Fichas 1Origem e uso das fichas
Fichas
Entrada sobre as fichas ou tentos particulares emitidos por casas comerciais, clubes e instituições madeirenses a partir de 1793 para suprir a falta de trocos e pagar aos carreteiros; reproduz o catálogo das emissões conhecidas publicado por Carlos da Silva Carvalho em 1908.
1Origem e uso das fichas
O Almanach de lembranças Madeirense, para o ano de 1908 publicou um artigo intitulado Fichas Madeirenses, escrito pelo nosso patrício Dr. Carlos da Silva Carvalho, funcionario da Alfândega de Lisboa, que com a devida vénia vamos transcrever, sendo este o trabalho mais completo que sobre o assunto conhecemos:
«Andam tão ligadas ao desenvolvimento commercial desta ilha, as fichas ou tentos, quer servindo para facilitar os trocos nos tempos em que a moeda miuda escasseava, quer para pagamento de carretos aos boieiros e borracheiros que nos fins de cada semana as trocavam por moeda corrente, que julgamos dalgum interesse uma resumida noticia acerca d'aquelles equivalentes, actualmente conhecidos, ampliando assim uma resenha ha tempos publicada no Diario de Noticias desta cidade.
Datam dos fins do século XVIII as primeiras fichas conhecidas, e, honra é dize-lo, foi um madeirense quem primeiro as introduziu na circulação fiduciária, o negociante J. F. Esmeraldo; aproveitando-se seguidamente das mesmas vantagens outras casas commerciais, como as de Vicente d'Oliveira & Companhia, Phelps, Page & C.°, Colson, Smith & Robinson, Diogo Adams, etc.
A pouco e pouco se foi generalisando o seu uso e hoje é raro encontrar uma casa commercial de certa importância ou club onde se jogue que não as tenha cunhado, sendo tal a confiança que o publico deposita nestes pedacitos de latão cobre, zinco e até folha de Flandres, que quasi toda a gente os aceita, certa de que elles representam dinheiro. Haja vista as curiosas fichas do Conde da Calçada Diogo d'Ornelas Frazão (sinete sobre lacre D. O. F. e valor), que teem curso entre os numerosos feitores da mesma opulenta casa na vila da Calheta.
Além da lista que abaixo publicamos, sabemos que muitas outras casas as cunharam, mas o desleixo e os sôfregos cadinhos das fundições não nos deixaram d'ellas nenhuns vestígios.
2Lista das fichas conhecidas
1–1793–João Francisco Esmeraldo, 50, 100 e 200 rs. em latão. Muitíssimo raras, pois são conhecidos três exemplares, um de cada. 2–1799–Vicente d'Oliveira e Companhia. 40, 50, 80 e 100 rs. em cobre. São communs e estão ainda em uso na casa dos srs. Francisco da Costa & Filhos, com excepção do exemplar de 80 rs., cujo único exemplar conhecido foi offerecido em tempos pelo Exm° Padre Schmitz para um museu do estrangeiro. 3–1802–1. W. Phelps e Companhia.–40, 50 e 100 em cobre. Raras. 4 –1803–Phelps, Page & Companhia–40, 50 e 100 rs. em cobre. Raras.
Existe um erro n'algumas fichas de 100 rs., tendo no anverso cincoenta reis. Os dois únicos exemplares conhecidos pertencem aos Ex.mos Snrs. Padre Schmitz e H. Hempel.
- 5 1804–Colson, Smith e Robinson–40, 50 e 100 rs. em cobre. Excessivamente raras.
- 6 1815–Thaumaturgo de Souza Drummond–20 rs., 50 rs. (3 variedades). 75, 100 (3 variedades), e 200 rs. (3 variedades), em zinco, com curso na freguesia de S. Vicente. Foram descobertas pelo Ex.mº Sr. H. Hempel que se dignou de me offerecer uma série completa. São todas excessivamente raras.
- 7 1816–João Antonio de Bianchi–50, 60, 80 e 100 rs. em cobre, pouco vulgares.
- 8 1831–Diogo Adams & Companhia--40, 50, 60, 80 e 100 rs. em cobre, duma linda execução de cunhagem. Vulgares.
- 9 1840–Blandy Brothers & Cº.–50, 100, 200, 240, e 300 rs. em latão, e ainda em circulação.
- 10 1841–Diogo d'Ornelas Frazão (depois Visconde e Conde da Calçada), 100 e 200 rs., sinete de lacre sobre cartão, curso no engenho da villa da Calheta. Pouco vulgares.
- 11 1842–Administração do Cabrestante do Commercio–80 rs. em seis variedades. Zinco. Pouco vulgares.
- 12 1855–Carlo de Bianchi–100 rs. em folha de Flandres. Excessivamente raro. Um único exemplar em poder do Ex.m° Snr. Hempel.
- 13 Fabrica do Torreão. (W. Hinton & Sons)–50, 100, 150, 200, 250, 300, 400, 500 e 600 rs. em latão e ainda em circulação.
- 14 1876–Alfandega do Funchal–40, 50, 60, 80, 100, 200, 250, 300 e 400 rs. em latão e ainda em circulação.
- 15 1884–Fenay & Irmãos. F. 1. Contra marca sobre as do n.° 3. F. 1. Contra marca sobre as do n.° 4; existe o mesmo erro n'algumas fichas de 100 rs. F. 1. Contra marca sobre as do n.° 5. Estas ultimas excessivamente raras.
- 16 1887–Manuel Ferreira Cabral, 50 e 100 rs. em zinco. Raras.
- 17 1888–Viúva de Romano Gomes & Filhos, sem indicação de valor, em folha de Flandres.
- 18 1889–A. Izidro Gonçalves, sem indicação de valor, em chumbo.
- 19 1890–Luiz Gomes da Conceição sem indicação de valor, duas variedades em folha de Flandres.
- 20 1892–Francisco Rodrigues & Companhia, sem indicação de valor, em zinco.
- 21 1896–D. Erminio Pojal,–1 ficha em vermeil sem indicação de valor, circulando com o de 500 rs; 1 de 100 rs. em nikel; 1 de 100 rs. em vermeil; 1 sem indicação de valor em alumínio, circulando por 3$600 rs.
- 22 1896. Club Funchalense. 1. 2. 5. 10, representando 100, 200, 500 e 1$000 rs., em marfim. Raras.
- 23 1897–Krohn Brothers & C.a -40, 100, 150, 200, 240 e 500 rs. em latão.
- 24 1898–William J. Krohn–100 e 200 rs., em alumínio.
- 25 1898 -Almeida & Companhia. 24 variedades sem indicação de valor, mas com números indicando a quantidade de leite fornecido á fabrica das Adegas na Ponta do Sol, em folha de Flandres.
- 26 1899–Confraria de S. Vicente de Paulo–50 rs. em alumínio prateado. Lindissimo desenho.
- 27 1899–José Fernandes d'Azevedo–60, 100, 120, 150, 200 e 250 rs., em folha de Flandres. Pouco comuns.
- 28 1901–Casino da Quinta Vigia–200 rs. em prata.
- 29 1901–Club Restauração–-100, 200 e 500 rs., em alumínio. 100, 200, 250, 500 e 1$000 rs. em osso.
- 30 1901–Cory's Madeira Coaling Company Limited–2 variedades sem indicação de valor (em cobre). 1 sem indicação de valor. em alumínio.
- 31 1902–Cossart Gordon & Companhia. 50, 100 e 200 rs. em nikel, 50, 100, 200, e 500 rs. em latão.
- 32 1902–Wilson Sons & Company Limited, sem indicação de valor, em latão.
- 33 1903–Club Recreio Musical–50, 100, 200, 250, 500, e 1$000 rs. em alumínio prateado. Soberba gravura.
- 34 1903–John Payne & Sons (Sucessores Martin- Wartemberg). Com valores, em allemão: 10, 20, 50, 100 e 200 Pfenings, em latão. Idem, 1, 3, 10, 30, 50 e 100 Pfenings em alumínio.
- 35 1904–Luiz Augusto da Silva Carvalho. L A S C. 120 rs. Contra marca sobre 40, 50, 60 e 80 rs. do n.° 8. L A S C. 200 rs. Contra marca sobre 40, 50, 60 e 80 rs. do n.° 8. Raras.
- 36 1905–Carlos Teixeira–2 variedades sem indicação de valor, em folha de Flandres.
- 37 1905–M. Gonsalves & Companhia– 2 variedades sem indicação de valor, em zinco, e 1 sem indicação de valor, em cobre.
- 38 1905–Forte de São Philippe (A. Giorgi & Companhia)–1 sem indicação de valor, em latão.
Fichas que se julgam terem circulado na Madeira, cujas casas se ignoram:
- 1.° S. I. D. & Cª–Sem data, 40, 50 e 100 em cobre, existentes na collecção do Snr. Andrade, madeirense residente no Brasil. Em Fevereiro de 1907, foi vendido por 6 florins em Amsterdam um exemplar de 40 rs. (Samuel John Dreff & C.º?)
- 2.° R. I. M.–sem data, sem valor, em cobre, encontrada nas obras do caes da Casa Blandy, á Pontinha, existente no museu do Seminário.
- 3.º O. P. sem data, sem valor, em latão. (Obras Publicas?)
- 4.° 10 e 50 sem data, sem valor, em latão.
- 5.° CFF 3 variedades sem data, sem valor, em zinco.–(Correia, França & Filhos?)
- 6.° P. L). sem data e sem valor, em cobre.
- 7.° W. H. sem data, sem valor, em cobre (William Hatchison?)
Fichas com curso em Portugal, Madeira e Açores. T (abaco), S (abão), P. (olvora). (5 variedades PX RX PXX RXX PXXX)».
No jornal alemão Munz Blatter publicou o rev.° padre E. Schmitz uma pequena noticia acerca das fichas madeirenses, tendo-se ocupado também do mesmo assunto o Sr. major Alberto Altur Sarmento, num artigo que apareceu no extinto Diário do Commercio do Funchal.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 05-
João Francisco de Freitas Esmeraldo emitiu as primeiras fichas madeirenses conhecidas.
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Diogo d'Ornelas Frazão emitiu fichas para o seu engenho de açúcar na Calheta.
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A Alfândega do Funchal emitiu fichas de latão.
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Uma ficha madeirense de 40 réis foi vendida em Amesterdão por 6 florins.
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O artigo «Fichas Madeirenses», de Carlos da Silva Carvalho, foi publicado no Almanach de lembranças Madeirense.
Lugar
Lugares mencionados · 07No estrangeiro
- Amesterdão
Netherlands. Local onde uma ficha madeirense foi vendida em fevereiro de 1907.
Local onde se vendeu uma moeda convencional madeirense em fevereiro de 1907.
- Calheta
Local onde as fichas do Conde da Calçada circularam no seu engenho de açúcar.
A Calheta é uma vila, freguesia e concelho na costa sudoeste da Madeira e um dos povoamentos mais antigos da ilha. O Elucidário aborda o seu nome, os primeiros povoadores, como Pedro Berenguer, a igreja e numerosas capelas, incluindo uma de um antigo convento franciscano, e o motim de 1834.
- Forte de São Filipe
Funchal. Figura numa ficha de latão emitida em 1905 por A. Giorgi & Companhia.
Antigo forte do Funchal, situado entre as ribeiras de Santa Luzia e de João Gomes, provavelmente construído durante o domínio filipino e cedido à Câmara Municipal após um pedido de 1896. O seu nome figura numa ficha de latão de 1905.
- Ponta do Sol
Local da fábrica de laticínios das Adegas, cujas fichas registavam o leite fornecido.
Freguesia e concelho da costa sul, povoados a partir de cerca de 1440 por Rodrigo Enes «o Coxo». A igreja paroquial de Nossa Senhora da Luz conserva um tríptico. O Elucidário regista também o cais de 1848, pago pela Câmara Municipal, e a visita régia de 1858.
- Pontinha
Machico. Foi aqui encontrada uma ficha de origem desconhecida durante obras no cais da Blandy.
A Pontinha é a projeção costeira no extremo ocidental da baía do Funchal, originalmente chamada Ilhéus devido a dois ilhéus rochosos, mais tarde ligados à costa por muros e pelo molhe concluído em 1889. O Elucidário descreve os seus fortes, a capela, o farol, o cais de passageiros e a estrada, os danos causados por tempestades em 1757 e 1892 e o posto de desinfeção marítima ali instalado a partir de 1901. Foi local de desembarque de visitantes ilustres, como o núncio e a arquiduquesa Leopoldina. Um sítio com o mesmo nome figura também entre os principais sítios da freguesia de Machico.
- Quinta Vigia
Funchal. O seu casino emitiu fichas de prata em 1901.
Quinta pertencente ao Estado, na freguesia de São Pedro, no Funchal, conhecida pelas suas árvores exóticas raras. Serviu de residência à rainha Adelaide, à imperatriz da Áustria (1860–1861) e ao príncipe de Oldenburgo. Mais tarde, tornou-se quartel da Guarda Republicana, teve um casino que emitiu fichas em 1901 e foi atingida por um projétil no bombardeamento de 1916.
- São Vicente
Freguesia onde circularam as fichas de zinco Drummond.
São Vicente é descrita como a maior e mais populosa freguesia do norte da Madeira e sede da única vila da costa norte. O Elucidário aborda o seu povoamento, a história da igreja, os sítios e a paisagem, bem como o deslizamento de terras de 1929, que causou vítimas mortais.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 15- Alberto Artur Sarmenton. 1878
Major do Exército que escreveu sobre fichas madeirenses no Diário do Commercio do Funchal.
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Emitiu uma ficha de folha de Flandres em 1855.
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Funcionário madeirense da Alfândega de Lisboa que escreveu o artigo de 1908 sobre fichas madeirenses aqui transcrito.
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Emitiu fichas de folha de Flandres em 1905.
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Mais tarde Visconde e Conde da Calçada, as suas fichas de lacre de 1841 circularam no seu engenho de açúcar na Calheta.
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Emitiu fichas de vários metais em 1896.
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Colecionador que descobriu as fichas Drummond de São Vicente e possuía vários exemplares únicos.
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Emitiu fichas de cobre em 1816.
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Comerciante madeirense a quem é atribuída a emissão das primeiras fichas conhecidas, em 1793.
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Emitiu fichas de folha de Flandres em 1899.
+ 5 mais
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Contramarcou fichas de Diogo Adams com as suas iniciais em 1904.
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Emitiu fichas de zinco em 1887.
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Padre e colecionador que possuía fichas raras e escreveu sobre fichas madeirenses numa revista alemã de numismática.
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Emitiu fichas de zinco em 1815 que circularam na freguesia de São Vicente.
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Emitiu fichas de alumínio em 1898.