Abastecimento de águas da cidade 1Primeiros estudos e contratos
Abastecimento de águas da cidade
História do projeto, há muito adiado, de dotar o Funchal de abastecimento de água potável canalizada e de uma rede de esgotos, desde os primeiros estudos, em 1890, passando por contratos falhados e pela suspensão durante a guerra, até às obras de 1932–1934.
1Primeiros estudos e contratos
Datam de 1890, os primeiros estudos para a distribuição de águas potáveis para abastecimento da cidade, mas, apesar da Câmara Municipal ter resolvido em sessão de 9 de Julho de 1891 abrir concurso para a execução das obras precisas para se conseguir esse abastecimento, só muito mais tarde, e depois de novos e aturados estudos, é que apareceram arrematadores para tais obras, as quais infelizmente não estão ainda concluídas.
Em 22 de Maio de 1900, comprometeu-se Luiz da Rocha Machado, por uma proposta apresentada à Câmara nos termos dum anúncio datado de 8 de Fevereiro, a realizar todas as obras precisas para abastecimento de águas potáveis e canalização de esgotos da cidade do Funchal, pela importância de réis 359:000$000, e, em 16 de Junho seguinte, eram-lhe adjudicadas as mesmas obras, sendo a escritura de adjudicação assinada no dia 25.
O decreto de 14 de Agosto de 1900 aprovou todas as cláusulas do contrato celebrado com Luiz da Rocha Machado, à excepção da que estabelecia que o fornecedor de águas às embarcações seria o adjudicatário, o que deu motivo a que este, julgando-se lesado nos seus interesses, pedisse a rescisão do mesmo contrato, a qual lhe foi concedida pela Câmara antes da execução de quaisquer trabalhos.
A pesar deste contratempo, a Câmara não desistiu de dotar o Funchal com um melhoramento que era exigido pela higiene e pelas conveniências públicas, e, em 19 de Julho de 1908, resolvia contrair com a Caixa Geral dos Depósitos um empréstimo de 400 contos, ao juro de 5%, destinado às obras em projecto, devendo a importância deste empréstimo ser entregue ao Município em prestações de 50 contos, à medida que os trabalhos o exigissem. Metade da referida quantia de 400 contos e os respectivos juros ficariam à conta do Estado, e a outra metade à conta da Junta Geral, tudo de conformidade com o despacho ministerial de 25 de Janeiro de 1906 e a deliberação tomada pela mesma Junta em sessão de 4 de Julho de 1908.
O contrato celebrado entre a Câmara e a Caixa Geral dos Depósitos para a concessão do referido empréstimo tem a data de 22 de Agosto de 1908, e, em 17 de Outubro seguinte, abria-se concurso para a execução das obras de captação das águas das nascentes dos Tornos, e sua canalização até um reservatório a construir no sítio do Caminho dos Saltos, sendo a base da licitação a quantia de 32:030$000 réis.
Tendo-se comprometido os dois concorrentes, Luiz da Rocha Machado e João Albino Rodrigues de Sousa, em sessão camarária de 22 de Dezembro de 1908, a executar os referidos trabalhos pela quantia de 24:380$000, foi-lhes adjudicada a empreitada por termo lavrado na secretaria da Câmara em 23 de Janeiro do ano seguinte.
2Empreitadas, litígios e a guerra
As obras ficaram concluídas em 22 de Outubro de 1910, e, em 22 de Novembro de 1911, mandou a Câmara abrir concurso para a execução completa de todas as obras de abastecimento de águas potáveis e canalização de esgotos da cidade do Funchal, estabelecendo como base de licitação a quantia de 263:460$00 réis.
Tendo ficado deserto este concurso, dois outros foram abertos ainda, em que figurou como nova base de licitação a quantia de 276:633$00 réis, sendo a empreitada entregue finalmente a João Pinto Correia em 21 de Outubro de 1912, o qual se comprometera a executar todas as obras por 316:000$000 réis.
A Comissão Distrital não aprovou esta adjudicação de sorte que, em 14 de Junho de 1913, anunciava a Câmara que mais uma vez se achava aberto concurso público para a execução das mencionadas obras, vindo a empreitada a ser arrematada pela firma comercial Luiz da Rocha Machado & C.ª em 26 de Julho do mesmo ano, a qual havia oferecido um lanço inferior em 24:650$000 réis à base da licitação. Era esta de 323:500$000 réis, sendo 161:400$000 réis para as obras de abastecimento de águas, e 162:100$000 réis para as de canalização de esgotos.
A deliberação camarária que entregou a empreitada à referida firma foi confirmada pela Comissão Distrital em 8 de Agosto de 1913, e, em 23 do mesmo mês e ano, celebrava-se o contrato de adjudicação, o qual sofreu mais tarde as modificações constantes do termo lavrado em 22 de Setembro de 1914.
Por várias vezes, procurou a Comissão Administrativa da Levada de Santa Luzia criar obstáculos ao aproveitamento das águas dos Tornos para o abastecimento da cidade, mas, por fim, conseguiu a Câmara Municipal chegar a um acordo com ela, celebrando-se em 3 de Julho de 1912 uma escritura, pela qual era reconhecido à Municipalidade o direito de captar nas mesmas nascentes, e para o mencionado fim, o fluxo continuo de 18 litros de água por segundo. Esta escritura, pela qual a Câmara fez também algumas concessões à referida levada, foi publicada nos n.os 11:291, 11:292 e 11.293 do jornal funchalense Diário de Notícias. Habilitada a Câmara com os meios e recursos precisos para dotar a cidade com águas potáveis e uma boa rede de esgotos, parecia impossível que podessem surgir quaisquer obstáculos à realização de tão importante melhoramento, sobretudo depois da adjudicação dos trabalhos. Não contavam, porém, nem a Câmara nem o público com a guerra europeia, que havia de fazer subir de uma forma extraordinária o preço dos materiais de construção e tornar impossível a execução das obras nas condições da adjudicação.
Em 29 de Novembro de 1916, deferiu a Câmara um requerimento do empreiteiro datado de 20 do mesmo mês, em que era pedida a rescisão do contrato celebrado para o abastecimento de águas e canalização de esgotos do Funchal, e, em 25 de Julho do ano imediato, recebia o mesmo empreiteiro a quantia de 80:029$468 réis, por saldo do preço dos trabalhos que havia executado. Antes disso, tinha ele recebido 20:814$918 réis em 22 de Abril de 1915, e 8:041$805 réis em 8 de Abril de 1916, sendo portanto de 108:886$191 réis a importância total que lhe foi paga pela Câmara.
3Continuação das obras
Há canos para água e esgotos assentes pelo empreiteiro na Avenida Manuel de Arriaga e R. da Imperatriz, e canos só para esgotos na R. das Hortas, desde a Avenida de João de Deus até a Avenida de Pedro José de Ornelas, etc. Além destas canalizações, recebeu a Câmara por ocasião da rescisão do contrato, diversos maquinismos, ferramentas, utensílios e materiais, realizando mais tarde, e já por sua conta, a mudança dos tubos de condução de águas desde os Saltos até o Torreão, e desde este último local até à fonte do Colégio. Como se vê do que fica exposto, muito há ainda a fazer para dotar o Funchal com boa água potável e um moderno sistema de esgotos. Tendo desaparecido, porém, os principais obstáculos que se opunham ao prosseguimento das obras, visto estar acabada a guerra europeia, licito é esperar que estas recomecem dentro em pouco, como se torna indispensável para robustecer os créditos duma cidade visitada por estrangeiros, e cujo clima tem merecido as mais elogiosas referências da parte de muitos médicos distintos. A 18 de Março de 1929, resolveu a Comissão Administrativa da Câmara Municipal do Funchal que o seu presidente, capitão Francisco Silvestre Varela, fosse a Lisboa tratar junto do governo central de vários assuntos que bastante interessavam ao município e muito particularmente aos trabalhos do saneamento da cidade, sendo a 14 de Junho daquele ano publicado o decreto n.º 16.956, que autorizou a Câmara a contrair na Caixa Geral dos Depósitos o empréstimo de sete mil contos, destinados exclusivamente à realização desses trabalhos.
A 3 de Novembro de 1931, foi o engenheiro Rodrigo Guimarães encarregado de actualizar o projecto de abastecimento de água potável elaborado pelos engenheiros João Von Hafe e Adriano Trigo, e, a 19 de Janeiro de 1932, deu-se de arrematação o assentamento da canalização de águas na zona baixa da cidade, limitada ao sul pelo mar e ao norte pela curva de nível à cota de 60 metros, pela importância de 209.250$00 escudos, sendo iniciadas estas obras no mês de Fevereiro de 1932 e concluídas no dia 3 de Novembro de 1933.
Na sessão camarária de 13 de Novembro de 1932, foram criados os Serviços Municipalizados, competindo-lhes particularmente superintender nos trabalhos do saneamento e da distribuição domiciliária das águas potáveis. Tendo duas vezes ficado deserto o concurso para a adjudicação das obras de canalização nas zonas média e alta da cidade, tomaram os Serviços Municipalizados o encargo da realização desses trabalhos, orçados na importância de 552:259$00 escudos, “achando-se ainda por concluir um pequeno troço alimentado por um sifão a construir na ribeira de Santa Luzia”, e havendo-se lançado já uma tubagem na extensão de 3.700 metros.
Impunha-se a imediata construção dum grande reservatório de betão na Levada de Santa Luzia, com a capacidade de 7.000 metros cúbicos, o qual foi adjudicado pela quantia de 753.640$00 escudos, fazendo-se a sua inauguração no dia 27 de Maio de 1934, com aparatosa solenidade.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 10-
Foram realizados os primeiros estudos para o abastecimento de água potável ao Funchal.
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Luís da Rocha Machado propôs-se construir as obras de abastecimento de água e saneamento do Funchal por 359 contos.
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A Câmara Municipal do Funchal contraiu um empréstimo de 400 contos junto da Caixa Geral de Depósitos para as obras de abastecimento de água à cidade.
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Foram concluídas as obras de captação das nascentes dos Tornos e de condução da água até um reservatório nos Saltos, para abastecer o Funchal.
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A Câmara Municipal do Funchal chegou a acordo com a Levada de Santa Luzia sobre as nascentes dos Tornos, obtendo o direito a 18 litros por segundo.
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Luiz da Rocha Machado & C.ª ganhou a empreitada das obras completas de abastecimento de água e saneamento do Funchal.
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A Câmara Municipal do Funchal rescindiu o contrato das obras de abastecimento de água devido ao aumento do custo dos materiais provocado pela guerra.
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O Decreto n.º 16.956 autorizou um empréstimo de 7 000 contos para as obras de saneamento do Funchal.
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Foram instaladas condutas de água na zona baixa do Funchal entre fevereiro de 1932 e novembro de 1933.
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A Câmara Municipal do Funchal criou os Serviços Municipalizados para gerir o saneamento e a distribuição de água.
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Foi inaugurado um reservatório de betão com capacidade de 7 000 m³ junto à Levada de Santa Luzia, destinado ao abastecimento de água ao Funchal.
Lugar
Lugares mencionados · 13No estrangeiro
- Avenida João de Deus
Funchal. Ponto inicial das condutas de esgoto na Rua das Hortas.
Ponto de partida das canalizações de esgoto da Rua das Hortas.
- Avenida Manuel de Arriaga
Funchal. Avenida onde foram instaladas condutas de água e de esgoto.
A Avenida Manuel de Arriaga é uma rua do Funchal, anteriormente Praça da Constituição, onde o Clube Restauração tinha a sua sede. Nela se encontrava um dos oratórios da Paixão, e ao longo da rua foram instaladas canalizações de água e esgoto.
- Avenida Pedro José de Ornelas
Funchal. Ponto final das condutas de esgoto na Rua das Hortas.
A Avenida Pedro José de Ornelas é uma avenida do Funchal, designação atual da antiga via chamada Caminho da Pena, prolongada pela estrada para automóveis até ao Monte. Assinalava o quarto vértice do perímetro que delimitava a cidade em 1909.
- Caminho dos Saltos
Funchal. Local do reservatório que recebia a água dos Tornos.
O Caminho dos Saltos é um caminho no Funchal por onde passou a última procissão de penitência rigorosa com a imagem do Monte. Ali se encontra um reservatório que recebe a água dos Tornos para o abastecimento da cidade.
- Fonte do Colégio
Funchal. Fonte situada no extremo das condutas reinstaladas.
Fonte no extremo das canalizações reinstaladas.
- Funchal
Cidade cujo abastecimento de água e rede de esgotos são abordados.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Levada de Santa Luzia
Funchal. Levada cuja comissão contestou a utilização da água dos Tornos; local do reservatório de 1934.
A Levada de Santa Luzia é a mais antiga e importante levada particular da Madeira. Nasce na bacia da ribeira de Santa Luzia e foi protegida por um alvará régio de 1515. No século XVI, regava canaviais; atravessa grande parte da freguesia de Santa Luzia, assinalando o seu limite norte, e é acompanhada por uma estrada com vistas panorâmicas e quintas. A sua comissão disputou com a Câmara as nascentes dos Tornos, onde foi construído um reservatório em 1934.
- Lisboa
Portugal. Capital onde o presidente da Câmara procurou obter financiamento em 1929.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Ribeira de Santa Luzia
Funchal. Ribeira onde estava prevista a construção de um sifão.
A Ribeira de Santa Luzia é uma das três ribeiras que atravessam o Funchal e deve o nome a uma capela de Santa Luzia na sua margem esquerda. As suas margens terão sido as primeiras terras regadas por levadas e tinham quatro engenhos de açúcar no final do século XVII. Alimenta as levadas de Santa Luzia, dos Moinhos e de D. Isabel; na sua margem direita situava-se a residência dos Jesuítas na Fundoa.
- Rua da Imperatriz
Funchal. Rua onde foram instaladas condutas de água.
Rua onde foram instaladas canalizações.
- Rua das Hortas
Funchal. Rua com condutas de esgoto.
A Rua das Hortas, anteriormente chamada Rua do Ribeirinho, situa-se na freguesia de Santa Luzia, no Funchal, e faz parte do limite da freguesia. Em 1919, recebeu o nome de Rua do Alferes Veiga Pestana, em homenagem a um alferes morto em França em 1918. O Asilo dos Velhinhos mudou-se para esta rua, onde a Escola Industrial António Augusto de Aguiar ocupou um edifício a partir de 1938.
- Tornos
Funchal. Nascentes captadas para abastecer a cidade.
Os Tornos são um conjunto de nascentes abundantes no Montado do Barreiro, concelho do Funchal, com um caudal de cerca de 900 litros por minuto. Aumentam o caudal da ribeira de Santa Luzia e foram captadas para o abastecimento de água potável da cidade, incluindo o chafariz do Largo do Poço. As suas águas foram analisadas em 1900.
+ 1 mais
Pessoas
Pessoas mencionadas · 07- Adriano Augusto Trigon. 1862
Engenheiro coautor do projeto inicial de abastecimento de água ao Funchal.
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Presidente da comissão administrativa do Funchal, enviado a Lisboa em 1929 para obter financiamento para as obras de saneamento.
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Cocontratante da captação das nascentes dos Tornos em 1908–1910.
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Foi-lhe adjudicada a totalidade das obras em 1912, mas a adjudicação foi rejeitada pela Comissão Distrital.
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Engenheiro coautor do projeto inicial de abastecimento de água ao Funchal.
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Empreiteiro a quem foram repetidamente adjudicados contratos para as obras de abastecimento de água e saneamento do Funchal, tendo rescindido dois deles (1900, 1908, 1913).
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Engenheiro encarregado, em 1931, de atualizar o projeto de abastecimento de água.