Procissão dos Passos 1O percurso e as cerimónias
Procissão dos Passos
Descreve a antiga Procissão dos Passos, realizada no Funchal durante a Quaresma: a trasladação das imagens no sábado à noite, o percurso de domingo, a cerimónia do encontro na Sé Catedral, as cenas do Calvário em Santa Maria Maior e a origem das imagens utilizadas.
1O percurso e as cerimónias
As imagens do Senhor dos Passos, da igreja de Santa Clara, e de Nossa Senhora da Soledade, da igreja das Mercês, eram em tempos já um pouco afastados de nós, conduzidas processionalmente, no sábado à noite, esta para a igreja da Sé, e aquela para a do Colégio, sendo a imagem do Senhor a primeira a sair, e incorporando-se depois no préstito a imagem da Senhora. Muitos rapazes, com archotes acesos, precediam a procissão, que depois de passar na igreja do Colégio, se dirigia para a Catedral. A Procissão dos Passos saía no domingo de tarde da igreja do Colégio, seguia pelas ruas da Carreira e S. Francisco afim de visitar um passo que existia no lado norte do antigo Jardim pequeno, dirigindo-se depois para a Catedral, onde se realizava a cerimonia do encontro, a principio dentro do templo e depois fora dele. Havia nessa ocasião sermão alusivo ao acto, seguindo depois a procissão, aumentada com a confraria e a imagem da Senhora da Soledade, para a igreja de Santa Maria Maior, fazendo pequenas paragens em frente dos passos da rua do Aljube, do Pelourinho e da rua de Santa Maria.
Abria o cortejo o guião, seguido dum grande pendão roxo com as letras S. P. Q. R., tendo havido tempo em que era costume fazer marchar na frente da procissão um individuo tocando uma trombeta, que era conhecido pelo nome de gajeiro.
Na igreja de Santa Maria Maior, desenrolavam-se as cenas do Calvário, em geral um tanto demoradas, só voltando a procissão á igreja do Colégio depois de noite, vindo as imagens recolhidas então nos respectivos nichos.
Nas janelas dos prédios acendiam-se as velas, sendo o cortejo precedido, como na véspera, de muitos homens e rapazes empunhando grandes archotes acesos que lhe imprimiam um aspecto fantástico e estranho.
Acompanhavam a procissão muitas penitentes, geralmente descalças, e em tempos remotos figuravam também nela alguns penitentes conduzindo pesadas barras de ferro ou armados de flagelos com que retalhavam o corpo.
2Origem das imagens
Vem a propósito dizer que a imagem que figura na procissão dos Passos foi mandada vir do Porto por um individuo chamado Joaquim Roque, que a legou em testamento á igreja de Santa Clara, e que a imagem de Nossa Senhora da Soledade teve a mesma origem, sendo legada ao convento das Mercês. Quando esta casa desapareceu, passou para a igreja do Colégio.
As duas imagens ao chegarem á Madeira, foram recolhidas, segundo se afirma, numa capela particular á travessa das Capuchinhas, passando daí para a capela da quinta do Til, onde estiveram até serem transferidas processionalmente para os dois referidos conventos, após a doação feita pelo seu possuidor.
Antes da aquisição das duas referidas imagens, figuravam na procissão a que nos referimos uma imagem do Senhor dos Passos pertencente a um morgado Correia e uma imagem da Senhora da Soledade, que está agora na capela do Faial.
Neste artigo
Lugar
Lugares mencionados · 15No estrangeiro
- Capela do Faial
Santana. Capela onde se encontra atualmente uma imagem mais antiga de Nossa Senhora da Soledade.
Capela que alberga hoje uma imagem mais antiga de Nossa Senhora da Soledade.
- Convento das Mercês
Funchal. Igreja conventual que acolhia a imagem de Nossa Senhora da Soledade.
O Convento das Mercês, no Funchal, teve origem em 1654 numa casa de recolhimento de leigas, tornou-se convento de clarissas de observância rigorosa em 1663 e começou a ser demolido em 1911. Era conhecido pela austeridade das suas freiras, a sua fundação é tema de uma lenda e deu nome à Rua das Mercês. A Madre Brites da Paixão viveu, morreu e foi sepultada ali, e a sua igreja guardava a imagem de Nossa Senhora da Soledade.
- Igreja de Santa Clara
Funchal. Igreja que acolhia a imagem do Senhor dos Passos.
A Igreja de Santa Clara, no Funchal, foi originalmente a Capela de Nossa Senhora da Conceição de Cima, construída por João Gonçalves Zarco como sepultura da sua família e mais tarde integrada no Convento de Santa Clara. O Elucidário aborda a localização incerta dos restos mortais de Zarco, as sepulturas de capitães-donatários posteriores aí encontradas em 1919, o papel da igreja como destino da peregrinação do quinto centenário e o projétil que a atingiu durante a missa, no bombardeamento de 1917.
- Igreja de Santa Maria Maior
Funchal. Igreja onde eram representadas as cenas do Calvário.
A Igreja de Santa Maria Maior, anteriormente Igreja de São Tiago Menor (Socorro), é uma igreja paroquial do Funchal situada acima da praia da Barreirinha. Em 1558, tornou-se sede de uma das duas freguesias do Funchal e ficava junto ao antigo hospital. Foi destino de várias procissões, incluindo a procissão do padroeiro, São Tiago.
- Igreja do Colégio
Funchal. Ponto de partida e de chegada da procissão de domingo.
A Igreja do Colégio (São João Evangelista) é a igreja do colégio dos Jesuítas na freguesia da Sé, no Funchal, construída após 1508. Foi ponto de partida de várias procissões, palco das cerimónias de ação de graças de 1776 e dos Te Deum comemorativos, e local de sepultura de D. Francisco Henriques. Alberga uma pintura do século XVI.
- Jardim Pequeno
Funchal. Antigo jardim com um passo no lado norte.
Pequeno jardim público do Funchal, criado em 1878 entre a Praça da Constituição e os terrenos do extinto Convento de São Francisco, com um passo no lado norte. Foi demolido em 1914 para a construção da Avenida Oeste (atual Avenida Dr. Manuel de Arriaga).
- Largo do Pelourinho
Funchal. Local de um passo onde a procissão fazia uma paragem.
O Largo do Pelourinho é uma praça do Funchal, já arborizada em 1508, por onde se entrava no Forte de São Filipe. A Câmara ocupou ali, a partir de 1838, uma casa danificada pela aluvião de 1842. O largo acolheu também um passo da Procissão dos Passos e as instalações da sociedade Talia, e foi onde Francisco Rodrigues Jardim foi enforcado em efígie.
- Porto
Portugal. Cidade de onde foram trazidas as imagens.
Cidade portuguesa onde começou a revolução liberal de 1820. O seu distrito é o único com maior densidade populacional do que o do Funchal. Vários madeirenses estudaram na sua escola médica ou na Academia Politécnica, e alguns viveram ou morreram na cidade. O editor de O Funchalense Liberal foi ali enforcado, e o Marítimo venceu ali o FC Porto em 1922.
- Quinta do Til
Funchal. Quinta cuja capela acolheu as imagens antes de serem doadas.
Quinta cuja capela acolheu as imagens antes de estas serem doadas.
- Rua da Carreira
Funchal. Rua por onde passava a procissão.
A Rua da Carreira, oficialmente Rua do Dr. Vieira, é uma das ruas mais antigas do Funchal e constitui um limite da freguesia da Sé. O seu nome provém das corridas de cavalos que ali se realizavam; em 1508, era a rua mais larga da vila. Nela se encontravam casas de famílias nobres, capelas e o cemitério britânico, e a partir de 1934 albergou o edifício da polícia.
- Rua de Santa Maria
Funchal. Rua com um passo onde a procissão fazia uma paragem.
A Rua de Santa Maria é uma rua antiga da freguesia de Santa Maria Maior, no Funchal, onde já existiam casas nobres em 1508. Desemboca no Largo do Poço, corre paralela à Rua Nova de Santa Maria e assinala o local da igreja de Nossa Senhora do Calhau. Tinha um passo onde parava a Procissão dos Passos e foi inundada em 1803 e 1856. Acolheu a sede do Marítimo, as primeiras instalações do Clube Washington, a escola da Missão Marquês de Pombal e a Escola Industrial António Augusto de Aguiar quando esta abriu em 1889.
- Rua de São Francisco
Funchal. Rua por onde passava a procissão.
A Rua de São Francisco situa-se junto ao Jardim Municipal do Funchal e é a única rua naquela zona anterior a 1834. Foi renomeada «Rua 22 de Março de 1921» em 1922, mas o Elucidário defende a reposição do nome antigo. Integrava o percurso da Procissão dos Passos, e a firma Blandy teve ali os seus escritórios durante muitos anos.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 01-
Mandou trazer do Porto as imagens do Senhor dos Passos e da Senhora da Soledade e legou-as a igrejas do Funchal.