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São Roque (Águas de) 1Análise química
Artigo Nº 3382 Ribeira, vale ou água interior Santana Vol. III · pp. 486–489 5 min de leitura

São Roque (Águas de)

Reproduz a análise química e bacteriológica realizada em 1896 por Charles Lepierre à água fria da Fonte de São Roque, em Machico, há muito reputada pelas suas virtudes terapêuticas. A água foi classificada como hipotermal, hipossalina e cloretada sódica, sem bactérias coliformes.

São Roque (Águas de)

No estrangeiro

Mapa: Madeira (7)

1Análise química

No artigo Machico (Estação Sanitária de), fizemos já referência ás águas das fontes de São Roque da vila de Machico, que tem notáveis virtudes terapêuticas, como é geralmente sabido e como é afirmado por muitos e distintos médicos. Sendo hoje difícil encontrar-se o resultado da analise dessas águas, a que procedeu o ilustre químico e analista Charles Lapierre, julgamos de algum interesse reproduzi-lo neste lugar.

«Tendo sido encarregado pela ex.ma Câmara Municipal de Machico de examinar sob o ponto de vista químico e bacteriologico a água fria da fonte de «S. Roque» muito afamada e usada como agente terapêutico, apresentarei o resultado das minhas experiências que constam do seguinte relatório que se acha dividido em três partes:

  1. 1.º Analise química
  2. 2.º analise bacteriologica
  3. 3.° conclusões gerais.

1.ª ANALISE QUIMICA – Os processos que segui são os mais usados neste género de trabalhos nos Laboratórios oficiais portugueses e estrangeiros.–A Ensaios qualitativos–

Demonstraram estes ensaios que a água continha: Muitos cloretos, bastantes sulfatos, bastantes carbonatos, bastante cal e magnesia, muito sódio B.–Ensaios quantitativos (por litro). 1.º - Resultados directos da analise, Resíduo a 180º 0,5324 gramas, Oxigénio dissolvido 6,3 c. c, Acido Carbónico combinado (dos carbonatos) 0,0320 gr., Sílica Óxido de ferro, alumina 0,0220, Cal (CaO) 0,0288 gr., Magnesia (Mg.) 0,0397, Sódio 0,1.460, Acido sulfurico (SO3) 0,0222, Chloro total 0,2.485. Nitrato de potassio 0,0030 ou azote nitrico 0,42 mig.

Matérias orgânicas solução acida e alcalina –nulas; Amoníaco nulo, Nitritos nulos. 2.° - Agrupamento dos elementos (por litro) Sílica, Óxido de ferro, Alumina 0,0025, Nitrato de potássio 0,0030, Sulfato de magnésio 0.0423, Carbonato de cálcio 0,0407, Carbonato de magnésio 0,0269, Cloreto de magnésio 0,0305 Cloreto de sódio, 0,3717, soma dos elementos 0,5377. Resíduo, 0,5324.

A comparação entre a soma dos elementos determinados e o resíduo obtido directamente pela evaporação verifica a exactidão da analise.

2Análise bacteriológica

II ANALISE BACTERIOLOGICA – No próprio dia da chegada das águas em Coimbra, tratei de fazer as sementeiras precisas nos diversos meios nutritivos para procurar:

  1. 1.º A quantidade de bactérias existindo num centímetro cúbico de água.
  2. 2.º A existencia de bactérias do grupo do Coli-bacilo a que se está ligando hoje grande importância.

1ª QUANTIDADE DE GERMENS – Não descrevi os processos seguidos por já o ter feito no relatório sobre as águas do Funchal que dirigi á Ex.ma Câmara Municipal dessa cidade, e que foi impresso na Coimbra Medica e em jornais madeirenses.

Contudo, repito, que não se deve ligar grande importância ao valor absoluto dos algarismos achados, visto o numero de germens, aumentar muito desde que a água esteja submetida a diferenças no meio, na temperatura, etc. Pelo processo das placas de gelatina examinadas 8 e 13 depois da sementeira, achei: Por centímetro cúbico em 8 dias 2 700 bactérias, em 13 dias 3.060. Fungos em 8 dias 150 em 13 dias 160. Entra, segundo as classificações de Miguel, no Grupo da «Água Sofrível».

As espécies desenvolvidas eram todas Saprofitas vulgares não aparecendo nenhuma considerada hoje como sendo patogenica.

  • 2.° PESQUIZAS DE ESPECIES COLIFORMES – A água submetida simultaneamente ao processo de Elsner e de Péré (vid. Relatório do Funchal) não apresentou nenhuma espécie coliforme nas numerosas placas semeadas.

Deve-se ligar maior importância a este resultado do que ao precedente baseado no numero de germens.

Nos primeiros dias apareceram duas colónias suspeitas pela sua aparência microscópica; faziam fermentar os assucares, mas não produziam indol. Passados seis dias liquefaziam a gelatina; por conseguinte não se tratava de bactérias do grupo do bacilo coli.

O facto de não aparecer em estas espécies está de harmonia com a analise química e demonstra as boas condições de captação e canalização da água da fonte de «São Roque», não existindo entre esta e os terrenos próximos comunicação que pudesse dar lugar a inquinações que alterariam a pureza de água da fonte.

3Conclusão

III CONCLUSÃO – A água minero-medicinal da fonte de «São Roque» pertence á classe das águas hypothermais Hyposalinas, Chloretadas-Sodicas.

Pela sua composição química assemelha-se no continente com as águas de Amieira, analisadas pelo Sr. Santos e Silva, e com as águas do Bicanho, e das «Geiras» (perto de «Amieira») de Fonte Nova (perto de Torres Vedras) também minero-medicinais e que analisei.

Tanto as minhas analises como as de «Amieira» foram publicadas na «Coimbra Medica».

Por analogia com estas águas cujos efeitos terapêuticos já são conhecidos, é natural que seja a água da fonte de «São Roque» própria para os casos patológicos em que as primeiras dão resultado positivo, por exemplo no escrofulismo, afecções cutâneas, perturbações gástricas, etc.

Porém não me compete entrar em desenvolvimento a este respeito, não sendo este o papel do químico, mas sim do clínico que á vista da composição da água e dos resultados colhidos pudera formular parecer scientificamente baseado.

Posso acrescentar que a analise bacteriologica indica que, a água parece apresentar-se em boas condições de captação. Coimbra, 4 de Julho de 1896.

Charles Lepierre

Professor de química na Escola Industrial de Coimbra e preparador no Gabinete de Microbiologia da Universidade, sócio correspondente da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Oficial da Ordem de São Tiago etc.»

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 01
  1. Charles Lepierre assinou em Coimbra o seu relatório sobre a água da Fonte de São Roque, em Machico.

Lugar

Lugares mencionados · 07
  1. Águas de São Roque · Assunto

    Santana · Machico

  2. Amieira

    Portugal. Estância termal de Portugal Continental cuja água Lepierre considerou comparável à de São Roque.

  3. Coimbra

    Portugal. Cidade onde foi realizada a análise e assinado o relatório.

  4. Fonte de São Roque

    Machico. Nascente medicinal cuja água foi analisada.

  5. Funchal

    Lepierre já tinha analisado as águas do Funchal para a respetiva Câmara Municipal.

  6. Machico

    Vila onde se situam as nascentes de São Roque.

  7. Torres Vedras

    Portugal. A Fonte Nova, perto de Torres Vedras, era outra nascente de Portugal Continental com água comparável.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 03
  1. Professor de Química na Escola Industrial de Coimbra que analisou a água da Fonte de São Roque para a Câmara Municipal de Machico em 1896.

  2. Autor da classificação da qualidade da água utilizada por Lepierre, segundo a qual a água de São Roque era considerada «água tolerável».

  3. Químico que analisou as águas da Amieira, comparadas por Lepierre com a água de São Roque.

Na folha S

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.