Procissão da Cinza 1O préstito
Procissão da Cinza
Descreve a Procissão da Cinza, organizada pela Ordem Terceira de São Francisco, que saía do Convento de São Francisco, no Funchal, com numerosas imagens de santos e, mais tarde, da Igreja do Colégio; em 1921, realizava-se ainda apenas em Câmara de Lobos.
1O préstito
Assim se denominava a procissão que tinha lugar em quarta-feira de cinzas e que em épocas remotas saía do convento de São Francisco, acompanhada por frades que durante o trajecto entoavam cânticos religiosos. O cortejo passava sempre nas igrejas de Santa Clara e das Mercês, onde as monjas cantavam hinos religiosos na ocasião em que entrava no templo o andor em que se via a imagem de São Francisco abraçando a de Cristo.
Na frente da procissão, ia o pendão da Ordem Terceira de São Francisco, com o seu escudo primorosamente bordado a ouro, e logo a seguir a chamada arvore da penitencia, em que se viam um crucifixo guarnecido de ramos de espinheiro, um rosario e umas disciplinas. Atrás, caminhava a irmandade da penitencia, indo junto da cruz quatro irmãos, levando um uma bandeja com dois ossos trocados e uma caveira, outro uma urna de vidro, com cinzas provenientes de ramos de palmeira e oliveira, benzidos em domingo de Ramos, outro uma ampulheta com duas azas e o quarto um velador com candeia apagada. Seguiam-se a cruz da Ordem e o andor do Senhor dos Passos, com a respectiva confraria, e depois os andores de São Francisco com a cruz ás costas, da Confirmação da Regra, em que se via o mesmo santo, o papa Inocencio III e um cardial, de Santo António de Noto (preto), de São Lucio e Santa Bona (os dois irmãos), de Santa Rosa de Viterbo, de Santa Margarida de Cortona, de Santa Joana, de Santa Isabel, filha da rainha da Hungria, de Santa Isabel, rainha da Hungria, de S. Roque, de Santo Elisario e Santa Delfina (os bem-casados), de Santo Henrique, rei da Dacia, de S. Luís, rei de França, de Santo Ivo, doutor, e de Santa Isabel, rainha de Portugal, indo todas estas imagens acompanhadas das respectivas confrarias. Fechavam o préstito religioso a mesa da Ordem Terceira, o andor de S. Francisco abraçado como o Cristo, a corporação dos Capelães, o palio roxo, sob o qual se viam três eclesiasticos com pluviais da mesma côr, levando o do meio um relicario com o Santo Lenho, e finalmente o Bispo da Diocese, com a capa magna, na qual pegavam cinco seminaristas.
2Decadência e sobrevivência
Depois que desapareceu a igreja de S. Francisco, passaram para a igreja do Colégio as imagens que figuravam na procissão da cinza, sendo deste templo que em nossos dias saía a mesma procissão, a qual se não realiza há cerca de 25 anos (1921). Eram roxas as opas que figuravam na procissão, e em tempos antigos vestiam habito os irmãos professos que se incorporavam nela. O lugar das penitentes que acompanhavam o préstito era perto da chamada arvore da penitencia.
Um autor estrangeiro que escreveu em 1827, dizia o seguinte acerca da procissão da cinza: «As imagens são quási do tamanho do homem e vestem todas hábitos religiosos, sem exceptuar S. Luis, rei de França, e Santa Isabel, rainha de Portugal. Uma delas, que representa Nosso Senhor vergando sob o pêso da cruz, é um trabalho bem executado e que, pela expressão de sofrimento que apresenta, produz impressão naqueles que a contemplam».
A procissão da cinza ainda hoje se realiza na vila de Câmara de Lobos, aonde acodem muitas pessoas do Funchal para a ver.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 02Lugar
Lugares mencionados · 06- Câmara de Lôbos
Câmara de Lobos. Local onde a procissão ainda se realizava em 1921.
Freguesia a oeste do Funchal. O Elucidário relaciona o seu nome com a viagem de descoberta de Zarco e descreve as suas igrejas, capelas e colegiada, os primeiros povoadores, a comunidade piscatória e as vinhas afamadas. Regista também os sítios, limites, levadas e população da freguesia.
- Convento das Mercês
Funchal. Igreja no percurso da procissão, onde as religiosas cantavam hinos.
O Convento das Mercês, no Funchal, teve origem em 1654 numa casa de recolhimento de leigas, tornou-se convento de clarissas de observância rigorosa em 1663 e começou a ser demolido em 1911. Era conhecido pela austeridade das suas freiras, a sua fundação é tema de uma lenda e deu nome à Rua das Mercês. A Madre Brites da Paixão viveu, morreu e foi sepultada ali, e a sua igreja guardava a imagem de Nossa Senhora da Soledade.
- Convento de Santa Clara
Funchal. Igreja no percurso da procissão, onde as religiosas cantavam hinos.
Convento no Funchal fundado entre 1492 e 1497 pelo segundo capitão-donatário, João Gonçalves da Câmara, junto à igreja da Conceição de Cima. É local de sepultura da família Câmara e conserva um documento de 1447 em que o nome aparece grafado «Zargo». Em 1912, foi cedido para a instalação de um novo hospital e, mais tarde, escolhido para acolher o museu arqueológico.
- Convento de São Francisco
Funchal. Ponto de partida original da procissão.
O Convento de São Francisco foi um convento franciscano fundado no Funchal em 1473 e assinalava o limite ocidental da cidade em 1508. A sua igreja foi demolida em 1865, e os seus objetos, livros, lápides e ossadas foram para o cemitério das Angústias, o museu e a Biblioteca Municipal. Os edifícios albergaram presos durante um breve período, até 1836, e a polícia em 1857.
- Funchal
Muitas pessoas vinham do Funchal para assistir à procissão de Câmara de Lobos.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Igreja do Colégio
Funchal. Ponto de partida posterior da procissão, onde se guardavam as imagens que a integravam.
A Igreja do Colégio (São João Evangelista) é a igreja do colégio dos Jesuítas na freguesia da Sé, no Funchal, construída após 1508. Foi ponto de partida de várias procissões, palco das cerimónias de ação de graças de 1776 e dos Te Deum comemorativos, e local de sepultura de D. Francisco Henriques. Alberga uma pintura do século XVI.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 01-
Papa representado com São Francisco na imagem da Confirmação da Regra que integrava a procissão.