Câmara 1Origem do apelido
Câmara
Verbete sobre o apelido Câmara, antiga linhagem madeirense descendente do descobridor João Gonçalves Zarco. Aborda a origem do nome nos lobos-marinhos encontrados em Câmara de Lobos e o brasão da família.
1Origem do apelido
É apelido de família muito antigo entre nós. O primeiro que o usou na Madeira foi João Gonçalves da Câmara, filho primogénito do descobridor e 21. capitão donatario do Funchal. No entretanto, pode afirmar-se que procede de João Gonçalves Zarco, embora talvez ele o não tivesse usado nunca. Baseia-se esta afirmativa na carta regia de 4 de Julho de 1460, que em mais dum logar chama ao descobridor da Madeira João Gonçalves de Câmara de Lobos, ao conferir-lhe o título de nobreza e ao conceder-lhe o respectivo brasão de armas. Este diploma de D. Afonso V, que é um documento interessante, foi pela primeira vez publicado a pag. 836 e seguintes das Saudades da Terra.
A origem deste apelido é geralmente atribuída pelos linhagistas madeirenses a um facto muito conhecido da descoberta da Madeira, e que Gaspar Frutuoso descreve nos seguintes termos: “...aqui se meteram com os bateis, e acharam tantos lobos marinhos, que era espanto; e não foi pequeno refresco e passa-tempo para a gente; porque mataram muitos delles, e tiveram na matança muito prazer e festa. Pelo que o capitão João Gonçalves deo nome a este remanso Câmara de Lobos, donde tomou o apellido, por ser a derradeira parte, que descobriu deste gyro e caminho que fez: e deste logar tomou suas armas que El-Rey lhe deo...” Já anteriormente tinha João de Barros, nas Decadas, dito com mais pormenores que “hua grande lapa ao modo de câmara abobodada, que se fazia debaixo de hua terra soberba sobre o mar, o chão da qual lapa estava muy soriado dos pés dos lobos marinhos que ali vinham retouçar: ao qual logar elle (Zarco) chamou Câmara de Lobos, e tomou este appellido em memória, que naquele logar foy a primeira entrada de sua povoação, o qual appellido ficou a todos os seus herdeiros”.
O dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo transcreve nas Saudades da Terra um trabalho genealogico de José Freire Monterroio Mascarenhas, que se conserva inédito na Biblioteca Publica de Lisboa, e onde se encontram as palavras que em seguida trasladamos: Não ha fundamento para que se diga que o appellido de Câmara o tomaram seus descendentes, por causa da câmara de lobos marinhos, que João Gonçalves Zarco achou naquela ilha; pois isto não era acção digna de se perpetuar em memória e ficar em appellido...”. Esta afirmação de Mascarenhas contraria em absoluto a origem que os nobiliarios e antigas crónicas deste arquipelago assinalam aquele apelido. Esta afirmação de Mascarenhas contraria em absoluto a origem que os nobiliários e antigas cronicas deste arquipelago assinalam àquele apelido. Está também em manifesta contradição com as indicações heráldicas do próprio brasão de armas, e ainda com as palavras da carta regia acima citada. A maneira como aí se chama João Gonçalves de Câmara de Lobos ao descobridor da Madeira, dá-nos a conhecer que há nestas palavras uma evidente referência ao caso dos lobos marinhos encontrados no logar que depois teve o nome de Camara de Lobos. É certo que os feitos de João Gonçalves Zarco, como guerreiro em Ceuta e distinto navegador, e, mais que tudo ainda, o facto da descoberta da Madeira, forneceriam aos reis de armas e á heráldica do tempo elementos preciosos para um brasão de armas de mais elevada significação e de mais ostentosas prosápias avoengas para os descendentes de Zarco, mas também é indubitável que em assuntos desta natureza o capricho e a fantasia tomavam por vezes a melhor parte, deixando em plano muito secundário factos demoráveis e acções heróicas, que deveriam ser postas em brilhante e acentuado relevo.
2Brasão e descendência
Na mencionada carta regia de 4 de Julho de 1460, fixa-se a composição do brasão de armas de João Gonçalves Zarco pelas seguintes textuais palavras: “huu escudo preto & ao pee huua montanha berde sobre a quall estaa firmada & situada huua torre de prata amtre dous lobos d’ouro”. Gaspar Frutuoso diz, porém, que D. João I deu a Zarco “por seu brasão de armas, em hum escudo de campo verde huma torre de omenagem, com uma cruz de ouro, mais rica que a da sepultura de Machim, no cimo, e com dois lobos marinhos encostados a ella, que parece que, querem trepar ao cume da torre, com seu paquife e folhagens vermelhas e verdes; e por timbre das armas hum lobo também marinho assentado em cima do paquife. O anotador das Saudades qualifica de inexacta esta informação de Frutuoso.
Parece que aquele primitivo brasão de armas sofreu posteriormente, algumas ligeiras modificações, e Henrique Henriques de Noronha, o mais distinto e acreditado genealogista, descreve-o da seguinte maneira: “Em campo verde uma torre de prata com ameias e coruchéu que se remata em uma cruz de ouro, e dois lobos de sua própria cor em pé rompendo contra a torre: timbre um dos lobos”.
Pelo que fica exposto, e em especial pela carta de Afonso V, se vê que o ramo genealogico dos Câmaras da Madeira teve por origem e tronco a João Gonçalves Zarco, e não se filia nas familias do mesmo apelido existentes no continente do reino. Da Madeira se passou aos Açores Rui Gonçalves da Câmara, segundo filho varão de João Gonçalves Zarco e 3.º capitão donatario da ilha de S. Miguel que ali teve larga e ilustre descendência, e dele procedem os condes de Vila Franca e os marqueses da Ribeira Grande, e ainda outras distintas familias. Também no continente do reino há muitas casas nobres que procedem dos Camaras da Madeira.
João Gonçalves da Câmara, 2º. capitão-donatario do Funchal e sucessor de Zarco, ainda usou o apelido de Lobos, porque se afirma que fora ameaçado pelo monarca de ser privado da donataria se assim o não fizesse. É porém, certo que os seus sucessores usaram apenas o apelido de Câmara, caindo inteiramente em desuso o apelido de Lobos, que se encontra na carta de D. Afonso V.
É ocasião de notar o manifesto engano do rei de armas no desenho e composição do brasão dos Câmaras, pondo de cada lado da torre um lobo (lupus), quando devera ser uma foca ou lobo marinho, para deste modo perpetuar o facto a que o mesmo brasão se quere referir. Este engano nunca foi corrigido, e assim se transmitiu a toda a descendência de Zarco, que tem feito uso do mencionado brasão de armas.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 01Lugar
Lugares mencionados · 06No estrangeiro
- Açores
Portugal. Local onde Rui Gonçalves da Câmara estabeleceu um ramo da família.
Os Açores são um arquipélago atlântico que partilha espécies vegetais com a Madeira. O Elucidário regista a fixação de famílias madeirenses, como os Bettencourt, no arquipélago, a proibição dos vinhos açorianos na Madeira em 1801 e a importação de tabaco açoriano. Refere ainda a vinda de agricultores açorianos à Madeira para ensinar métodos de cultivo do milho.
- Biblioteca Nacional de Lisboa
Portugal. Conserva a genealogia inédita de Mascarenhas.
A Biblioteca Nacional de Lisboa conserva o exemplar do livro de Constantino examinado por Jordão de Freitas e a genealogia inédita de Mascarenhas. Recebeu também documentos transferidos do Ministério da Marinha e Ultramar.
- Câmara de Lôbos
Câmara de Lobos. Enseada a que Zarco deu o nome das lobas-marinhas ali encontradas, origem do apelido.
Freguesia a oeste do Funchal. O Elucidário relaciona o seu nome com a viagem de descoberta de Zarco e descreve as suas igrejas, capelas e colegiada, os primeiros povoadores, a comunidade piscatória e as vinhas afamadas. Regista também os sítios, limites, levadas e população da freguesia.
- Ceuta
Spain. Local onde Zarco combateu.
Ceuta é uma cidade-fortaleza no Norte de África, conquistada em 1415 com a participação da Ordem de Cristo. O Elucidário regista que João Gonçalves Zarco ali combateu e foi armado cavaleiro, e que membros da família Câmara participaram na sua defesa durante um cerco. Foi também sede episcopal de Nuno de Aguiar.
- Funchal
Capitania detida por Zarco e pelos seus descendentes.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- São Miguel
Portugal. Ilha açoriana de que Rui Gonçalves da Câmara foi capitão-donatário.
Ilha dos Açores descoberta por Gonçalo Velho Cabral. A sua capitania foi comprada e governada por Rui Gonçalves da Câmara, filho de Zarco. Foi a terra natal de Brito Rebelo, e Frutuoso escreveu ali a sua obra em 1590; diz-se que as suas laranjas superam as da Madeira.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 11- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador das Saudades da Terra, que transcreveu a genealogia de Mascarenhas e criticou Frutuoso.
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Rei de Portugal que, em 1460, concedeu a Zarco a nobreza e as suas armas.
- D. João Im. 1433
Rei de Portugal que, segundo Frutuoso, concedeu a Zarco as suas armas.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Cronista açoriano, autor das Saudades da Terra, que relata a origem do nome Câmara de Lobos.
- Henrique Henriques de Noronha1667–1730
Distinto genealogista madeirense que descreveu a forma posterior das armas dos Câmara.
- João de Barros1496–1570
Cronista português cujas Décadas descrevem a gruta dos lobos-marinhos que deu nome a Câmara de Lobos.
- João Gonçalves da Câmara1414–1501
Filho primogénito de Zarco e 2.º capitão-donatário do Funchal, foi o primeiro na Madeira a usar o apelido Câmara.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor da Madeira e 1.º capitão-donatário do Funchal, fundador da linhagem dos Câmara.
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Genealogista cuja obra inédita contestou a origem do nome Câmara ligada às lobas-marinhas.
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Inglês lendário cuja cruz tumular é mencionada por Frutuoso na descrição das armas.
+ 1 mais
- Rui Gonçalves da Câmaram. 1497
Segundo filho de Zarco e 3.º capitão-donatário de São Miguel, fundador do ramo açoriano da família.