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Elucidário Madeirense Início
Page (Roberto) 1Negociante e benemérito
Artigo Nº 2722 Comerciante, industrial ou proprietário Vol. III · pp. 67–70 5 min de leitura

Page (Roberto)

Roberto Page foi um comerciante inglês de vinhos estabelecido na Madeira pelo menos desde 1804 e sócio de José Phelps. Ficou conhecido pela sua vasta ação filantrópica: pontes, fontes, casas de abrigo, reparações de estradas e donativos a instituições de beneficência. Foi condecorado duas vezes por D. João VI, embora o Elucidário Madeirense assinale que se prestou à duvidosa «descoberta» de relíquias da cruz de Machim.

Page (Roberto)

1Negociante e benemérito

Este súbdito inglês que tão simpatico se tornou aos madeirenses pelos actos de filantropia e generosidade que praticou, já em 1804 se achava na Madeira onde teve, juntamente com José Phelps, uma casa de negocio de vinhos, que ainda existia em 1840. Retirou, segundo cremos, para Inglaterra, pelo meado do século XIX, quando muitas casas inglêsas liquidaram em virtude da penosa situação que trouxe à ilha a devastação dos seus vinhedos pelo oidium tuckery, tendo falecido aí, passados anos. Entre muitas outras cousas, sabemos que fêz o seguinte, em beneficio da ilha e dos seus habitantes, como tivemos já ocasião de dizer num artigo publicado em Janeiro de 1904, num jornal desta cidade:

Reparo na capela dos Milagres de Machico, dando-lhe um belo quadro para a capela-mor e concorrendo com dinheiro para obras que ali se realizaram.

Contribuição em dinheiro, a pedido do então capitão-general e governador da Madeira, Pedro Fagundes Bacelar, para o resgate dos marinheiros portugueses presos em Argel.

Colocação dum sinal de ferro na baixa chamada o Carneiro, a oeste do Funchal, para evitar a perda dos barcos costeiros, havendo antes, perecido ali muitos indivíduos. Uma casa de telha, na Ribeira das Cales, para abrigo dos viandantes. Uma ponte grande na dita ribeira, que era perigosíssima em tempo de inverno. Uma casa de telha na ribeira dos Boieiros, nas serras do Porto da Cruz, para abrigo dos viandantes. Reparação de muitos caminhos públicos, nas serras. Acabamento da ponte e estrada da ribeira dos Frades, em Câmara de Lobos, obra considerada de grande necessidade. Uma ponte de pedra na ribeira do Engenho, na estrada geral a oeste do Funchal, que fora destruída pela aluvião de 1803. Uma ponte de pau sobre um terrível despenhadeiro, próximo da Praia Formosa. Importantes repairos no caminho de S. Martinho. Grandes repairos nas ruas da Laranjeira e Mosteiro Novo, obra muito precisa e util. Contribuição para a nova fonte da rua dos Ferreiros. Contribuição para a nova fonte da ribeira de Nossa Senhora do Calhau. Contribuição de 700$00 réis para o teatro grande do Funchal. Contribuição para uma ponte na vila de Santa Cruz. Uma ponte de pau no Ribeiro Frio. Uma casa junto do convento de S. Francisco, para o recolhimento dos pobres. Contribuição para a igreja de S. Sebastião, desta cidade. Uma ponte nova, no Monte. Reparos pela segunda vez, na ponte da rua dos Ferreiros. Reparos, por duas vezes, na ponte do Torreão, de cima. Uma boa casa de telha nas serras do Paul, para abrigo dos viandantes. Uma fonte publica no caminho do Monte. Uma dita na fonte da Telha. Reparos e calcetamento da rua que vai das Cruzes a S. Paulo. Outra fonte no caminho do Monte. Quatro descansadores e assentos no dito caminho. Uma ponte de madeira na Levada de Santa Luzia. Uma ponte nova na ribeira das Cales. Seis tarimbas para a cadeia do Funchal. Empréstimo dum conto de réis para o acabamento da escola Lancasteriana. 100 cobertores para a Santa Casa da Misericórdia. Seis camilhas de ferro para a mesma Santa Casa. Donativo de 300$000 réis para a construção da ponte da ribeira dos Socorridos. Um donativo avultado aos habitantes do Porto Santo, por ocasião da grande estiagem que ali houve em 1822. Promoveu uma subscrição, e concorreu para ela generosamente, em favor dos presos da cadeia do Funchal. Não é pouco o que aí fica mencionado, feito em favor dos habitantes desta ilha. Mas há mais.

2Vinhos, mercês e relíquias de Machim

No ano de 1816, fez sustentar o preço dos vinhos da Madeira, contra um monopólio que se organizara, e em virtude da sua atitude enérgica e probidade nunca desmentida, os habitantes desta ilha lucraram muitas dezenas de contos de réis. Foi tão manifesto e importante este beneficio, que a câmara do Funchal lhe dirigiu um oficio de sincero e afectuoso agradecimento.

Tais actos de benemerência não podiam passar despercebidos aos governantes, e Roberto Page foi duas vezes agraciado por D. João VI. As condecorações e outras graças régias tinham, nesse tempo, ainda muito valor e não andavam malbaratados como hoje. Não se alcançava um habito de Cristo ou uma comenda da Conceição por motivos futeis ou por serviços inconfessáveis, como actualmente sucede com tanta frequência.

Há 90 e 100 anos não acontecia assim. Roberto Page foi agraciado com o grau de cavaleiro da Tôrre e Espada e depois feito comendador da mesma ordem. Se ainda hoje os graus dela são dos poucos que têm alguma cotação no mercado social, podemos ajuizar que naquela época eram tidos em grande conta e só concedidos a quem realmente se tornava merecedor de semelhante graça.

É bastante para estranhar que Roberto Page, que tantas e tão assinaladas provas deu da nobreza do seu carácter e da sua simpatia pelos portugueses, se prestasse, movido talvez por um mal entendido patriotismo, a figurar de descobridor das famosas «reliquias da cruz de Machim» a que se refere o dr. Azevedo a pág. 417 das Saudades da Terra. Tais «reliquias», depositadas na igreja matriz de Machico e que ninguém até o presente tomou a sério, acham-se num quadro ou moldura de madeira, com vidro na face exterior, lendo-se no rotulo que as acompanha terem sido achadas em 1814, na capela do Senhor dos Milagres da mesma vila.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 05
  1. A grande aluvião de 9 de outubro de 1803, considerada a maior calamidade da Madeira, devastou o Funchal e outras partes da ilha, matou cerca de 600 pessoas e destruiu a igreja do Calhau, muros de contenção das ribeiras, pontes e capelas em Machico, Santa Cruz e noutros locais. Motivou a missão de Oudinot e a expansão da cidade para o exterior.

  2. Roberto Page estabeleceu-se na Madeira, onde existia a firma Phelps, Page & C.ª.

  3. Terão sido encontradas na Capela do Senhor dos Milagres, em Machico, alegadas relíquias da cruz de Machim.

  4. Roberto Page defendeu os preços do vinho da Madeira contra um monopólio e recebeu o agradecimento da Câmara Municipal do Funchal.

  5. Uma grande seca atingiu o Porto Santo, e Roberto Page enviou auxílio.

Lugar

Lugares mencionados · 19

No estrangeiro

Mapa: Arquipélago da Madeira (19)
  1. Argel

    Algeria. Local onde estavam cativos os marinheiros portugueses resgatados com a ajuda de Page.

  2. Capela do Senhor dos Milagres

    Machico. Capela que Page reparou e à qual ofereceu uma pintura; dizia-se que ali tinham sido encontradas relíquias em 1814.

  3. Carneiro

    Funchal. Baixio a oeste do Funchal onde Page colocou um marco de ferro.

  4. Convento de São Francisco

    Funchal. Nas suas proximidades, Page providenciou uma casa de abrigo para pobres.

  5. Igreja Matriz de Machico

    Machico. Local onde se guardam as alegadas relíquias da cruz de Machim.

  6. Levada de Santa Luzia

    Funchal. Page construiu uma ponte de madeira sobre esta levada.

  7. Monte

    Funchal. Page construiu uma ponte e fontes na estrada do Monte.

  8. Paul da Serra

    Ponta do Sol. Page construiu ali uma casa de abrigo para viajantes.

  9. Porto Santo

    Page auxiliou os seus habitantes durante a seca de 1822.

  10. Praia Formosa

    Funchal. Local próximo de uma ponte de madeira construída por Page.

  11. Ribeira das Cales

    Funchal. Page construiu ali uma casa de abrigo e pontes.

  12. Ribeira do Engenho

    Funchal. Page reconstruiu uma ponte de pedra destruída pela aluvião de 1803.

+ 7 mais

Pessoas

Pessoas mencionadas · 05
  1. Comerciante inglês de vinhos e benfeitor na Madeira no início do século XIX, a quem esta entrada é dedicada.

  2. Editor das Saudades da Terra, que menciona as alegadas relíquias da cruz de Machim.

  3. João VIm. 1826

    Rei de Portugal que condecorou Page duas vezes pelos seus atos de beneficência.

  4. José Phelpsm. 1863/..

    Sócio de Page numa casa de vinhos da Madeira que ainda existia em 1840.

  5. Capitão-general e governador da Madeira que pediu a Page um contributo para o resgate de marinheiros portugueses cativos em Argel.

Na folha P

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.