Oliveira (Cónego Alfredo Cesar de ) 1Vida e carreira eclesiástica
Oliveira (Cónego Alfredo Cesar de )
Biografia do cónego Alfredo César de Oliveira (1840–1908), sacerdote, pregador, jornalista, poeta e deputado madeirense, fundador do Diário de Notícias do Funchal, o primeiro jornal diário da ilha.
1Vida e carreira eclesiástica
Este ilustre madeirense, que era filho de Augusto César de Oliveira, nasceu na vila de Santa Cruz a 22 de Maio de 1840.
Tendo cursado o Liceu e o Seminário desta cidade, ordenou-se de presbítero a 30 de Agosto de 1863. Exerceu funções paroquiais nas freguesias de São Roque e de Santa Maria Maior, e, por carta regia de 15 de Fevereiro de 1867, foi apresentado num canonicato da Sé do Funchal. Desempenhou também os cargos eclesiásticos de vigário geral, membro e presidente da Junta Governativa do bispado e de substituto do governador da diocese. Em 1880, foi transferido para a Sé arquiepiscopal de Évora e nesta cidade residiu até a época da sua morte.
O cónego Alfredo César de Oliveira como orador sagrado, como escritor, poeta e jornalista, como politico e parlamentar e como cidadão no desempenho de diversos e importantes cargos públicos, revelou sempre a superioridade da sua inteligência, mostrando a maleabilidade do seu talento, que podia, em assuntos diametralmente opostos e sem alguma afinidade entre si, ocupar-se de variadas e complexas questões, o que só é permitido a espíritos de eleição e privilegiadamente dotados pela natureza.
A feição mais característica do seu espírito e que nele se salientou com maior brilho, foi a de orador sagrado, politico e jornalista. Em todas estas exteriorizações da sua inteligência mostrou o seu incontestável valor e as raras aptidões que possuía.
Desde muito novo se consagrou á carreira oratória da tribuna evangélica, estreando-se na sua vila natal, com o mais auspicioso êxito, sendo ainda simples diácono, na festividade que ali se realizou para solenizar o consórcio de el-rei D. Luís com D. Maria Pia.
Daí em diante foram grandes os seus triunfos oratórios, gozando entre nós da fama dum consumado pregador, sendo verdadeiramente notáveis alguns dos discursos que pronunciou na Sé Catedral e em outras igrejas desta diocese. Nos púlpitos da capital confirmou os créditos que ali o precederam de distinto orador sagrado, proferindo alguns sermões nas igrejas da Madalena, Incarnação e capela da Saúde, que lhe mereceram as mais elogiosas referências da imprensa de Lisboa. Projectou a publicação das suas orações sagradas, mas apenas sabemos que publicou dois sermões em folhetos avulsos e outro num jornal desta cidade.
2Jornalista e poeta
O cónego Alfredo foi um hábil e destro jornalista, que á facilidade e elegância da dicção reunia uma cerrada dialéctica, que o tornavam um argumentador de pulso e um adversário para temer, sendo um lutador incansável que não recuava nunca, ainda no mais aceso do combate. Entrou em memoráveis campanhas jornalísticas, em que o fogo das paixões fazia por vezes exceder os contendores em demasias de linguagem, mas de que o nosso distinto patrício não conservava rancores, esquecendo facilmente os agravos recebidos. Manejava com rara habilidade as armas da ironia e do ridículo e, alvejando o adversário, ora em prosa ora em verso, saía quase sempre vencedor nestas lutas muitas vezes estéreis da pena, de que o facciosismo politico, as vaidades e os interesses pessoais são os principais estímulos.
Colaborou mais ou menos assiduamente na Imprensa Livre, na Revista Semanal, na Aurora do Domingo e na Crença, de Lisboa, e ainda noutros jornais, e foi o fundador e principal redactor do periódico a Lâmpada, que se publicou no Funchal em 1872. Em 1876, empreendeu entre nós a publicação do primeiro jornal diário, iniciativa que a muitos se afigurou então uma empresa irrealizável ou de muito pouca duração, mas que superou todos os obstáculos e ainda hoje existe com vida prometedora – o Diário de Noticias, do Funchal. Na cidade de Évora também fundou as Noticias do Alentejo, primeiro jornal diário que ali se publicou (Vid. I-359).
Foi também um inspirado poeta, escrevendo varias poesias líricas que andam dispersas por diversos jornais. Cultivou também o género satírico, mostrando-se por vezes um digno discípulo de Nicolau Tolentino.
O cónego Alfredo e o conselheiro José Leite Monteiro, querendo salvar do esquecimento muitas produções poéticas de incontestável valor de alguns poetas madeirenses, que permaneciam inéditas ou espalhadas nos jornais, empreenderam a publicação das Flores da Madeira, de que saíram dois volumes, merecendo esta colecção alevantados elogios ao insigne escritor Teófilo Braga, numa carta publicada em 1872 num jornal desta cidade.
Além de inúmeros artigos, escreveu os romances Uma noite num hotel, que foi publicado na Revista Semanal, e Os Mistérios do Funchal, no Diário de Noticias.
3Política e morte
O cónego Alfredo César de Oliveira foi um politico apaixonado. Com um lugar de destaque na tribuna da imprensa e dispondo da influencia de muitos amigos e colegas espalhados em todo o distrito, exerceu entre nós uma notável preponderância partidária, que logo o indicou para cargos de eleição e confiança politica, tendo sido procurador á Junta Geral e vogal do Conselho de Distrito.
A sua influencia e ilustração tinham-no naturalmente indicado para representar em cortes os seus patrícios, sendo a 13 de Outubro de 1878 eleito deputado pela oposição, pelo circulo da Ponta de Sol, para a legislatura de 1879, e novamente eleito pelo mesmo circulo a 19 de Outubro desse ano, para a legislatura de 1880 a 1881. A 6 de Março de 1887 foi de novo eleito deputado pela Madeira, mas desistiu da sua candidatura a favor do seu intimo amigo e nosso distinto patrício Henrique de Sant'Ana e Vasconcelos, que tinha sido o candidato mais votado depois dos quatro deputados eleitos.
O cónego Alfredo corroborou no parlamento os créditos de que gozava como orador sagrado. Mostrou-se um parlamentar distinto, revelando apreciáveis dotes de tribuno, sobretudo na discussão que sustentou com o notável publicista Rodrigues de Freitas. Defendeu sempre com grande fervor os interesses dos seus patrícios, devendo especializar-se o seu discurso e projecto de lei acerca da arborização das serras da Madeira. Foi presidente das comissões administrativas da Misericórdia e do Asilo da Mendicidade do Funchal e exerceu ainda outras comissões de serviço público.
Em Évora, recusou desempenhar os lugares de governador civil e de deputado com que os seus amigos e correligionários quiseram por vezes distingui-lo.
Faleceu na capital do Alentejo, onde gozava do maior prestigio e da mais acendrada estima, no dia 19 de Abril de 1908.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 10-
Alfredo César de Oliveira nasceu em Santa Cruz.
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Alfredo César de Oliveira foi ordenado sacerdote.
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Alfredo César de Oliveira foi apresentado para uma conezia da Sé Catedral do Funchal.
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O Cónego Alfredo César de Oliveira fundou no Funchal o periódico A Lâmpada, que reproduziu a crítica de Teófilo Braga a Flores da Madeira.
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O Cónego Alfredo César de Oliveira fundou no Funchal o Diário de Notícias, o primeiro jornal diário da Madeira, cujo primeiro número saiu em 11 de outubro de 1876.
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O cónego Alfredo César de Oliveira foi eleito deputado da oposição por Ponta do Sol.
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O cónego Alfredo César de Oliveira foi reeleito deputado por Ponta do Sol.
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O cónego Alfredo César de Oliveira foi transferido para a Sé de Évora.
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O cónego Alfredo César de Oliveira foi eleito deputado pela Madeira em 6 de março de 1887, mas cedeu o lugar a Henrique de Sant'Ana e Vasconcelos, que ocupou o assento até 1889.
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O cónego Alfredo César de Oliveira morreu em Évora.
Lugar
Lugares mencionados · 08No estrangeiro
- Évora
Portugal. Cidade para cuja sé foi transferido em 1880 e onde morreu.
Évora é uma cidade em Portugal Continental com uma sé arquiepiscopal e uma universidade, ligada a vários membros do clero madeirense. Foi a terra natal do bispo D. Estevão Brioso e de D. Martinho de Portugal. O 4.º Conde de Vimioso morreu num convento da cidade.
- Funchal
Cidade onde fundou os seus jornais.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Lisboa
Portugal. Capital onde proferiu sermões aclamados.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Ponta do Sol
Círculo eleitoral pelo qual foi eleito deputado.
Freguesia e concelho da costa sul, povoados a partir de cerca de 1440 por Rodrigo Enes «o Coxo». A igreja paroquial de Nossa Senhora da Luz conserva um tríptico. O Elucidário regista também o cais de 1848, pago pela Câmara Municipal, e a visita régia de 1858.
- Santa Cruz
Local de nascimento de Oliveira e onde proferiu o seu primeiro sermão.
Santa Cruz é uma freguesia e uma das povoações mais antigas da Madeira. Recebeu o nome de uma cruz que Zarco ali mandou erguer aquando da descoberta. O Elucidário aborda a sua história eclesiástica inicial, a colegiada, as capelas, os povoadores nobres e os sítios da freguesia.
- Santa Maria Maior
Funchal. Freguesia onde exerceu o sacerdócio.
Freguesia parcialmente urbana na zona oriental do Funchal, a mais antiga do arquipélago, também conhecida como Nossa Senhora do Calhau ou Socorro. A sua igreja é a antiga Igreja de São Tiago, e a freguesia destaca-se pelas bordadeiras que produzem os trabalhos mais finos. Tornou-se um julgado da comarca do Funchal em 1927.
- São Roque
Funchal. Freguesia onde exerceu o sacerdócio.
São Roque é uma freguesia suburbana do Funchal, desmembrada de São Pedro e criada por carta régia de 1579; deve o nome à sua primitiva capela de São Roque. O Elucidário traça a história da igreja paroquial e enumera as capelas, os principais sítios e a população da freguesia.
- Sé do Funchal
Funchal. Sé Catedral onde ocupou uma conezia a partir de 1867.
A Sé do Funchal é a catedral do Funchal, na freguesia da Sé. A sua construção começou em 1493; tornou-se sede paroquial em 1508 e catedral em 1514. Foi ponto de partida de procissões e local do voto a São Tiago, e nela estão sepultados bispos.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 09- Cónego Alfredo César de Oliveira1840–1908
Cónego, pregador, jornalista e deputado madeirense que fundou o Diário de Notícias do Funchal; é o biografado nesta entrada.
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Pai do cónego Alfredo César de Oliveira.
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Rei de Portugal por ocasião de cujas celebrações nupciais Oliveira proferiu o seu primeiro sermão, ainda diácono.
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Amigo madeirense a favor de quem Oliveira retirou a sua candidatura a deputado em 1887.
- João Rodrigues de Freitasm. 1523
Publicista com quem Oliveira travou um notável debate parlamentar.
- José Leite Monteiro1841–1920
Coeditor, com Oliveira, da antologia Flores da Madeira.
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Rainha consorte de D. Luís, cujo casamento foi celebrado em Santa Cruz.
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Poeta satírico português de quem se dizia que Oliveira era discípulo nas suas sátiras.
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Escritor português que elogiou Flores da Madeira numa carta de 1872.