Trigo branco 1Trigo branco e espécies
Trigo branco
Subentrada sobre a variedade de trigo branco cultivada na Madeira, complementada por notas gerais de Carlos Azevedo de Menezes sobre os tipos de trigo madeirenses, a sua degeneração, cultivo, produtividade, debulha, importações e valor nutritivo.
1Trigo branco e espécies
Espiga densa, branca, glabra, semelhante à do trigo vermelho; praganas negras na base, divergentes.
Os trigos rijos degeneram na Madeira, tomando facilmente, quando não haja a cautela de renovar as suas sementes, os caracteres dos trigos túrgidos. Temos visto exemplares de trigo vermelho e amarelo com as praganas um tanto divergentes, as cariopses mais ou menos farinhosas e a palha ôca, excepto no alto, ao passo que nenhum dos trigos túrgidos e molares que existem na ilha perdem as características das sub-espécies ou tipos culturais a que pertencem. (1921).
Além do Triticum aestivum, existe ainda na Madeira o T. polonicum, caracterizado pelas cariopses muito compridas e estreitas, com quebradura rija, e pelas glumas alongadas, mas esta espécie é, por enquanto, pouco cultivada, só existindo na freguesia do Caniço.
Além do que fica textualmente transcrito da primeira edição, publicou ainda o co-autor desta obra, Carlos Azevedo de Menezes, as seguintes interessantes informações, que convém deixar aqui arquivadas.
«N'um valioso estudo sobre as variedades portuguezas publicado ha 40 annos pelos fallecidos professores Ferreira Lapa e Andrade Corvo no tomo III, parte II, das Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, encontramos indicados e descriptos 29 typos differentes d'esse cereal, sendo 26 provenientes do continente do reino e Açores, e 3 do archipelago da Madeira. Os typos madeirenses são os que ainda hoje são conhecidos no archipelago pelas designações de trigo mocho, trigo português e trigo Alexandre com que foram indicados no referido estudo, fazendo parte o primeiro e o segundo do Triticum vulgare e o ultimo Triticum turgidum, duas raças consideradas outrora como espécies distinctas, mas que muitos botânicos incluem agora na subespecie tenax do Triticum sativum, Lam.
2Variedades e cultura
Tendo-se-nos oferecido ensejo de examinar várias amostras de trigo colhidas em diferentes pontos da Madeira em 1904 e 1905, não nos foi difícil reconhecer que o numero das variedades existentes nesta ilha é superior ao das que foram estudadas pelos referidos professores verificando mais que alguns dos antigos tipos, embora semelhantes a certos tipos portugueses, dos quais talvez, provenham, se afastam deles, todavia, por caracteres dignos de nota. As variedades madeirenses que tivemos ocasião de estudar, pertencem todas às raças T. vulgare e T. turgidum, conhecidas no comercio pelo nome de trigos molares. O T. durum outra raça do T. sativum, nunca foi achado por nós na Madeira ou no Porto Santo, sendo possível que não existam nestas ilhas. Os trigos a que na Madeira chamam rijos, são, no nosso entender, simples sub-raças do T. turgidum, como facilmente se reconhece pela forma das suas espigas e glumas e pela consistência e forma arqueada dos seus grãos. Nos seus trigos rijos ou durasios, os grãos são alongados, aguçados e quasi sempre vitreos, caracteres estes que não observamos em nenhuma das variedades madeirenses.
A superfície ocupada pela cultura do trigo em todo o arquipélago, como acima se diz, é de cerca de 2.000 hectares e a produção eleva-se a uns 25.000 hectolitros anualmente. O rendimento por hectare é bastante variável, havendo terrenos em que ele pode atingir 30 hectolitros, e outros que não passa alem de 4 nos anos pouco chuvosos. O rendimento médio na ilha da Madeira deve ser de 8 hectolitros por hectare, e no concelho do Funchal de 12 hectolitros.
A utilidade dos afolhamentos é quase desconhecida dos povos da Madeira, havendo terrenos em que o trigo costuma ser cultivado durante 15 e 20 anos sucessivos. Estes terrenos nem adubados são muitas vezes, e no entanto produzem todos os anos um rendimento que o cultivador ignorante e talvez pouco ambicioso, considera suficientemente remunerador do seu trabalho! Sendo tão fértil o solo da ilha, não seria para admirar que a sua produção triplicasse ou quadruplicasse em pouco tempo, quando submetido a processos mais racionais da cultura.
Todas as variedades de trigos existentes na Madeira, costumam ser semeadas desde Dezembro até Março, efectuando-se a colheita nos meses de Junho e Julho. O T. turgidum, é mais cultivado na zona baixa da ilha do que nos pontos elevados, ao contrario do que sucede com o T. vulgare. Este, que parece ser o mais antigo da terra encontra-se até uma altitude de 700 metros (1900).
A Madeira importa annualmente cerca de 7 milhões de kilogrammas de trigo exótico, visto o de produção local mal chegar para satisfazer ás exigências do consumo durante 3 mezes.
3Colheita, debulha e aproveitamento
Os trigos madeirenses são quasi sempre semeados á mão e a colheita faz-se arrancando-os ou cortando-os á foice. Este ultimo processo é muito menos usado do que o primeiro. A debulha executa-se quer nas eiras, onde as espigas são calcadas por bois atrelados a uma prancha, na parte inferior da qual se collocam pedras e pedaços de ferro, quer por meio de machinas movidas a braço. Como as debulhadoras são agora frequentes em quasi toda a ilha; vae o primitivo processo de bater as espigas por animaes cahindo a pouco e pouco em desuso. Os indivíduos que só possuem pequenas porções de trigo, costumam servir-se do malho para o debulhar.
A palha de trigo é utilizada na cobertura de cabanas na alimentação do gado e também ás vezes em camas de animaes entabulados.
A fertilização das terras é assumpto que preocupa muito pouco a grande maioria dos cultivadores madeirenses; no entanto, alguns ha que adubam com estrumes de curral os terrenos destinados ás sementeiras, obtendo assim melhores colheitas do que os que não praticam a adubação. A riqueza das terras em acido phosphorico e a conformação do solo da ilha, que dá logar a que as chuvas transportem todos os annos, dos pontos elevados para os que estão inferiores, um certo número de elementos necessários á nutricção das plantas devem ser os motivos da permanente productibilidade dos terrenos destinados pelo agricultor ignorante e rotineiro à cultura ininterrompida do trigo e outros cereaes. Para obstar a que as variedades cultivadas degenerem, costumam os agricultores dos differentes pontos da ilha trocar periodicamente entre si os trigos destinados ás sementeiras.
Os madeirenses atribuem aos trigos da terra um valor nutritivo superior ao dos trigos importados. As analyses a que procedeu o fallecido professor Ferreira Lapa nos três typos a que atraz nos referimos, confirmam até certo ponto esta opinião, visto ellas terem accusado, para os mesmos typos, uma dose de materiais proteicas egual ou mesmo superior à encontrada nas melhores variedades portuguezas de trigos mollares. O pão fabricado com farinhas da Madeira, é geralmente fofo, atrigueirado, leve e saboroso.»
Neste artigo
Pessoas
Pessoas mencionadas · 01- Carlos Azevedo de Meneses1863–1928
Coautor do Elucidário Madeirense, cujas notas anteriores sobre o trigo madeirense são citadas nesta entrada.