Castilho (Visconde de) 1Chegada ao Funchal
Castilho (Visconde de)
Relato da estada do poeta António Feliciano Pinto Pacheco de Novais Barreto e Castilho na Madeira em 1840–1841, quando acompanhou o irmão Augusto Frederico de Castilho, que veio para a ilha devido à tuberculose e morreu no Funchal em 31 de dezembro de 1840.
1Chegada ao Funchal
Pela tarde do dia 27 de Novembro de 1840 ancorou no pôrto do Funchal o brigue-escuna Funchal, que era então o navio que fazia viagens regulares entre Lisboa e a Madeira. Conduzia alguns passageiros e entre eles o grande poeta e eminente literato Antonio Feliciano de Castilho, acompanhando seu irmão o dr. Augusto Frederico de Castilho, afectado de uma grave doença pulmonar e que a esta ilha vinha pedir alivios á benignidade do nosso clima.
O dr. Frederico de Castilho era conego da Sé de Lisboa, desembargador da curia patriarcal e um poeta e prosador de raro merito, que durante muitos anos serviu de secretario do eximio escritor e que muito concorreu para que viessem a lume algumas das suas geniais produções poeticas.
Castilho nutria pelo irmão o mais acendrado amor fraterno, como se pode ver em muitas paginas das suas obras, em que lhe chama “o melhor dos irmãos” e lhe faz as mais ternas e afectuosas referencias. Foi essa grande amizade que o levou, a pesar da sua cegueira, a empreender uma tão penosa viagem, não abandonando um só momento o irmão estremecido.
O distinto madeirense Januario Vicente Camacho, governador desta diocese e bispo eleito de Castelo Branco, pôs a residencia da Penha de França, onde durante muitos anos habitou o extinto prelado D. Manuel Agostinho Barreto, á disposição de Antonio Feliciano de Castilho, residencia que, pela sua posição sobranceira ao mar e nos suburbios da cidade, foi considerada nas condições exigidas para a doença de que sofria o ilustre enfermo.
O grande mestre da nossa lingua foi ali alvo das mais significativas demonstrações de aprêço por parte de todas as pessoas de elevada posição social da nossa terra, que intimamente se associaram á enorme dor que tão rudemente alanceou o seu coração de irmão e a sua alma apaixonada de poeta.
2Morte do irmão
Augusto Frederico de Castilho chegou ao Funchal com as fôrças tão depauperadas e com a doença em tal grau de adiantamento que nem os ares beneficos desta terra privilegiada, nem os esforços da ciencia conjugados com os extremos de dedicação do irmão, puderam salvá-lo da morte, que a todos nesta cidade se afigurou desde logo inevitavel. Passado pouco mais de um mês, a 31 de Dezembro, pela uma hora da tarde, sucumbiu Augusto Castilho aos estragos da terrivel tuberculose pulmonar, nos braços do irmão estremecido e rodeado de algumas pessoas que procuraram tornar quanto possivel menos dolorosos os ultimos momentos do malogrado enfêrmo.
O seu cadaver foi depositado na igreja do Colegio e dali saíu o prestito funebre em direcção á Sé Catedral, onde foram cantados os oficios de defuntos, seguindo depois para o cemiterio das Angustias e ali foram os despojos mortais do ilustre sacerdote sepultados em jazigo proprio. No funeral encorporou-se tudo o que de mais distinto contava a nossa terra, a começar pelas autoridades superiores do distrito, constituindo uma grande homenagem de respeito prestada ao morto e de estima e admiração ao grande homem de letras e nosso ilustre hospede. Tendo perdido o irmão, Castilho só pensou em recolher-se ao seio da familia, levando consigo o precioso tesouro do coração do irmão, que, por disposição da sua ultima vontade, quisera que lhe fôsse extraido do peito, para ser dado á sepultura juntamente com os restos mortais do seu querido e inseparavel companheiro de tantos anos.
Antonio Feliciano de Castilho saíu da Madeira a 9 de Janeiro de 1841, e neste mesmo ano proferiu no Conservatorio Real de Lisboa o elogio historico de seu irmão Augusto Frederico de Castilho, que é um dos seus mais primorosos trabalhos literarios. Nesse elogio se encontram algumas paginas sentidas, em que Castilho descreve a doença e a morte do irmão ocorrida na Madeira.
A familia Castilho mandou erigir no cemiterio das Angustias um pequeno monumento de marmore sobre a campa do dr. Augusto Castilho, encimado pelo seu brasão de armas e onde se lê este epitáfio: A memoria do dr. Augusto Frederico de Castilho, cavalleiro de diversas ordens, antigo prior do Castanheiro, opositor na universidade de Coimbra, governador do bispado de Beja e deputado da nação portugueza, arciprestre da Se Metropolitana de Lisboa e membro de muitas sociedades litterarias nasceu em Lisboa em 4 de Setembro de 1802 e falleceu no Funchal a 31 de Dezembro de 1840.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 03-
Augusto Frederico de Castilho, mais tarde Visconde de Castilho, nasceu em Lisboa.
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O poeta António Feliciano Pinto Pacheco de Novais Barreto e Castilho chegou ao Funchal com o irmão doente, a bordo do brigue-escuna Funchal, e viveu na casa da Penha até janeiro de 1841.
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O Cónego Augusto Frederico de Castilho, irmão do poeta, morreu de tuberculose no Funchal.
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António Feliciano Pinto Pacheco de Novais Barreto e Castilho deixou a Madeira.
Lugar
Lugares mencionados · 06No estrangeiro
- Cemitério das Angústias
Funchal. Cemitério onde Augusto Castilho foi sepultado e onde se encontra o seu monumento.
Cemitério municipal do Funchal, que teve origem num pequeno espaço de enterramento da Misericórdia, de 1818, e foi construído em 1836–1838. Tem um pórtico de basalto lavrado, um necrotério e um monumento de 1917 às vítimas do bombardeamento alemão. Entre os ali sepultados contam-se o 2.º Conde de Carvalhal e o Deão Andrade.
- Funchal
Porto de chegada e cidade onde Augusto Castilho morreu.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Igreja do Colégio
Funchal. Igreja onde o corpo esteve depositado antes do funeral.
A Igreja do Colégio (São João Evangelista) é a igreja do colégio dos Jesuítas na freguesia da Sé, no Funchal, construída após 1508. Foi ponto de partida de várias procissões, palco das cerimónias de ação de graças de 1776 e dos Te Deum comemorativos, e local de sepultura de D. Francisco Henriques. Alberga uma pintura do século XVI.
- Lisboa
Portugal. Ponto de partida da viagem regular e cidade natal de Augusto Castilho.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Penha de França
Funchal. Residência com vista para o mar onde os Castilhos ficaram alojados.
A Penha de França, no Funchal, é uma capela e residência sobranceira ao mar, onde o bispo D. Manuel Agostinho Barreto viveu durante 34 anos, morreu e se encontra sepultado, e onde ficaram alojados os Castilhos. Uma bateria próxima, provavelmente construída durante o domínio filipino, foi ocupada por tropas britânicas e cedida à Câmara Municipal em 1902.
- Sé do Funchal
Funchal. Sé Catedral onde se cantou o ofício fúnebre.
A Sé do Funchal é a catedral do Funchal, na freguesia da Sé. A sua construção começou em 1493; tornou-se sede paroquial em 1508 e catedral em 1514. Foi ponto de partida de procissões e local do voto a São Tiago, e nela estão sepultados bispos.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 04-
Poeta e homem de letras português, cego, que permaneceu no Funchal de novembro de 1840 a janeiro de 1841 a cuidar do irmão moribundo.
- Augusto Frederico de Castilho1802–1840
Cónego da Sé de Lisboa, poeta e deputado, irmão do poeta, que veio à Madeira por causa da tuberculose e morreu no Funchal.
- D. Manuel Agostinho Barreto1835–1911
Falecido bispo do Funchal que viveu durante muito tempo na residência da Penha de França.
- Januário Vicente Camacho1792–1872
Governador do bispado e bispo eleito de Castelo Branco, natural da Madeira, que cedeu a Castilho a residência da Penha de França.