Estreito de Câmara de Lobos. (Freguesia do) 1Povoamento e criação da paróquia
Estreito de Câmara de Lobos. (Freguesia do)
Artigo sobre a freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, criada no início do século XVI em torno da Capela de Nossa Senhora da Graça. Aborda a história da igreja, o clero, as capelas, os sítios, as indústrias e acontecimentos notáveis.
1Povoamento e criação da paróquia
Com bons fundamentos se julga que, fora do Funchal, foi Câmara de Lobos um dos logares em que primeiramente se deu o povoamento e cultivo das terras, constituindo-se ali desde logo um importante núcleo de população. Não tardaria muito que esse arroteamento dos terrenos incultos se fosse estendendo e alargando até as alturas da actual freguesia do Estreito, ao menos na parte sul dela e nos pontos que a delimitam da paróquia de Câmara de Lobos.
Com relação á origem do nome da freguesia do Estreito, temos apenas que reportar-nos ao que já expusemos no artigo consagrado á paróquia do Estreito da Calheta, pois que nada mais podemos nem sabemos acrescentar ao que ali fica dito acerca deste ponto. Gaspar Frutuoso referindo-se a esta freguesia no ultimo quartel do século XVI, diz: Acima delle (convento de S. Bernardino) estão os pomares do Estreito, que tem muita castanha, e noz, e peros de toda a sorte muito doces, e vinhos e criações e huma freguesia que se chama o Estreito, de até trinta fogos... ”
Não conhecemos a data do diploma que estabeleceu esta paróquia, mas sabemos que a sua criação remonta aos primeiros anos do século XVI, assinando-lhe o anotador das Saudades o ano de 1509. Julgamos que já anteriormente tinha sido sede dum curato na capela de Nossa Senhora da Graça, que ali existia e que depois se transformou em igreja paroquial. Diz o Dr. Alvaro de Azevedo que, por três escrituras lavradas na antiga nota de Câmara de Lobos, se sabe que em 1539 era o padre Sebastião Vaz vigário do Estreito.
O diploma mais antigo que encontramos citado acerca desta freguesia é o de 20 de Janeiro de 1572, que concede ao padre Gonçalo de Aguiar, pároco de então, o acrescentamento de 9$300 réis á côngrua que anteriormente tinha. Os alvarás de 18 de Janeiro de 1582 e 15 de Novembro de 1591 aumentaram e remodelaram o vencimento anual do respectivo vigário, que passou a ser de 16$000 réis em dinheiro, uma pipa e meia de vinho e um moio e meio de trigo.
O alvará de D. Pedro II, de 28 de Dezembro de 1676, suprimiu um dos logares de beneficiado da colegiada de Câmara de Lobos, aplicando a respectiva côngrua ao curato do Estreito, criado pelo mesmo diploma régio. Outro alvará de 9 de Maio de 1688 fixou o vencimento anual do coadjutor em 120$000 réis em dinheiro, um moio de trigo e uma pipa de vinho.
2Igreja paroquial
Ignoramos em que época foi construída a capela de Nossa Senhora da Graça, que deu o nome á nova paróquia, sendo nela instalada a sua sede. O pequeno templo sofreu grandes reparos aproximadamente pelo tempo da criação da freguesia, e também no ultimo quartel do século XVII se realizaram ali obras importantes. Temos conhecimento dos seguintes diplomas, que encontrámos apontados no Índice Geral do registo da antiga Provedoria da Real Fazenda: mandado do Conselho da Fazenda, de 23 de Setembro de 1692, para se fazer a obra da nova igreja arrematada por Francisco Rodrigues, por 811$000 réis; mandado do mesmo Conselho, de 5 de Março de 1748, para a factura da igreja e de 194$000 réis para o pagamento de um alqueire e meia quarta da terra precisa para a dita obra e de 551$662 réis da casa do vigário, que se deve desmanchar para o mesmo fim; mandado de 15 de Fevereiro de 1764 para se arrematar ao mestre entalhador Julião Francisco a obra do altar-mor, por 2:000 réis. Além do que dizem os documentos citados, pudemos de fonte segura averiguar que por meados do século XVIII se demoliu a antiga igreja, ficando de pé a capela-mor, que ainda por alguns anos continuou a servir de igreja paroquial. A 3 de Fevereiro de 1753 se lançou e benzeu a primeira pedra do novo templo, sendo a 18 de Janeiro de 1756 benzida a capela-mor e para ela conduzido o Santissimo Sacramento, prosseguindo depois os restantes trabalhos de construção. Esta igreja foi sagrada em 1814 pelo prelado diocesano D. Joaquim de Meneses e Ataide.
Foi neste templo que, poucos anos depois, a 6 de Novembro de 1829, se deu um grande desacato, a que já nos referimos mais largamente em outro lugar deste Elucidário. Sôbre este caso, que parece ter causado grande sensação, publicou-se um opúsculo de 13 paginas, que o Diccionario Bibliographico Português cita sob o título seguinte: Sentença da Relação de Lisboa contra Jacinto Fernandes e mais septe reos, culpados do roubo e desacato na egreja da Graça do Funchal. Morreram seis enforcados e o ultimo foi degolado. (Datado de 6 de Março de 1830). Impresso em Lisboa na Typ. de J. B. Morando.
Entre os mais antigos sacerdotes que exerceram funções paroquiais nesta freguesia, podemos citar os nomes dos padres Sebastião Vaz (1539), Gonçalo de Aguiar (1563), Sebastião Gonçalves (1586), João Gonçalves Evangelho (1607), Matias Lopes (1620), Manuel Lopes (1631) e Luiz Gonçalves Velho (1643).
3Capelas, sítios e notícias diversas
Tem esta freguesia as capelas de Nossa Senhora da Incarnação, Nossa Senhora da Consolação, Santo Antonio e Nossa Senhora do Bom Sucesso, das quais nos ocuparemos mais de espaço nos artigos dedicados ás capelas. No sítio da Ribeira da Fazenda existiu a capela de Sant'Ana.
Os principais sítios são: Vizinhanças da Igreja, Caminho do Concelho para a Ribeira da Caixa, Pico e Salões, Caminho do Concelho para a Ribeira da Fernanda, Vargem, Barreiros, Covão e Panasqueira, Castelejo, Fajã das Galinhas, Quinta de Santo Antonio, Romeiras, Foro, Fonte do Frade e Cruz dos Pomares, Serra, Cabo do Podão, Marco e Fonte da Pedra, Fontes, Casa Caída, Marinheira, Pomar do Meio, Garachico, Furneira e Jardim da Serra. Deste ultimo sítio, casa e sepultura de H. Veitch, que nele se encontram, nos ocuparemos em artigo especial. (V. Jardim da Serra).
São naturais desta freguesia o Dr. Luiz Vicente de Afonseca e João Augusto de Ornelas (V. estes nomes). Há nesta freguesia uma pequena indústria de chapéus de palha, quasi inteiramente privativa desta localidade, e ali existe também uma fabrica de manteiga.
A chamada Boca dos Namorados é o sítio mais pitoresco desta paróquia. Dali se disfrutam vastos e surpreendentes panoramas, sendo muito visitado, principalmente por estrangeiros.
Tem como freguesias confinantes: ao norte Serra de Água e Curral das Freiras, ao sul Câmara de Lobos, a leste a Ribeira dos Socorridos, que a separa de Santo Antonio e Curral, e a oeste Quinta Grande e Câmara de Lobos.
Tem uma escola oficial para cada sexo e a sua população é de 6.200 habitantes. No dia 22 de Maio de 1927 deu-se uma lamentável tragédia nesta freguesia, tendo o padre André dos Passos sido assassinado por um demente ao sair da capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso, no sítio de Garachico, onde acabara de celebrar o sacrifício da missa. Este tristissimo acontecimento causou a maior emoção em toda a ilha e particularmente nesta freguesia.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 11-
Foi criada a freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, segundo o anotador das Saudades da Terra.
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O Padre Sebastião Vaz é referido como vigário do Estreito de Câmara de Lobos.
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Um alvará aumentou a côngrua de Gonçalo de Aguiar, pároco do Estreito de Câmara de Lobos.
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Na sequência da resolução do príncipe regente de outubro de 1676, cartas régias de D. Pedro II, datadas de 28 de dezembro de 1676, criaram várias freguesias e curadorias, incluindo as do Paul do Mar, Prazeres, Santa Luzia, Camacha, Serra de Água, Arco de São Jorge, Achadas da Cruz, Estreito e Arco da Calheta; foram extintos benefícios da colegiada de Câmara de Lobos para financiar algumas delas.
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Foi ordenada a construção de uma nova igreja no Estreito de Câmara de Lobos, obra contratada a Francisco Rodrigues.
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Foi lançada a primeira pedra da nova igreja paroquial do Estreito de Câmara de Lobos.
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Foi benzida a capela-mor da nova igreja do Estreito de Câmara de Lobos.
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O bispo D. Joaquim de Meneses e Ataíde sagrou a igreja paroquial do Estreito de Câmara de Lobos.
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A igreja do Estreito de Câmara de Lobos foi assaltada e dela foram roubados vasos sagrados e objetos de prata e ouro, num sacrilégio mais tarde punido com sete execuções.
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A Relação de Lisboa condenou os assaltantes da igreja do Estreito de Câmara de Lobos: seis à morte por garrote e dois a degredo perpétuo em África.
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O Padre André dos Passos foi assassinado por um homem com perturbações mentais no Garachico.
Lugar
Lugares mencionados · 16- Estreito de Câmara de Lobos · Assunto
Câmara de Lobos. Freguesia descrita nesta entrada.
O Estreito de Câmara de Lobos é uma freguesia do concelho de Câmara de Lobos, na Madeira, criada no início do século XVI em torno da capela de Nossa Senhora da Graça. Foi o principal centro de fabrico de chapéus de palha de centeio e de queijo; nela cultivam-se as castas Sercial, Verdelho, Tinta e Bastardo. Em 1927, tornou-se julgado da comarca do Funchal.
- Boca dos Namorados
Câmara de Lobos. O miradouro mais pitoresco da freguesia, visitado por estrangeiros.
A Boca dos Namorados é um célebre miradouro e passagem perto do Pico dos Bodes, acima do Jardim da Serra. É o miradouro mais pitoresco da freguesia; outrora, era muito visitado, também por estrangeiros, e recomendado em descrições da paisagem madeirense.
- Câmara de Lôbos
Câmara de Lobos. Povoação antiga a partir da qual o Estreito foi colonizado; freguesia vizinha.
Freguesia a oeste do Funchal. O Elucidário relaciona o seu nome com a viagem de descoberta de Zarco e descreve as suas igrejas, capelas e colegiada, os primeiros povoadores, a comunidade piscatória e as vinhas afamadas. Regista também os sítios, limites, levadas e população da freguesia.
- Convento de São Bernardino
Câmara de Lobos. Convento situado abaixo dos pomares do Estreito na descrição de Frutuoso.
Convento franciscano dedicado a São Bernardino de Sena, em Câmara de Lobos. Foi o primeiro convento fundado na Madeira fora do Funchal e ficou conhecido por ser o local de sepultura de Frei Pedro da Guarda, cuja estátua ali foi queimada em 1835. Foi reconstruído em 1763, acolheu um seminário menor em 1831–1833, caiu em ruína após a extinção das ordens religiosas e foi posteriormente restaurado.
- Curral das Freiras
Câmara de Lobos. Freguesia confinante a norte e a leste.
Pequena freguesia do interior, situada num vale profundo que se crê ser a cratera de um vulcão extinto e o principal foco eruptivo da Madeira. A propriedade foi comprada para as freiras de Santa Clara, que ali se refugiaram em 1566 e lhe deram o nome. Foi criada como freguesia em 1790. Antes, servira de pastagem e de refúgio a escravos fugidos e criminosos; em 1927, tornou-se julgado da comarca do Funchal.
- Estreito da Calheta
Calheta. A entrada sobre esta localidade explica a origem do nome Estreito.
O Estreito da Calheta é uma freguesia do concelho da Calheta, no oeste da Madeira, delimitada pela Ribeira de São Bartolomeu e pela Ribeira Funda. A sua igreja paroquial de Nossa Senhora da Graça foi fundada pela família França, e o verbete aborda os primeiros proprietários, as capelas, os sítios, as escolas e a irrigação pela Levada Nova do Rabaçal; os Prazeres foram separados da freguesia em 1733.
- Fajã das Galinhas
Câmara de Lobos. Uma das principais localidades da freguesia.
A Fajã das Galinhas é uma das principais localidades da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, na Madeira. É citada como exemplo de uma fajã.
- Funchal
A primeira povoação, mencionada para comparação.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Garachico
Câmara de Lobos. Localidade onde se situa a capela do Bom Sucesso e onde ocorreu o homicídio de 1927.
Sítio da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos onde se situa a capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso, junto à estrema da freguesia. Foi palco de um homicídio em 1927.
- Igreja de Nossa Senhora da Graça
Câmara de Lobos. Capela que se tornou igreja paroquial, reconstruída entre 1753 e 1756.
Capela que se tornou igreja paroquial, reconstruída em 1753–1756.
- Jardim da Serra
Câmara de Lobos. Localidade onde se situam a casa e a sepultura de Veitch.
Jardim da Serra é um pitoresco vale de altitude no extremo norte da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, na Madeira, rico em vegetação autóctone e com vistas sobre o Curral das Freiras. O cônsul inglês Henry Veitch construiu ali uma casa de campo, realizou a primeira tentativa de cultivo de chá na Madeira e está sepultado num mausoléu no local; as vinhas de altitude amadurecem tarde.
- Quinta Grande
Câmara de Lobos. Freguesia confinante a oeste.
Quinta Grande é uma freguesia do concelho de Câmara de Lobos, cujo nome provém da maior quinta dos jesuítas, vendida por 140 000 cruzados. Tornou-se curazia em 1820 e foi separada do Campanário como freguesia autónoma em 1848, com sede na capela de Nossa Senhora dos Remédios, cuja festa ali se celebra. Em 1927, tornou-se julgado da comarca do Funchal.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 18- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador das Saudades da Terra, citado a propósito da data de criação da freguesia, em 1509, e do vigário de 1539.
- André dos Passosm. 1927
Padre assassinado por um homem com perturbações mentais junto à Capela do Bom Sucesso, no Garachico, em 22 de maio de 1927.
- D. Joaquim de Meneses e Ataíde1765–1828
Bispo do Funchal que sagrou a igreja paroquial em 1814.
- D. Pedro IIm. 1706
Rei cuja carta régia de 1676 criou a curazia do Estreito.
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Empreiteiro contratado para as obras da nova igreja em 1692.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Cronista do século XVI que descreveu os pomares do Estreito e os seus trinta fogos.
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Pároco cuja côngrua foi aumentada em 1572.
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Estrangeiro cuja casa e sepultura se situam no Jardim da Serra, nesta freguesia.
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Principal arguido condenado pelo roubo e sacrilégio cometidos na igreja em 1829.
- João Augusto de Ornelas1833–1886
Natural da freguesia com artigo próprio no Elucidário Madeirense.
+ 8 mais
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Padre da freguesia referido em 1607.
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Mestre entalhador contratado em 1764 para executar o altar-mor.
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Padre da freguesia referido em 1643.
- Luís Vicente de Afonseca1803–1878
Natural da freguesia com artigo próprio no Elucidário Madeirense.
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Sacerdote da freguesia referido em 1631.
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Sacerdote da freguesia referido em 1620.
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Sacerdote da freguesia referido em 1586.
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Vigário do Estreito em 1539, o primeiro de que há registo.