Dias (Baltazar) 1Vida e obras
Dias (Baltazar)
Entrada biográfica e bibliográfica sobre Baltazar Dias, poeta madeirense cego do século XVI, tido como natural de Santana, cujos autos populares, religiosos e profanos, foram reimpressos durante séculos. Reúne as escassas referências de Barbosa Machado, Inocêncio e Teófilo Braga, incluindo o privilégio régio de impressão de 1537.
1Vida e obras
Das circunstancias pessoais deste madeirense pouco se sabe, a pesar de ter tido grande nomeada no seu tempo como poeta e autor de vários autos, que as classes populares liam avidamente e de que se fizeram muitas edições. Vagamente consta que nasceu na freguesia de Sant'Ana e presume-se que tivesse passado uma parte considerável da sua vida no continente do reino, onde faleceu em ano que não podemos determinar. Diz Barbosa Machado na sua Bibliotheca Lusitana “que foi um dos celebres poetas que floresceram no reino del-rei D. Sebastião, principalmente na composição de autos, com a circunstancia de ser cego de nascimento”, limitando-se o Diccionario Bibliographico de Inocencio, no tomo 1, a reproduzir a sucinta noticia que dá Barbosa Machado.
Dá Inocencio nota das seguintes composições de Baltazar Dias:
- Auto d'el-rei Salomão, 1613
- Auto da Paixão de Christo, metrificado, 1613
- Auto de Santo Aleixo, 1613, 1616, 1638, 1749 e 1791
- Auto de Santa Catharina Virgem e Martyr, 1616, 1638, 1659, 1727 e 1786:
- Auto da Feira da Ladra, 1613
- Conselhos para bem casar, 1638, 1659 e 1680
- Auto da milicia das mulheres, 1640 e 1793
- Historia da Imperatriz Porcina, mulher do Imperador Lodonio de Roma, 1660, que tem sido reimpressa muitas vezes
- Auto do Nascimento de Christo, 1665
- Trovas de arte maior sobre a morte de D. João de Castro...
- Tragédia do Marquez de Mantua, 1665.
São de Inocencio os seguintes esclarecimentos, que textualmente transcrevemos:
2Esclarecimentos de Inocêncio
Esta tragédia (a do Marquez de Mantua) de que ha várias reimpressões posteriores, foi ultimamente incluída pelo V. de Almeida Garrett no tomo III do seu Romanceiro (Vol. XV das Obras) de paginas 195 até 296, onde os leitores a poderão ver. Ahi se emitte a opinião de que esta versão portugueza de um romance originalmente francez ou provençal, data dos fins do século XIV, ou quando muito dos princípios do século XV. Se assim for, não seria por certo Balthasar Dias, e erradamente lhe andava atribuída pelos nossos bibliographos; o que todavia o illustre critico parece ignorar, pois que nem palavra diz de Balthasar Dias, nem de que a obra andasse jamais em nome deste.
Bem desejara eu aclarar melhor o que diz respeito a este antigo poeta, cujas producções ou suas ou attribuidas, são tão conhecidas e vulgares, quanto são ignoradas as suas circunstancias pessoaes, e a epocha precisa, e certa em que viveu:— e também verificar se além das edições que ficam apontadas, extrahidas da Bibl. Lus., e repetidas no Catalogo da Academia, ha outras mais anteriores, como parece provável, se o auctor viveu na epocha que se diz: não posso porém satisfazer ainda este desejo, por não ter colhido resultado satisfatório das investigações até agora feitas.
Se obtiver, como espero, algumas noticias ulteriores, direi no Supplemento o que tiver accrescido. O que é innegavel, sejão ou não de Balthasar Dias essas obras que andam em seu nome, é que ellas tem tido (se não todas, a maior parte) repetidas reimpressões: e que apesar dos erros de que andam cheias, que muitas vezes desfiguram o sentido, tem toques tão nacionaes e tão gostosos para o povo, que ainda hoje são procuradas e lidas tanto em Lisboa como nas províncias. “Percorrei, (diz um dos nossos mais conspícuos autores modernos) as choupanas nas aldeias e as oficinas e lojas de artífices nas cidades, e em quasi todas achareis uma ou outra das multiplicadas edições dos autos de S. Aleixo, S. Catharina, Imperatriz Porcina, Malicia das Mulheres, etc, “
No tomo VIII do seu Diccionario, acrescenta Inocencio o seguinte: - “Subsiste acerca deste nosso poeta, da epocha certa em que viveu e do tempo em que pela primeira vez se imprimiram as producções cuja paternidade se lhe attribue, a mesma escassez de noticias, que torna escuro e duvidoso tudo o que a elle diz respeito”. Na “Recapitulação da Historia da Litteratura Portuguesa II. Renascença”, de Teofilo Braga, encontram-se, a pag. 308, as seguintes interessantes informações:
3Informações de Teófilo Braga
De todos os poetas da eschola vicentina foi o querido do povo, cuja sympathia ainda dura, sendo lido e representado pelas aldeias: Homem carecido de vista, se lê d'elle em um manuscripto do século XVII, o que no alvará de 29 de Fevereiro de 1537 com o privilegio para a publicação das suas obras se confirma: “faço saber que Baltazar Dias, ceguo, da ilha da Madeira, me disse per sua petyçam que tem feytas algûas obras assy em prosa como em verso, as quaes foram já vistas e aprovadas e algûas d'ellas ymprimidas, segundo podia ver por um pubrico estromento que perante mi apresentou. E por quanto elle quer mandar imprimir as ditas obras que tem feitas e outras que espera de fazer, por ser homem pobre e nam ter outra industria para viver por o carecimento de sua vista se nam vender as ditas obras, me pidia houvesse por bem, por lhe fazer esmolla, dar-lhe de privilegio pera que pessoa alguma não possa imprimir nem vender suas obras sem sua licença, com certa pena. “ Concedido o privilegio e imposta multa de trinta cruzados ao contrafactor, impoz-se-lhe: “se elle fizer algumas obras que toquem em cousa de nossa santa fee, nam se imprimiram sem primeiro, serem vistas e enjaminadas por Mestre Pedro Margualho, e vindo por elle vistas e achando que não falla em cousa que se não deva fallar, lhe passe disso certidam, com a qual certidam hey por bem que se imprimam as taes obras e d'outra maneira nam. “
Estes rigores de censura eclesiástica foram systematisados no primeiro Índice dos Autos condemnados pelo Cardeal Infante D. Henrique em 1551, e pelos que prohibiram os Autos sobre assumptos tirados da Bíblia e dos Evangelhos. Perderam-se o Auto del rei Salomão, o Auto da Paixão de Christo metrificado, o Auto da Feira da Ladra. São ainda de uma grande actualidade o Auto de Santo Aleixo e o Auto de Santa Catherina formados nas narrativas da Legenda Aurea e a tragédia do Marquez de Mantua. Tinha um vivo sentimento poético, que faz com que ainda sejam lidos pelas aldeias a Historia da Imperatriz Porcina, a Malicia das Mulheres e os Conselhos para bem casar. Por uma estrophe d'esta sátira popular sabe-se que viveu os seus últimos annos na Beira:
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 03-
Um alvará régio concedeu ao cego Baltazar Dias o privilégio de imprimir e vender as suas obras (datado de «29 de fevereiro», data impossível em 1537).
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O Cardeal-Infante D. Henrique publicou o primeiro índice de autos condenados.
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Foram impressas as primeiras edições conhecidas de vários autos de Baltazar Dias.
Lugar
Lugares mencionados · 03No estrangeiro
- Beira
Mozambique. Província do continente onde Dias terá passado os últimos anos.
Província de Portugal Continental onde nasceu André Gonçalves Alvarenga e onde Baltazar Dias terá passado os últimos anos de vida. É também indicada como o local onde se organizou uma expedição contra os Cambuenga.
- Lisboa
Portugal. Cidade onde as suas obras ainda eram lidas.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Santana
Freguesia onde se dizia, sem precisão, que Dias tinha nascido.
Santana é uma freguesia da costa norte da Madeira, considerada a mais pitoresca do norte da ilha. Foi desmembrada de São Jorge no século XVI; a entrada aborda o seu povoamento, os párocos, a igreja, os sítios e a população.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 09-
Poeta madeirense cego da escola de Gil Vicente, autor de autos populares muito lidos e tema desta entrada.
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Rei de Portugal em cujo reinado se diz que Dias se destacou e morreu.
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Autor da Bibliotheca Lusitana, a mais antiga fonte citada sobre Baltazar Dias.
- Infante D. Henrique1394–1460
Cardeal-Infante que publicou o primeiro índice de autos condenados em 1551.
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Compilador do Diccionario Bibliographico, que enumera as obras de Dias e discute a sua autoria.
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Vice-rei português cuja morte foi tema de versos atribuídos a Dias.
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Erudito encarregado pelo privilégio de 1537 de examinar as obras de Dias em matéria de fé antes da impressão.
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Historiador da literatura que publicou o privilégio de 1537 e informações sobre Dias.
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Escritor que incluiu a Tragédia do Marquês de Mântua no seu Romanceiro sem mencionar Dias.