Procissões de penitencia
Descreve as procissões de penitência outrora realizadas na Madeira, nas quais penitentes encapuçados transportavam imagens e pesadas cargas e se flagelavam, geralmente para pedir chuva ou outras graças. Regista a última procissão rigorosa deste tipo no Funchal, com a imagem de Nossa Senhora do Monte, e as formas mais brandas em que o costume subsistiu.
Procissões de penitencia
Uma obra estrangeira publicada em 1819, descreve estas procissões do modo seguinte:
«Nas procissões de penitência aparecem as imagens do Salvador, da Virgem e de diferentes santos, levadas aos ombros de penitentes cobertos por hábitos de algodão azul, tendo apenas as aberturas precisas para facilitar a vista e a respiração. Acompanham as mesmas procissões uma parte da clerezia, ostentando trajos magníficos, e um destacamento militar, com a respectiva banda de musica. Junto dos penitentes que levam as imagens, vão outros que conduzem pesadas pedras, barras de ferro, cadeias, etc., ou que batem nas costas com feixes de arame ou ortigas, a ponto de fazer gotejar o sangue».
As procissões de penitencia faziam-se, quer para implorar do céu chuvas ou qualquer outro beneficio, quer para manifestar o desgosto da população por algum agravo feito á Providencia. Há cinquenta e tantos anos saiu a imagem de Nossa Senhora do Monte em procissão, seguindo pelo caminho dos Saltos, atravessando a Levada e voltando á sua igreja, pelo caminho do Monte, sendo a mesma imagem acompanhada em todo este longo trajecto por numerosos penitentes que, ou conduziam pesadas cargas, ou se flagelavam ou feriam com silvas (1921).
Foi esta, segundo cremos, a ultima procissão de rigorosa penitencia que se realizou no Funchal, e diz-se que tendo sido feita por causa da estiagem que há muito se fazia sentir, ao recolher á igreja do Monte, chovia já copiosamente.
Nas procissões dos Passos e da Cinza, apareciam outrora homens com flagelos, cadeias ou barras de ferro, mas tal costume há muito que desapareceu, e modernamente só é uso incorporarem-se algumas penitentes na procissão dos Passos e de Sexta-Feira Santa, apresentando-se as mais das vezes descalças, o que só representa grande sacrifício para aquelas para quem o uso do calçado constitui uma necessidade.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 02Lugar
Lugares mencionados · 05- Caminho do Monte
Funchal. Caminho pelo qual a procissão regressou à igreja do Monte.
Caminho que sobe do Funchal ao Monte, aberto no seu traçado atual no início do século XIX. O Elucidário regista-o como o percurso de regresso das procissões de penitência à Igreja do Monte, como limite de várias propriedades de sanatórios e como o caminho em cujo início se situava o antigo Seminário onde ficou alojada a tuna da Universidade de Coimbra.
- Caminho dos Saltos
Funchal. Percurso seguido pela última procissão de penitência rigorosa com a imagem de Nossa Senhora do Monte.
O Caminho dos Saltos é um caminho no Funchal por onde passou a última procissão de penitência rigorosa com a imagem do Monte. Ali se encontra um reservatório que recebe a água dos Tornos para o abastecimento da cidade.
- Funchal
Cidade onde se realizou a última procissão de penitência rigorosa.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Igreja de Nossa Senhora do Monte
Funchal. Igreja de onde saiu e à qual regressou a imagem de Nossa Senhora do Monte.
Igreja de peregrinação e, desde 1565, igreja paroquial do Monte, situada a 595 m de altitude, acima do Funchal, no centro da estância do Monte. Foi reconstruída entre 1741 e 1747 e consagrada em 1818; o imperador Carlos está ali sepultado. A imagem de Nossa Senhora do Monte partia da igreja e a ela regressava nas procissões penitenciais.
- Levada
Funchal. Zona atravessada pela procissão no regresso ao Monte.
Zona atravessada pela procissão no regresso ao Monte.