República (Proclamação da) 1A notícia e a posse do governador civil
República (Proclamação da)
Relato de como a proclamação da República Portuguesa (5 de outubro de 1910) foi recebida e concretizada no Funchal entre 5 e 7 de outubro de 1910, incluindo a tomada de posse do novo governador civil e a marcha indisciplinada do Regimento de Infantaria n.º 27. O Elucidário assinala que a mudança de regime não encontrou resistência e foi acolhida favoravelmente por quase todos.
1A notícia e a posse do governador civil
A noticia da proclamação da Republica na capital foi conhecida na Madeira na tarde do dia 5 de Outubro de 1910, chegando pouco depois um telegrama anunciando a constituição do governo. No dia 6, o Dr. Manuel Augusto Martins investido, em virtude de telegrama do novo governo, na autoridade superior do distrito, conferenciou acerca dos acontecimentos com o conselheiro António Jardim de Oliveira, secretario geral servindo de governador civil, e com o coronel Valeriano José da Silva, comandante militar, e sendo-lhe declarado por estas autoridades que não tinham recebido comunicação oficial de se achar implantada a Republica no país, imediatamente ele telegrafou para Lisboa pedindo que essa comunicação fosse feita, afim de poder tomar posse do lugar para que fora nomeado e ser reconhecido pelos madeirenses o novo governo.
A comunicação ao comandante militar não se fez esperar, declarando então esta autoridade que se não opunha a que fosse hasteada a bandeira republicana na fortaleza de São Lourenço e a que as forças lhe prestassem as devidas honras, realizando-se estes actos pouco depois na fortaleza de S. Lourenço e assistindo a eles o Dr. Martins e vários correligionários, que se haviam postado na varanda do Club Restauração, que deita sobre a avenida de Gonçalves Zargo. A nova bandeira foi saudada militarmente pela guarda, que tinha formado para esse fim, tocando uma filarmónica nessa ocasião a Portuguesa, que todos ouviram em silêncio e com o maior acatamento. Usaram da palavra na referida varanda o Dr. Martins, Azevedo Ramos, o Dr. Pestana Júnior e o Dr. Gonçalves Preto, aconselhando todos ordem ao povo e o respeito individual.
A posse do novo governador civil, conferida pelo oficial Octaviano Soares, visto o secretario geral se não achar presente, teve lugar antes da cerimónia a que acabamos de nos referir, sendo içada a bandeira revolucionária no mastro do Governo Civil e ouvindo-se nessa ocasião a Portuguesa. O Dr. Martins levantou vivas à Republica, á Liberdade e á Pátria, que foram calorosamente correspondidos pelo povo que se achava na rua.
Á noite, numerosos grupos, acompanhados das filarmónicas Artistico-Madeirense e artistas Funchalenses, percorreram as ruas da cidade, queimando fogos de Bengala e dando vivas à Republica. Ao terminar a manifestação, falou Azevedo Ramos ao povo numa das janelas do centro do «Dr. Manuel de Arriaga».
2O movimento das tropas
No dia 7, pelas 9 horas e meia da manhã, foi hasteada a bandeira republicana na fortaleza de S. Tiago, salvando a bataria, pela 1 hora da tarde, realizou-se cerimónia idêntica na fortaleza de S. Lourenço, com a assistência do regimento de infantaria n.° 27 que, trazido por alguns sargentos, saíra do seu quartel, armado de espingardas e baionetas, em contravenção da ordem de prevenção que fora dada pelo comandante a fim de poder acudir a qualquer pedido da autoridade administrativa, no caso de alteração da ordem publica.
Na Praça da Constituição, compareceram alguns oficiais, entre os quais o capitão Henrique Luís Monteiro, que tentou impor disciplina ás tropas, não sendo porém atendido, subindo então a um banco da mesma praça o Dr. Pestana Júnior, administrador do concelho do Funchal, que declarou que nenhum oficial do regimento atentaria contra o novo regímen político, segundo lhe havia declarado o mesmo capitão sob sua palavra de honra, e que nestas condições as praças deviam obedecer aos seus oficiais e entrar na ordem. Acrescentou o Dr. Pestana Júnior que, para si, a palavra de honra do capitão Henrique Monteiro era um penhor que muito respeitava.
Pouco depois chegava ao largo da Restauração o major de artelharia Goulart de Medeiros, conhecido como republicano e que todos supunham haver concorrido para que as tropas saíssem do seu quartel, o qual, depois de haver conferenciado com o distinto e brioso oficial o capitão Henrique Monteiro, se dirigiu também ás tropas ali reunidas, exortando-as á obediência, visto a oficialidade do regimento haver aderido ao novo regimen, sendo alvo duma entusiástica manifestação de simpatia tanto da parte dos sargentos e soldados como do povo.
No entretanto, era içada na fortaleza de S. Lourenço, por um oficial do regimento, a bandeira republicana, apresentando-lhe armas as fôrças e erguendo o Dr. Pestana Júnior vários vivas que foram entusiasticamente correspondidos pelo povo.
Tendo comparecido, a pedido das tropas, a banda de musica de infantaria n.° 27, foi, por ordem do comandante militar, arriada a bandeira e de novo hasteada ao som da portuguesa, com as devidas honras, estando já a esse tempo a força sob o comando de oficiais, conforme havia pedido no seu discurso o major Medeiros. Ao passarem da praça da Constituição para o largo da Restauração, onde, como dissemos, o mesmo oficial fez uso da palavra, tinham-se recusado as praças a serem comandadas pela oficialidade, sendo o sargento-ajudante quem as dirigia.
Em seguida, o regimento acompanhado da respectiva banda de música, que tocava a Portuguesa, e sob o comando do major Luis Correia Acciaioly, percorreu as ruas de S. Francisco, Carreira, João Tavira, Aljube, Ferreiros, Príncipe, rampa de D. Manuel, largo do Pelourinho e Campo de D. Carlos, indo saudar a bataria n.° 3 de artilharia de guarnição, que se não associou ás manifestações do regimento de infantaria e manteve sempre a maior disciplina, sob o comando do capitão João Augusto Pereira.
No quartel de artilharia, onde entraram muitos populares, foram erguidos alguns vivas á Republica, prosseguindo depois as tropas e o povo pela rua de Santa Maria, largo do Pelourinho, rampa de D. Manuel, ruas do Príncipe e Ferreiros, largo do Colégio e rua do Castanheiro, e dando finalmente entrada no seu quartel, onde tiveram lugar novas manifestações de regozijo.
A pedido dos sargentos e praças de infantaria, o comandante militar coronel Valeriano José da Silva deu por concluída a prevenção do regimento e mandou retirar o busto e o retrato de D. Manuel II, que se achavam no seu gabinete do quartel, determinado igualmente que cessasse o cumprimento de todas as penas disciplinares.
Chamou-se ao movimento de tropas que teve lugar no dia 7 uma manifestação publica de adesão á Republica, mas aqueles que analisaram os factos a sangue frio, consideraram esse movimento como uma insubordinação de carácter grave, embora pouco para estranhar num período revolucionário, em que a disciplina e os regulamentos militares são em geral pouco respeitados.
Vimos nas proximidades da antiga praça da Constituição muitos ingleses que na manhã do dia 7 haviam desembarcado no Funchal fugirem espavoridos ao avistarem os soldados armados que se dirigiam em desordem para a mesma praça, mas manda a verdade que se diga que, afora a indisciplina e a recusa dos mesmos soldados em atender as ordens dos seus oficiais, nada mais digno de censura houve a registar nesse dia, quer da parte da tropa quer da do povo.
A proclamação da Republica fez-se na Madeira sem obstáculos de qualidade alguma, e, apesar de alguns actos insensatos praticados depois por indivíduos facciosos e pouco respeitadores das opiniões e crenças alheias, foi o novo regímen bem acolhido por quase toda a gente, pois se supunha então que á sombra dele entraria a moralidade na administração dos rendimentos do Estado e não mais se cometeriam os erros e desvarios que tanto haviam desacreditado os governos dos últimos tempos da monarquia.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 01-
A República Portuguesa foi proclamada em Lisboa; a Madeira aderiu de imediato, os partidos monárquicos desapareceram e o parlamento eleito em agosto nunca chegou a reunir-se.
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O Dr. Manuel Augusto Martins foi nomeado governador civil da Madeira pelo Governo Provisório da República e tomou posse em 6 de outubro, dia em que a bandeira republicana foi hasteada em São Lourenço.
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O Regimento de Infantaria n.º 27 saiu do quartel sem ordens e marchou pelo Funchal em apoio da República.
Lugar
Lugares mencionados · 11- Avenida Zarco
Funchal. Avenida para a qual dava a varanda do Club Restauração.
A Avenida Zarco é uma avenida do Funchal que substituiu a antiga Entrada da Cidade, construída em 1839 após a demolição da porta da Saúde. Entre os edifícios situados na avenida ou com vista para ela contavam-se o antigo edifício da Associação Comercial, que acolhia a Escola Elementar do Comércio, a sede do Clube Republicano da Madeira e o Club Restauração. Nela foi erguido um arco triunfal para o quinto centenário do descobrimento da Madeira, e um cortejo de visitantes de Tenerife foi ali recebido ao som do hino espanhol.
- Campo de D. Carlos
Funchal. Situado no percurso até ao quartel de artilharia.
Situado no percurso até ao quartel de artilharia.
- Club Restauração
Funchal. A sua varanda serviu de tribuna para discursos republicanos.
A sua varanda serviu de tribuna para discursos republicanos.
- Fortaleza de São Lourenço
Funchal. Local onde a bandeira republicana foi hasteada em 6 e 7 de outubro de 1910.
A Fortaleza de São Lourenço, no Funchal, começou por ser um simples baluarte no tempo do quarto e do quinto capitães-donatários e ficou concluída até ao reinado de D. Sebastião; a entrada principal está voltada para o Largo da Restauração. Mais tarde, serviu de palácio e acolheu a estação meteorológica do Funchal. Nela foi hasteada a bandeira republicana nos dias 6 e 7 de outubro de 1910. O Elucidário regista ainda os seus emblemas heráldicos, uma inscrição de 1635, uma antiga Capela de São Lourenço e a destruição da estátua do santo em 1911.
- Fortaleza de São Tiago
Funchal. Local onde a bandeira republicana foi hasteada na manhã de 7 de outubro.
Fortaleza na frente marítima do Funchal, no extremo oriental da praia de desembarque, datada de 1614, durante o domínio espanhol, e reconstruída em 1767; albergou mais tarde uma bataria de artilharia de montanha. Ali foram detidos presos em 1823 e 1828, hasteou-se a bandeira republicana em 7 de outubro e a fortaleza disparou durante o bombardeamento do Funchal em 1916.
- Funchal
Cidade onde decorreram os acontecimentos.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Governo Civil
Funchal. Local onde a bandeira revolucionária foi hasteada durante a tomada de posse do governador.
Local onde foi hasteada a bandeira revolucionária aquando da tomada de posse do governador.
- Largo da Restauração
Funchal. Local onde o major Medeiros se dirigiu às tropas.
Largo no Funchal, junto à porta principal da fortaleza de São Lourenço, onde se encontrava a estátua de São Lourenço. Foi aberto no local do demolido Teatro Grande, durante a administração de D. Álvaro da Costa Macedo, e o seu nome recorda a restauração da Carta Constitucional em 5 de junho de 1834. O major Medeiros dirigiu-se ali às tropas aquando da proclamação da República.
- Largo do Pelourinho
Funchal. Situado no percurso do regimento.
O Largo do Pelourinho é uma praça do Funchal, já arborizada em 1508, por onde se entrava no Forte de São Filipe. A Câmara ocupou ali, a partir de 1838, uma casa danificada pela aluvião de 1842. O largo acolheu também um passo da Procissão dos Passos e as instalações da sociedade Talia, e foi onde Francisco Rodrigues Jardim foi enforcado em efígie.
- Praça da Constituição
Funchal. Praça onde as tropas se concentraram de forma desordenada.
A Praça da Constituição era uma praça do Funchal, anteriormente chamada Passeio Público, que recebeu o nome da constituição liberal ali proclamada em 28 de janeiro de 1821. Chamou-se Praça Real durante o governo de D. Miguel, passou a Praça da República em 1911 e desapareceu em 1914 com a construção da Avenida Oeste. Ficava junto ao Jardim Municipal e era ponto terminal do elétrico.
- Rua de Santa Maria
Funchal. Situada no percurso de regresso das tropas e da multidão.
A Rua de Santa Maria é uma rua antiga da freguesia de Santa Maria Maior, no Funchal, onde já existiam casas nobres em 1508. Desemboca no Largo do Poço, corre paralela à Rua Nova de Santa Maria e assinala o local da igreja de Nossa Senhora do Calhau. Tinha um passo onde parava a Procissão dos Passos e foi inundada em 1803 e 1856. Acolheu a sede do Marítimo, as primeiras instalações do Clube Washington, a escola da Missão Marquês de Pombal e a Escola Industrial António Augusto de Aguiar quando esta abriu em 1889.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 12- António Jardim de Oliveira1858–1926
Secretário-geral que exercia as funções de governador civil quando a República foi proclamada em 1910.
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Último rei de Portugal, cujo busto e retrato foram retirados do gabinete do comandante militar.
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Republicano que discursou da varanda do Club Restauração em 6 de outubro de 1910.
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Major de artilharia republicano que persuadiu as tropas a voltar à obediência.
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Capitão de infantaria que tentou restabelecer a disciplina entre as tropas em 7 de outubro de 1910.
- João Augusto Pereira1857–1915
Comandante da Bataria de Artilharia n.º 3, que manteve a disciplina durante os acontecimentos.
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Major que liderou a marcha do regimento pelo Funchal em 7 de outubro de 1910.
- Manuel Augusto Martins1867–1936
Republicano nomeado governador civil do distrito do Funchal pelo novo governo em outubro de 1910.
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Administrador do concelho do Funchal que exortou as tropas amotinadas a obedecer aos seus oficiais em 7 de outubro de 1910.
- Nicásio de Azevedo Ramos1862–1927
Republicano que se dirigiu à multidão no Funchal em outubro de 1910.
+ 2 mais
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Funcionário que deu posse ao novo governador civil na ausência do secretário-geral.
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Comandante militar que permitiu hastear a bandeira republicana e retirou o retrato de D. Manuel II.