursão fracassada à Deserta Grande em 1503.
+ 2 mais
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Madeirense que promoveu o monumento a Nossa Senhora das Graças erguido na ilha em 1930.
- Simão Gonçalves da Camara1579–1580
Terceiro capitão-donatário do Funchal; até à sua morte, a ilha pertenceu à capitania do Funchal.